As atividades do Dia Internacional da Não violência contra as mulheres ocorreram durante toda a tarde desse 25/Foto: Paula Guimarães

Ouvir-se e reconhecer-se: a importância das ações de rua no 25 de novembro

Postado em 26/11/2019, 15:01

Por Morgani Guzzo e Paula Guimarães.

Na última segunda-feira, 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação à Violência contra as Mulheres, mulheres de diversas entidades e movimentos sociais realizaram atividades em várias partes do país. Em Florianópolis, as tendas em frente ao Terminal Integrado do Centro (TICEN), lugar de muita movimentação de pessoas, possibilitaram maior contato entre as organizadoras da proposta e as pessoas que passavam. Com orientação jurídica, exposição em memória das vítimas de feminicídio, rodas de conversa e apresentações artísticas, as tendas, organizadas pelo 8M, receberam várias pessoas que, por alguns minutos, puderam conversar e trocar informações sobre o tema da violência contra as mulheres.

Na tenda de stencill as mulheres puderam personalizar suas camisetas com frases pela não violência/Foto: Paula Guimarães

Ao longo da tarde, quatro rodas de conversa foram feitas com as temáticas: violência institucional, racismo, violência doméstica, violência sexual, violência obstétrica e aborto. De acordo com Alliny Burich, advogada e conselheira do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher, que mediou a conversa sobre violência doméstica, a roda em um local público oportunizou o acesso à informação. “A cada momento, pessoas chegavam mais perto para ouvir e participar do debate. Democrática, a roda permitiu, ainda, que homens e mulheres tirassem suas dúvidas, contassem suas histórias e encorajassem a todos a lutarem pela causa”, avalia. 

O espaço aberto para a discussão sobre a temática possibilitou a muitas pessoas o relato de suas experiências de violência. Além de algumas buscarem orientações e apoio, houve aquelas, como as participantes do Elo das Marias, que relataram experiências de superação da violência doméstica e de cárcere privado, demonstraram o quanto é difícil para as mulheres saírem de contextos de violência quando o perpetrador é o próprio companheiro. Segundo elas, nem a família tinha conhecimento do que elas passavam e a falta de informação ainda é o maior obstáculo para que elas busquem ajuda. 

Para Alliny Burich, mesmo com os avanços da aprovação da Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006), é visível, pelos relatos trazidos pelas participantes da roda, o quanto ainda é preciso progredir no que diz respeito à educação, orientação e efetivação de políticas públicas que, de fato, previnam e protejam as mulheres. “Todos somos parte do sistema. Todos podemos e devemos contribuir para sairmos da esfera da punição e, enfim, falarmos em educação. Conhecimento é poder”, reflete.

Um varal estendido ao redor das tendas estampava o nome das mulheres mortas por feminicídio/Foto: Paula Guimarães

Durante a roda de conversa sobre violência sexual, violência obstétrica e aborto legal, uma adolescente de 16 anos relatou ter sofrido violência sexual por um professor dentro de uma escola em Palhoça, na Grande Florianópolis. A estudante revelou não ter recebido apoio da direção e professoras/es. Durante a roda, ela contestou a validade de um discurso cristão que se coloca como defensor da vida, mas não acolhe as mulheres quando são vítimas de estupro, negando o seu direito à interrupção da gravidez. “Como pode o aborto legal, um direito garantido por lei, ser tão polêmico ainda? Sou católica, mas não concordo que uma mulher tenha que manter por nove meses o resultado de uma violência”, colocou a estudante.

Ainda na mesma roda de conversa, Kathelin Marisa Padilha, aluna da Escola Lauro Müller recentemente desativada pelo governo estadual com a justificativa de não ter recursos para a sua reforma, falou sobre a luta das/os estudantes para reverter a decisão. Junto à outra estudante, ela chamou para a atividade “Batalha do Laurão” que ocorre próxima quarta-feira (27), às 9h e às 14h30, na escola. Haverá café coletivo, conversa sobre cultura nas escolas, oficina de stencil e roda de conversa “A escola como espaço de poder”. 

