Foto: Luiza Filippo

“Se eu pudesse escolher, voltaria nessa vida mais uma vez, mulher, preta e lésbica”

Postado em 29/08/2021, 8:04

Addia Furtado reflete sobre as vivências como mulher lésbica preta em Florianópolis.

Mulher, negra, lésbica, umbandista, macumbeira, batuqueira e artista. Addia Furtado, 36 anos, é natural de São Bernardo do Campo, região do ABC, em São Paulo. Veio para Florianópolis 15 anos atrás. Fez da ilha sua casa. Aqui, conheceu a música africana e fez da percussão sua profissão.  

É integrante ativa da cena artística e musical da cidade. No estado que se declara o mais branco do Brasil, Addia integra o coletivo IMANI, junta de outras três mulheres pretas: ANIS, Dandara Manoela e Marissol Mwaba. O coletivo recentemente lançou o álbum “Força e fé”, com forte cunho social e político.

A artista também integra o coletivo Abayomi, grupo de percussão e danças africanas. Atualmente, pesquisa a percussão mandengue do Oeste Africano e dos ritmos da Cultura Popular afro-brasileira. Trabalha no espetáculo “Se não agora, quando?”, do grupo de sapateado Cia Trupe Toe. Addia também dá aulas particulares de percussão. 

Portal Catarinas: Você tem uma atuação política com movimentos negros ou lésbicos, dentro da Ilha?

A minha própria existência já é uma existência política. Existir e fazer arte, sendo uma mulher negra, afroindígena, lésbica, que trabalha com percussão e cultura africana, afrobrasileira… Todos estes nichos, que eu faço parte, tudo que eu sou. 

IMANI é o máximo da minha manifestação artística em relação a isso. Tem eu como mulher preta e lésbica, a Dandara Manoela, a Marissol Moaba, a ANIS. A nossa música, não diretamente, fala sobre isso. O que é a gente ser e resistir nesse espaço tão branco e heteronormativo que é Santa Catarina. Onde brancos são a maioria das pessoas que ocupam os espaços. Porque eu não consigo dizer que Florianópolis é um lugar só branco, porque não é. A gente, às vezes, está em alguns lugares onde vê menos presença de pessoas pretas. A gente vê o quanto as pessoas pretas estão nas margens. 

Você ser parte do grupo LGBTQIA+, e ser negra, é bastante luta. Então, a nossa resistência, além da existência, ela tá como a manifestação da nossa arte. A gente conseguir ser ouvida, ser vista, e conseguir fazer com que as pessoas reflitam. 

A gente consegue entrar nesse mundo das tecnologias, que leva informação a muitos lugares. Eu estou com 36 anos agora. Eu diria que a internet é um instrumento facilitador de informação, o que ajudou muito que a gente pudesse se unir e se articular como movimento lésbico, negro, gay. Antigamente não era assim. A gente só conseguia ter essa junção, essa troca de ideias e pensamentos, muito na nossa bolha, onde a gente estava. 

Se por um lado a internet encorajou pessoas a espalharem seu ódio, por outro, a gente consegue trazer visibilidade para questões dos movimentos sociais, discutir ideias e formas de existência nesses espaços. 

A gente não tem que lutar por respeito. Respeito já é um direito nosso. A gente tem que lutar pra que a gente consiga garantir outros direitos que nos são negados. O respeito vem muito antes. O respeito já é nosso. As pessoas têm que conseguir esse espaço. 

Eu consegui assistir bastante a essa mudança. De uma época onde era quase impossível você conseguir andar com sua namorada, de mão dada, sem ouvir muitas coisas, que transformava qualquer saída e demonstração de carinho e afeto, em algo muito delicado. A gente ser mulher já faz com que a gente esteja sempre com o “sininho” da segurança ativado. Ser uma mulher lésbica, negra ainda, é você estar com esse “sininho” no toque 10, com o volume no máximo. 

A gente ocupar os espaços que são nossos, existir e estar ali, na cara e na coragem de demonstrar afeto, andando de mão dada na rua, trocando carinho, como qualquer pessoa faz. Esse é o ponto onde a gente mais consegue trazer as pequenas mudanças. 

Em Florianópolis, eu já conheci tantos movimentos LGBTQIA+, movimentos negros. Mas é muito recente essa junção das pessoas pretas LGBTQIA+. Acredito que a gente está existindo e agindo neste período de mudança, de criar unidade dentro das nossas vivências dentro de dois grupos oprimidos.

