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Carta aberta sobre a pornografia trans às mulheres cis heterossexuais

Postado em 09/06/2021, 13:25

Neste Mês do Orgulho LGBTQIA+, a transfeminista Mariana Franco escreve sobre os tabus que envolvem o exercício da sexualidade no relacionamento heterossexual entre pessoas cis; no país líder em assassinatos de mulheres trans e travestis, onde se consome pornografia trans mais do que qualquer outra.

O seu namorado/marido acessa pornografia trans? Eu sei que este título de artigo é um tanto quanto equivalente aos dos programas sensacionalistas, mas você sabia que o consumo de material pornográfico mais acessado no Brasil é relacionado a mulheres trans e travestis? E que é muito provável que seu namorado ou marido, neste caso me dirijo a homens cis hetero, pode ser consumidor ou já tenha consumido esse material. Mas você, como mulher feminista, qual seria a sua relação, ou melhor, reação caso soubesse disto? Se você perguntar, agora, para a pessoa com quem você se relaciona se ela já acessou conteúdos trans, em sua maioria a resposta será “não”. Mas será que não, mesmo?

É uma hipótese que devemos debater no feminismo, afinal em 2017, mais de 84% dos acessos realizados no Brasil no site PornHub[1], eram de conteúdos com buscas aos termos transexuais, travestis e shemale[2]. No período da pandemia do Novo Coronavírus em 2020, o acesso do conteúdo pornô trans alcançou 98%[3] no Brasil. No mesmo ano, conforme relatório da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA)[4], em média uma pessoa trans foi morta a cada 48 horas no país.  

Trago este questionamento referente às nossas atitudes enquanto mulheres feministas no âmbito residencial, privado, intimista. Estariam essas mulheres preparadas para isso? O feminismo que praticamos consegue nos libertar das amarras dos preconceitos neste caso?

Para responder, realizo a escrita de uma carta aberta às mulheres cis heterossexuais (ou aos homens que a lerem), de uma mana feminista para outra, de nos conhecermos e, principalmente, nos compreendermos.

De uma mana feminista para outra: carta aberta sobre pornografia trans

Querida mana feminista, não sou uma pessoa favorável ao consumo de material pornográfico, porque o considero estereotipado, violento, abusivo e fomentador de performances sexuais deprimentes nas vidas das pessoas[5][6]. O filme pornô não é ficção, é real, com subjetividades, com ações congruentes e representações das realidades sociais. Sou favorável a materiais informativos, contos, textos que abordem a saúde sexual e mental, de comportamentos e práticas para relações sexuais saudáveis.

Como uma pessoa trans, os homens que acessam o material pornográfico da população da qual faço parte, para além de criar estereótipos do nosso corpóreo, para além dos fetiches, a grande maioria acredita que somos pessoas sem pudor, depravadas, passíveis de qualquer relação ou situação relacionada a práticas sexuais.

A partir de cenas dos filmes mais acessados em sites de conteúdo pornográfico, pode-se relatar: no que se refere a ejaculação masculina, em suma, é no rosto e na face das mulheres trans que contracenam realizando o chamado “culto ao sêmen”. Duas das maiores buscas estão voltadas à prática conhecida “no pelo”, que se refere à atividade sexual sem uso de preservativo, e à categoria “amador”, mostrando que os filmes acessados vão para além de produções de grandes estúdios.

Outra categoria de busca está direcionada aos filmes trans, nos quais ocorrem sexo coercitivo, estupro, mostrando uma resistência inicial das atrizes, retratada nas cenas seguintes como uma situação de deleite do estupro. Quanto às personagens, a maioria das mulheres é representada como amiga ou irmã, podendo ser secretária, trabalhadora do sexo, cabeleireira, transeunte ou dona de casa. Homens assumem personagens de policiais, empresários, assaltantes, entregadores e motorista de aplicativo.

