“Sou mosqueteiro, sim, senhor. E ganho todas que vier. Tocamos o terror. Com muito amor”. O canto é do time de futebol transmasculino T Mosqueteiros, fundado em 2019 por Tatto Oliveira, Gabriel Cardoso e Geey Cristine, em São Paulo. O nome, além de uma referência à clássica história dos três mosqueteiros, também destaca a letra T dentro da sigla LGBTIAP+.

Atualmente o time tem 39 jogadores oficiais e 109 potenciais atletas, pessoas que manifestaram interesse em participar do coletivo e fazer parte do time. A equipe tem o maior número de títulos conquistados por equipes trans no Brasil e é o primeiro time a ter torcida organizada e hinos próprios.

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Time T Mosqueteiros durante partida | Crédito: reprodução.

Mais do que um time, eles se definem como um espaço de acolhimento para pessoas trans. “O acolhimento é o principal dentro do time, para fazer com que a pessoa entenda que ela é uma pessoa normal, que ela não precisa mudar para a sociedade. Ela precisa mudar para ela. E ali as pessoas começam a enxergar isso e se transformar”, diz Oliveira. 

Além da prática esportiva, o T Mosqueteiros promove ações como rodas de conversa e resistência a ataques feitos contra a população trans, como ao projeto de lei 346/2019, do deputado Altair Moraes (PRB), que pretendia estabelecer o “sexo biológico” como único critério para definição do gênero de competidores em partidas esportivas oficiais no estado de São Paulo. Após a resistência de diferentes coletivos, incluindo o T Mosqueteiros, o PL foi arquivado.

Mas não é só no esporte profissional que pessoas trans têm dificuldade de inserção. Até mesmo nas práticas esportivas como lazer, é pequena a participação da comunidade trans. Oliveira destaca que o esporte tem importância na vida das pessoas. “Eu vejo libertações, pessoas vivendo realmente, trabalhando, tendo uma vida útil, feliz e saudável, por conta dele”.

Em alusão ao Dia Nacional da Visibilidade Trans, atletas do T Mosqueteiros irão participar de uma roda de conversa sobre as trajetórias e desafios enfrentados pela equipe no futebol, no dia 30 de janeiro. Entre os temas debatidos estarão o acesso a vestiários, a lei de exclusão de pessoas trans e a experiência de quem vive essa realidade. 

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A Nossa Arena é o local de treino atual do T Mosqueteiros | Crédito: reprodução.

A roda de conversa acontece dentro do Depois do Treino, evento promovido pela Nossa Arena, local de treino do T Mosqueteiros. “É um espaço construído para mostrar que o esporte é para todas as pessoas, independentemente de gênero ou orientação sexual”, define a sócia-fundadora Júlia Vergueiro. A conversa terá início às 19h30 e a entrada é gratuita. 

Conversamos com Tatto Oliveira sobre a fundação do T Mosqueteiros, a importância dos coletivos e do acolhimento dentro da comunidade trans, além dos desafios para a inclusão dessa população em esportes. Oliveira é funcionário da Prefeitura de São Paulo e, além do T Mosqueteiros, também participa do Coletivo Núcleo de Resistência. Confira a entrevista.

Como foi a fundação do T Mosqueteiros?

Eu sou Tatto Oliveira, um homem trans, moro na região de Capão Redondo, uma região periférica de São Paulo, bem excludente e que não tem muito recurso. Eu sou ativista pelos direitos LGBTs, sou casado, pai de dois pets que estavam nas ruas. Sempre tentei viver uma vida muito nesses conformes, para poder fazer a diferença.

O T Mosqueteiros começou lá em 2019. Eu recebi o contato do Gabriel Cardoso, que é um menino trans também, e a gente veio falando sobre o esporte e a importância do futebol. A partir disso, criou-se a ideia de jogar futebol. Eu envolvi minha esposa, a Geey, que hoje é extremamente participativa, tanto no Núcleo de Resistência quanto no T Mosqueteiros. E aí a gente foi conversando sobre o esporte, o que a gente poderia fazer. Eu já trabalhava dentro de um centro de cidadania LGBT na região da zona leste, e ali já fazia articulações para o movimento, como ativista, nessa luta pelos direitos e nessa discussão eterna sobre o que precisamos e o que a gente pode fazer para melhorar no país em diversas esferas.

