Filme sobre a história de uma mulher trans é protagonizado por Selma Light, atriz e ativista trans/Foto: Marco Martins.

Filme LGBT “Selma depois da chuva” tem pré-estreia em Florianópolis

Postado em 26/03/2019, 22:44

O pré-lançamento nacional do curta “Selma depois da chuva” um drama LGBT acontece em Florianópolis no Cinema do CIC, em 27 de março, às 20h. Gratuito, o evento conta com o apoio do Museu da Imagem e do Som de Santa Catarina (MIS/SC). O projeto foi contemplado em primeiro lugar pelo Prêmio Carmem Santos de Cinema de Mulheres do Ministério da Cultura (MINC) em 2018. A ficção retrata a vida de Selma, uma mulher trans que construiu sua vida afastada da família. Um dia ela recebe um chamado para ir ao encontro de sua mãe idosa que sofre de Alzheimer e precisa de tratamento. Nesse encontro, perdidas entre memórias confusas, as duas mulheres lembram dores e desejos esquecidos, revisitam culpas e afetos perdidos.

Com uma equipe técnica composta majoritariamente por mulheres, o curta é uma produção de Vinil Filmes, tem direção de Loli Menezes, produção de Ana Paula Mendes, elenco formado por Selma Light, mulher trans, e Amélia Bittencourt e roteiro de Renato Turnes.

Selma depois da chuva foi premiado no ISA – Independent Shorts Awards (L.A – USA) e ganhou Menção Honrosa de melhor narrativa curta. A entrega da premiação será em Hollywood ainda esse ano. Exibido em Festivais Internacionais como 2019 SPE Media Festival (Cleveland), International Changing Perspectives Short Film Festival (Istambul – Turquia), Feminist Border Arts Film Festival (Las Cruces – New Mexico) e Superfine Art Fair (LA, NY e DC).

Produtora e diretora há 15 anos, Loli Menezes, conta que seus curtas têm em comum o protagonismo de personagens femininas. “Sempre tem uma mulher que está vivendo algum momento de desafio ou de liberdade ou de busca de identidade ou de se ver livre de algumas amarras”, contou ela em entrevista ao Catarinas.

CATARINAS – Como foi a ideia de produzir um filme com esse tema?

O Renato Turnes trouxe o roteiro. Ele trouxe essa história, baseado um pouco nas memórias dele com a mãe que também sofreu de Alzheimer, e memórias com a própria Selma, porque eles estavam fazendo um projeto de teatro e ele estava fazendo entrevistas com ela, então a partir de alguns recortes das memórias com a mãe e de alguns relatos com a Selma ele desenvolveu esse roteiro. Não é um roteiro biográfico, a Selma mesmo fala sobre isso, a personagem embora também chame Selma não é parecida com ela, tem uma vida e uma história bem diferentes, mas tem alguns relatos que serviram de inspiração. É uma ficção. Ano passado, no começo do ano, ele trouxe o roteiro, me convidou para dirigir e a gente desenvolveu o projeto juntos. No primeiro edital que a gente colocou, que foi o edital do Minc, tinha uma categoria que premiava só diretoras mulheres, Carmem Santos, a gente ganhou. Foi muito rápido. A gente desenvolveu o projeto, colocou no edital e ganhou em primeiro lugar o prêmio. Foi muito legal, porque geralmente você fica anos tentando viabilizar o filme, colocar nos editais, tentar captar. Então realmente foi o filme mais rápido que eu já fiz.

Loli durante as gravações do curta/Foto: Marco Martins.

CATARINAS – Em algum dos curtas que você dirigiu essa temática foi abordada?

Não. Talvez o que os outros curtas que eu dirigi tenham em comum seja o fato de sempre serem personagens femininas. Sempre tem uma mulher que está vivendo algum momento de desafio ou de liberdade ou de busca de identidade ou de se ver livre de algumas amarras. Talvez isso seja um elo de conexão, mas eu nunca tinha dirigido nada parecido, eu nunca tinha me envolvido com a temática LGBT. Foi um desafio. Desde o início quando eu li o roteiro eu me apaixonei pela história, me apaixonei pelas duas mulheres porque a história tinha muita potência. O roteiro é bem curto. O filme é bem curto também, mas eu vi que ali dava para explorar muita coisa. Dava para fazer esse momento da vida delas que é o encontro onde o filme acontece, e mesmo com pouco diálogo, com poucas ações, em poucas páginas, dava para contar bastante história. Tem muita coisa não dita. Tem muito subtexto nessa história.

