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Elaine Sallas (50333), é candidata à vereadora em Florianópolis, pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Foto: Divulgação.

“Quero ser vereadora para reverberar as vozes da sociedade” – Entrevista com a candidata Elaine Sallas

Postado em 09/11/2020, 18:19

As candidaturas de mulheres negras, lésbicas, de periferia e alinhadas aos mais diversos movimentos sociais têm ampliado as vozes no debate da política institucional. Apesar das barreiras, essas vozes têm ecoado e permitido novas perspectivas para a resolução das desigualdades e das problemáticas complexas de nossa sociedade.

Nestas eleições municipais, convidamos as candidatas e candidaturas coletivas feministas que estão comprometidas com a pauta dos direitos das mulheres e da igualdade de gênero em Santa Catarina para contarem ao Portal Catarinas sobre suas trajetórias de luta, propostas de campanha e sua relação com os partidos políticos dos quais fazem parte.

Hoje, vamos conhecer a candidata Elaine Sallas (50333), do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), que concorre a um cargo na Câmara de Vereadoras/es de Florianópolis/SC.

PORTAL CATARINAS – Conte um pouco sobre sua trajetória de vida/militância e quais motivações a levaram a disputar essas eleições.
Elaine Sallas: Fui aluna de escola pública, sou filha de empregada doméstica, não sei quem é meu progenitor, venho de família de mulheres negras de pele clara da periferia de Araçatuba (SP). Aos sete anos, pisei num palco pela primeira vez, no centro espírita que minha família frequentava. Quando adolescente, fiz um curso de teatro que era oferecido como política pública pela prefeitura da minha cidade. Tinha um custo simbólico de 20 reais, e eu trabalhava de babá para poder garantir isso. Foi nesse curso que ouvi pela primeira vez uma música do Chico Buarque, que conheci a literatura de Suassuna e soube que existia uma universidade pública com curso de artes. No ensino médio, participei do movimento estudantil e conheci o significado de se organizar. Prestei um vestibular em licenciatura em história na UNESP, mas não passei. Minha mãe sempre dizia que o estudo era a única coisa que ninguém tirava de nós. Ela dizia: “estuda pra passar na pública porque não teremos condições de financiar uma universidade particular”. Incentivada por minha mãe e por uma das minhas irmãs, entrei para o curso de Licenciatura em Artes Cênicas na UDESC. Mudei-me sozinha para Florianópolis. Bolsista na universidade pública em todas as modalidades possíveis, participei do diretório acadêmico do Centro de Artes para lutar pela permanência de estudantes na universidade, por bolsas de estudos e pelos direitos estudantis.

Sou especialista em Arte no Campo e mestre em Teatro, também pela UDESC. Minha pesquisa de mestrado foi sobre os grupos teatrais do Movimento Sem Terra. Participei como docente no projeto “Agentes Culturais da Juventude Camponesa” e ministrei oficinas teatrais, de projeto e produção cultural. Em 2016, realizei trabalho de campo no Acampamento da Juventude Sem Terra, na Curva do S, em Eldorado dos Carajás/PA. Em 2016, estive organicamente na ocupação do escritório do Ministério da Cultura e do IPHAN. A ocupação durou 43 dias e povoou o Centro de Floripa com arte e cultura dos mais diversos tipos. Após todas as batalhas de atos e marchas durante o período do golpe parlamentar, jurídico e midiático que afastou a primeira mulher presidenta democraticamente eleita, senti a necessidade de me organizar e continuar a militância, já que meu outro campo de atuação profissional, o magistério, é também marcado por luta e disputa.

Ao longo desse processo, entendi o significado de ser militante, de construir os movimentos sociais, deatuar junto à frente feminista 8M – SC, de estar na rua lutando coletivamente por uma sociedade mais justa e mais popular.