Lá em 2019, começamos a bater esse papo para falar sobre o esporte e aí cada um trouxe o que achava importante. O Gabriel com essa demanda do futebol. Falei para fazermos uma reunião no centro de cidadania local. No bate-papo, havia pelo menos quinze pessoas. Até as namoradas participaram, porque é extremamente importante incluirmos as namoradas e namorades. 

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“Um por todos, todos por um” é um dos lemas do T Mosqueteiros | Crédito: reprodução.

Fiz uma articulação para começarmos a jogar futebol na Casa Florescer, que é uma casa de acolhida aqui em São Paulo, que hoje abriga mulheres, trans e travestis. É um serviço da própria prefeitura, pela assistência social. Daí veio a questão: “criamos o time, mas agora como vai funcionar?”. Aos poucos nós organizamos junto com o Transversão, um time também de futebol, que hoje não está mais ativo.

Quem deu o nome do T Mosqueteiros foi a Geey, fazendo essa brincadeira com os três mosqueteiros e simbolizando a letra T da sigla LGBTQIAP+. A partir disso, começamos a fazer os jogos, rodas de conversa. Eu fazia bastante essa articulação com outros movimentos, entidades e coletivos, para estarmos juntos e podermos falar sobre as realidades do esporte. Surgiram várias oportunidades, até começarmos a participar de campeonatos. Em prol disso, criamos um time com 10 pessoas que eram mais atuantes. Tudo foi muito coletivo.

Um dia organizamos uma roda de conversa falando sobre a importância da participação das mães e dos pais de pessoas trans na própria transição. Porque muitas vezes, achamos que é só com a gente, só eu que vou transicionar, mas a minha família e pessoas que estão no meu entorno vão transacionar junto comigo, vão precisar entender a minha realidade hoje e aprender a respeitar meu passado, quem eu fui. Quem construiu o Tatto de hoje foi o meu passado, foi a Tatiana. Tenho que ter muito respeito por todo esse passado. Nessa roda de conversa, uma das mães se sensibilizou com o time e doou um valor para comprarmos os nossos primeiros uniformes. Até aquele momento, não éramos tão vistos como time, como somos agora. A partir disso, a gente se organizou cada vez mais. Tinha eventos que tinham umas 40 pessoas que queriam jogar ou estar perto do esporte, para criar uma torcida e se sentir pertencente ao esporte. Foi um momento muito positivo para o coletivo.

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Torcida do T Mosqueteiros | Crédito: reprodução.

Foi criado o T Mosqueteiros em setembro de 2019. Até o final de dezembro, fizemos jogos. No momento que fomos iniciar os jogos em 2020, que seriam novamente na Casa Florescer, já tínhamos um entendimento de politizar tudo isso e mostrar a importância de chamar autoridades, para enxergarem pessoas trans no esporte. Tínhamos convidado o vereador Thammy Miranda na época, mas foi bem no momento que começou a pandemia. Encerramos os treinos naquele momento, em março de 2020. Em outubro de 2021, voltamos a fazer novos jogos. Participamos do primeiro jogo LBTQIA+ que aconteceu na cidade, fomentado pela Secretaria de Esportes. 

Nesse meio tempo, em 2019, aconteceram algumas atrocidades aos corpos trans que gostariam de estar no esporte, até de se profissionalizar. Um parlamentar [deputado Altair Moraes, do PRB] criou um projeto de lei para que pessoas trans não pudessem acessar o esporte. Ele colocava que os corpos deveriam jogar com o sexo biológico, silenciando pessoas trans. O T Mosqueteiros foi um grande impulsionador dessa luta, junto a outros coletivos. Inclusive a Tiffany, que é uma mulher trans que joga no vôlei, participou dessa luta. Íamos lá de camiseta e bandeira representando, até o momento que o processo foi arquivado. Foi uma vitória muito grande para todo o movimento. O T Mosqueteiros sempre foi assim. Sempre tentando se desvencilhar das pessoas que queriam atrapalhar o movimento, mas com muita força para se manter presente, mostrar esses corpos e a importância de estar presente.

