Em Florianópolis (SC), a mobilização para o 8 de Março, Dia Internacional das Mulheres, ocorre por meio de encontros abertos, com a participação de movimentos sociais, coletivos feministas, organizações políticas e ativistas independentes, que definem prioridades e consolidam um ato unificado na capital. Com o mote “Mulheres Vivas e em Luta”, a Frente feminista 8M Brasil – SC se soma à Greve Internacional de Mulheres em referência à data histórica, que nasceu nos movimentos feministas e trabalhistas dos séculos 19 e 20, e que relembra a luta por direitos, igualdade e respeito, marcada por atos e marchas em cidades de todo o país.

A articulação local ocorre em um cenário estadual alarmante. Santa Catarina registrou 52 feminicídios no último ano, 255 tentativas e mais de 31 mil medidas protetivas foram concedidas a mulheres ameaçadas, segundo o Observatório da Violência Contra a Mulher – SC. É nesse contexto que a organização do 8M ganha ainda mais densidade política, não apenas como preparação para uma marcha que se soma a um movimento internacional histórico, mas como espaço de elaboração coletiva diante da escalada da violência de gênero no estado.

No dia 24 de fevereiro, a sede do Sindicato dos Eletricitários de Florianópolis e Região (Sinergia) recebeu mais uma reunião aberta de articulação. Representantes de diversas frentes de luta se reuniram para definir rumos, responsabilidades e detalhes da programação. 

O chamado público expressa essa amplitude como posicionamento político, plural e inclusivo: mulheres cis e trans, pessoas não binárias, transmasculinas, homens trans, trabalhadoras e trabalhadores, estudantes, negras e negros, indígenas, quilombolas, periféricas e periféricos, mães, pais que gestaram, população LGBTQIAPN+, pessoas em situação de rua e sobreviventes do cárcere.

“Neste ano nos levantamos vivas, vives e vivos porque não aceitamos mais enterrar nossas irmãs”, destaca o panfleto construído coletivamente pela organização. 

“Somos gente. E gente quer viver”

Gabriela Sagaz, da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas (Renfa), integra as comissões de infraestrutura, comunicação e segurança do 8M. Para ela, o ato em Florianópolis se organiza com um caráter político que ultrapassa a data. “O 8M é muito importante politicamente para a cidade. Não é à toa que mantemos, com muita força, sua existência ao longo desses dez anos”, afirma. Segundo Gabriela, o histórico da data na capital catarinense é marcado por pautas que dialogam com o debate nacional, como o 8M Marielle Franco, o 8M Trans e o 8M Sonia Livre.

O enfrentamento ao feminicídio é o eixo central neste ano, e o assassinato da estudante universitária Catarina Karsten, de 31 anos, tornou-se emblemático dessa urgência. Ela foi violentada e encontrada morta enquanto seguia para uma aula de natação na Praia do Matadeiro, em novembro de 2025. 

Gabriela destaca que a frente de lutas do 8M exige políticas públicas eficazes contra a violência que tem ceifado a vida das mulheres e pontua que Florianópolis é uma das únicas capitais brasileiras que ainda não conta com uma Casa da Mulher Brasileira: “Isso reforça a necessidade de irmos às ruas. Logo no início do ano já registramos feminicídio no estado. A frase ‘nossas vidas não valem nada’ nunca fez tanto sentido. Viver sem medo não pode ser privilégio. Precisamos de orçamento real para combater o feminicídio e estruturar campanhas de prevenção. Enquanto houver mulheres e pessoas LGBTs em perigo, nossa luta continua”.

A representante destaca como o contexto local e nacional impacta a mobilização deste ano: “Precisamos que, nacionalmente, as políticas, leis e projetos saiam do papel. Que, no âmbito estadual, o governo assuma sua responsabilidade. E que, municipalmente, também haja compromisso e ação.Todos, todas e todes precisam entender: independentemente de gênero, sexualidade ou raça, não somos objetos. Somos gente. E gente quer viver”, finalizou.

