Jaque Conceição é fundadora do coletivo Di jejê, que recentemente instalou sua sede em Florianópolis/Foto: arquivo pessoal

Ela inaugurou uma escola antirracista no estado mais branco do Brasil

Postado em 03/06/2020, 18:13

“Vidas negras importam”: o lema que move protestos no Brasil tomou outra dimensão neste contexto de pandemia. Pessoas negras estão morrendo por Covid-19 em maior proporção do que brancas, e não há trégua da polícia na guerra contra esses povos, mesmo quando a luta pela vida é emergencial. A explosão de manifestações nos Estados Unidos contra a morte de George Floyd, enforcado por um policial diante das câmeras, ativou protestos neste último fim de semana no Brasil, por justiça à morte de João Pedro e de outras crianças e jovens negros assassinados também neste período.

O racismo, que nessas situações mostra a sua face mais cruel, se constrói no dia a dia e, na maioria das vezes, é imperceptível para pessoas brancas que não refletem sobre seus privilégios.

“As pessoas brancas controlam todos os meios de produção, as mídias, os bancos, então controlam a vida cotidiana, assim como ocorria na escravidão. E ainda são educadas numa perspectiva que não tem autocrítica desses privilégios e dessa estrutura que é consolidada”, explica Jaque Conceição, idealizadora do Coletivo Di jejê, a primeira plataforma de ensino a distância com foco em Educação Antirracista e Empoderamento Feminino do Brasil.

Em Florianópolis, capital do estado que se autodeclara mais branco do Brasil, o segundo em atuação de grupos nazistas, foi recentemente inaugurada a Casa Preta, sede do coletivo. Para manter a equipe e os custos da Casa, que está instalada no Bairro Trindade, o Di Jeje criou uma campanha de financiamento coletivo na plataforma Benfeitoria que termina neste sábado (6). Para cada real doado, a Fundação Tide Setubal dará mais dois. Quem colaborar com a campanha, receberá como recompensas cursos e treinamentos.

Apoie e faça um curso antirracista!

Há seis anos, Jaque Conceição fundou o coletivo Di jejê e, desde então, a pedagoga formada pela Universidade São Camilo e doutoranda em Antropologia Social pela Universidade Federal de Santa Catarina, oferece cursos antirracistas presenciais e on-line. Com conteúdos focados em pensadores contemporâneos como Angela Davis e Conceição Evaristo, os cursos têm preços acessíveis, a partir de R$ 70.

Em conversa com o Catarinas, Jaque falou sobre como a formação antirracista nos ajuda a entender o contexto político atual. Ela também explica a contribuição dessa visão de mundo para a compreensão de como o sistema racial opera na vida das pessoas negras, reduzindo acessos a direitos, e na de pessoas brancas, garantindo privilégios.

A instalação dessa escola antirracista em Santa Catarina mostra a ambivalência destes tempos de resistência frente a um estado e país governado pelo fascismo…
É certamente um desafio pensar uma educação antirracista no estado mais racista do Brasil. Ao mesmo tempo temos um movimento negro super responsivo, articulado. Imagine que a educação quilombola que acontece aqui, não acontece em nenhum lugar do Brasil, nem em estados negros como Maranhão e Bahia, por exemplo. Isso demonstra o poder de organização política da comunidade negra, ao contrário do que falam de que os negros do Brasil são omissos e submissos. Há dois lugares colocados, o que falam e o que é. O que é: a comunidade negra em Florianópolis, em SC, é muito ativa. A escola é um espaço de formação antirrascista no estado mais racista do Brasil e que se autoafirma branco negando as identidades negras.

Santa Catarina é o estado com o menor percentual de população autodeclarada negra, esse dado também está relacionado à invisibilização da identidade?
Sim, e tem uma outra coisa que historicamente a gente percebe no marco dos movimentos sociais é que quanto mais se acirra a opressão, mais os movimentos sociais criam estratégias de enfrentamento. Santa Catarina é um estado que tem um número altíssimo de práticas neonazistas e isso faz com que o movimento negro daqui seja cada vez mais responsivo a esses ataques. Então, talvez num contexto em que essas tensões não fossem tão claras, como são aqui, o movimento negro tivesse mais demora em responder. Então, hoje, temos esse processo de que houve um ataque racista e imediatamente o movimento negro consegue dar uma resposta, porque o perigo está visível com o governo fascista que estimula essas práticas neonazistas.

