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Imagem: Bealake.

Jesus diz “levanta-te” às meninas brasileiras

Postado em 20/07/2022, 17:04

Em artigo ao Portal Catarinas, Simony dos Anjos, da Rede de Mulheres Negras Evangélicas, analisa a discrepância entre Jesus, que protegia meninas e mulheres, e políticos que utilizam o nome Dele para atacar os direitos deste grupo social

Um dos milagres de Jesus narrados no Novo Testamento é a ressurreição de uma menina de doze anos. Eu sempre gostei deste texto, pois Jesus diz à essa menina: Talitá Cumi, que significa “Levanta-te, menina” (Marcos 5:21-43). Jairo, que era um homem muito poderoso na sinagoga em Jerusalém, se joga aos pés de Jesus e pede que seja feito o milagre da ressurreição. Jesus vai à casa de Jairo, diz essas palavras à menina e ela acorda.

Um texto lindo, porque naquela época extremamente patriarcal e misógina quem se importava com as meninas? Elas não tinham direito à herança, não tinham direito à educação e muito menos a serem líderes religiosas. Meninas eram vistas apenas como úteros, pois para os judeus o útero judeu criava judeus. O útero era um bem coletivo, pois garantiria que os judeus aumentassem a nação, como era “mandamento de Deus”. Mulheres sem filhos eram amaldiçoadas e vistas como menos humanas. Ter filhos era o destino de todas as mulheres, e uma menina doente nunca seria considerada uma boa esposa.

Mesmo em um contexto improvável de empatia entre um judeu reconhecido no meio religioso e uma menina, Jesus subverte a ordem e acolhe a dor da família e faz o milagre. Para mim, a beleza nesta história é que Jesus diz: “ela dorme”. Hoje, me sinto assim: milhares de famílias estão vendo os direitos de suas filhas dormindo na cama do fundamentalismo religioso. Fundamentalismo este que tem jogado meninas e mulheres na condição de morte social, defendido o fim dos direitos básicos de dignidade e torturado meninas que devem “aguentar mais um pouquinho” gestações fruto de estupros.

O pior de tudo, é quando fundamentalistas usam o nome de Jesus para jogar meninas na condição de menos humanas, logo Ele que ressuscitava meninas.

Mas na contramão desses canalhas mascarados de religiosos, Jesus diz Talitá cumi a todas elas e é nosso dever de religiosas e crentes em Jesus de Nazaré lutarmos pela vida dessas meninas. O próprio Cristo se importou com uma menina na época do patriarcado judaico e nos mostrou que elas são imagem e semelhança de Deus e por isso merecem viver.

Recebi com tristeza, mas não com espanto, a notícia de que o caso da menina de 11 anos de Santa Catarina teve mais uma página triste: a “CPI do Abortoteve parecer favorável da Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) para investigar profissionais e autoridades que cumpriram o seu papel na garantia do direito da menina. O pedido contou com 21 assinaturas e foi autorizado nesta terça-feira (19) pela procuradoria jurídica da casa.

Como diria Jesus, são vendilhões do templo! Estão usando a dor de uma família, de uma menininha de 11 anos, para promover ódio e dor. E isso não é por causa da religião destas pessoas, mas para defender um projeto de poder que precisa subjugar mulheres para se manter.

Esse projeto de poder que a requerente Ana Caroline Campagnolo (ex-PSL atual PL) e seus comparsas defendem, está baseado na exploração de pessoas pobres, sem direitos e vulneráveis. A quem interessa que meninas de 11 anos tenham filhos, senão aqueles que lucram com a manutenção da pobreza dessas meninas? Um projeto que encontrou em Bolsonaro uma oportunidade perfeita onde bancos lucram bilhões, e meninas pobres são torturadas e apartadas de suas famílias. Não se iludam, está tudo ligado: mães jovens e pobres são necessárias para que a pobreza se mantenha. E isso interessa apenas a quem lucra com a pobreza.

Neste momento de dor e sofrimento, quero falar diretamente com a mãe da menina de 11 anos: querida, Jesus diz a sua filha e a todas as meninas “Talitá Cumi”. O Jesus que eu acredito quer que sua filha e a senhora vivam a vida plena em abundância! Ele não está do lado desta gente canalha que faz de um caso de violação de direitos de uma menina, palco para ações eleitoreiras que insuflam odiadores de meninas e de mulheres. Hoje, eu e muitas mulheres evangélicas estamos de joelhos dobrados em oração por vocês, e com os braços em riste contra esse governo genocida que odeia as meninas.

Quantos casos, Jesus? Quantas mais terão que passar por isso? Chamadas de assassinas. Violadas em seus corpos, em sua dignidade e na falta de garantia de direitos.

Essas meninas deveriam estar na escola aprendendo sobre besouros e borboletas. Deveriam estar curiosas com os planetas ou com os vulcões. Lendo Clarice Lispector ou Chimamanda Ngozi. Deveriam estar aprendendo a tocar ukulele. Senhor amado, elas deveriam ser crianças felizes e jamais mães. Mas essas meninas têm um exército de feministas que estão dia a dia na defesa de seus direitos, de nossos direitos. E nós vamos vencer, queridas, nós prometemos a vocês duas. Venceremos por vocês e por todas nós. Os nossos direitos vão acordar e levantar da cama dos fundamentalistas! Assim como a menina que Jesus ressuscitou!

Antes de terminar, quero deixar um recado para Ana Campagnolo: eu e você somos presbiterianas, conhecemos bem a reforma protestante e que Lutero até excomungado foi por ir contra a ordem estabelecida por poderosos. Você, infelizmente, tem servido ao Baal da política. Na reforma protestante você perseguiria o próprio Lutero.

Pare de usar nossa religião para perseguir meninas indefesas que são vítimas de abusos e depois revitimizadas em tribunais como essa CPI que você propôs! Nossa religião defende o Estado Laico e o presbiterianismo sempre prezou pela democracia e pela sociedade republicana.

Basta de egoísmo e ódio em nome de um Deus que ressuscitou uma menina e disse Talitá Cumi. Você, Milton Ribeiro, André Mendonça e toda essa corja presbiteriana podem vomitar ódio, mas jamais representam aquele Jesus que teve empatia com uma menina. Vocês são o lixo da história e vão direto para lá, de onde não deveriam nunca ter saído.

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Antropóloga e doutoranda da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Integrante da Rede de Mulheres Negras Evangélicas.
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