Em 2019, comecei a atuar na Unidade Popular e Sindical. Aceitei a tarefa de sair como pré-candidata a vereadora em 2020 pela minha organização, que é a UCB – Unidade Comunista Brasileira, no entendimento de que a conjuntura da política brasileira pede a participação mais contundente de nós mulheres também nos espaços da política institucional. 

PORTAL CATARINAS – Você tem conseguido verba para a campanha? Como são divididos os fundos eleitoral e partidário entre as candidatas? Você recebeu apoio e recursos do seu partido?
Elaine Sallas: A verba para campanha decorre do site de financiamento coletivo, mais conhecido como “vaquinha eleitoral”, e também do fundo eleitoral repassado às/aos candidatas/as levando em consideração as interseccionalidades – no meu caso, de ser mulher, negra e lésbica.  Assim sendo, recebi o aporte do fundo eleitoral condizente com os critérios definidos pela direção executiva nacional do partido PSOL. As doações de pessoas físicas são feitas através da vaquinha ou por transferência direta para a conta de doações. Esta campanha é financiada 100% por verba pública e doações.

PORTAL CATARINAS – Quais as principais questões a superar hoje em relação à desigualdade entre homens e mulheres? E quais suas propostas para isso na câmara municipal?
Elaine Sallas: Há muito o que se trabalhar em relação a isso. Existem conquistas e elas precisam ser lembradas e celebradas. Contudo, mesmo com todos os esforços dos movimentos feministas, ainda há muito o que se fazer. O machismo está arraigado na sociedade, a misoginia é presente em espaços institucionais, no trabalho, nos lugares que transitamos, o capitalismo anda de mãos dadas com o patriarcado. Precisamos superar a ausência de mulheres em cargos de liderança no ambiente corporativo e nas vagas públicas. Veja Florianópolis: em 300 anos, apenas 13 mulheres assumiram vagas de vereadoras na Câmara de Municipal. Eu acredito que a presença de mulheres progressistas, de esquerda e feministas nesses espaços predominantemente masculinos pode superar essa questão. Precisamos conscientizar outras mulheres sobre a importância de se organizarem, de denunciarem as violências, de se colocarem à disposição da luta, encorajando para ocupar todo e qualquer espaço onde possamos fortalecer a atuação feminina e feminista.

Ocupar todos os espaços que a nós são negados é o começo dessa transformação. A partir daí, vamos construindo um caminho possível para todas!

PORTAL CATARINAS – Quais os principais temas a serem debatidos, hoje, no município para o qual se candidatou vereadora? Quais propostas apresenta para pautá-los?
Elaine Sallas: Democracia e participação social – Propomos um mandato pela participação da população em todas as instâncias políticas, pelo aprofundamento da democracia e dos direitos humanos e sociais.

Antirracismo e feminismo – Vamos combater incansavelmente todas as formas de opressão, preconceito, injustiça e o genocídio do povo negro. Contra toda forma de violência contra as mulheres e população mais vulnerável. 

Direito à cidade – Vamos atuar firmemente pelo direito das pessoas à cidade, aos serviços e espaços públicos, moradia e vida dignas. Contra a especulação imobiliária e pela moradia popular.

Mais cultura e arte para o povo – Fomentar o protagonismo popular na cultura e produção artística, de forma contra-hegemônica e em oposição à mercantilização dos bens culturais.

Movimentar os equipamentos culturais – Aproveitar o potencial do que já existe e ampliar a oferta, para democratizar o acesso e formar mais público para eventos artísticos e culturais.

Em defesa da saúde e educação públicas – Garantir o caráter gratuito, público e universal da educação e da saúde. Contra a presença das Organizações Sociais (OSs). Pela democratização das escolas.

Foto: Divulgação.

