No dia que marca a luta pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres, 25 de novembro, mulheres tomaram as ruas de Florianópolis (SC) pedindo justiça por mais um caso de feminicidio, o nono no mês em Santa Catarina. Catarina Karsten, de 31 anos, era professora e estudante de pós-graduação e foi morta na última sexta-feira (21), enquanto seguia caminho para a aula de natação. A Marcha 25N de Combate à Violência Contra as Mulheres, em Florianópolis, reuniu coletivos feministas e sociedade civil num protesto contra a impunidade de agressores e pelo fim da violência de gênero

Concentrados no Ticen (Terminal de Integração do Centro), manifestantes leram os nomes das mulheres vitimadas nos últimos meses, seguidas pelo grupo que gritava “PRESENTE!”. O trajeto rumo à Catedral, contou com muita comoção, críticas ao prefeito Topázio Neto (PSD) e ao governador Jorginho Mello (PL), e uma parada em frente ao tribunal de justiça do estado para a manifestação pela liberdade de Sônia Maria de Jesus, mantida em regime de escravidão há quase quatro décadas por Ana Cristina Gayotto Borba e seu marido, o desembargador do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, Jorge Luiz Borba. 

O fim da marcha foi marcado pelo minuto de silêncio por todas as vidas ceifadas pelo feminicídio, quebrado apenas pelo sino da igreja principal vindo em sequência e o coro “nenhuma a menos”.

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Crédito: Paula Guimarães/Portal Catarinas.

Para Marlete Oliveira, da Marcha Mundial das Mulheres no núcleo Florianópolis, Catarina ser assassinada enquanto exercia uma atividade comum em um espaço público, mostra como a violência é movida por um completo desprezo à sua condição de mulher.

“O caso ilustra como a violência pode atingir todas as mulheres pelo simples fato de serem mulheres, ligados à posse e o controle sobre o corpo feminino. Isso reflete o padrão nacional da falta de segurança, onde o direito de ir e vir das mulheres é constantemente cercado pelo medo de serem assediadas, violentadas ou mortas, reforçando a lógica machista que tenta empurrar as mulheres para dentro de casa, lugar este que também não estão seguras”, afirma. 

Marlete reforça a necessidade de reconhecer a violência de gênero como um problema estrutural e a responsabilidade do Estado em garantir o direito à livre circulação e o acesso à cidade com segurança para as mulheres:

“Apesar de Santa Catarina ser considerado um dos lugares mais ‘seguros’, os números mostram que as mulheres não estão seguras no estado. Precisamos agir implementando políticas públicas eficazes e em rede, para prevenção e combate ao feminicídio e toda forma de violência de gênero”.

Nesta quinta-feira (27), a Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público da Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) realiza uma audiência pública para discutir a segurança e a proteção às mulheres no estado. Com o tema “Catarina somos todas nós — Pelo direito à vida de todas as mulheres”, a audiência tem o objetivo de expor a gravidade da violência de gênero em Santa Catarina.

Violência contra as mulheres: uma epidemia

Há quase duas décadas, mulheres brasileiras conquistaram um feito histórico: a sanção da Lei nº 11.340, que leva o nome de Maria da Penha, farmacêutica bioquímica e ativista brasileira que se tornou um símbolo internacional da luta contra a violência doméstica após ser vítima de duas tentativas de feminicídio pelo ex-companheiro. Dez anos depois, a sanção da lei nº 13.104, em 2015, que tipifica o feminicídio como o assassinato de uma mulher por razões da condição de sexo feminino, marcou mais um capítulo na luta contra feminista contra o assassinato de mulheres. 

Hoje, a morte dessas mulheres é considerada crime hediondo, com pena máxima de 40 anos de reclusão, mas somente a Lei ainda não é o suficiente. No primeiro semestre deste ano, o Judiciário catarinense julgou 106 casos de feminicídio, quantidade 36% maior em comparação ao mesmo período em 2024. Naiara Brancher, juíza que atua no Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC), reconhece que houve avanços no legislativo, mas reflete que o caminho ainda é longo. 

