Mulheres Semeando a Vida
Ilustração: Maria Augusta Scopel Bohner/Identidade visual: Lara Benedet.

Sementes crioulas produzem alimentos saudáveis, cuidado e solidariedade

Postado em 12/08/2021, 12:44

Em entrevista, Noeli Welter Taborda fala sobre agroecologia, Bem Viver, sementes crioulas e o necessário diálogo entre movimentos do campo e da cidade para transformação social


Durante todo o mês de agosto, o Portal Catarinas em parceria com o Prosa, grupo de pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), está promovendo a campanha “Mulheres Semeando a Vida” que tem como protagonistas seis mulheres, duas indígenas e quatro camponesas, que no presente estão construindo o Bem Viver, através de práticas agroecológicas. 

Confira o teaser da nossa campanha:

Hoje, vamos conhecer mais sobre Noeli Welter Taborda, camponesa de 40 anos, integrante da direção nacional do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) e moradora da cidade de Tunápolis, no extremo Oeste de Santa Catarina (SC). Atualmente, Noeli é mestranda em Desenvolvimento Territorial na América Latina e Caribe, na Universidade Estadual Paulista (UNESP). A atuação no MMC, foi fundamental para que ela lutasse pelo direito à educação.

“A militância mudou minha vida. Eu não tive acesso à educação no tempo certo, fiz o Ensino Fundamental, depois tive que parar e trabalhar de diarista com a minha mãe, para sustentar os mais novos. Então, eu consegui meu Ensino Médio através da prova do Encceja (Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos). Eu também fiz Pedagogia no formato EaD, na minha cidade não tem Universidade. Pela militância, pela opção da causa das mulheres, fomos construindo essa coisa de estudar e garantir a luta junto”, afirma. 

Quer saber mais sobre o MMC e sua ação na vida das mulheres camponesas, acompanhe nosso podcast “Mulheres Semeando a Vida”. 

Em entrevista, Noeli também conta como as experiências de violência na infância a aproximaram da luta feminista do MMC, explica como o capitalismo influencia nossa percepção sobre os alimentos, a relação entre a agroeocologia e o Bem Viver e a importância dos movimentos do campo e da cidade se unirem hoje para transformação da sociedade na luta por justiça de gênero, ambiental e social.

“Nós sempre falamos que a agroecologia para nós não é mercado, mas a construção de novas relações. E onde há violência, onde há sangue, onde há dor, onde há sofrimento ainda não é agroecologia. Então, por isso a gente pensa a agroecologia como um modo de produção, mas também como um modo de viver, construindo essas novas relações. Nesse sentido, temos debatido que para nós o Bem Viver perpassa pela destruição do modelo capitalista, do patriarcado e do racismo”, explica.

Confira a entrevista:

Portal Catarinas: Como começou sua militância no MMC?
Noeli Welter Taborda: Me inseri na luta desde a minha adolescência quando comecei os grupos de jovens aqui nas comunidades, desde essa época fui exercendo essas atividades com a juventude. Já no Movimento de Mulheres Camponesas foi entre 1996 e 1998 quando participava dos grupos de base que tinham aqui na minha comunidade. Depois fui me inserindo mais a nível estadual. Comecei a atuar no movimento estadual em 2002, 2003. Desde então, sou presença direta no Movimento de Mulheres Camponesas e na luta pela transformação da sociedade, sempre tendo esse olhar para a questão das mulheres como principal.

Muito o que me motivou a entrar na luta, também veio da minha infância, a minha mãe é camponesa, meu pai era camponês e pedreiro. Infelizmente, meu pai sempre foi muito violento. A violência que nós sofríamos em casa era sempre muito forte, o que fez com que aos meus 7, 8 anos, a mãe tomasse a decisão de se divorciar. Então, ainda menina assumi responsabilidades de mãe, porque eu cuidei de minhas duas irmãs e um irmão menor.