No quesito fisionomia, as mulheres em sua maioria são jovens, brancas e loiras; e os homens jovens brancos, tatuados e musculosos. Na busca por categoria trans e travesti aparecem atrizes passivas; e na busca por categoria shemale, em sua maioria são negras e ativas, relacionando a mulher negra ao falo grande e reforço da objetificação racial. Outras categorias buscadas têm relação com as mulheres lésbicas e bissexuais, com os mesmos resultados e recortes de busca.

Ao debater o consumo do material pornográfico trans acessado por homens heteros cis, percebemos o desejo oculto deles pelas mulheres com falo. O acesso a esse tipo de conteúdo pelo homem com que você mantém um relacionamento monogâmico faz dele um gay? Este é o principal pensamento das mulheres cis ao saberem que estes conteúdos são acessados pelos seus parceiros e companheiros, assim como o pensamento da sociedade em geral.

Relacionar qualquer atividade do anal masculino é um tabu e quase que um fundante à homossexualidade. Mas não, se ele acessa este conteúdo ele não é gay, a homossexualidade vai para além de práticas sexuais, e esse pensamento só reforça que você, mana feminista, não considera mulheres trans como mulheres.

Falamos sempre da desconstrução dos homens, mas não falamos sobre a desconstrução de mulheres cis sobre os homens que se relacionam com mulheres trans. Para muitas mulheres cis, homens que se relacionam com trans não são “homens de verdade”.

Mas o que pode levar um homem cis hetero a acessar conteúdo pornô trans? São muitos fatores, sendo os mais relacionados às práticas sexuais de penetração masculina, ao corpo da mulher com falo, as desinibições, o não pudico, os de caráter fetichista…, mas quero falar dos não relacionados, dos desejos reprimidos dos homens cis e as suas dificuldades em se relacionarem sexualmente com uma mulher cis.

Relatório do Pornhub sobre tendências de buscas no Brasil em 2019 (Foto: Reprodução).

Somos uma sociedade que construímos nossa persona com sexualidade e identidade pré-definida, já determinada e compulsória. Somos desde o nascimento já pré-programadas sobre o ser mulher e o ser homem. Não falamos sobre orientação sexual, sobre identidade de gênero, a partir de um debate amplo das diversas formas de relacionamentos, de amores, de oportunidades. Existem pesos sociais para os homens, nos quais estes devem dotar de caraterísticas sempre viris, fortes. Um homem não pode ter características ditas femininas, porque ele é automaticamente considerado uma marica, um gay, uma bichinha, e isso não é aceitável na sociedade patriarcal.

Uma das repulsas dessa sociedade para com mulheres trans é exatamente de recusarmos o privilégio de termos “nascido homens”. Abdicamos do maior privilégio existente na sociedade, que é o “nascer homem”, então devemos viver conforme a sociedade dita as regras para as mulheres. Se somos mulheres, queremos viver como mulheres, devemos nos unir nas dores e nas dificuldades em ser mulher, mesmo existindo todas as dificuldades da sociedade em reconhecerem mulheres trans como mulheres. Homens que consomem conteúdo pornô trans, em sua maioria, não reconhece as mulheres trans.

Mas, então, pode um homem cis se relacionar com uma pessoa trans? Pode falar sobre passividade anal com sua companheira? Para a grande parte da sociedade não. Sobra, portanto, para estes homens viverem no anonimato ao acesso de conteúdo pornográfico, do sigilo profissional ao contratar trabalhadoras do sexo, de casamentos mal resolvidos, de relações abusivas.

Se um homem na intimidade com sua namorada/esposa pede para “experimentarem coisas novas na vida sexual”, como a penetração masculina, muitas mulheres acham que o seu parceiro é “viado”, gay, homossexual por pedir isso. Me questiono, se um homem que antes não pedia um dedinho e, agora, pede, seria gay por isso? Mulherada, um dedinho não o faz ser gay, é tesão do momento, do desejo, da experimentação.