Foto: Diogo Andrade

Portal Catarinas: Eu queria que você comentasse um pouco sobre sua relação com a cidade.  Como ser uma mulher, que ocupa estes múltiplos que são violados, afeta sua relação na cidade? Existem espaços que lhe são negados, ou ao contrário, pré-determinados?

São tantos espaços, que eu não conseguiria negar um, dois. São quase todos. A gente fala muito sobre espaços de poder. Qualquer espaço de poder que a gente pensar, já é um espaço negado para nós. Principalmente aqui, em uma cidade vista majoritariamente branca. Estes espaços que nos são negados, a gente consegue enxergar bastante. 

São muitos espaços que nos são negados. Hoje, com muito orgulho, eu posso dizer que tenho amigas e pessoas próximas, que são médicas, juízas, advogadas. A base de muito esforço e muita luta, conseguem ocupar esses espaços. 

Eu trabalhei com eventos por um tempo. Grandes reuniões, grandes festas, grandes eventos artísticos – são voltados para pessoas brancas. Na maioria dos espaços, a presença de pessoas pretas é muito pequena. A gente conta nos dedos, né? Começa a ser uma mania nossa. Todo lugar que a gente chega, a gente conta em uma mão, quantas pessoas pretas tem. 

IMANI (grupo formado por quatro mulheres negras) é muito isso também. Eu, Dandara, Marissol, a gente só se encontrava quando tinha algum show que trazia várias atrações de SC, e geralmente nós éramos as pessoas negras que estavam ali. A gente sempre trocava a figurinha, de ser o número reduzido de artistas, de ser a cota do evento. 

Dandara Manoela, ANIS, Addia Furtado e Marissol Mwaba/Foto: Thiago Pinho

Portal Catarinas: O que você acha que é possível fazer para mudar isso? Para acessar esses espaços? Ou para, pelo menos, conscientizar as pessoas de que o acesso é negado, e que não deveria ser? 

Pelas ações afirmativas. A gente conseguir mexer nos mecanismos que formam nossa sociedade. Enquanto a gente não mudar as leis, com todo esse pensamento escravagista, resquício desse período onde nos era negado tudo… Enquanto a gente não mexer nas leis, não se fazer cota em qualquer espaço, em todos os espaços…

Eu acho que deveria ter cota pras pessoas negras em tudo. Nos supermercados, teatros, cursos. Eu, que trabalho com percussão africana, tento lutar muito para que esse espaço preto seja ocupado pelas pessoas pretas. Porque você vai olhar e muitas dessas aulas são ocupadas por pessoas brancas, e não existe quase nenhuma pessoa preta. A gente precisa pensar em transformar esse espaço. 

E não é só dar bolsas às pessoas. É criar um ambiente que seja acolhedor, que as pessoas se sintam seguras, que tenha um respaldo, um incentivo, esse resgate histórico de direitos.

A gente precisa que haja mudanças nas Leis. E a conscientização das pessoas também. Acredito que seja por esse viés, que pegue na parte sistemática. Porque às vezes a informação chega a alguns. Para que chegue a várias pessoas, a gente tem que mexer no privilégio que as pessoas têm, e que individualmente não conseguem abrir mão disso. Se a gente não mexer no topo, a gente vai continuar sendo a base da pirâmide. 

Portal Catarinas: Queria saber que bairro você mora, como é essa vivência. Você sente que existe uma disparidade e diferença entre as regiões de Florianópolis?

Imensamente. Em São Paulo eu sentia que as pessoas, de onde eu venho, São Bernardo, eram mais diversas. Aqui em Floripa as coisas são muito divididas. As regiões periféricas são as em que há mais pessoas pretas. São os morros, onde há menos incidência de direitos.

Eu moro no Sul da Ilha, no Morro das Pedras. Eu vejo que a Tapera é um dos bairros que mais tem pessoas pretas, porque é um dos lugares onde tem mais periferia. A cidade é muito dividida, as pessoas pretas estão nas bordas. 

Aqui no Morro das Pedras, eu sinto que é um lugar muito mais embranquecido. É só você ver as casas, são “casões” com pessoas brancas. 

Portal Catarinas: Você falou sobre identificar onde estão as pessoas negras. Mas como identificar onde estão as mulheres negras lésbicas? Como enxergá-las?

São as questões de como a informação chega para todo mundo. Como a gente pode usar as ferramentas que a modernidade trouxe, para que a gente consiga trazer essa visibilidade. 