Então, as opressões que sofreu ainda menina te levaram à militância?
Fui entrando na luta com essa indignação. Da violência que as mulheres vêm sofrendo, da opressão, do machismo, mas também por pensarmos coisas diferentes. Lembro que minha porta de entrada no movimento foi através das plantas medicinais. Ouvi no rádio, um chamado para fazer parte de um curso de plantas medicinais e foi aí que eu comecei a me envolver no movimento. A militância mudou minha vida. Eu não tive acesso à educação no tempo certo, fiz o Ensino Fundamental, depois tive que parar e trabalhar de diarista com a minha mãe, para sustentar os mais novos. Então, eu consegui meu Ensino Médio através da prova do Encceja (Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos). Eu também fiz Pedagogia no formato EAD, na minha cidade não tem Universidade. Pela militância, pela opção da causa das mulheres, fomos construindo essa coisa de estudar e garantir a luta junto. Fiz a segunda licenciatura em História e uma especialização também, tudo em formato EAD.

Hoje eu tenho 40 anos e consegui entrar no mestrado da UNESP. A gente vai construindo os caminhos para fazer a luta, para ter acesso a educação e ao mesmo tempo garantir a produção de alimentos diversificados nos nossos quintais produtivos.

Para entender o que são os quintais produtivos, ouça o segundo episódio do nosso podcast.

Você se vê como uma Guardiã das Sementes?
Tivemos um aprendizado dentro do movimento da importância de guardar as sementes: para o próximo ano e sempre um pouquinho mais para os anos seguintes. As mulheres foram aprendendo ao longo dos anos a fazer isso. Quando iniciamos o projeto de melhoramento das sementes, muitas já tinham se perdido. A grande maioria não tinha mais todas as sementes que são necessárias para o seu quintal. Com o projeto foi feita uma recuperação das sementes, mais de 70 variedades foram recuperadas ao longo das oficinas, porque daí uma foi buscar com a mãe, com a avó e foi juntando. Nesse sentido, para a gente recuperar novamente as sementes, precisamos fazer essa partilha. Uma das grandes preocupações são as sementes transgênicas, incentivadas pelo capital elas vem destruindo as crioulas. Por isso, o movimento trabalhou muito forte para recuperar, compartilhar e cuidar do armazenamento das sementes crioulas. Temos sentido muito fortemente uma preocupação, falando aqui de casa, com a questão da estiagem. Então, sempre temos esse cuidado, porque algumas sementes vão se perdendo. Por exemplo, uma parte do milho crioulo que nós plantamos aqui em casa não vamos colher, a sorte é que plantamos em escala diferente, em épocas diferentes. Isso também é um cuidado que a gente vai tendo: sempre plantar em diferentes épocas, porque se uma não dá, a outra dá.

Então, essa crise ambiental provocada pelo sistema capitalista está muito forte. Nesse sentido, o cuidado com as sementes crioulas é muito importante. E as mulheres têm assumido essa missão e esse cuidado de serem Guardiãs das Sementes.

Para conhecer mais sobre as práticas das Guardiãs das Sementes, ouça o primeiro episódio do nosso podcast.

O capitalismo tem educado a população sobre o que é comida boa ou bonita. Como vocês lidam com isso?
No movimento aprendemos que as plantas precisam conviver entre si, se elas são plantas amigas ou inimigas. Todo esse estudo a gente fazia. Em nossos quintais, a nossa produção na horta é toda misturada, porque trabalhamos com essa concepção de que as plantas precisam uma das outras para se fortalecer. Porque aí você percebe que, por exemplo, uma terra que você planta só milho não se recupera, é uma terra que vai se desgastando e por isso o pacote químico tem que ser cada vez mais forte para poder garantir a produção. E aí vem os adubos, o veneno. Então assim, às vezes o que é bonito é o produzido com muito veneno, com muito sintético, ele não é saudável. E a gente aprendeu a comer aquilo que de fato é saudável. Às vezes um tomatinho mais feinho é muito mais saudável do que um tomate que a gente compra no mercado. Nas frutas também, a gente sempre observa os animais. Os bichinhos normalmente não vão comer aquele tomate bonitão, que é produzido com veneno, eles vão comer aquele nosso que é saudável, que não tem veneno.

