Dandara Manoela, ANIS, Addia Furtado e Marissol Mwaba/Foto: Thiago Pinho – Montagem: Rafaela Coelho/Catarinas

IMANI evoca força é fé no encontro entre quatro compositoras e cantoras negras

Postado em 22/06/2021, 17:37

“Quando uma mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela” (Angela Davis, 2017). E quando quatro mulheres negras se movimentam juntas em um estado que nega constantemente suas existências? O álbum IMANI reflete a força e o tamanho desse encontro.

IMANI, que em swahili significa fé, é nome do encontro entre as cantoras e compositoras Addia Furtado, ANIS, Dandara Manoela e Marissol Mwaba, quatro mulheres negras que vivem em Florianópolis, capital do estado que se autodeclara mais branco do Brasil. Mulheres negras compositoras, instrumentistas que rompem o imaginário racista que as coloca em lugares de submissão, mostrando que podem e vão estar onde quiserem.

A junção dessas artistas em “IMANI” por si só já é um ato revolucionário. Todas as composições do primeiro álbum “Força e fé”, lançado neste mês, são de autoria colaborativa entre as integrantes e tem um cunho político e social que remete ao enfrentamento do racismo, machismo e outras questões sociais. Isso faz com que o CD ganhe ainda mais força de transformação, de rompimento, de agregação. 

Dandara Manoela, ANIS, Addia Furtado e Marissol Mwaba/Foto: Thiago Pinho

Segundo Marissol, cantora, compositora e instrumentista brasileira de origem congolesa, o que as move é um ato de fé. O álbum, no entanto, trata da fé que transcende o seu significado mais comum que não se limita à religião. “A fé que herdamos de nossas mais velhas, a fé que nos dá forças pra ir atrás do sonho, a fé que com ação vira esperança. A fé que alimentamos nos olhares umas das outras transformando força em potência, e tudo junto em transformação”, revela a cantora. 

Acreditando no encontro e na música como um instrumento político de transformação, IMANI mostra a fé na importância de representações positivas, em uma sociedade melhor, mais justa e igualitária.

“Quando se trata de quatro mulheres pretas, artistas independentes, se a gente não acredita, é muito difícil que acreditem pela gente, e sem isso a gente dificilmente se move e ocupa espaços que foram tirados de nós. A fé de IMANI vem muito da intenção de alimentarmos umas às outras nesse lugar que muitas vezes nos falta”, afirma ANIS, que é cantora, compositora e pedagoga vocal.

Falando de encontro, Marissol relembra como as quatro artistas se conheceram. “Quando cheguei a Floripa, todo mundo disse que eu precisava conhecer a Dandara, então meu irmão François [músico] nos apresentou e através dela conheci Addia e Anis. A liga foi tão grande que, desde então, seguimos nessa parceria de vida, nos esbarrando nos palcos, mas na correria do trabalho nunca tínhamos tempo de passar juntas o tanto de tempo que gostaríamos. Até que surgiu a oportunidade de aliar o pão com o afeto: abriríamos juntas o show de Liniker no CIC”. 

Já as influências do álbum vêm da riqueza da Cultura Popular afro-brasileira, dos ritmos do Oeste Africano e de “toda a diversidade que nossas trajetórias trazem de quem somos e dos territórios que nos formam”, explica Addia, atriz, percussionista, poeta e arte educadora. “Nosso processo de criação fluiu como a vontade do nosso encontro. Imagina juntar nossas artes criando algo nosso?”, acrescenta. 

O processo de criação foi tão natural entre elas que grande parte das composições surgiu durante um dia de imersão. “Batucando no chão, costurando nossa colcha de retalhos de palavras, de poesia, de sensações, de levadas e ali estava quase toda a espinha dorsal do que hoje é nosso álbum. Um sonho realizado [..] E assim foi um respiro imenso dentro de tudo que estamos passando”, relata Addia.

Importante apontar também que, além da potência do encontro entre as integrantes do IMANI, a produção musical do CD contou com Dessa Ferreira, outra mulher negra moradora do Sul do Estado que agregou ainda mais ao projeto.

“Eu sempre me emociono quando ouço, porque as sonoridades que criamos mexem comigo num lugar muito massa de reconhecimento de mim mesma através das minhas irmãs, de autoconfiança, de reivindicação de um lugar que é nosso porque foi criado por nós mesmas”, acrescenta ANIS. 

