Mulheres indígenas aldeiam a política: entrevista com a pré-candidata Kerexu Yxapyry

Mulheres indígenas aldeiam a política: a liderança indígena do povo Guarani, Kerexu Yxapyry, anunciou sua pré-candidatura a deputada federal por Santa Catarina durante o 18º Acampamento Terra Livre (ATL), em Brasília. 
Liderança indígena de SC é pré-candidata a deputada federal pelo PSOL. Foto: Equipe Kerexu/Divulgação.
Postado em 15/04/2022, 9:01

PSOL lança liderança Guarani como pré-candidata à deputada federal por SC em Acampamento Terra Livre 

Na última sexta-feira, 8 de abril, a liderança indígena do povo Guarani, Kerexu Yxapyry, anunciou sua pré-candidatura à deputada federal por Santa Catarina durante o 18º Acampamento Terra Livre (ATL), em Brasília. 

Atual coordenadora executiva nacional da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e coordenadora da Comissão Guarani Yvyrupá, Kerexu também é cofundadora da Articulação Nacional de Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga). 

Sua pré-candidatura foi anunciada de forma conjunta com Sônia Guajajara e Célia Xakriaba, pré-candidatas à deputada federal por São Paulo e Minas Gerais, respectivamente. As três lideranças indígenas estão filiadas ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).  

Kerexu Yxapyry (centro), junto com Sônia Guajajara (esq.) e Célia Xakriaba (dir.). Foto: Equipe Kerexu/Divulgação.

Kerexu é Mbyá Guarani, tem 41 anos, é mãe de três filhos, gestora ambiental formada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), mestranda em planejamento e gestão territorial pela Universidade Estadual de Santa Catarina (Udesc) e fundadora do Centro de Formação Tataendy Rupa.

Em sua trajetória de luta, Kerexu atuou fortemente pela homologação da Terra Indígena Morro dos Cavalos, em Palhoça (SC), em defesa da educação indígena especializada e pela preservação do meio ambiente e das florestas, principalmente a Mata Atlântica. 

Em Santa Catarina, ela revolucionou a educação indígena, participando da criação de um projeto político-pedagógico e de uma grade curricular que estivessem de acordo com as especificidades de cada comunidade. Participou da implementação das primeiras escolas com essa nova proposta curricular, na aldeia indígena Yynn Moroti Wherá, em Biguaçu, e na sua própria terra indígena.  

A liderança também foi escolhida para ser cacica na Terra Indígena do Morro dos Cavalos, assumindo a responsabilidade de lutar pela demarcação da sua terra. Por conta desta luta, sofreu ameaças de morte e diversos ataques, que colocaram sua vida e a de sua família em risco. Em 2017, sua mãe foi feita refém, torturada e teve a mão esquerda decepada dentro da própria aldeia. 

A resposta de Kerexu para tanta violência foi entrar na disputa político-partidária para expor a perseguição que vinha sofrendo, seguir lutando pelo seu território e proteger a si mesma e sua família. 

Nesta entrevista exclusiva para o Portal Catarinas, conversamos com a pré-candidata sobre os desafios atuais na política do país, as pautas que defende e sua anterior experiência como candidata ao mesmo cargo, em 2018. Com intenção de respeitar o fluxo narrativo da liderança indígena e da sua cultura, destacamos alguns tópicos da conversa, preservando os rumos escolhidos por Kerexu.   

“Aldear política” foi tema do Acampamento que teve um dia dedicado às mulheres indígenas. Foto: Mídia Ninja/Divulgação.

Uma trajetória de liderança

Kerexu Yxapyry: Eu me conheço liderança desde que me reconheci como pessoa. Dentro da minha trajetória de vida, lembro desde o tempo de escola, de formação de magistério e da faculdade, eu sempre era aquela pessoa que tinha esse papel de liderança, seja no meio do meu povo ou de outras pessoas. 

No período da escola, eu era a única indígena que estudava numa colônia italiana, mesmo assim eu lembro que era a líder. Tinham muitas coisas que eu não aceitava, eu acabava me juntando com outros alunos e questionava e fazia enfrentamentos.

Eu assumi muito essa linha de frente da liderança, mesmo nem sempre tendo um cargo dentro da comunidade. Eu trago muito a fala, a função de interlocutora do povo Guarani com o restante das pessoas.” 