Questões e realidades trans ainda são colocadas à margem da sociedade, mesmo em segmentos que se definem mais igualitários e inclusivos. E dentro desse contexto, o esporte é uma das áreas que vemos exclusões e preconceitos acontecendo de forma ainda mais intensa, além da baixa incidência de políticas públicas de apoio. Como você, atleta trans, compreende esta realidade?

Eu vejo como uma grande dificuldade, mas também entendendo a potência desses coletivos de hoje. Sabemos que existem doze times de futebol, de futsal, ou de society, trans, em todo o Brasil. Eu vejo como essa força pode ser cada vez maior. 

Já temos nossos espaços, mas existem sim as dificuldades para pessoas trans. Há pouco tempo a prefeitura [de São Paulo] fomentou uma bolsa-auxílio para atletas. Eu pensei: “caramba, poderia ter atletas trans aí”. E como vamos conseguir quebrar esse tabu, desconstruir esse espaço de masculino e de feminino e inserir os trans também?

Ao longo desse tempo todo, eu fui me politizando para conseguir cada vez mais ter força, ter espaço, principalmente para poder falar por nós e ser ouvido, porque isso é o principal.

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A luta LGBTQIAP+ faz parte da história dos T Mosqueteiros | Crédito: reprodução.

Muitas das conquistas da luta trans até hoje foram feitas por mulheres trans e travestis. Até o dia 29 de janeiro existe por causa dessas lutas. Mas é o momento de nós, homens trans, começarmos a nos envolver e tornar nossas pautas, a nossa realidade, visíveis.

Hoje eu trabalho na Prefeitura de São Paulo, passei por muitas dificuldades para estar aqui, sofri transfobia em espaços públicos, mas eu preciso ser resistente onde eu estiver. Não posso parar em cada muro que aparecer, ou eu passo por cima, ou eu implodo, de alguma forma preciso ser notado. Eu entendo a importância do movimento, de conseguirmos construir todos juntos. E que lá no futuro, vamos poder participar também desses fomentos ao esporte. Porque eu vejo meninos que são brilhantes nas quadras, têm uma disciplina pessoal muito boa, têm um engajamento muito bom pro esporte, que hoje estão nessa luta e querem desenvolver o esporte trans. Para isso, precisa dessa força toda, não só eu, como um atleta trans, mas todo um coletivo de pessoas que estejam engajadas para isso.

Mais do que um time, vocês se definem como um espaço de acolhimento para pessoas trans. Qual a importância de ter coletivos como este?

Eu gosto muito de contar uma experiência que eu tive, de todo esse movimento de ativismo LGBT+, de luta pelos direitos, pela saúde mental, de poder ser acolhido, de poder olhar para o outro e se ver. É um dos momentos mais importantes que eu já vi dentro da quadra. Foi um rapaz que conheci em um centro de cidadania, onde fazíamos as rodas de conversa, através do Coletivo Núcleo de Resistência. Era um menino quietinho. No dia, ele estava de moletom todo fechado, junto com a mãe. Ele estava começando a transição e foi até o centro de cidadania para pedir orientação e poder iniciar com a hormonioterapia. Hoje eu vejo esse menino na quadra e é uma questão de oito e oitenta realmente. A pessoa saiu de se privar de muitas coisas para hoje estar trabalhando, sair com os amigos, ter uma vida. É a maior resposta desse acolhimento que a gente faz. Porque não é só a pessoa trans. A mãe dele participa, vai aos campeonatos, está lá torcendo por ele.