PORTAL CATARINAS – Como pretende atender às diferentes especificidades das mulheres, contemplando em seus projetos as mulheres negras, indígenas, lésbicas e mulheres trans?
Elaine Sallas: Compreendo que a minha candidatura como mulher, negra, lésbica e periférica, tem muito a contribuir com a vivência plural e popular do nosso povo. Este projeto de candidatura vem da necessidade de ocupar todos os espaços que nos são negados. As prioridades aqui são as pautas feministas, o fim da violência contra a mulher, o combate aos machismos enraizados na sociedade, a promoção da igualdade racial, os direitos de crianças e adolescentes, a segurança pública cidadã, a ocupação democrática dos espaços públicos e a participação popular direta. Acredito no poder  emancipatório e imprescindível da Educação e da Cultura, com olhar voltado para as mulheres, para o povo preto e LGBTQIA+. O objetivo é fazer uma construção política aberta para a cidade, criar mecanismos para as pessoas pensarem, opinarem e participarem desse processo ativamente.

Levar as lutas dos movimentos sociais, que tanto me ensinaram, para o legislativo, lutando com toda a classe trabalhadora por uma sociedade mais justa, livre e equânime. Somos muitas na luta pela Cidade que queremos, vamos juntas ecoar nossas vozes.

PORTAL CATARINAS – Enquanto uma candidata feminista, como pretende atuar de forma a enfrentar os discursos reacionários que não admitem que as mulheres tenham autonomia plena sobre seus corpos, que acreditam na existência de uma “ideologia de gênero” e que comprometem a implementação de políticas públicas, principalmente na área da educação, voltadas a equidade de gênero?
Elaine Sallas: Nosso mandato vai lutar pelo fim de todas as formas de violência contra as mulheres e a população LGBTQIA+. Isso passa pela conquista do direito à educação infantil integral para os filhos e filhas das trabalhadoras, por uma educação cidadã e emancipadora em todos os níveis, pela assistência em saúde adequada às mulheres LGBTQIA+, por exemplo. Assegurar o pleno direito das mulheres de disporem do seu próprio corpo passa, também, pelo fim da cultura de estupro, combatendo frontalmente o machismo que impera na política em nossa cidade; e por assegurar o direito ao aborto legal, seguro e universal em todas as formas que a lei permite, que sabemos que não nos contempla totalmente ainda. Lutar por um SUS mais humanizado, capacitado a atuar no entendimento das especificidades dos corpos, é, também, lutar por nós mulheres e população LGBTQIA+. Lutaremos permanentemente pela educação pública, gratuita, de qualidade e socialmente referenciada, combatendo o discurso da ideologia de gênero. É através da formação permanente sobre os temas que ensinaremos nossas crianças sobre a importância de denunciar violências contra as mulheres, de que temos o direito de conhecer nossos corpos e que isso é parte natural do aprendizado sobre saber quem somos. Precisamos explicar para a sociedade que o fundamentalismo religioso e o cerceamento e criminalização da escola e seus profissionais é um projeto de necropolítica, de restrição do acesso das pessoas às informações que podem emancipá-las. As políticas públicas na educação precisam garantir a universalidade dos temas; livros didáticos com temáticas de gênero, etnia e sexualidade precisam estar acessíveis pedagogicamente. Precisamos possibilitar que estudantes entendam que equidade de gênero é sobre ter direitos iguais e ninguém se sobrepor a outrem.

PORTAL CATARINAS – Santa Catarina é o primeiro estado do País em taxa de tentativa de estupro, segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2020. De acordo com o mesmo relatório, em 2019, o estado ocupou a terceira posição em taxa de lesão corporal dolosa contra mulheres no ambiente doméstico. Como você pretende atuar para a redução da violência contra as mulheres em seu município de SC?
Elaine Sallas: A cultura do estupro tem que acabar. Ainda estamos sob o impacto de um escândalo que, infelizmente, precisa ser pensado como aquilo que foi: a exposição brutal de uma mulher que recorre a meios legais para registrar um crime sexual contra um homem branco hétero, cis, hierarquicamente superior à vítima, um representante das elites, literalmente, que usou do espaço público e de seu cargo como chefe do executivo para tal. É preciso que as denúncias feitas por nós mulheres sejam apuradas com mais celeridade, rigor e respeito a nós enquanto vítimas. Estruturalmente não há, no Brasil, apuração adequada dos crimes sexuais, crimes estes em sua maioria contra nós, mulheres. É imprescindível que todos os culpados sejam devidamente condenados, que a lei seja devidamente aplicada, pois a impunidade latente normaliza este crime. Que jamais se considere natural a qualquer homem se valer dos lugares de poder que ocupa para assediar e violentar.

