O extermínio da Juventude Negra, a perspectiva de uma mãe: por Mônica Cunha

Postado em 22/11/2019, 8:46

Pertenço a um grupo de mulheres que em sua maioria é negra: todas são violadas pelo Estado, seja porque seus filhos cumprem medidas socioeducativas ou são assassinados pela polícia. Mesmo quando não é a polícia que comete diretamente os crimes, o Estado também é responsável por não conseguir garantir a segurança pública.

Acabei descobrindo que passamos por essas violações devido a uma reparação histórica não realizada que o governo brasileiro deve ao povo negro por conta de toda tortura, racismo, falta de respeito, desigualdade e indiferença que esse povo sofre e sofreu desde a escravidão até os dias de hoje.

A maioria dessas mulheres que eu represento são mulheres negras, sim, que sustentam seus filhos e ainda têm que ajudar algum ente de sua família. Na maioria das vezes, somos mulheres que ganhamos pouco e que ficamos muitas horas fora de casa trabalhando, ou seja, temos pouco tempo para acompanhar o crescimento dos nossos filhos, dos filhos das nossas vizinhas e até mesmo a transformação dos nossos bairros e comunidades.

Conheça um pouco da história de Monica Cunha:

“A execução de Marielle despertou uma lembrança terrível em nós”

Assim como nossos filhos mudam, a realidade dos bairros também muda e não é mais como antigamente, quando tínhamos a confiança de que nossos filhos estavam seguros onde moravam. Já carregamos, mesmo sem nossos filhos estarem envolvidos com algo ilícito, a tão terrível culpa que nos coloca essa sociedade machista e racista.

Culpam-nos por não estarmos no momento em que eles mais precisam, como nas reuniões escolares, nos esportes, nas festas, nas brincadeiras. Culpam-nos também por não aguentarmos mais aquele homem que não faz nada, não tem responsabilidade, não contribui financeiramente, mas é o pai dos nossos filhos.

Então, já começamos a adoecer por conta dessas culpas atribuídas a nós pela sociedade. A partir daí, quando temos a certeza de que esse filho de alguma forma está nos dando mais problemas do que seria de costume, essa culpa ultrapassa e de fato se materializa, você adoece de verdade sem perceber e ainda não pode parar de trabalhar.

Você passa a não ter mais o prazer de cumprir sua tarefa no trabalho com a mesma desenvoltura anterior, a cabeça fica totalmente voltada para aquele filho que está dando problema, você começa a ter sua vida ligada no automático, conforme os dias vão passando você vai se perguntando: “Por que eu? Por que comigo? Eu fazia tudo certo, sei que não sou uma mãe cem por cento, mas não deixo faltar nada.” Mas esse nada a que nos referimos são apenas as coisas materiais como alimentação, vestimentas e algum tipo de diversão.

Nós mulheres negras, quando assumimos todas as situações, adoecemos de uma forma que não tomamos conhecimento por conta dessa vivência totalmente violada, desrespeitada, não só pelo Estado, e, sim, por uma sociedade que tem certeza que a mulher negra é culpada e responsável por tudo: até o nosso ex-governador atualmente preso já falou que somos fábricas de parir marginais.

O nosso adoecimento começa de uma forma lenta, nos dando alarme não muito importante, e quando percebemos já estamos com depressão, síndrome do pânico, perda de memória, até desenvolvermos AVC, câncer, dependência química. E quando temos nossos filhos assassinados, humilhados, difamados, por todo um Estado que desde quando engravidamos nos negou saúde, educação, tempo de lazer e convivência diária, e uma sociedade que naquele momento nos aponta como inconsequentes e irresponsáveis, acabamos adoecendo seriamente e sendo internadas nas emergências dos hospitais públicos.

Temos ataques fulminantes de coração, caindo e morrendo em qualquer lugar, como foi o caso de uma das mães da chacina de Costa Barros, no Parque de Madureira, onde foram assassinados cinco jovens negros com 111 tiros. Ela não foi a primeira mãe a morrer dessa forma, temos outras mães que passaram pela mesma situação, como as Mães de Acari.

Dessa forma, vemos que a bala do Estado não atinge somente uma pessoa e, sim, toda uma família. A partir daí, ela se torna refém dela mesma. Mesmo sabendo que é uma realidade que nos é imposta, todo dia lutamos para mudar essa história porque a gente não pode mudar o início, mas pode mudar o final.

Por conta disto, temos hoje toda esta militância de mães que gritam a todo instante pela vida dos seus filhos, pela educação de seus filhos. Elas mostram o quanto têm direito a parir e a criá-los, obrigando a sociedade e o país a escutá-las e a vê-las como mulheres de luta que contribuem desde sempre, na construção deste país e na construção da nossa história.

O Estado confina e abate nossos filhos negros como animais

*Monica Cunha é cofundadora do Movimento Moleque, articuladora do grupo Café das Fortes e coordenadora da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ), cuja presidenta é a deputada Renata Souza (PSOL). Atou ao lado da ex-vereadora Marielle Franco nesta mesma comissão.

 

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