Ádila e a filha de Ada de dez anos/Foto: arquivo pessoal da autora

Por uma maternidade feminista II

Postado em 11/05/2019, 16:26

Chega um tempo na vida das mulheres que a pergunta mais frequente gira em torno do desejo/não desejo por ter filhos, filhas. Esse questionamento, aparentemente desinteresseiro, reflete o imaginário coletivo e ocasiona angustias, independente de resposta positiva ou negativa. Chegar a certa idade sem tal experiência trará, fatalmente, o julgamento de ser olhada como coitada ou a colocará no lugar de egoísta, mau amada e problemática, no mínimo. Há uma classificação tradicionalista entre mulheres mães e não mães. Às que decidem parir, parecem ter um valor social aumentado.

Segundo Solnit, parece não existirem mulheRES – esses 51% da espécie humana com necessidades tão variadas quanto os outros 49%- mas apenas mulhER, aquela que deve casar, gerar descendentes, deixar os homens entrarem e os bebês saírem (Solnit, 2017). A autora coloca que a maternidade tem sido ideia presumida mas as condições para escolhê-la, não. O aprisionamento ao ideário maternal também: está na crença de que são as filhas e os filhos que permitem consumar a capacidade de amar.

Nos primórdios da humanidade, quando não se conhecia a função fecundadora do esperma, a gravidez era vista como um poder sobrenatural. Descoberta a participação do homem no mecanismo de procriação, estabelecida a propriedade privada, e com ela a necessidade de herdeiros, a maternidade foi colada à ideia do casamento, revestida de romantismo e conservadorismo (controle da fecundidade e divisão sexual de tarefas), contribuído para o encarceramento das mulheres brancas de classe média em seus lares, sendo reforçada por uma espécie de psicologia da escravidão e do sacrifício.

Por outro lado, considerando a estrutura das relações sociais marcadas por fatores de raça e classe, em um país colonialista, com histórico de escravidão e desigualdades, a vocalização das mães negras mostra reivindicações ligadas ao direito de ficarem em casa para cuidar e desfrutar da companhia de suas crianças. Elas são violentadas, sistematicamente, há várias gerações pelo capitalismo e pelo racismo: se antes tiveram filhas e filhos arrancados de seus braços e vendidos como mercadorias, hoje, o genocídio da juventude negra representa mais uma dívida com essas mulheres que os perdem ou para a violência policial ou para as milícias e tráfico.

A maternidade ainda traduz relações sexistas, racistas e opressoras. Dados do IBGE mostram que Mães Solo representam 26% dos arranjos familiares, enquanto 3% são formados por homens e seus filhos; mais de 5 milhões de brasileiros não têm o nome do pai na certidão de nascimento; em 74,4% dos casos, a guarda dos filhos menores fica com a mãe e 16,9% é compartilhada. E, somado a este contexto, ainda prevalece o olhar negligenciador do Estado para a questão do aborto em um país que registra 164 casos de estupro por dia, de acordo com o 12º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Como fazer da opção/não opção pela maternidade uma escolha razoavelmente livre?

Para Ana Lúcia Lutterbach, ser mãe não é gestar e parir, essa é uma função biológica. Ser mãe se realiza através do cuidado, do afago, da alimentação (…) Qualquer pessoa que se dispuser pode fazê-lo, independente de seu sexo (O Feminino de Ninguém, Revista Cult, nº 238).

Mães são mulheres que precisam, libertadas das culpas, ter sua humanidade reconhecida e seus limites respeitados. A ideia da maternidade necessita passar pela dessacralização, vencer o “marianismo” e o engodo do padecimento no paraíso. É experiência mundana. Santificá-las tem sido uma armadilha e corresponde a mais uma camada de opressão baseada numa sociedade machista, racista, classista e pseudo-moralista. Mãe cansa, mãe se atrapalha, mãe esquece, mãe transa, mãe perde a paciência, mãe xinga, mãe fala palavrão, mãe estuda, mãe lê, mãe tem compromissos profissionais. Mãe quer um tempo pra si: para estar com as amigas, para ir ao cinema, para dançar, para ir à academia, para se embriagar, para namorar, para viajar, para fazer nada. E nem por isso são descuidadas ou menos amadas.

