Candidata tem como objetivo combater a violência contra mulheres e pessoas LGBTs

Luíza Bittencourt: ninguém mais nos representará a não ser nós mesmas

Postado em 01/10/2018, 12:21

O Portal Catarinas fez uma chamada às candidaturas feministas de Santa Catarina, voltadas especificamente às candidatas mulheres cis e trans. A ideia é mapear as postulantes feministas do estado e gerar maior visibilidade para suas propostas. O mapeamento acontece a partir do preenchimento do formulário pelas candidatas. As respostas serão publicadas na íntegra por ordem de envio.

A oitava candidata a responder é Luíza Bittencourt, 43 anos, que busca uma vaga na Câmara Federal pelo Partido Socialismo e Liberdade (Psol). Mulher trans, lésbica e branca, Luíza cursou o segundo grau e vive em Florianópolis.

Catarinas: Conte um pouco sobre sua trajetória de vida/militância e quais motivações a levaram a disputar essas eleições.
Luíza: Sou uma mulher trans, diarista, mãe de um menino de 13 anos que mora comigo, e hoje posso dizer que sou reconhecida e respeitada por todos que me conhecem. Porém, como todas nós pessoas trans, tive uma trajetória de vida muito difícil. Passei por todas as dificuldades que a maioria de nós enfrenta. Preconceito, exclusão social, familiar, violência nas ruas, falta de oportunidades, e descaso da sociedade. Por ter vivido tudo isso, há muito tempo havia decidido que iria buscar fazer minha parte para tentar mudar nossa realidade. Vi que como cidadãs, temos o direito de ocupar nosso espaço na sociedade. Me candidatei pois vi que somente através da nossa representatividade na política é que poderemos lutar por nossos direitos. Esse é meu objetivo, nos representar na câmara federal e lutar por leis que nos garantam proteção, igualdade, oportunidades, respeito e cidadania.

Catarinas: Qual a importância de se eleger mulheres feministas em 2018?
Luíza: Nós mulheres somos vítimas de um sistema culturalmente machista e patriarcal, que nos submete à violência, à discriminação no mercado de trabalho, na política, e também na sociedade que nos impõe uma condição de submissão aos homens. Porém, somos a maioria dos eleitores nesse país e é preciso que isso se reflita nas urnas. Sempre digo que nossa luta é difícil, mas se tivermos representatividade na política as possibilidades serão melhores na busca por nossos direitos. Mulheres precisam votar em mulheres, pois ninguém mais nos representará a não ser nós mesmas.

Catarinas: Quais as principais questões a superar hoje em relação à desigualdade entre homens e mulheres? E quais suas propostas para isso?
Luíza: A desigualdade é reflexo de estarmos submetidas à uma cultura machista, e também pela falta de representatividade. Precisamos ocupar espaços de decisão. Não é possível aceitar por exemplo a diferenciação salarial que ainda é realidade em muitas empresas. Isso precisa ser resolvido. Precisamos de leis que punam as empresas que exercem uma política de salários desiguais para homens e mulheres que exercem as mesmas funções. Essa é uma das minhas propostas, estabelecer leis que estabeleçam piso salarial para todas as categorias, com critérios que não permitam essas desigualdades entre homens e mulheres. O movimento das mulheres se fortaleceu muito. Veja por exemplo o movimento que surgiu recentemente contra o candidato à presidência que está na frente das pesquisas. Esse posicionamento provavelmente mudará o resultado das eleições. É incrível ver o poder que nós mulheres temos. Juntas somos sim muito mais fortes. Hoje estamos tendo a noção da nossa importância na família, na sociedade e na política. Não temos mais aquela dependência e submissão aos homens como era comum nas gerações passadas. Hoje em dia conquistamos nossa independência em muitas áreas, porém ainda precisamos de maior representatividade. Mas acredito que isso estará acontecendo já nessas eleições. A sociedade precisa aceitar que nós mulheres somos as verdadeiras protagonistas nessa história.

Catarinas: Como pretende atender às diferentes especificidades das mulheres, contemplando em seus projetos as mulheres negras, indígenas, lésbicas e mulheres trans?
Luíza: Mesmo diante de todas nossas especificidades e características diferentes, somos antes de tudo mulheres e temos uma luta em comum. A  luta por direitos iguais e pelo respeito a nós e a nossos corpos. A luta por mais oportunidades e representatividade política. Por um atendimento digno e humanizado na rede pública de saúde. A luta contra a violência que somos vítimas diariamente. Todos esses desafios são pontos em comum a todas nós mulheres. Porém, é claro, que teremos necessidades de leis específicas que visam a atender as nossas diferentes características étnicas, raciais, sociais, etc… E estarei buscando representar e atender todas essas pautas na câmara.