Serviço
O álbum já está no ar nas plataformas de streaming Spotify, Youtube e Amazon.

Ficha técnica
IMANI: Addia Furtado, ANIS, Dandara Manoela e Marissol Mwaba
Participação especial: Dessa Ferreira
Produção musical: Dessa Ferreira
Produção executiva: Renata Schlickmann
Captação, mix e master: Rafael Pfleger
Arte: François Muleka
Projeto Gráfico: Leo Saconatto
Equipe de apoio: Gutcha Ramil, Leonor Scola e Natália Livramento
Viabilizado pelo Edital Elisabete Anderle de Incentivo à Cultura de 2020

Conheça a trajetória de vida de cada uma delas

Foto: Thiago Pinho
Foto: Divulgação

Já catalogou galáxias; lançou o álbum “Luz-A-zuL” (2016) e o registro de um processo terapêutico “Palavra Mágica Acústico Rec’n’Play” (2018). Fala quatro línguas com fluência, é palestrante do TEDxTalks, dá aulas de canto e colaborou com diversos artistas como Emicida, Luedji Luna, Rincon Sapiência e Chico César. Acaba de lançar seu primeiro videoclipe, “Toda Quinta”; é indicada à categoria Novo Talento no SIM São Paulo e prepara um EP com faixas inéditas. Para compor esse extenso currículo, a cantora, compositora e instrumentista brasileira de origem congolesa, que reflete em sua obra influências musicais unidas ao panorama cultural africano, começou cedo. Compôs sua primeira canção aos seis anos. Aos 24, foi uma das finalistas do “Incroyables Talents de Sorbonne Universités 2016”, em Paris.

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Atriz, percussionista, poeta e arte educadora. Natural de São Bernardo do Campo (SP), radicada em Florianópolis há 15 anos. Pesquisa a percussão mandengue do Oeste Africano e dos ritmos da Cultura Popular afro-brasileira. Atualmente faz parte dos coletivos artísticos de Florianópolis como: “IMANI”; espetáculo “Se não agora, quando?!” – Cia Trupe Toe; “La Clínica”; “Abayomi” – Dança e Percussão Mandengue, e espetáculo musical “ Boêmia”. Destacam-se as formações enquanto arte educadora: Professora residente no Projeto Eco-Cultural e socioeducativo: “Rios de Encontro” (2019 – Marabá – PA); Oficineira no projeto “Vozes Periféricas”, contemplado pelo Fundo Municipal de Cultura de Florianópolis (2019); Multiplicadora do T.O no projeto “Xirê: sentidos criados no fazer”, contemplado pelo edital “Estação Cultural” viabilizado pela Fundação Catarinense de Cultura (2018);  “La Clínica na Comunidade” realizado pela Prefeitura de Porto Belo (2015 – SC).

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Cantora intérprete, compositora, pedagoga vocal, professora de inglês, doula, e tantos outros pequenos prazeres, fazem parte do serviço que Anis procura proporcionar ao mundo. Apaixonada pelo poder de expressão através da voz em suas infinitas formas, tem como meta entregar-se por inteiro às suas experiências, com sede pela música e pelos encontros e partilhas que ela proporciona, profundamente apaixonada pela comunicação e pelo aprendizado. Naturalizada em Florianópolis, Anis inicia sua carreira profissional em 2013. Encontrando-se hoje no espaço da Música Contemporânea e da Nova MPB, seu crescimento e amadurecimento musical se dão com fortes influências do R&B, Soul Music, Jazz, Pop e MPB. Atualmente, mantém projetos com artistas da cena local catarinense, além de dedicar-se ao seu trabalho autoral, e ministrar aulas particulares de canto e inglês em Florianópolis

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Cantora, compositora, educadora vocal e produtora musical. Sua pluralidade musical representa um símbolo de resistência das manifestações culturais afro-brasileiras e de afirmação da mulher negra e lésbica no campo artístico. Vencedora dos prêmios catarinenses de melhor cantora (2017) e melhor álbum (2018), Dandara Manoela transita pelo samba e pela MPB, trazendo à tona lutas e afetos subjetivos que encontram espaço na multidão.

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