Acho que usando o próprio recurso que o governo tem, em projetos, editais, para trazer pessoas que são estudadas em relação a isso, e que tenham uma linguagem próxima. Hoje, a academia traz muita informação. Mas como trazer essa informação para as pessoas que não são da academia? Como trazer isso de uma forma direta, menos conceitual? A gente fala muito do que é, mas a galera tem muito mais a vivência. E é essa vivência que importa. 

Essa informação pode unir essas pessoas, e essa junção pode fazer a gente crescer e andar muito mais. Isso acontece com as pessoas pretas. Quando a gente está em um ambiente só de pessoas pretas, a gente divide nossas dores, nossas alegrias, e vê o quanto a gente tem de comum no nosso dia a dia. E isso é muito fortalecedor e empoderador. 

As mulheres lésbicas, bissexuais pretas, a gente tem que estar nestes espaços. Democratizar os espaços, os recursos, para conseguir visibilizar essas pessoas, para que traga essa junção. E que, juntas, possamos pensar em como progredir, nos nossos direitos, nas nossas resistências e existências. 

A mulher lésbica tem ocupado muito todos os lugares! Eu tenho amigas lésbicas em todas as áreas. E muito mais amigas lésbicas assumidas, que realmente colocam em público as suas relações. Essa existência é uma grande resistência, uma forma de mudar o pensamento das pessoas à sua volta, do seu núcleo familiar. 

Mas também tem um lado muito ingênuo, de a gente falar que isso seria igual, dentro da periferia. Querer que você seja aceito, dentro de uma família, que sofre com a falta de recursos, falta de informação, é muito mais difícil. 

Para mim, Addia, que estou aqui, dentro da minha casa, individualmente, é mais fácil eu falar isso. Mas como a gente poderia ajudar essas mulheres que ainda vivem junto das famílias, renegadas de tantos mais direitos? Que vivem violências, que às vezes são casadas, têm filhos? A gente tem que trazer uma nitidez para a vivência dessas mulheres, dentro da nossa diversidade, que é imensa. Quem conseguiu chegar, nada mais tem do que abrir espaço para todas essas mulheres. 

Foto: Diogo Andrade

Portal Catarinas: Como foi pra você, assumir sua sexualidade para sua família? Quando foi? 

Eu tinha 19 anos quando conversei com a minha família e foi bastante difícil, por causa dessas cobranças mesmo. Eu vim de uma família simples, que passa por tanto perrengue, por tanta coisa. Eu lembro que foi uma dificuldade, principalmente da minha mãe, de pensar ‘poxa, a gente vai ser mal vista’. Além de eu sofrer, tem mais essa preocupação de uma coisa que vai fazer a gente ser mal vista. Ai que está a questão da informação, que muda as coisas. 

A minha família toda demorou um tempo pra conseguir aceitar. Entender, mais tempo ainda. Minha mãe aceitou, minhas irmãs também, mas foi resultado de um processo. Um processo, eu acredito, que tenha acompanhado esse processo histórico, da informação que chegou, de outras pessoas, além de mim, se assumirem.

Elas conseguirem enxergar que isso está muito mais próximo. E principalmente, a questão que é mais difícil, que não é uma escolha. Tudo bate muito nisso. ‘Você poderia ter feito outra escolha. Você poderia ter escolhido outra coisa, que não fossem tão difíceis pra você.’ Mas não é uma escolha. Ninguém, em sã consciência, iria escolher passar por dificuldades assim. 

Portal Catarinas: Você fala muito da importância de a informação chegar às pessoas, e como ela chega. Como artista, como você acha que a arte faz parte disso?

Um dos principais objetivos da arte é fazer a gente refletir. A gente pensar, onde a gente tá, quem a gente é, quem a gente foi, e como a gente tá agindo nesse agora. 

Quando a gente assiste uma peça, por mais que fale sobre uma outra realidade, ela faz com que você se coloque naquele lugar, que você pense, e principalmente utilizar dessa coisa dos sentidos. 

A arte mexe com os sentidos. Ela faz você sentir o outro. Sentir o que aquela obra te passa. Essa pergunta, essa dúvida, que a arte coloca, essa questão, é muito primorosa. Ela vai por esse lado de realismo. A gente transforma uma dificuldade em poesia, em música. Às vezes as pessoas cantarolam, e depois vão perceber o que aquela letra estava dizendo. 