A candidatura como oportunidade de visibilizar a luta e denunciar perseguições

Kerexu Yxapyry: Eu tomo a decisão de assumir esse papel político dentro do Estado como candidata a deputada federal em 2018, após sofrer diversas ameaças e ataques vindo de diversas partes contra a minha pessoa e minha família, por conta da demarcação da Terra Indígena Morro dos Cavalos. Chegou um momento, em 2017, que tivemos um ataque dentro da aldeia, na casa da minha mãe. Ela foi pega, torturada, fizeram muitas coisas com ela, inclusive, ela teve a mão esquerda decepada. 

O meu objetivo era a minha proteção e da minha família, porque eu não tinha mais como voltar atrás. Minha estratégia era me expor, jogar para o mundo e para a campanha a questão do território e da perseguição. O tema da campanha em 2018 foi a transformação pelo bem viver, que era exatamente o que a gente trabalhava dentro da terra indígena. 

Foi um dos momentos muito importantes, que a gente conseguiu entender todo o processo do mundo político-partidário dentro de Santa Catarina. 

Campanha 2018: mesmo com falta de apoio, votos são significativos

Kerexu Yxapyry: Dentro do partido, eu tive muita dificuldade. Eu sentia, naquele momento, que a minha candidatura para o partido era para ter uma participação de uma indígena, como se fosse uma moda. Sônia Guajajara era a nossa co-presidenta e Santa Catarina também tinha uma indígena candidata, era isso que eu sentia dentro do partido.

Durante a campanha de 2018, sem recurso, não tinha muito apoio e sentia muito essa pressão da discriminação dentro do partido, mas eu conversei com os povos indígenas, fui conversando com povos de outras regiões e fazendo essa mobilização. 

Quando chegou no final da eleição, foi uma surpresa para todos, tanto para dentro do partido quanto para dentro do Estado, a quantidade de votos que eu consegui sem ter apoio, recurso ou experiência. Foi um tanto expressivo de votos. Para mim, foi mais um sinal de que eu poderia alcançar esse lugar que eu busco como deputada federal. 

Em 2020, eu acabei não querendo assumir esse papel de candidata para municipal, porque eu tive receio. É justamente no município onde eu moro que existe toda essa manifestação contrária à demarcação do Morro dos Cavalos. A minha mãe, inclusive, foi uma das pessoas que chegou para mim e me pediu para não me candidatar, porque se eu fosse eleita eu não sobreviveria. Eu acabei recusando qualquer convite para candidatura, porque esse receio e o pedido da minha mãe foram muito fortes para mim.

Kerexu é coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil e da Comissão Guarani Yvyrupá. Foto: Mídia Ninja/Divulgação.

Articulação dos Povos Indígenas e Comissão Guarani Yvyrupa

Kerexu Yxapyry: Em 2019 e 2020, eu me dediquei novamente para questões do movimento indígena, da liderança indígena. A partir dali eu assumi o papel de coordenadora da Comissão Guarani Yvyrupa, para fazer a coordenação em seis estados: da região litorânea do Rio Grande do Sul até o Espírito Santo. 

Também assumi uma vaga como coordenadora executiva da Apib, Articulação dos Povos Indígenas do Brasil. Estou no acampamento Terra Livre deste ano, fazendo essa organização e trabalhando numa questão mais ampla que a minha realidade, que é atuar e coordenar essa questão mais política com todos os povos indígenas do Brasil.

Kerexu dialoga com o Governo pela proteção das aldeias durante Pandemia 

Kerexu Yxapyry: A pandemia foi muito desafiadora para nós como lideranças e parte da linha de frente no combate ao coronavírus, para que ela não afetasse diretamente todas as terras indígenas e, mesmo que o vírus chegasse, fizemos uma articulação para que os povos indígenas tivessem todo esse respaldo e segurança por parte da Funai, da Sesai, Escolas e muitos outros órgãos que estão dentro das terras indígenas. 