“Quanto mais mulheres conquistam direitos, toda a sociedade ganha”

A mobilização também enfrenta um cenário de avanço de discursos antifeministas e conservadores. Para Vic Borges, presidenta do PSOL Florianópolis e integrante da comissão de mobilização do 8M, “a mobilização tem o desafio de alcançar o maior número de mulheres possível. É com atividades em diferentes partes da cidade, panfletagens, rodas de conversa nas comunidades e periferias que a gente chega.”

Florianópolis é marcada por desigualdades sociais e territoriais profundas, entre centro e periferia, entre o norte turístico e o sul da ilha, entre a Ilha e o Continente. Para Vic, o feminismo que não dialoga com essas realidades perde potência.

“A luta feminista é a luta da mulher trabalhadora. Lutar contra o feminicídio, pelo fim da escala 6×1, pela descriminalização do aborto é lutar para que toda a classe trabalhadora avance”, destaca.

“Não vamos retroceder nos nossos direitos. Pelo contrário, queremos muito mais. Quando mais mulheres conquistam direitos, toda a sociedade ganha”, emenda.

Informação como ferramenta de proteção

Na programação do 8M que ainda está em fase de construção, ganha destaque o lançamento do guia “Mulher, conheça seus direitos!”, no dia 5 de março, às 15h30, na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc).

A publicação reúne 34 dispositivos legais e um roteiro atualizado de serviços essenciais voltados à proteção, saúde e autonomia feminina em Florianópolis. A iniciativa é do mandato da vereadora Carla Ayres (PT) e será lançada durante o seminário “Vivas e Decididas Contra o Feminicídio”, promovido pela deputada estadual Luciane Carminatti.

Em um estado que registrou dezenas de feminicídios no último ano, aproximar a lei da vida concreta é estratégia de enfrentamento. O guia organiza leis municipais, decretos e resoluções em eixos como Saúde, Proteção contra a Violência, Moradia, Maternidade e Direitos LGBTQIAPN+, além de reunir contatos atualizados da rede de atendimento.

Para o dia 8, a programação contará com rodas de conversa, atrações culturais e a grande marcha. De acordo com a organização, a programação completa de atividades estará finalizada nos próximos dias. Mais informações: @8mbrasilsc 

Programação do 8M em Florianópolis 

5 de março: Seminário “Vivas e Decididas – contra o feminicídio”

Local: Auditório Antonieta de Barros — Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), Florianópolis
Horário: 9h às 17h
Organização: Mandato da deputada estadual Luciane Carminatti (PT)
Programação: https://agenciaal.alesc.sc.gov.br/index.php/gabinetes_single/luciane-chama-sociedade-e-poderes-publicos-para-evento-inedito-contra-escal

5 de março: Lançamento do guia “Mulher, conheça seus direitos!”

Local: Alesc, Florianópolis
Horário: 15h30
Inscrições gratuitas: https://forms.gle/kd6CyW3TBgcLoxMKA

7 de março: Piquenique na Praia da Armação: Mulheres Vivas e em Luta
Horário: A partir das 16h
Local: Em frente à Associação de Pescadores – Praia da Armação do Pântano do Sul
(Em caso de chuva, o evento será cancelado)

8 de março: Ato unificado do 8M
Local: Parque da Luz (cabeceira da ponte), Florianópolis
Horário:

  • 9h30 — Concentração com roda de conversa e intervenções culturais
  • 12h — Início da marcha

O Portal Catarinas acompanhará o Março de Lutas com cobertura especial. Em um dos estados com maiores índices de violência de gênero do país, dar visibilidade às perspectivas que resistem é também um compromisso com a memória, com a denúncia e com a transformação. Em nossas redes sociais (@portalcatarinas), fizemos um chamado para construir a cobertura do 8M e do Março de Lutas com você.

Quais histórias precisam ser contadas agora? Que mulheres precisam ser ouvidas? Que pautas não podem esperar?

Seja sobre trabalho, política, violência, cultura, saúde, território, justiça reprodutiva ou enfrentamento à misoginia. Sua sugestão pode virar reportagem (no 8M ou em todo o ano). 

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  • Ediane Oliveira

    Jornalista e produtora cultural, é mestre em Antropologia pela UFPel e doutoranda em Jornalismo na UFSC. Pesquisa mídia...

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