A cultura do estupro emerge a cada escândalo, nas falas misóginas que sempre acusam a vítima e se estruturam nos pactos masculinos e institucionais. 

É preciso ter maturidade, ética e respeito para tratar casos de violência sexual de forma a minimizar os impactos desse crime na vida das vítimas, não o contrário. Para isso, é dever do Estado garantir que os órgãos públicos que, por lei, asseguram direitos às vítimas, existam e funcionem. A rede de apoio às vítimas precisa estar estruturada e em funcionamento, e é dever do legislativo fiscalizar e garantir sua implementação. Combater a cultura do estupro deve ser um compromisso de Estado: precisamos de leis, de políticas públicas e de uma justiça em prol das mulheres. Saúde, educação e segurança, pelo fim da cultura do estupro, pelo fim de todas as violências contra as mulheres!

PORTAL CATARINAS – A sua plataforma política prevê o incentivo à participação da sociedade na discussão e elaboração de políticas públicas. De que forma?
Elaine Sallas: A participação da população em todas as instâncias políticas é o primeiro tópico das nossas propostas de mandato. É preciso ouvir todas, todes e todos os representantes dos mais diversos setores e ainda não abarcados pelas políticas públicas municipais. Não se pode mais conceber política para mulheres pensada por homens, por isso a proposta é trabalhar ativamente com representantes de grupos diversos para pensar o que precisamos para sermos uma cidade melhor. Núcleos de bairros, associações de moradores, movimentos sociais, gabinete aberto, gabinete nas ruas e comunidades. Exercitar a escuta constante das demandas de cada território, utilizar o teatro legislativo como ferramenta de construção de políticas públicas, ou seja, junto às pessoas trazer os temas, discuti-los, problematizá-los e atuar a partir do que emerge desse processo. Parece utópico, mas é possível quando estamos de fato dispostas a ouvir as demandas e atuar a partir delas.  Quando se pensa em políticas públicas de assistência social para pessoas em situação de rua, por exemplo, estas precisam participar ativamente da construção desses projetos. Há organização em todos os movimentos sociais e comunidades, o que falta é interesse de gestores públicos em ouvir as demandas e especificidades de cada coletivo. Para se aprofundar a democracia, os direitos humanos e sociais, é preciso estar na rua, nos bairros, ouvindo, debatendo, criando espaços participativos, viver e pensar a construção da comunidade com ela.

Como sempre coloco, não quero ser vereadora para representar, e sim para reverberar as vozes da sociedade. Política participativa, orçamento participativo, são questões caras a nós, pois é assim que acreditamos que a política deva ser feita. 

PORTAL CATARINAS – De que forma você tem feito sua campanha neste período de pandemia? Que estratégias tem adotado para se comunicar com a sociedade?
Elaine Sallas: Nossa equipe é formada por muitas mulheres. Temos uma equipe de mulheres que cuida da comunicação e redes sociais. Criamos um canal direto de comunicação pelo whatsapp, o “Zap da Sallas”, possibilitando receber demandas, conselhos, dicas e feedbacks. Temos enviado nossos materiais via listas de transmissões, apostado no audiovisual como plataforma de disseminação do nosso projeto para o legislativo. Temos realizado plenárias temáticas e lives nas nossas redes sociais e por canais de outras candidaturas. Acompanhamos atividades dos candidatos a prefeito e co-prefeito. Atuamos junto a multiplicadores/as da campanha disponibilizando materiais em várias partes da cidade e com todas as medidas de segurança sanitária, fazendo inserções em territórios para apresentar nossa proposta para a população.

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