Catarinas: Os cursos da escola são voltados para quais públicos?
Jaque Conceição: São voltados à prática de educação antirracista, trabalhamos com a ideia do pensamento afrocentrado, a partir das discussões elaboradas pelas intelectuais negras e negros para pensar os problemas do racismo. Temos um espaço de formação para qualquer pessoa que queira fazer o curso. Não é voltado especificamente para pessoas negras. Embora o método de trabalho, autoras e autores estejam muito preocupados com os problemas da comunidade negra. Cada vez mais, quando a gente pensa em ação antirracista de fato, não dá para construir práticas antirracistas sem pessoas brancas.

Precisamos pensar estratégias de pensar como a gente vai fazer isso juntas/os. Senão vamos ter a ilusão de que, por exemplo, um espaço de esquerda está isento do racismo, e não está porque o racismo é formativo do Brasil, porque faz parte da nossa constituição enquanto indivíduos. Pensar o racismo é pensar nessa estrutura que opera.

Em situações em que há denúncia de racismo institucional pensamos “que bom que teve a denúncia e agora a gente consegue fazer o debate”. O duro é quando fica abafado, sabe? Aí não tem crítica, fica tudo perfeito. Mas quando faz a crítica, vai a público, faz todo esse processo, a gente joga essa movimentação de pensar essas questões de forma mais aberta, porque o racismo no Brasil é um tabu muito grande.

Jaque e alunas formadas em um dos cursos antirracistas/Foto: arquivo pessoal

Apesar de ser um tabu, recentemente os movimentos negros, especialmente de mulheres, tem ocupado espaços midiáticos, na mídia independente, mas também na hegemônica, para confrontar sobre as violências por ele provocadas…
A gente viu no Big Brother a questão do racismo. Hoje, mais do que nunca, esse debate está em evidência. Nasci numa periferia de São Paulo (SP). A minha escolha por Florianópolis foi mais um acaso da vida do que escolha profissional, mas depois que mudei comecei a perceber como a dinâmica do racismo se dá de diversas maneiras. Por ocasião do destino, um projeto como o nosso que oferece curso de formação política, teórica, filosófica sobre pensadoras/es negras/os para pensar as questões raciais e de gênero para uma cidade como Floripa, vem muito a calhar.

De que forma a perspectiva de gênero está colocada nos conteúdos da formação?
A gente parte do feminismo negro como nosso local de discussão política porque entendemos que o feminismo negro está empenhado em construir um projeto de justiça social. Se as feministas negras estão muito empenhadas, por exemplo, em pensar sobre afetividade, a gente também precisa discutir masculinidade, seja cis ou trans, aí vamos lá no Frantz Fanon, ou outros pesquisadores. Mas o nosso local de partida é o feminismo negro tanto que os nossos cursos se chamam rodas de feminismo negro, porque é a partir dessa ideia da roda de escuta, troca de experiência e acolhida que a gente vai construindo a análise teórica a partir do que intelectuais negras e negros têm produzido no Brasil desde 1905 mais ou menos.

Como funciona o coletivo Di jejê?
Somos uma empresa de capital privado, um negócio social. Pensamos numa economia que gera impacto na comunidade negra, tanto do ponto de vista da contratação quanto do produto que entrega que são os cursos. A gente vai começar um processo de MBA agora sobre a questão étnico-racial. O Di jejê também é uma resposta do movimento negro em alguma medida, porque somos todas ativistas do movimento negro. A gente também está preocupada em disputar narrativa teórica e acadêmica sobre as nossas condições e intelectualidade. Esses processos todos, embora muito malucos e doloridos, mostram muito também dessa capacidade da autodeclaração. Quando é que o sujeito se percebe como negro? Quando há referências externas que o façam entender que o que ele passa na vida não é preconceito, é racismo. As denúncias do movimento negro, o debate no Big Brother, e o ativismo de rede social e trabalhos como o do coletivo ajudam as pessoas negras a construírem essa identidade racial e também apoiam pessoas brancas que estão dispostas a rever seu racismo a se engajar na luta antirracista.