Eu fiquei com esse diálogo com o Governo Federal na criação de propostas para a proteção das terras indígenas. Foi um momento muito difícil. Tinha que ter muita força e equilíbrio mental para conseguir chegar até o final de todo esse debate dentro do Governo Federal para que se criasse a proteção das aldeias, porque tudo que tinha ali por parte do Governo Federal era a negação do direito. Desde a negação da doença, a negação dos exames, a negação dos registros dos óbitos indígenas por conta do vírus, e o Governo tentava burlar isso e colocar nos registros como se não fosse de coronavírus que a pessoa tinha morrido. 

Quando surgiu a vacina, também estive nesse diálogo. Aí chegavam as fake news, que as pessoas iriam virar isso ou aquilo, e fizemos campanhas para que os povos indígenas se vacinassem. Em Santa Catarina, eu fui a primeira indígena a ser vacinada no estado para dar o exemplo para que outras pessoas se vacinassem.

Conseguimos entender todo esse processo do Governo Federal com relação aos povos indígenas: ele sempre foi inimigo, sempre se manifestou contra desde a campanha. Agora, estamos em um momento em que a pandemia deu uma acalmada e começamos a voltar para esse trabalho de linha de frente, de campo, nesse enfrentamento dos projetos de lei e o retrocesso nos direitos indígenas que vêm sendo atacados pelo Governo. A gente se reúne no Acampamento Terra Livre deste ano como uma vitória de estarmos vivos.  

Kerexu esteve com o ex-presidente Lula, que firmou compromisso com as pautas indígenas. Foto: Rodrigo Duarte/Apib/Coletivo Proteja.

Acampamento Terra Livre e desafios enfrentados pelos indígenas no país 

Kerexu Yxapyry: Para mim, é uma vitória e liberdade estarmos vivos após dois anos de pandemia e juntar-nos com os povos indígenas de todo o Brasil, realizando o nosso acampamento. A gente vem nesse momento de grandes desafios no país, no contexto do povo brasileiro, mas principalmente no contexto dos povos indígenas. 

Além dos pacotes a serem aprovados, ainda temos o marco temporal para ser julgado no mês de junho. Temos um enfrentamento de uma eleição entre candidatos que tentam salvar o Brasil e o outro tentando afundar de vez. 

Demarcação é principal pauta do ATL e de Kerexu  

Kerexu Yxapyry: Nós, mulheres indígenas, decidimos focar na qualidade das candidaturas que estão se lançando e temos toda essa força do movimento indígena para, de fato, alcançar uma cadeira dentro do legislativo. 

Eu sou uma das pessoas que estou nesse processo de ser a candidata do povo indígena, que também tenho todo o desafio de fazer a consagração da minha candidatura entre o meu povo e dentro do movimento indígena, principalmente pelas mulheres. Trago essa responsabilidade de levar esse movimento e a nossa fala para dentro do Congresso Nacional. 

A gente vem com esse tema de “Retomando o Brasil: Demarcar Territórios e Aldear a Política” que é exatamente o que estamos fazendo aqui no ATL. 

Retomar o Brasil não quer dizer que vamos fazer a retomada de todos os espaços. Na verdade, estamos retomando os processos paralisados dentro da Era Bolsonaro, principalmente os de demarcação de territórios. Estamos retomando todas as políticas públicas que temos garantidas desde a Constituição, seja na área da saúde, na educação, de gestão territoriais. 

Por exemplo, a Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental em Terras Indígenas (PNGATI), que é uma das políticas que a Funai vinha discutindo e, hoje, não existe mais. Estamos tentando retomar aqui a própria Funai, que é um órgão criado para proteção dos direitos indígenas e que agora trabalha contra os direitos indígenas. 

Aldear a política, nesse caso, é ocupar esses espaços dentro do Congresso Nacional da forma como nós somos. E as propostas que estamos levando como campanha de candidatura, a principal delas, é a demarcação das nossas terras. 

Estamos puxando muito forte a questão das demarcações para, depois, conseguir complementar com outras políticas dentro do espaço já demarcado.  

A principal proposta das candidaturas é a demarcação das terras. Foto: Mídia Ninja/Divulgação.

Kerexu pretende discutir crise climática e denunciar crimes ambientais

Kerexu Yxapyry: A minha campanha, não é novidade para ninguém, passa muito pela demarcação das nossas terras. Hoje, estamos passando por um momento muito crítico mundial que é toda essa destruição do meio ambiente, do planeta, do nosso solo, das nossas águas e, também, do nosso clima. 