Atuo e tenho paixão pelo meu lugar de mãe. Também tenho outros papéis que importam, que necessitam de tempo e espaço no meu cotidiano. O feminismo me faz uma mãe melhor. Minha filha me reconhece em potência e limites. Temos uma parceria linda. Ela sabe quem eu sou de verdade. São com essas referências que tem construído o lugar dela no mundo. Minha experiência com a maternidade tem sido revolucionária. EU PUDE ESCOLHER quando e com quem ter uma filha. Penso que filhas/os não deveriam ser fardos, nem objetos de negociações amorosas, tão pouco resultado de violação de direitos (estupro), de cobrança social (maternidade compulsória) ou de pura vaidade (crianças não são bibelôs ou adereços a serem exibidos, explorados, mau tratados – seja por abusadores familiares, seja por lideres religiosos, seja pelo Estado).

Carecemos de políticas de planejamento familiar e de saúde da mulher, conteúdos escolares contemplando o estudo sobre sexualidade e gênero, de creches, do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) sendo executado em amplitude e de muitos outros marcos de civilidade que contemplem a formação de vínculos saudáveis.

Hoje me propus a pensar o “Dia das Mães”, para além do segundo domingo de maio, para além da expectativa do comércio (em aumentar suas vendas em alguns milhões em função da data). Quero lembrar as mães invisíveis, principalmente, daquelas que estão à margem desta comemoração, excluídas do circuito mercadológico e do paraíso (a lógica da mais valia não perdoa). Recordar daquelas que não contam com creches públicas para seus filhos, que não tiveram acesso a serviços de orientação e planejamento familiar, que necessitam deixar suas crianças para cuidar das/os filhas/os das outras – isso quando as “outras” e “outros”contratam mulheres que têm filhos. Das mulheres que saem de casa na madrugada, deixam o almoço pronto e encaram ônibus lotados; que enfrentam longas filas para conseguir uma consulta com o pediatra, após inúmeras tentativas. Daquelas que limpam, cozinham, lavam, passam nos seus trabalhos formais e repetem as mesmas atividades em suas casas. Das que são submetidas a rotinas exaustivas e não recebem um salário condizente às suas necessidades básicas, que não têm direitos trabalhistas respeitados.

Refiro-me às mães que possuem jornadas triplas, quádruplas. Das mães que veem seus filhos mortos pela atuação seletiva da polícia, das que entregam seus bebês para adoção por falta de condições para criá-los e depois soluçam e silenciam suas dores em solidão. Das mães que foram violentadas e ainda assim optam pela continuidade da gravidez. Também lembrar das mães que perderam suas vidas pela falta de acesso a serviços estruturados de interrupção da gravidez e das que foram/são criminalizadas pela prática do aborto. Daquelas que aguentam agressões dos companheiros para que os filhos tenham um teto e um “pai”. Sim, porque mãe solo, já sabe né? Destas que não terão um almoço farto e não serão presenteadas no dia de hoje, que continuarão relegadas a espaços de exclusão, sobras e julgamentos. Dessas, que no auge de nossos privilégios, costumamos condenar e não paramos para empatizar com suas dificuldades.

Daquelas que diferentes da propaganda, não têm espaços para serem cuidadas e nem tempo para se cuidarem. Daquelas que são mais duramente atingidas pelas cortes nas políticas de Assistência Social. Ainda assim acredito que a maternidade pode ser revolução, mas precisamos revolucioná-la primeiro. Talvez o início esteja em repensar a práxis, ver além de nossos muros.

Quando os cuidados com a infância não são compartilhados, não são comunitários, há sobrecargas e resta um tempo ínfimo para as mães se dedicarem a atividades criativas como a escrita, o ativismo, o ensino, o discurso público, às ciências. Qual seria o compromisso coletivo assumido, quando existe um recuo da responsabilidade pública estatal no oferecimento de equipamentos de cuidado, na redução orçamentária para as políticas de assistência social e de educação? Que a exploração capitalista, a domesticidade patriarcal e a luta pelo sustento e a própria maternidade não tire o tempo-espaço das mulheres. Maternidade é lugar de possibilidades!

Acesse o primeiro texto Maternidade feminista publicado há um ano.

Referências
Pelas Famílias Brasileiras. 2019. 

– SOLNIT, Rebecca. A mãe de todas as perguntas: reflexões sobre os novos feminismos. 1º ed., São Paulo; Companhia das Letras, 2017.

*Ádila Fabiana de Moura e Silva Leite é pedagoga, especialista em Assistência Social, educadora feminista, mãe de Ada. In Reflexões Pessoais, Maio de 2019. Contato: [email protected]