“É assustador. O que atinge diariamente as mulheres no país — e o que ocorreu com Catarina dias atrás — está longe de ser um caso isolado. É uma epidemia.”

A juíza aponta ainda que reconhecer a estrutura patriarcal e tratar o problema como algo que deve ser mudado desde as raízes é essencial na construção de um plano de ação eficiente para a proteção dessas mulheres. “Os homens têm que ressignificar sua relação com as mulheres. Esse é um passo necessário e urgente.”

Somos todas Catarina

Segundo o Mapa Nacional da Violência de Gênero, maior banco de dados sobre violência contra a mulher no Brasil, em 2025, 7 em cada 10 casos de agressão aconteceram com a presença de testemunhas e 58% das vítimas não denunciaram seus agressores. Entrevistadas pelo levantamento, moradoras de Santa Catarina apontam que os principais motivos para a subnotificação no estado são o medo e dependência financeira do agressor, preocupar-se com a criação dos filhos e a falta de punição. Mais de 1 milhão de mulheres também afirmam que não conhecer seus direitos é uma das principais motivações para não denunciar.

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O estado que carrega o nome de uma santa martirizada, não conseguiu salvar mais uma Catarina. Santa Catarina de Alexandria foi morta em 287 d.C, por sua recusa em ceder as vontades de um homem em posição de poder, um imperador. A produtora cultural e militante pelos direitos humanos, Elaine Sallas, lamenta: “Nossa Catarina não teve a mesma sorte, na trilha que fazia todo dia seu algoz a vigiava impunemente”.

Para ela, o assassinato de Catarina não deixa lições, mas sim alguns alertas, e um deles é que a luta contra a impunidade deve se fortalecer, combatendo também um sistema de segurança pública falho. 

“Essa ausência de equidade faz com que a gente viva tendo nossas vidas decididas e legisladas por aqueles que não vivem nossas realidades. Que não carregam a tripla jornada, a insegurança de andar na rua sozinha, a objetificação. Imagine, um homem se autorizar a vigiar, seguir, abordar, violentar e matar uma mulher, simplesmente por ela ser mulher”, aponta.

Em suas redes, Elaine prestou homenagens a Catarina: “Falhamos contigo, minha querida, nosso feminismo falhou […] Temos avisado, reivindicado, falado aos quatro ventos sobre o temor de uma mulher sozinha andar pela cidade, seja dia, seja noite. Eles, o poder, fecham os ouvidos”.

Marlete completa que a culpabilização da vítima não é uma opção: “Nos perguntam ‘o que estava fazendo?’, ‘por que estava lá?’, ‘o que vestia?’, ‘por quê estava sozinha?’. Ainda não conseguimos desconstruir a cultura machista e a crença na superioridade masculina.”

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Crédito: Paula Guimarães/Portal Catarinas.

Barreiras políticas

Em junho de 2025, Ingrid Sateré Mawé, a primeira vereadora índígena da capital catarinense pelo PSOL, protocolou o projeto de Lei N.º 19576/2025, que propõe instituir um Programa Municipal de Enfrentamento ao Feminicídio, de nome Lei Alessandra Abdalla, em homenagem a professora auxiliar de educação infantil da rede municipal de ensino de Florianópolis que foi assassinada pelo ex-companheiro em novembro de 2022. Alinhada à Lei Maria da Penha, a proposta buscava a prevenção, combate e erradicação do assassinato de mulheres motivado por gênero, mas foi recusado na Comissão de Constituição e Justiça municipal. 

Entre outros objetivos, os projetos visam eliminar os feminicídios em Florianópolis, fortalecer a rede de enfrentamento à violência contra mulheres e meninas, garantir seus direitos considerando desigualdades estruturais e implementar políticas de acompanhamento para sobreviventes de tentativas de feminicídio e seus dependentes, com atenção às consequências físicas e psicológicas.

Faltando pouco mais de um mês para o fim de 2025, 47 vidas de mulheres foram ceifadas em Santa Catarina. Quantas mais têm que morrer para essa guerra acabar?

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  • ariele-lima

    Natural de Juazeiro, sertão baiano. Estudante de Jornalismo em Multimeios pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), c...

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