Jaque ao lado de Elizabeth Ganeza, embaixadora da ONU para a década Afrodescendente, durante conferência da ONU, em 2018, na Alemanha/Foto: arquivo pessoal

As aulas que seriam presenciais, em função da pandemia passaram a ser on-line…
O Di jejê tem um ambiente virtual desde 2016 e oferece cursos presenciais em vários lugares do Brasil e do mundo. Como estamos em processo de nos transformarmos em faculdade, o que exige uma sede física para fazer o credenciamento junto ao MEC, criamos a Casa Preta para ser a nossa sede nacional. A inauguração ocorreria em 16 de março quando foi decretado isolamento social. A gente já tinha todos os cursos, uma boa parte vendida no primeiro semestre, fizemos sistema de pré-venda para cobrir os custos de aluguel, mobília, e não havia como oferecer. Como a gente já tinha uma experiência com a questão virtual, fizemos adaptação da proposta para que aconteça virtualmente e tem sido muito legal. A partir de agosto com a expectativa do governo do estado em retornar as atividades de aula, aí vamos oferecer presencialmente.

Como se deu a mobilização para a campanha de financiamento colaborativo?
Independente de usar ou não a sala, temos que pagar o aluguel. Mesmo que se consiga negociar para pagar parcelado, essa dívida se mantém quando retornamos as atividades. Se a gente não cobrir esses custos, além de ter que fechar o projeto, ainda ficamos com um prejuízo. Buscamos, neste primeiro semestre, todas as alternativas possíveis para que a gente conseguisse manter não só o salário das pessoas que trabalham, as professoras, o administrativo, toda a equipe envolvida que são mulheres, como também suprir as despesas com plataformas digitais. A campanha na Benfeitoria foi uma excelente oportunidade porque a gente conta com o apoio de um fundo para projetos. Isso potencializa não só a doação, mas a própria campanha. Serão R$ 21 mil, mas a gente segura tranquilamente esse recurso até setembro, é quase o ano inteiro, e aí dá fôlego de pensar em outras formas neste período da pandemia.

Quais são as modalidades dos cursos?
Atualmente, pelas leis de educação, a gente trabalha com cursos livres, de duas a três horas dentro da temática. No segundo semestre vamos iniciar um curso de formação técnica, porque este tipo de curso não precisa de reconhecimento do MEC dependendo da área. Por exemplo, o direito e a questão étnico-racial, a economia e a questão étnico-racial, para qualificar profissionais dessas áreas a compreender a dinâmica do racismo. A gente está dizendo que racismo é estrutural, então queremos discutir com as mais diversas áreas como que essa estrutura se mantém. Desde informar a pessoa que trabalha no sistema judiciário para entender não só as leis raciais, como a injúria, o racismo como se aplica, como também ali no fazer técnico da advogada dentro da Vara da Família, o racismo é um recorte importante para a análise que ela faz. Então, ter uma formação racial que entenda a dinâmica daquela família ajuda a uma intervenção jurídica mais humanizada e assertiva, como no caso das comunidades quilombolas do estado.

E sobre a oferta de graduação?
O processo com o MEC leva dois anos, teremos o certificado, o reconhecimento de faculdade em 2022, quando passaremos a oferecer graduação e pós-graduação. É importante pensar numa universidade afro-centrada de fato, que tenha na sua visão e valores a formação de profissionais antirracista. Estamos propondo uma licenciatura em Pedagogia com ênfase nas questões étnico-raciais. Para além de ter um módulo, é formar o bacharel que quer fazer a licenciatura para que entenda: discutir racismo não é só saber que a África não é um país, mas sim um continente, ou que chamar de macaco está errado. Discutir racismo é entender qual é a estrutura histórica, econômica, política e cultural que perpetua não só a desigualdade de classe, mas principalmente a de raça.

Como a gente combate essa desgraça que está colocada? Entendendo como o racismo funciona, como invisibiliza conhecimentos, práticas, profissionais, como ele opera. Por que morrem mais pretos durante a pandemia? Por que nosso corpo não reage? Não, é uma estrutura que empobrece e pobre tem menos acesso a mecanismos de saúde e auto-proteção.

Enfim, é bem complexo, e a gente vem nesses últimos seis anos fazendo essa discussão de que precisamos olhar o racismo com a complexidade que ele tem e pensar estratégias de formação teórica que deem conta de possibilitar que as pessoas que estão interessadas nesta discussão possam qualificar seus fazeres, políticos, profissionais, afetivos, pensando essa formação antirracista como ponto de partida.