Desde o começo a gente quis fazer uma história bem limpa, com pouco diálogo muito não dito, o que não foi dito lá atrás e agora quando ela vem resgatar essa mãe, resgatar essas memórias… ela é uma personagem bem contida. A gente trabalhou bastante isso. A gente não queria na personagem uma mulher trans caricata. A gente desenvolveu uma personagem de uma mulher mais contida, mais reprimida, tímida, com várias amarras. Em determinado momento do filme, que é a cena da chuva, ela se liberta, é a redenção, o renascimento, onde aparece que nesses 30 anos tudo isso esteve preso dentro dela e ali naquele momento ela consegue extravasar. Foi um desafio para Selma também fazer um trabalho dentro da performance da arte dela que é sempre um trabalho de extroversão. Ela diz: “eu sou totalmente diferente dessa personagem”. A Selma do filme não. Ela engole, ela pensa, ela silencia. Foi desafiador para ela. Foi muito legal porque ela desenvolveu a personagem muito bem no filme.

CATARINAS – E você já conhecia a Selma?

Não, eu conhecia ela do palco de saber quem ela era, mas nunca tinha trabalhado com ela. Nunca havia tido uma aproximação, foi a primeira vez que a gente trabalhou juntas.

CATARINAS – Você poderia explicar o nome do filme?

A cena do filme sempre foi a cena da chuva, ela simboliza esse renascimento, essa redenção, essa resiliência. Vem a partir da chuva o recomeço das duas. Elas vão embora juntas e ninguém sabe o que vai acontecer a partir dali. O Renato já trouxe o nome “Selma depois da chuva”. Eu amei.  Achei super poético. Tem uma cena pra gente muito forte daquele filme, “A falecida”, que é um filme brasileiro com a Fernanda Montenegro, do Leon Hirszman, onde ela toma um banho de chuva, então foi uma referência bem forte pra gente essa cena da chuva. A gente se inspirou bastante para compor a nossa cena.

CATARINAS – Você é formada em Psicologia e Cinema. Para você existe uma relação que perpassa a psicologia em trabalhos como esse?

Tem. Em tudo que eu faço tem. A psicologia é um universo fascinante depois que você começa a estudar e se envolver, por mais que eu nunca tenha trabalhado na área, quando eu me formei eu já estava cursando cinema e já estava trabalhando com o cinema. Fiz os estágios, mas nunca trabalhei como psicóloga. Porém tudo que eu faço, todos os meus trabalhos têm uma leitura, se tu voltar o teu olhar para isso, sempre tem uma leitura psicanalítica, ou dentro de qualquer linha da psicologia que tu queiras se debruçar. A relação mãe e filha, o fato de serem duas mulheres, mesmo tirando essa coisa de ser mulher trans, que já é um outro conteúdo que agrega, tem muitas camadas de interpretação.

CATARINAS – Vocês trataram de família e sociedade?

Exatamente. É um filme sobre relação humana. São duas pessoas que se reencontram e têm uma relação profunda, com muitas coisas mal resolvidas e muitas coisas abandonadas. A partir do momento que ela sai de casa ainda como menino vai embora e nunca mais volta… Tem uma figura muito interessante que é a presença do pai, porque o pai não está no filme, mas ele está porque a mãe fala no pai “se o teu pai te pega assim tu vais apanhar. A gente não conta nada para o teu pai”. É bem psicanalítico também. Você sente aquela presença ali dentro daquela casa. Tem conteúdo para tu pensares também como era essa relação. Como essa mulher sofreu com o pai, fica muito evidente que ele era repressor e violento, e a mãe que por um lado protegia, mas também era omissa e também não enfrentava. Quando a Selma volta o pai já não está. Já morreu, mas a figura repressora está ali, a figura opressora continua dentro da casa. A casa para mim tem um valor simbólico muito forte.

Quando a gente foi pesquisar a casa para locação a gente encontrou primeiro uma casa que era mais bucólica, de madeira meio a “casinha da vovó”. Era um sítio. A casa era linda, maravilhosa. Tinha pátio, galinha, era mais rural. Eu comecei a achar que não combinava com essas duas personagens. A Amélia é uma atriz forte. Ela tem uma personalidade, uma presença que carrega uma dramaticidade. Eu comecei a me dar conta de que não ia combinar, “essa casa não tem nada a ver com as duas mulheres”. Tinha que ser uma casa escura, uma casa opressora também. A gente teve que encontrar outra locação. Como é um filme curto com pouco diálogo, qualquer elemento tem que contribuir para contar a história. Então a gente precisava de uma casa dramática. E foi maravilhoso. A casa que a gente achou só ela já conta muito. É no Campeche. A gente rodou ele todo no sul da ilha. Nas estradas, no início do filme ela está chegando nessa cidadezinha, foi ali no sul também na estrada nova do Ribeirão.

