Antes mesmo do meio-dia, tambores já ecoavam sob as árvores do Parque da Luz, em Florianópolis (SC). Entre cartazes, bandeiras abertas e diferentes perspectivas que se encontravam, centenas de pessoas começaram a se reunir para ocupar uma das localidades mais simbólicas da cidade, tornando a Avenida Beira Mar em um território temporário de encontro, denúncia e cuidado coletivo.

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Crédito: Maria Eduarda Fotos/Portal Catarinas.

Com o tema “Mulheres Vivas e em Luta”, a marcha organizada pela Frente Feminista 8M Brasil em Florianópolis, integrou a Greve Internacional das Mulheres, realizada em diversos países no Dia Internacional das Mulheres. Em Santa Catarina, estado que segue registrando números preocupantes de feminicídio, o ato político-cultural marcou o grito coletivo pela vida, somando-se a uma jornada nacional de mobilizações que levou milhares de mulheres às ruas em pelo menos 18 capitais brasileiras.

“Estamos aqui em luta. O 8 de março não é dia de flores, é dia de resistência e de refletir sobre as violências e atrocidades que recaem sobre nossos corpos simplesmente por sermos quem somos. É importante estarmos reunidas com a consciência de que a misoginia está na raiz de muitas dessas opressões. Vivemos em um país que lidera os índices de assassinatos de pessoas trans e negras”, declarou a pesquisadora e ativista trans, Mirê Chagas.

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Mirê Chagas | Crédito: Maria Eduarda Fotos/Portal Catarinas.

A roda de conversa sobre feminicídio e transfeminicídio abriu as ações do 8M e buscou pensar o feminismo em suas interseccionalidades, refletindo sobre como diferentes formas de opressão atravessam a vida de pessoas trans. 

O cuidado como prática política coletiva permitiu que mulheres mães participassem da marcha acompanhadas de seus filhos/as/es, em um espaço pensado especialmente para as crianças, com atividades circenses e brincadeiras conduzidas por artistas brincantes. Palhaças e artistas-educadoras ocupavam o gramado com jogos e intervenções lúdicas, enquanto as mães participavam das rodas de conversa que antecederam a marcha. 

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Crédito: Maria Eduarda Fotos/Portal Catarinas.

O som da mobilização para ocupar as ruas do centro de Florianópolis se anunciou pela bateria de tambores, formada por diferentes blocos de percussão da cidade, e pelas batidas e ginga de um grupo de capoeira, transformando cada passo em música e dança.

Nomes e histórias de mulheres assassinadas ganharam destaque no varal pendurado entre árvores e postes do Parque da Luz. Cada pedaço de papel carregava uma trajetória, uma memória de mulheres que foram vítimas de feminicídio.

Abertura dos caminhos: a diversidade guiando os passos da marcha

Na linha de frente da marcha, representantes do movimento LGBTQIAPN+, de representações político-partidárias, mulheres negras e mulheres de axé abriram os caminhos segurando a faixa com o lema deste ano: “Mulheres vivas e em luta: basta de violência contra as mulheres”.

Para a mãe Bettina de Oxalá, do terreiro Teco Tenda Espírita Caminho dos Orixás, é urgente a implementação de políticas públicas que garantam acolhimento e reconhecimento para todas as vertentes religiosas:

“Temos um trabalho muito árduo em defesa das mulheres de axé e na luta pelo direito de todas. Cada mulher precisa de um olhar cuidadoso, inclusive do poder público. Movimentos como o de hoje são fundamentais para mostrarmos que não estamos escondidas: Parece mentira que, em um país com tanta diversidade, ainda precisemos pedir respeito”.

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Mãe Bettina de Oxalá foi uma das mulheres que carregou a faixa da marcha | Crédito: Maria Eduarda Fotos/Portal Catarinas.