O movimento tem construído conhecimento a partir do das mulheres, isso é muito importante. É uma fortaleza entre nós. Não é só a Universidade que produz conhecimento, as camponesas produzem muito conhecimento, compartilham, vão experienciando, colocando na prática, refazendo de novo. Porque às vezes uma experiência não dá certo, porque depende do clima, depende do solo. E as mulheres vão se reinventando diariamente.

O que é agroecologia e Bem Viver? Estão interligados?
Nós trabalhamos muito que o Bem Viver não está ligado apenas na questão da produção, mas ele está ligado à construção de novas relações entre as pessoas e dessas com a natureza. Nós nos entendemos como parte da natureza. O Bem Viver está ligado à dignidade, então, as pessoas precisam ter casa para morar e ter trabalho. No campo, ter terra para produzir, ter acesso aos direitos.

O Bem Viver perpassa nesse todo. Então, para nós a agroecologia é um modo de vida, é um modo de vida pensado nessa questão do Bem Viver.

A gente tem trabalhado muito como um projeto de sociedade, para o campo e a cidade, porque se nós não repensarmos a nossa forma de produzir, de consumir e de vivermos também nós vamos chegar, a humanidade, num desastre ainda maior do que o atual. Nós entendemos a agroecologia também como esse sentido maior de uma sociedade de justiça, de dignidade, de libertação. Nós sempre falamos que a agroecologia para nós não é mercado, mas a construção de novas relações. E onde há violência, onde há sangue, onde há dor, onde há sofrimento ainda não é agroecologia. Então, por isso a gente pensa a agroecologia como um modo de produção, mas também como um modo de viver, construindo essas novas relações. Nesse sentido, temos debatido que para nós o Bem Viver perpassa pela destruição do modelo capitalista, do patriarcado e do racismo. E a agroecologia que nós defendemos é produzir alimento de qualidade, saudável para nós, para nossas unidades de produção, para nossas famílias, mas também para a classe trabalhadora. Nós queremos que a classe trabalhadora tenha acesso a um alimento saudável e não a essa ração que é produzida pelo agronegócio.

Como é o futuro que você sonha?
A gente nunca vê o mundo individualmente. Nessa lógica coletiva, sonho que todas as pessoas tenham dignidade, terra, casa, comida de verdade, consigam ter tempo para o lazer, para o cuidado, para o estudo. A gente sempre pensa nesse sentido de que o futuro a gente precisa construir desde já. A nossa campanha nacional “Sementes de resistência: camponesas semeando esperança, tecendo transformação” tem muito esse objetivo.

Que a nossa semente não é só uma semente para produzir comida, mas ela é uma semente para pensar uma sociedade baseada nesses valores do cuidado, do amor, da solidariedade.

Essa transformação é transformar as relações, é mudar a forma de produzir, de consumir. A gente quer construir um espaço de educação de olhar crítico, de entender: Qual o meu papel diante da sociedade? Qual a minha tarefa? O que eu preciso fazer para mudar a sociedade? Articulando a missão individual com o coletivo. Porque eu sozinha não faço nada. E só o MMC também não faz nada. Por isso, a importância dessa articulação entre os movimentos do campo e as organizações da cidade. O diálogo entre campo e cidade é fundamental para essa transformação.

“Mulheres Semeando a Vida” faz parte do projeto Narrando a Utopia, uma iniciativa de Puentes para imaginar um futuro feminista, interseccional e inspirador.

Agradecemos a consultoria das mulheres indígenas e camponesas da Comissão Guarani Yvyrupa (CGY) e do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC).

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