A arte é uma ferramenta de informação imensa, de questionamento de si, questionamento do outro. Fazer com que você se sinta no lugar de outras pessoas. Às vezes incomoda, e é pra incomodar. É o que eu mais gosto, é o que mais me move. É uma das ferramentas mais primorosas que existe para conseguir mexer com o ser humano. 

Portal Catarinas: Queria te agradecer, muito, Addia, por me permitir te conhecer, te ouvir. Você tem mais algum comentário? 

Eu sempre falo sobre ser lésbica, ou sobre ser negra. Eu queria agradecer por ser a primeira vez que eu estou em um espaço falando sobre essas duas questões que me formam. De ser eu mulher, negra, lésbica. 

Como eu faço parte de grupos de oprimidos diferentes, que se retroalimentam – para que haja sempre os opressores, que nos roubam nossos direitos, se vestindo de privilégios deles. E o quanto isso diz quem nós somos, nossa formação. 

Até mesmo dentro desse grupo dos oprimidos existem opressores. Dentro do grupo das pessoas pretas, existem homens pretos machistas. A própria sociedade nos coloca nessas armadilhas. Sempre, com esse intuito de nos tirar direitos. 

Eu acredito que a gente tendo a nitidez dessas informações, nos valendo de informação, nos fortalecendo, a gente passa a ocupar os lugares que a gente quer ocupar. E não o lugar que querem que a gente esteja. Aí é que tá a grande mudança. 

E pensar também que mesmo dentro de tudo isso, o quanto nós somos plurais. Mesmo eu sendo uma mulher negra lésbica, dentro desse grupo nós somos muito diferentes. De onde a gente veio, poder aquisitivo, quais são os espaços que a gente ocupa. A gente conseguir harmonizar todas essas diversidades, pra gente se fortalecer, é o caminho para que a gente consiga fortalecer a união. 

Uma coisa importante, é que se eu pudesse escolher, eu voltaria nessa vida mais uma vez, mulher, preta e lésbica. Por mais difícil que seja, eu gostaria de voltar. Mas tendo uma infância com mais informação, pra que eu tivesse mais orgulho de mim mesma. Pra que eu tivesse uma autoestima trabalhada, e não tentar me encaixar em um mundo que não é meu.

Foto: Dbl Click

Qual é a sua história?, por Addia Furtado, 2018

Hoje eu venho me auto-representar

Personagem forte da minha própria história

Minha realidade, minhas memórias

Minha ancestralidade

Minhas derrotas e vitórias

Maranhão – São Paulo – Floripa

Ser mulher, negra, lésbica, batuqueira e artista

Onde viver é ser ativista do seu próprio movimento, no intento de dar voz a uma condição bem específica.

Quero um movimento que fale das mulheres não elitizadas, as sem diploma, periféricas de mão de obra não qualificada. Que antes do direito do voto lutavam para serem alfabetizadas. Antes das carreiras universitárias lutavam para andarem na rua sem serem revistadas, apalpadas, atacadas pelos capitães do asfalto. Porque nessa pirâmide de ascensão não somos nós que estamos lá no alto.

Mulherismo, feminismo, afrocentrismo, pan-africanismo. Qual é a sua história?

Não faz muito tempo, nem tocar tambor a gente podia. Hoje vai na periferia de Recife no Bode, Mestra Joana mostrando que pode, apitando Nação de Maracatu. Vai no Pelô sentir o chão tremer com Didá, no coração de SP ocupar as ruas com Ilu Obá de Min.

Eu represento sim La Clínica, Abayomi, Três Marias, Dunyaben, Dembaia, Foli Aye, Imani, Cores de Aidê e os movimentos que nos dão vez e voz de ocuparmos e sabermos que não estamos sós.

Serviço

O álbum “Força e Fé” está no ar nas plataformas de streaming Spotify, Youtube e Amazon.

Ficha técnica

IMANI: Addia Furtado, ANIS, Dandara Manoela e Marissol Mwaba

Participação especial: Dessa Ferreira

Produção musical: Dessa Ferreira

Produção executiva: Renata Schlickmann

Captação, mix e master: Rafael Pfleger

Arte: François Muleka

Projeto Gráfico: Leo Saconatto

Equipe de apoio: Gutcha Ramil, Leonor Scola e Natália Livramento

Viabilizado pelo Edital Elisabete Anderle de Incentivo à Cultura de 2020

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Estudante de Jornalismo (UFSC) dedicada à escrita de reportagens, com foco na cobertura de direitos humanos. Estagiária no Portal Catarinas, sob supervisão de Paula Guimarães.
Veja a coluna da Gabriele Oliveira Silva