Em alusão à famosa frase de Simone de Beauvoir sobre a questão da identidade das mulheres, podemos dizer que ninguém nasce racista, mas torna-se a partir da construção social e cultural. De que forma podemos refletir sobre a afirmação de toda pessoa branca é, em alguma medida, racista?
Quando falo que é um tabu, é nesse lugar que estou dizendo. Pessoas brancas são vetores do racismo, se fosse uma doença os transmissores seriam as pessoas brancas. Isso porque a estrutura social cria mecanismos desse privilégio de raça que faz com as pessoas brancas não façam a autocrítica do seu lugar. Elas não crescem numa educação que as leva a fazerem uma crítica. Elas controlam todos os meios de produção, as mídias, os bancos, então as pessoas brancas controlam a vida cotidiana como na escravidão, não mudou muita coisa, e ainda são educadas nessa estrutura que é consolidada. A gente só vai de fato quebrar o racismo quando as pessoas brancas começarem a entender que essa estrutura as beneficia e isso é um problema que precisa ser revisto e repensado.

O racismo não é um problema nosso, enquanto comunidade negra. O racismo passa a ser problema nosso quando, por conta dele, eu não consigo acessar a universidade, um sistema de saúde mais eficiente, ou sou mais vulnerável a uma pandemia, aí é um problema meu, mas do ponto de vista filosófico, do ponto de vista conceitual e da experiência, ele é um problema criado pelos brancos.

É urgente que esse debate aconteça e de forma muito franca e tranquila porque está personificado no corpo branco, isso não quer dizer que todo corpo branco é racista, mas potencialmente pode ser e o que é pior: privilegiando o racismo. Essa estrutura que é história, que tem a ver com a constituição do Ocidente e como ele foi pensado, como a modernidade foi criada. Projetos como Di Jeje são importantes porque justamente se propõem a esse diálogo que deveríamos ter na escola.

Falando em escola, temos a Lei Federal 11.645 que prevê essa abordagem, esse tipo de reflexão e ensino, mas que não vem sendo colocada em prática. Se fosse implementada de fato teríamos mudanças?
Até temos mudanças, mas mudanças culturais demoram, mudar a mentalidade e perspectiva leva tempo. Você que é uma mulher branca e deve se ver em vários momentos da sua vida em situações que tem que estar se revendo o tempo inteiro, desde questões raciais até da vida, como o hábito alimentar. É isso: o racismo é um hábito que está encucado na gente e demora um tempo pra gente conseguir mudar. Assim como a questão da transfobia que muitas vezes está posta, mas é preciso lidar com ela. A lei traz alguns retornos, mas não na profundidade que precisa, isso porque para o professor poder ensinar a história africana ele vai ter que aprender na universidade e lá ele encontra um espaço branco e elitista, então ele não vê ou vê muito por cima.

Vocês enquanto educadoras antirracistas promovem esse diálogo…
Tenho certeza de que a gente possibilita esse diálogo justamente pelo fazer da educação. Imagine, três horas de cursos a partir da Lélia Gonzales, pensando racismo, estrutura, ou com Angela Davis, Frantz Fanon. Há um conjunto de leituras sobre branquitude e racismo para se desconstruir porque vai discutir essas duas questões, afinal não dá para falar de racismo sem falar de branquitude porque ela se constitui a partir de uma ideia de racismo.

Estamos acompanhando manifestações no Brasil e nos EUA contra a morte de jovens negros. No Brasil, há também um movimento antifascista e o fascismo tem como principal caracteriza o racismo. Como você tem percebido essas mobilizações?
A gente precisa entender e sair do lugar comum da ideia do racismo. As pessoas acham que o racista é uma pessoa malvada, quando na verdade não é. O que faz o policial enforcar o cara com a outra pessoa filmando é uma estrutura racista que dá pra ele o direito de fazer aquilo. E essa estrutura racista, embora as pessoas brancas, e até algumas pessoas negras, possam reproduzir sistematicamente, ela não vai cair com a prisão desse policial. Prendê-lo é sinalizar que estamos chegando ao limite, mas há toda uma estrutura que tem que ser pensada e repensada, e muito disso passa pela educação. A educação tem o papel não só de formar indivíduos para lidar com a diversidade de todas as ordens, seja de gênero, raça, classe e país, mas porque possibilita que o sujeito consiga estabelecer pensamento crítico frente a si e ao outro.

A gente vê esses levantes muito mais movidos pelo ódio que o racismo causa do que pela compreensão filosófica do que é. As duas questões são importantes, do ponto de vista da luta de classes, o ódio é o que a move, como dizia Marx.

Mas para mudanças concretas mesmo, a gente precisa pensar em mecanismos de formação que possibilitem isso, desde os pequeninos na creche até o cara que faz pós-doutorado, que estuda antropologia e nunca leu um autor negro, isso é racismo na prática.

A gente precisa criar formas de mudar isso. Espero que cada vez mais que prédios peguem fogo, inclusive aqui em Floripa.