Um dos meus objetivos é desconstruir algumas falas que surgem de grandes empresas que dizem querer apoiar a questão indígena, mas que percebemos que estão de olho para explorar as riquezas que nós temos, ainda, dentro do nosso território. Nessa questão de construção de palavras, tem uma intenção de nos enganar e enganar a sociedade, que vai achar um pacote de morte a coisa mais linda, porque as palavras são colocadas para não criar esse impacto negativo nas pessoas. 

Uma delas é a questão da crise planetária, a crise climática, que é muito discutida. São crises, sim, mas não são naturais, são provocadas e planejadas pelos governantes. Se ela é uma crise arquitetada para acontecer num momento que todo mundo está correndo o risco de morrer, ela não pode ser tratada apenas como uma crise. 

A minha vontade e o meu chamado para as pessoas é denunciar que são crimes, sendo cometidos a olho nu em frente à toda sociedade humana. Não estamos querendo ver ou estão sendo escondidos através dessas palavras românticas que são colocadas. 

Eu trago muito forte a necessidade de denunciar crimes. Esses crimes são cometidos de todas as formas, dentro do Governo Federal, nos estados, e nessa política que é feita para se eleger e fazer a exploração dos nossos territórios e das áreas de conservação. 

Durante o ATL, em Brasília, foram lançados mais de trinta candidatos indígenas ao legislativo. Foto: Nora Sanchez/Mídia Ninja.

Em debate: proteção dos biomas, principalmente a Mata Atlântica

Kerexu Yxapyry: Minha fala vai muito no sentido de preservar as florestas que temos no Brasil, dentro dos territórios indígenas, que vão além da Amazônia. A Mata Atlântica, o Cerrado, a Caatinga, o Pantanal, estão passando por uma destruição muito grande e não estão tendo visibilidade. 

Eu vejo que é importante fazer a proteção da Amazônia, mas antes temos que entender qual forma de fazer essa proteção. É justamente isso que me incomoda muito, porque toda essa fala de proteção da Amazônia é uma fala de interesse e exploração. 

A exploração que nós que vivemos em outros biomas, principalmente nós que vivemos no bioma Mata Atlântica, passamos, esse processo de destruição da nossa natureza e território, aconteceu porque nos foi oferecido algo. Hoje, eu vejo a mesma estratégia acontecendo na Amazônia, levando como pauta principal tudo o que tem de riqueza dentro da Amazônia, mas esse olhar de proteção é de exploração. 

Se eu quisesse proteger a Amazônia, de fato, eu faria o reflorestamento de todos os outros biomas, porque é assim que conseguimos ter um equilíbrio na natureza. É equilibrando tudo da mesma forma. Não destruir um lado e fortalecer apenas um, porque nós somos organismos desse planeta. Os outros biomas também precisam ser trazidos e ser falados. 

Por último, queria trazer a questão do cinturão verde da Mata Atlântica, porque aqui nós temos um cinturão de proteção de todos os outros biomas. Nós, floresta Mata Atlântica, somos muito resistentes, assim como nós povos indígenas. Mas, se a gente colocar no papel e fazer esse levantamento da destruição que a Mata Atlântica sofreu e sofre até hoje, vai ver que não tem mais nada praticamente. Só que ainda tem. Ainda temos uma parte da floresta que resiste em um lugar que é ocupado por mais de 70% da população do Brasil. Grande parte do Brasil está habitando a floresta Mata Atlântica e precisamos reflorestar ela para conseguir salvar a Amazônia. Para a gente conseguir recuperar a Mata Atlântica, precisamos ter compromisso. Todos precisam se envolver e com muito amor e carinho reflorestar. 

Por tudo isso, eu vejo a Mata Atlântica dessa região litorânea do território Guarani como um cinturão verde de proteção de todas as outras florestas. De um lado, eu olho com tristeza, do outro lado, eu olho a força e a importância que esse território tem para nós povos indígenas e para a sociedade brasileira, que devia se orgulhar de estar vivendo num lugar tão lindo quanto a nossa floresta Mata Atlântica.

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Jornalista metida a produtora audiovisual. Ativista em movimentos antirracistas e pela descriminalização do aborto. Louca por gatos, dança afro-brasileira e tecido acrobático.
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