A representante das Católicas pelo Direito de Decidir, Myriam Aldana, ressaltou a importância de questionar as tradições religiosas de dentro da própria fé como forma de resistência: “Estou aqui porque sou católica e não posso aceitar que as religiões continuem alimentando a violência contra as mulheres. Chega de sustentar o caráter sagrado do patriarcado”, disse.

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Crédito: Maria Eduarda Fotos/Portal Catarinas.

Mulheres com deficiência e crianças marcaram o ritmo da caminhada, definindo o passo coletivo da mobilização ao construir uma marcha sem hierarquias de velocidade e sem exclusões silenciosas.

“Ainda vivemos em um sistema que hierarquiza vidas, e é urgente retomarmos um princípio coletivo de humanidade. Precisamos lutar contra a dureza de um sistema que nos agride e nos violenta. Hoje, estou em uma cadeira de rodas após um acidente, e percebo como muitas vezes a vida de uma pessoa com deficiência é vista como menos importante do que a de quem consegue caminhar. Esse preconceito revela um entendimento social distorcido que precisa ser desconstruído”, disse Denise Siqueira, atleta e pesquisadora. 

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Denise Siqueira | Crédito: Paula Guimarães / Portal Catarinas.

A marcha pulsou como um mosaico de perspectivas e corpos, mostrando que o feminismo é plural, interseccional e coletivo.

Mulheres cis e trans, pessoas não binárias, negras, indígenas, quilombolas, periféricas, mães, pais que gestaram, estudantes, trabalhadoras, sobreviventes do cárcere e representantes de diversas frentes e instituições marcharam não apenas contra o feminicídio e seu aumento alarmante em Santa Catarina, mas também pelo direito à vida, à segurança, à autonomia sobre os próprios corpos, à liberdade reprodutiva, à igualdade salarial e social, contra a escala 6X1 e todas as formas de violência que atravessam a vida das mulheres.

Cada passo da marcha era um grito coletivo de resistência, memória e denúncia, reafirmando que a luta feminista é ampla, urgente e sem fronteiras.

Mulheres artistas também ocuparam o espaço com performances em pernas de pau com cartazes que diziam “Viva livre nas trilhas”, em memória e em denúncia ao feminicídio da estudante universitária Catarina Karsten, assassinada em 2025 enquanto seguia para uma aula de natação na Praia do Matadeiro, em Florianópolis.

Lutas que atravessam fronteiras

A marcha também rechaçou o imperialismo e as políticas de Donald Trump, denunciando como suas decisões ampliaram a violência contra as mulheres e incentivaram retrocessos globais. Em uma intervenção político-artística, uma artista utilizou um boneco em alusão a Trump de forma irônica, mostrando, através da arte, a importância de enfrentar o imperialismo e as políticas anti-imigrantes que afetam diretamente a vida e os direitos das mulheres ao redor do mundo.

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Crédito: Maria Eduarda Fotos/Portal Catarinas.

O ato também trouxe à pauta a defesa da soberania nacional, reafirmando que a luta feminista não se limita às fronteiras internas: garantir autonomia política, econômica e social para os países é parte de proteger as vidas e direitos das mulheres contra interferências externas e políticas neoliberais que aprofundam desigualdades.

Nesse contexto, a internacionalista e ativista da causa palestina, Rafiqa Salam, declarou que denunciar as violências internacionais é se somar a uma luta anticolonial: “A causa palestina é uma luta de denúncia e resistência. O que ocorre ali configura um genocídio geracional, que busca impedir o crescimento e a continuidade da população palestina. É uma luta anticolonial e contra o imperialismo, mas também, acima de tudo, uma luta pela vida, como vemos hoje no Irã, onde crianças estão morrendo. São gerações inteiras que desejam resistir e existir e estão sofrendo ataques à sua condição de existência”.

A dimensão antirracista da mobilização também esteve presente nas falas das participantes. Gabriela Santana, militante da Frente Negra Revolucionária, destacou que o 8 de março é um dia de luta da mulher trabalhadora, especialmente das mulheres negras.