Oras, durante anos a sociedade dizia que mulheres decentes não usavam batom vermelho, não realizavam sexo anal, jamais poderiam fazer sexo oral. Nos reinventamos, falamos o que desejamos ou não na prática sexual, alternamos de parceiros sexuais, conquistamos todos estes direitos, mas porque o dedinho no edi[7] do namorado ainda é um tabu tão grande?

Só quero deixar aqui registrado que se você não é confortável em realizar isso, não tem a obrigação de fazê-lo, mas pode ajudar na performance caso sinta vontade. Pode ajudá-lo a comprar um brinquedo, a ele próprio usar o dedinho. Estimule ele a fazer isso, mas não tente repreendê-lo, repudiá-lo. Por vezes, temos desejos imensos desde nossa adolescência que foram reprimidos pela sociedade, o que faz desse tema um assunto difícil de ser abordado, ainda mais para homens que devem demonstrar toda a convenção societária imposta.

Atualmente, são comuns e de fácil acesso atendimentos para casais com profissionais especializados em psicologia e aconselhamentos sobre sexualidades, identidades e vida sexual saudável. Outras formas de conhecimento do corpo também se tornaram mais comuns e sem tabus como o tantra. Para a terapeuta tântrica, Angela Albino, um dos aprendizados mais importantes que o tantra fornece é a desconstrução da ideia do sexo e da sexualidade à genitália. Para a terapeuta, “quando se percebe o corpo todo com um potencial orgástico, as perspectivas de uma vida sexual plena mudam completamente”. Relato de forma pessoal que já participei de uma sessão de tantra com a terapeuta Prem Chandra, e vos digo, é um processo transformador, único e libertador.

Precisamos debater dentro do feminismo o incentivo que devemos fazer aos homens para terem abertamente relações públicas com pessoas trans. Estamos debatendo isso nas nossas práticas diárias? Estamos promovendo a libertação de todas as mulheres? Seria o meu feminismo o de conveniência? Se a pessoa que temos relacionamento, algum familiar, algum amigo, contar que sente desejo ou atração por pessoas trans, estamos preparadas para incentivar? Estamos preparadas para dialogar quanto a isso? As dinâmicas sociais estão em constantes processos de mudanças, mas estamos preparadas para isso?

Manas, caso você compreenda que ele tem esses desejos e tope realizá-los, seja com um brinquedo, um cintaralho, tantra ou o que for, e mesmo assim ele continue à procura de pessoas trans para se relacionar sexualmente, isso diz respeito a como você vai lidar ou não com os processos de traição, de confiança e de cuidado com o seu espaço físico.

Eu vejo e tenho diversas amigas que topam vários desejos dos namorados, mas mesmo assim eles continuam a procurar mulheres trans para realizarem os seus desejos (?), com isto, voltamos ao nosso debate inicial de que o tesão ou desejo destes homens é da mulher com falo.

Agora, como manas de luta, importante destacar que não estamos em uma competição, sofremos igual vítimas do machismo, do patriarcado e do capitalismo.

Penso que nós, como mulheres feministas que buscamos a emancipação das pessoas, da nossa sociedade no geral, devemos lutar diariamente contra o conservadorismo e o capitalismo existente nas relações. Neste texto não busco inocentar ou punir os homens, busco apresentar para vocês que muitas podem estar em relações abusivas que até desconhecem em alguns casos. Que para além de amarras da sociedade que são colocadas nas mulheres, homens também sofrem pelo machismo, sexismo e patriarcado.

Que para além de relacionamentos complexos, onde, muitas vezes, práticas sexuais são restringidas por preconceito e tabu, uma terceira pessoa também sofre por ser usada, sofre por ser considerada somente fetiche e, muitas vezes, é assassinada por conta do “sigilo” que a situação requer, afinal o desejo transcendeu a tela do celular, do tablet, do computador, dos mais variados websites.