Então, é uma forma de mostrarmos para o mundo atual que independentemente do lugar que você esteja, se você é uma pessoa trans ou namorado, namorada, namorade, amigo, primo, tio, colega, e vê essa pessoa precisando de apoio, ali é um lugar que ela pode obter. Principalmente na Nossa Arena, que é um espaço bonito para caramba, super bem conservado, hoje tem o banheiro para não binário, as pessoas já olham e falam: “que legal, nunca tinha visto isso”. Ver pessoas que participam junto, se ajudam, é o mais importante desse acolhimento que o time faz. Não só eu e a Geey como presidentes e fundadores do time, mas quem chega hoje, quem já está no time há um ano, quem está há um mês, faz esse mesmo acolhimento. É o que mais precisamos: pessoas para poder trocar informações, trocar experiências, tirar dúvidas.

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A Nossa Arena conta com um vestiário não-binário, patrocinado pela SporTV | Crédito: reprodução.

Quantas e quantas vezes eu vejo ali meninos que antes andavam só de moletom, porque tinham vergonha dos seios e hoje em dia estão na quadra de binder e não se importam com isso. O acolhimento é o principal dentro do time para fazer com que a pessoa entenda que ela é uma pessoa normal, que ela não precisa mudar para a sociedade. Ela precisa mudar para ela. E ali as pessoas começam a enxergar isso e se transformar.

O material vai ser publicado próximo ao dia da visibilidade trans. Qual mensagem você gostaria de deixar para quem está lendo esta entrevista?

Quero falar sobre a importância de sermos resistência a todo momento. Somos silenciados não só no esporte, mas em diversas áreas da nossa vida. Muitas vezes pessoas trans querem voltar para a educação, querem ter uma profissão, sair da vulnerabilidade e não têm força. É preciso procurar espaços e coletivos que vão acolher, porque a gente sozinho não é nada. 

Entendermos que podemos estar em todos os lugares. Que podemos ter um emprego digno, uma saúde digna, mesmo que precisemos muitas vezes lutar por isso. Eu luto até hoje para conseguir cada vez mais ter ambulatórios para pessoas trans na cidade.

E hoje, estando aqui no lugar onde estou, onde eu consegui conquistar esse espaço na prefeitura, luto muito mais ainda por isso. Compreender que as pessoas podem estar em todos os lugares, inclusive na política, que é o principal lugar onde vamos movimentar tudo o que precisamos de política pública para nossa população, não só a trans, mas também a população LGBT+.

Entendermos a importância da gente ter força, ter resistência, se aproximar de pessoas como nós, se aproximar de familiares, de amigos, pessoas que entendem a nossa causa. Também, a importância de começarmos a ocupar cada vez mais o esporte em todos os lugares.

O esporte hoje é uma porta onde eu vejo libertações, pessoas vivendo realmente, trabalhando, tendo uma vida útil, feliz e saudável, por conta dele. E espero que mais times trans possam existir, assim como times não bináries.

Os gays cis já têm quase 99 times em todo o Brasil. Pessoas trans também têm força para isso.

Precisamos nos posicionar, mostrar quem somos, buscar espaços que possam ajudar e apoiadores. Que a gente possa ter pessoas como a turma da Nossa Arena, que faz uma diferença imensa, só de podermos ocupar a quadra. Isso, para muitos, é um sonho, para nós também foi um dia, mas resistimos, acreditamos, nos organizamos e mostramos o valor desse potencial de ter parceiros que apoiam e que incentivam. E que não paremos. Que também lá no futuro, tenhamos 99, 100, 200 times trans ao longo do Brasil para podermos, além de fomentar o esporte, fomentar a saúde e a vida, porque as pessoas trans vivem e resistem todos os dias.

Serviço:

O quê: Depois do Treino recebe o time de futebol transmasculino T Mosqueteiros.

Onde: Nossa Arena – Av. Nicolas Boer, 100 – Parque Industrial Tomas Edson, São Paulo (SP).

Quando: 30/12.

Horário: 19h30.

Entrada gratuita. 

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  • Daniela Valenga

    Jornalista e estrategista de marketing dedicada à promoção da igualdade de gênero para meninas e mulheres. Atuou como Vi...

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