“Marchamos pela vida das mulheres trabalhadoras e também para denunciar as violências que seguem acontecendo com Sônia Maria de Jesus. O capitalismo nega oportunidades e empurra as mulheres negras para os piores salários. A vida da mulher negra continua sendo uma das mais atingidas pelas desigualdades.”

Já Laís Chaud, psicóloga, presidenta municipal da Unidade Popular pelo Socialismo (UP) em Florianópolis e dirigente nacional do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) criticou o contexto político e social do estado.

“Santa Catarina é um estado marcado por contradições: ao mesmo tempo em que vemos o avanço de posturas autoritárias, também cresce a luta popular. Nas comunidades, enfrentamos cada vez mais violência policial e retirada de direitos. O aumento das mobilizações em Florianópolis mostra que as pessoas estão dizendo basta. Sem organização e luta, não vamos conseguir transformar a nossa realidade”, pontuou. 

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Laís Chaud | Crédito: Juliana Saldanha.

Uma das referências históricas do feminismo em Santa Catarina, Clair Castilhos, esteve presente na marcha. Militante do movimento sanitarista, que deu origem ao Sistema Único de Saúde (SUS), ela é reconhecida por sua atuação contra a violência de gênero e pela defesa da ampliação da participação política das mulheres.

Primeira mulher a ocupar o cargo de vereadora em Florianópolis, Clair foi homenageada durante o ato e lembrada em diversas falas ao longo da mobilização. “Aqui como sempre, marchando, em defesa do feminismo e com todas as mulheres que aqui estão na luta”, afirmou Clair ao Catarinas. 

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Clair Castilhos | Crédito: Maria Eduarda Fotos/´Portal Catarinas.

“Quantas mais têm que morrer pra essa guerra acabar?”

Ao som desta frase, um dos maiores gritos da marcha foi a luta contra o feminicídio. De acordo com uma das articuladoras do ato e integrante do Movimento de Mulheres Olga Benário, Celina Centena, a manifestação referenciou a perspectiva de quem quer viver:

“Diante do aumento da violência e dos casos de feminicídio, que cresceram muito no final do ano passado e já somam oito apenas neste ano, incluindo um feminicídio duplo de mãe e filho, as mulheres querem ser ouvidas. Manifestações como esta são o auge de nossa voz. Não podemos mais ficar paradas diante das violências. Este é um ato político: as mulheres são organizadas, têm poder na construção de mudanças e precisam exercer cada vez mais essa força”, disse.

Durante o trajeto, a manifestação enfrentou um momento de tensão. Com a interrupção temporária do trânsito para a passagem das manifestantes, motoqueiros começaram a buzinar, avançando com as motos e dirigindo insultos às manifestantes. A situação se agravou quando policiais militares sem preparo para a situação, lançaram gás de pimenta em direção à marcha.

Em meio ao tumulto, um dos agentes chegou a segurar um manifestante pelo pescoço. Para a organização do ato, o episódio evidencia não apenas a violência policial, mas também a expressão de uma cultura misógina que se manifesta justamente em um dia simbólico de luta contra essas violências. Ainda com a desastrosa atuação da autoridade local, a marcha seguiu seu fluxo

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Crédito: Maria Eduarda Fotos/Portal Catarinas.

O encerramento aconteceu em frente ao trapiche da Avenida Beira Mar. Mais do que integrar um movimento internacional histórico, a marcha se consolida como espaço de articulação, denúncia e construção coletiva frente à escalada da violência de gênero no estado. O ato também serviu como combustível para fortalecer a organização e a resistência do movimento de mulheres, renovando energias e reafirmando a importância da luta coletiva.

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  • Ediane Oliveira

    Jornalista e produtora cultural, é mestre em Antropologia pela UFPel e doutoranda em Jornalismo na UFSC. Pesquisa mídia...

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