Catarinas: Santa Catarina é o segundo estado do País com maior número de estupro, segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. De acordo com o mesmo relatório, em 2017, foram registrados 48 feminicídios. Como pretende atuar para a redução da violência contra as mulheres em SC?
Luíza: Temos que adotar várias medidas para diminuir esse problema tão grave. Precisamos aumentar a pena para os crimes de violência contra às mulheres. Há uma falsa moralidade do poder público nessa história que diz combater a violência contra à mulher, mas o que vemos é a impunidade e leis brandas para esses crimes. Muitas mulheres que são vítimas de estupros ou violência doméstica, por exemplo, não denunciam pois há uma sensação de que “não adianta denunciar” em função dessa impunidade, o que de certa forma é o que acontece. Se o homem soubesse que caso agredisse uma mulher seria efetivamente condenado e preso, com certeza muitos deles pensariam antes de cometer tal ato. Porém, é preciso que  juntamente com leis mais pesadas, a mesma se cumpra. É preciso que as denúncias e casos de violência sejam atendidos prontamente. As mulheres precisam de proteção do estado, precisam ter a segurança e a certeza que terão respaldo e apoio do poder público nos casos que sofre qualquer tipo de violência. Esse é um trabalho que envolverá propostas nas mudanças das leis que tratam da violência contra a mulher,  a criação de mais delegacias, de treinamento e orientação das polícias para tratarem esses casos de forma mais atuante e efetiva. Eu pessoalmente falo isso por experiência própria. Já sofri violência doméstica e não tive nenhum respaldo da polícia quando precisei. É uma realidade que precisa de solução imediata pois somos vítimas diariamente desse tipo de crime. Mas vou estar trabalhando por essas mudanças que acredito serão importantes para a redução dos casos de violência contra as mulheres.

Catarinas: Quais resistências vêm enfrentando em sua campanha e quais imagina enfrentar se for eleita para um cargo de poder tradicionalmente ocupado por homens, brancos heterossexuais?
Luíza: Minha candidatura recebeu todo o apoio do meu partido. O Psol tradicionalmente  é um partido que representa todas as pessoas que são mais desfavorecidas pelo poder público e nessas eleições isso também se refletiu nas candidaturas. Temos candidatas mulheres indígenas, feministas, negras e trans. Estamos representadas em muitas de nós. Como disse tive total apoio do meu partido e também estou tendo um retorno muito positivo das pessoas. Acredito que as pessoas estão desacreditadas dos políticos de sempre e com razão. As pessoas estão percebendo a necessidade de termos novas pessoas na câmara de deputados e eu, por ser minha primeira vez como candidata, represento também essa mudança que as pessoas querem. Quanto a estar atuando num ambiente tradicionalmente machista como é a câmara dos deputados, isso na verdade é algo que me motiva muito mais.  Como mulher trans o que mais precisei na vida foi enfrentar esse sistema machista e preconceituoso. E acho que consegui me sair bem. Sou mulher acostumada a luta e sempre digo que gosto da coisa difícil, do desafio. Às vezes brinco dizendo que caso eleita farei questão de na câmara de deputados me sentar bem do lado daquela bancada machista que conhecemos, sabe? E vou chegar com minha bandeira LGBT bem a mostra ainda… rs Não deixa de ser verdade, mas tirando essa parte, e sendo agora mais objetiva, entendo que para que possamos estar buscando essas melhorias, lutando por nossos direitos, aprovando nossas propostas será preciso também de apoio dentro da câmara. Por isso que digo que nós mulheres e LGBTs precisamos votar em candidatos que nos representem realmente. Precisamos de mais deputadas mulheres na Camâra Federal, Estadual e no Senado. Precisamos de pessoas realmente comprometidas com a causa LGBT e suas pautas. Precisamos que nossa força se reflita nas urnas nessas próximas eleições. Eu acredito que esse é o momento de tomarmos nosso espaço de representatividade por direito, e isso só depende de nós.

Catarinas: Enquanto uma candidata feminista como pretende atuar de forma a enfrentar os discursos reacionários que acreditam na existência de uma “ideologia de gênero” e que não admitem que as mulheres tenham autonomia plena sobre seus corpos, incluindo aí a pauta pela descriminalização do aborto?
Luíza: Quanto à ideologia de gênero sou a favor da educação para a diversidade. É fundamental tratar esse assunto nas escolas. As pessoas tem preconceito do que não conhecem. E acredito que o caminho é a educação, pois ela refletirá em menos violência e preconceito. Tenho isso como experiência própria. Já fui convidada para rodas de conversa em escolas, para falar sobre minha vida e sobre diversidade. E foi uma experiência maravilhosa. Para mim e para os alunos. Essa interação mostrou aos alunos que no final somos pessoas como qualquer outra. Eu uma mulher trans, que já passei por tanta exclusão na vida, quando me imaginaria dentro de uma escola conversando com os alunos? Foi uma experiência muito legal para mim e para eles também. Então é preciso sim falar de diversidade. Quanto a pauta da discriminização do aborto, sei que é uma luta difícil, mas que temos que continuar. A sociedade precisa deixar a hipocrisia e falso moralismo de lado. Enquanto isso muitas mulheres estão à mercê de clínicas clandestinas e pessoas sem nenhum preparo, colocando muitas vezes sua vida em risco. O corpo da mulher é visto ainda como um “território”, uma “propriedade”  do homem e não podemos mais admitir isso. Temos direito à autonomia sobre nossos corpos. É preciso que essa lei seja aprovada e vou lutar por isso na câmara.

Catarinas: Quais pautas são prioritárias na sua plataforma de campanha?
Luíza: Minhas pautas prioritariamente tem por objetivo principal o combate à violência contra as mulheres e pessoas LGBTs. Acho esse um problema que precisa de respaldo imediato do poder público, através de leis e penas mais pesadas para as pessoas que cometem esse tipo de crime. Quero priorizar também as questões que envolvem atendimento de qualidade na rede pública de saúde. Aumentar a quantidade de delegacias de atendimento à mulher. Aumentar o número de vagas em creches. Estabelecer o ensino para a diversidade nas escolas. Criar oportunidades de trabalho e profissionalização para as pessoas trans. Junto a isso, estarei buscando lutar por todas as questões que visarem o bem-estar e a melhoria da qualidade de vida de todas as pessoas. Represento as mulheres e pessoas LGBTs, mas também sou a favor da vida e entendo que todos nós temos direito a uma vida digna e com qualidade.




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