Parte da obra “Mulher sentada com joelho dobrado” (1917), de Egon Schiele

Nós, mulheres plurais

Postado em 07/06/2017, 19:51

Por Daniela A. Rabelo e Bianca Simas.

Existe uma ponta a outra do Brasil que une tanta gente, impossível pensar. São tantas vozes, inúmeras aqui, distantes e próximas umas das outras, todas dançando na minha cabeça. O site do IBGE se abre e vejo aquele risco laranja que corre como fogo de um lado a outro mostrando o aumento da população brasileira. São vinte segundos de tempo médio para que veja que uma linha ligue um infinito a outro. O risco laranja é rápido, voa, cresce, ganha corpo. Tem nome e sobrenome: crescimento populacional.

E aqui temos uma parada estratégica, ainda que o laranja se mantenha vivo, riscando em vinte segundos mais gente no mundo: ele se robustece, toma vida. Precisa existir em toda plenitude. Vai além do físico: tem aquela conexão com o outro. De uma ponta a outra encontramos elas, forma brasileira cheia de identidade. Mulheres.

O processo é tão rápido que na outra ponta também aqui tem outra. É Bia. Bia está no planalto central, espaço que abraça também tantas milhões de mulheres, um mar de identidades construídas. Na outra ponta ela suspira para mim e diz: é urgente, é preciso, é preciso. Suas palavras se conectam com inspiração. Na outra ponta ela está, bem perto, e estamos aqui a revelar a nossa própria existência.

Bia estuda como Bioética, uma ciência bonita que guarda uma dicotomia neste mundo que vivemos. Ao mesmo tempo que se faz presente, no mais humano em nós, se distancia pelo peso da mudança e de pessoas quando repensam a sua própria condição de ser gente. As palavras da Bia ecoam na minha: ur-gente. Elas nos abraçam, incômodas, necessárias.

É o sino da escola para voltar aqui ao ponto de partida. Bia e eu estudamos mulheres. A Bioética ajuda a entendê-las no seu devir diário, considerando suas fragilidades, suas incertezas. Estudamos a mulher em condição de vulnerabilidade. De uma ponta a outra a outra, Daniela e Bianca, Dani e Bia, se unem pela vontade de oferecer força em cada voz, vozes que não tem escolha.

O assunto que faz parte dos escritos da Bia ainda é um tema persistente: o aborto. Calado, amordaçado, silenciado, se faz presente naquele risco laranja que corre no site do IBGE. Não há paradas para aquela bola de fogo intrépida, que voa aos meus olhos. Bia analisa como o aborto é percebido, entendido, configurado, diante do humano que resiste em discuti-lo.

Dani trouxe, como Bia, um olhar de outra cidade para o planalto e aqui participa de estudos em doenças raras, especificamente uma que resulta em mulheres invisibilizadas pela sociedade por não terem a escolha de exercer o papel que a sociedade entende que as define, o de gerar e parir.

Essa crônica nasceu de reflexões no curso de mestrado da Universidade de Brasília em Bioética. Nasceu da sororidade de duas mulheres, Bia e Dani, que decidiram escrever sobre esse assunto importante e sempre atual: a mulher em perspectiva bioética. Daniela é professora, estudante e leitora ávida do mundo. É uma soteropolitana com coração brasiliense. Empoderar minorias via comunicação e informação é foco em sua vida. Seu tema de estudo são mulheres com doenças raras, especialmente as que tem a síndrome de Mayer Rokitansky Küster Hauser (caracterizada pela ausência congênita do útero e parte da vagina), com foco bioético. Bianca é cirurgiã-dentista, especialista em saúde coletiva e mestranda em Bioética, estuda e fala sobre abortamento desde 1995. Acredita que, independente da decisão que você tomaria, todas as mulheres têm que ter o direito de decidir sobre seu corpo e sobre sua vida.