Expressões culturais denunciam as violências machistas

 

“Medusa enredada: como lembrar? Mas…como esquecer?” abordou as diversas formas de violência/Foto: Paula Guimarães

“Ela pediu, ela mereceu, foi tudo culpa dela”, gritou a violoncelista Camila Durães, durante a performance “Medusa enredada: como lembrar? Mas…como esquecer?”. A apresentação instrumental e cênica tem como pano de fundo uma releitura feminista de Medusa, personagem da mitologia grega representativa da culpabilização da vítima de violência sexual. Estuprada pelo “Senhor dos Mares”, Poseidon, a sacerdotisa Medusa foi amaldiçoada pela deusa Atena: seu cabelo foi transformado em serpentes e qualquer um que contemplasse seu rosto se transformaria em pedra. “Até quando vamos culpabilizar as vítimas e exaltar os algozes?”, questionou a artista, enquanto fazia um ruído inquietante no seu violoncelo. 

Algumas dezenas de pessoas se reuniram ao redor da apresentação, atraídas pela expressão e diálogos simbólicos de cenas de violência. A estudante Letícia Verdum, 20 anos, que seguia para o terminal de ônibus, não conteve as lágrimas.

“A violência contra a mulher existe sim e quando a gente oculta só está se prejudicando. Eu senti muita angústia durante a apresentação, já sofri muito violência, todos dias a gente sofre alguma coisa, seja em palavras, até mesmo de outras mulheres, o que é mais impressionante”, relata.

Para a estudante, o acesso à informação permite às mulheres entenderem o contexto da violência e, assim, se protegerem dela. “Nós temos força, como estava escrito na camiseta de uma garota ‘existem mulheres que ainda não descobriram a força que têm’, a gente tem, mas muitas precisam ser informadas, a informação é muito importante. A falta de conhecimento traz medo. Ontem, uma amiga relatou que viu uma mulher apanhar de vários homens e ela tentou separar. Eu já separei inúmeros casos, aqui mesmo nessa rua. Quanta coisa a gente vê, não sabemos o que fazer na hora. Por instinto eu me meto mesmo, não gosto dessa história de que em briga de marido e mulher não se mete a colher, se mete sim, mete a faca, o garfo, o que quiseres, separa porque é uma pessoa”, disse a estudante em entrevista ao Catarinas.

Em sua poética, o Sarau Vozes Negras trouxe uma crítica ao colonialismo de raça e gênero/Foto: Paula Guimarães

O Sarau Vozes Negras e a performance Madalenas na Luta deram sequência à programação. “Já fui violentada tantas vezes, com dietas, jejuns, com espelho que parece sempre dizer que não está bom. Já fui violentada tantas vezes por querer ter opinião, por falar, por querer ser eu mesma. Já fui violentada várias vezes, obrigada a ser mãe, esposa, mulher, a ser controlada agradável e calada”, declamou a poetisa Nana Martins, integrante do Sarau Vozes Negras em jogral com o público presente.

O grupo Madalenas na Luta encenou o assassinato de mulheres, vítimas do crime de ódio de gênero, tipificado em 2015 como feminicídio. A apresentação lembrou nomes de várias mulheres assassinadas pelo simples fato de serem mulheres, destacando casos de mulheres negras, lésbicas e transexuais. Elas lembraram também da irmãs Mirabal, as três ativistas políticas assassinadas pelo ditador Rafael Leónidas Trujillo, em 1960, na República Dominicana. O 25 de novembro é considerado o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres em alusão à morte dessas latino-americanas. A performance destaca a força das mulheres na denúncia, na visibilidade dos casos de violência e do acolhimento para romper o ciclo perverso do machismo. 

Ao final, a ativista Elaine Sallas leu o nome das 51 vítimas de feminicídio, assassinadas em 2019, um número que já ultrapassa todo o ano de 2018. Empunhando suas latas de luta, somaram a percussão às palavras de ordem: “Companheira me ajude que eu não posso andar só, eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor”. 

Confira a programação dos 21 dias de ativismo

 

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