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Lirous explica as principais diferenças entre pessoas trans, travestis e drag queens para garantir respeito às identidades de gênero/Foto: arquivo pessoal.

Travesti, drag queen, pessoas trans: diferenciar para respeitar as identidades de gênero

Postado em 11/08/2021, 13:38

Tem alguns discursos de gênero confusos que andam circulando pelas redes e causando rebuliço entre as pessoas trans na internet, então resolvi explicar umas coisas aqui: 

1 – Travesti é uma identidade de gênero política e feminina. Foi construída antes dos anos 80′ e é uma identidade fixa não fluida, ou seja, a pessoa não se desmonta por vontade própria. A pessoa é ou não é travesti. 

Então se você ver uma pessoa com características masculinas evidenciando estereótipos masculinos legitimando com as suas performances de gênero também masculinas dizendo que ela é travesti, dentro dos padrões construídos e organizados pelas próprias travestis, ela não é.

É importante que as pessoas respeitem isso, porque por mais conservador que possa parecer, esse local fixo garante que uma parcela da população que não alcança determinados direitos, consiga alcança-los pelas políticas públicas já conquistadas pelo movimento LGBT. 

É muito comum vermos pessoas cisheteronormativas com um batom na boca ou uma roupa rosa dizendo que é travesti principalmente na era de que para muitos ser travesti é o que se apresenta nas redes sociais, mas na hora de bancar o gênero, não assume para a família e nem sai na esquina com o gênero que diz sustentar. 

Travesti não é um gênero fluído, não fui eu quem construiu e é respeitoso lembrar daquelas pessoas antes de nós que mesmo abaixo de violências forjaram um termo específico para se identificarem. 

Não é engraçado dizer que é travesti, pois o termo travesti não é uma piada. 

2 – Não existe mulher ou homem não binário por mais próximo do masculino ou do feminino que você transite. Se é homem ou mulher, já é binário. 

Dentro desse guarda-chuva, falamos que somos todos trans (travestis, homens trans, mulheres trans, transexuais, trans não bináries, não binaries, não binários), porque fugimos da cisheteronorma compulsiva. Mas isso não dá o direito de uma pessoa conscientemente cis e normativa de querer ocupar qualquer expressão de gênero já pré-estabelecida.

Não basta somente você se sentir e querer obrigar que as pessoas te respeitem se você caminha no vale da sombra da cisheteronormatividade mesmo que não tema mal algum e não performatiza o gênero que quer que as pessoas te enquadrem. Se você transita por esse vale de forma a se igualar com outras pessoas que reproduzem a cisheteronorma é muito difícil querer impor que as pessoas te respeitem como gostaria. 

Por isso, é importante que você se reconheça dentro de um gênero, mesmo que temporário, pois foi assim para todas as pessoas trans até se aceitarem ou terem a coragem de se assumir para o mundo. 

Infelizmente conheço pessoas que jamais irão se assumir, conheço travestis e mulheres trans que não vivem o seu gênero por medo de retaliação e isso é super comum e compreensível. Mas elas entendem que o lugar de cisgeneridade que ocupam vai fazer que elas sejam tratadas como cis e tratadas pelo nome de registro. 

Muitas pessoas estão fazendo fama e ganhando dinheiro dizendo que são trans e travestis mas não são, pois, ao sair da câmera, voltam a ser homens e alguns desses que são gays, escondem até a sua sexualidade. 

3 – Drag Queen não é travesti.

Drag Queen é uma coisa e travesti é outra. Drag Queen é arte, a pessoa pode até respirar Drag Queen o dia todo, mas ela não passa montada 24h por dia, a não ser em trabalhos ou performances.

É óbvio que respeitamos a identidade de gênero da personagem e a chamamos pelo feminino. Vários homens gays se tratam no feminino mesmo desmontados e isso não é um problema, inclusive eu acredito que as violências sofridas pelos gays estão mais ligadas a transfobia pela sua performatização de gênero. Sofrem violências de grupos conservadores por serem afeminados ou por não perfomatizarem a cisheteronormatividade. 

4 – Não bináries/binários/trans não bináries são trans. Isso porque fogem da cisheteronorma. Mesmo que sejam mais femininos ou masculinos ainda assim fogem da cisheteronorma. Mas nenhum deles são travestis. 

5 – Homens e Mulheres são binários indiferente da orientação sexual, possuem performances de gêneros e papeis de gêneros estabelecidos assim como indumentária correspondente ao órgão sexual antes mesmo do nascimento. 

Geralmente, os homens e mulheres cisheteronormativos são pessoas que nunca estudam gênero e a forma com que foram constituídos ou como se relacionam com o mundo diferente dos cis LGBTQIAP+. 

Pessoas CIS e Heterossexuais apenas aceitam o que foi designado sem questionar. Infelizmente esse papel de explicar o que eles são, sempre caem sobre as pessoas trans. 

6 – Homens trans e mulheres trans são binários e performatizam o gênero oposto ao que foram designados anterior ao nascimento. 

Vivemos em uma cultura em que as pessoas acreditam que homens têm pênis e mulheres têm vagina sem perceber as demais nuances que orbitam esses dois gêneros como os seus papeis de gêneros e o que condiciona as pessoas a serem homens e mulheres para além do órgão sexual.

Nem toda travesti gosta de ser chamada de mulher, mesmo a travesti sendo uma identidade de gênero feminina. 

Respeitem o gênero das pessoas trans e travestis. Compreendam que enquanto para alguns é uma brincadeira querer “brincar” nas redes sociais dizendo que é uma identidade de gênero que não corresponde com a sua real identidade apresentada, além de criar revoltas em torno das pessoas trans e travestis, faz com que as pessoas que são trans sofram ainda mais violências e sejam impedidas de acessarem locais e políticas públicas por conta da má polarização de informações. O que vem gerando ainda mais essa discussão dentro do próprio movimento LGBT.

As questões de gênero podem até se modificarem com o passar do tempo, mas não tentem inventar moda de uma hora para a outra, pois as coisas não funcionam desse jeito. 

Agora que você sabe um pouco mais sobre gênero, evite fazer brincadeiras que possam vir a violentar ou desrespeitar outras pessoas e não seja mau caráter dizendo que você é algo que não é apenas para conseguir likes, visualizações ou dinheiro tirando a oportunidade de uma pessoa trans que reinvidica esse lugar e legitima esses papéis sendo correspondente ao gênero que se entende, de estar trabalhando ou acessando uma política pública como a de cotas para pessoas trans, por exemplo.

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Lirous K’yo Fonseca Ávila é Dj e Assistente Social formada pela UFSC (2016). Atua com movimentos sociais desde 2004, é voluntária na ADEH – Associação em Defesa dos Direitos humanos desde 2010, instituição esta que acolhe LGBTs vítimas de violência oferecendo tratamento psicológico, social e jurídico gratuito a toda a população desde 1993. Em 2014 tornou-se a Coordenadora Geral da instituição. É presidenta do Fórum Diversidade Grande Florianópolis desde 2016, que reúne mais de 25 instituições filiadas, incluindo OAB/SC, UFSC, UDESC. Atualmente organizadora de grandes eventos de Florianópolis como o POPGAY, O Transforma (maior festival de filmes LGBTs da região sul) e a Parada da Diversidade. Recebeu diversos prêmios sociais, e foi homenageada pela Câmara Municipal, recebendo a medalha Antonieta de Barros, cedida às mulheres que se destacam na comunidade florianopolitana.
Veja a coluna da Lirous K'yo Fonseca Ávila