Loli ao lado da atriz Amélia Bittencourt que interpreta a mãe de Selma/Foto: Marco Martins.

CATARINAS – Como você vê essa discussão social no momento atual?

É um filme urgente porque o que está acontecendo com a gente, com o nosso país, todas as lutas, com todo esse regresso aos nossos direitos, aos direitos dos LGBTs, das mulheres, dos negros, das minorias. É interessante, porque quando a gente começou o filme já tinha rolado o impeachment, a gente já estava vivendo um aquecimento de tudo isso, mas a gente ainda não tinha noção do que estava por vir. Os festivais brasileiros ainda estão começando a abrir. Fora do Brasil está bombando e já ganhamos um prêmio. Estão recebendo bem. Por enquanto não foi selecionado para nenhum festival brasileiro. Não sei se isso quer dizer alguma coisa. A gente tem uma liberdade que está sendo cerceada, mas ainda temos liberdade e os festivais estão acontecendo. Para mim a urgência é maior do que nunca. O filme ficou pronto em outubro, bem nas eleições, a gente disse “bom agora é urgente”, mais do que nunca a gente precisa falar sobre as minorias. A gente precisa dar voz às minorias. E não só a questão LGBT, tem a questão da velhice também no filme que é urgente. São duas minorias. As duas são mulheres. Uma é trans e a outra é velha e temos toda uma urgência de falar da questão da velhice, do abandono, de não ocupar mais um espaço de fala e de não ter mais voz. A questão da doença ou de ser subjugada à decisão dos filhos ou de quem cuida. Muitos são abandonados. Para mim também foi um momento delicado eu tinha perdido a minha avó fazia um pouco mais de um ano quando eu fiz o filme. Foi uma velhice muito difícil. Terminou numa casa de repouso, cortou o contato completo com o mundo exterior, se alimentava por sonda, respirador. A gente não sabia se ela estava consciente ou não. Foi um final arrastado, longo e sofrido. Eu era muito ligada a ela. Eu estava com essa temática latente. Veio muito a calhar poder falar desse tema, poder revisitar esse momento, foi importante para mim.

CATARINAS – E a equipe foi composta por uma maioria de mulheres?

A equipe foi composta majoritariamente por mulheres. Eu quis honrar o prêmio. Como era dentro de uma categoria feminista, eu quis montar uma equipe de mulheres. Então todas as cabeças da equipe técnica eram mulheres e alguns homens cumpriram função de assistência, fora o Renato que é o roteirista. Isso foi bem bacana. Foi importante para mim. E acho que é legal para o mercado também, para gente ver que têm mulheres em todas as funções. Inclusive a nossa chefe de maquinária era mulher, que geralmente é uma função atribuída aos homens. Foi muito bom compor essa equipe voltando a olhar para isso. “Vamos juntar a mulherada. Já que é um prêmio feminista vamos fazer uma equipe feminista também. Bem legal. Foi gratificante”.

CATARINAS – Você viu alguma diferença em trabalhar com uma equipe mais feminina?

Isso é interessante porque já está havendo uma mudança de comportamento independente da equipe ser toda de mulheres ou não. A gente está vendo nos trabalhos que as mulheres estão cobrando uma postura dos homens. As mulheres não estão aceitando mais aquele tipo de piadinha que sempre tinha. Aquele machismo nosso de cada dia. Isso é uma coisa que está mudando, pelo menos nos últimos trabalhos que eu fiz as mulheres não aceitam mais. Sempre foi um meio super machista, super opressor. Antigamente era 80% homens e 20% mulheres. As mulheres faziam figurino, maquiagem, quando muito direção de arte. Isso está mudando, porque as mulheres estão ocupando outras funções. As mulheres que estão no set estão cobrando uma postura. Estamos aqui para trabalhar. Eu estou aqui trabalhando, me respeita. Com o tempo acho que as pessoas vão se questionando e vão mudando o comportamento.

Loli diz que a equipe pretende disponibilizar o acesso ao vídeo, após a etapa dos festivais.

Mais informações na página do filme.

Cartaz: Xadek Julius. Foto: Marco Martins.

 

 




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