Que relacionamentos se tornam frustrantes e abusivos pelo consumo de material pornográfico, dos estereótipos corpóreos, de práticas sexuais que não temos interesse em realizar e que podem resultar em violência sexual, a qual muitas vezes não identificamos. Que a reprodução das práticas e posições sexuais, realizadas por homens que assistiram algum conteúdo, pode ser frustrante para ambos. Mas digo, de todo o coração, que se você assiste com ele, se fazem ou reproduzem as imagens, e a vida sexual de vocês está ok para você, então está ok para mim, mas quando assistir novamente, leia como apresentei antes as categorias e segmentos que são realizados nas buscas.

Simone de Beauvoir em sua obra “Deve-se queimar Sade?” aborda as representações no sexo como formas de manter a preservação social de dominação, da atribuição dos papéis sociais e da existência do poder no sexo. Marquês de Sade marcou sua biografia e literatura por uma vivência sexual com práticas não convencionais para a época, com desvios do comportamento considerado normal, utilizando do poder da sua posição social para isso.

O poder também se faz presente nos enredos dos filmes pornográficos, onde as mulheres em sua maioria são subalternas aos homens. O poder, no que diz respeito ao homem cis, está no falo que lhe foi atribuído ao nascimento, que reafirma para si a sua figura dominante e de poderio, único e exclusivo. Mas quando transcrevemos o falo para a mulher trans, este acaba sendo objeto de adoração, mas principalmente do desejo. O desejo de talvez algo proibido, onde o seu consumo acontece muitas vezes na pornografia trans. Mas este desejo fica no oculto, no sigilo, na discrição.

Se cobramos maiores participações das mulheres em cargos, ocupações, espaços, da ciência, a pornografia não deixa de reforçar as hierarquias e as relações de poder, relacionada de forma geral à opressão. Se buscamos um projeto revolucionário na sociedade, podemos questionar a participação de mulheres na criação deste conteúdo para mulheres, produzindo mudanças em uma indústria que é dominada pelos homens.

As problemáticas que trago aqui neste artigo não são desassociadas das outras complexidades que enfrentamos na mídia em geral, apenas devemos observar a produção na sua totalidade, sendo por nós consumida ou não.

Agora, me respondam, se é imenso o número de procura por material pornô trans, por que somos excluídas da sociedade? Por que a admiração que é existente na internet não sobressai para a vida real? Por que quando saímos do pornô e ocupamos os territórios da sociedade somos violentadas? Como o país que mais consome pornografia de mulheres trans e travestis é, em contrapartida, o que mais assassina pessoas trans?


[1] O que o consumo de pornografia diz sobre a sexualidade do brasileiro? – 29/01/2018 – UOL Universa

[2] Termo utilizado nos EUA para se referir a travestis. Do She (ela) e Male (homem). Conforme conversas com algumas pessoas trans do país, é um termo ofensivo, equivalente ao “traveco” usado no Brasil.

[3] Coronavirus Update – May 26 – Pornhub Insights

[4] Assassinatos – Associação Nacional de Travestis e Transexuais (antrabrasil.org)

[5] Nas pesquisas para produção deste artigo, encontrei desejos sexuais desde relacionados a filmes de corpos enrolados em plástico PVC para alimentos, ou de extremos, ou conhecidos por “Hard”, com práticas de  coprofilia, sendo prática sexual ou prazer sexual por fezes.

[6] Psicólogo alerta: aumento de consumo de pornografia causa danos à sexualidade (aleteia.org)

[7] Do pajubá, refere-se ao ânus. Pajubá é um dialeto da linguagem popular constituída da inserção em língua portuguesa de numerosas palavras e expressões provenientes de línguas africanas ocidentais, muito usado pelo chamado povo do santo, praticantes de religiões afro-brasileiras como candomblé, e também pela comunidade LGBTI+.

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Mariana Franco é discente de Serviço Social na UFSC, pesquisadora de Saúde Pública na Universidade Nacional de Brasília (UNB), Conselheira Nacional no Ministério de Direitos Humanos e Colunista do Catarinas.
Veja a coluna da Mariana Franco