Antimonumento feminista montado em frente ao Palácio de Bellas Artes/Foto: reprodução

Mulheres exigem justiça e o fim da violência feminicida nas capitais do México

Postado em 16/03/2019, 16:50

Com o grito “Ni una más, ni una más, ni una asesinada más” o 8M nas capitais do México foi de denúncia da violência feminicida, das desaparições e da impunidade que afeta hoje muitas mulheres mexicanas. É por isso que a luta por justiça e pela vida! Por todas aquelas mulheres que foram assassinadas, um cartaz dizia: “Paramos! Pelas que assediaste, obrigaste, desapareceste e assassinaste!!” Logo abaixo, uma manta pintada de vermelho com preto nos motiva: “Porque a memória é luta!

Hoje no México o mosaico de violências tem mirado as mulheres. Os cartazes traziam dizeres sobre a insegurança e medo, mas também sobre indagação, revolta e rebeldia. Há pouco mais de duas décadas o país tem vivido a intensificação das múltiplas formas de violências com um aumento do domínio de territórios pelo narcotráfico e com a captura da vida social pelo Estado neoliberal, que avança no modelo extrativista que colapsa a reprodução plena, livre e digna da vida das mulheres.

Neste 8M unidas dizemos: “Todas as mulheres contra todas as violências”. Como vemos sobram motivos para ocupar as ruas. Nas palavras cantadas: “Somos más, podemos ser piores, aos que não gostem, se fode, se fode!!” demonstra a revolta e liberdade que desejamos.

Uma ação na Cidade do México surpreendeu e emocionou. No centro do país mulheres, jovens, trabalhadoras e crianças que participavam do ato se juntaram as mães de desaparecidas para erguer o antimonumento feminista.

O antimonumento de cor lilás, com uma forma circular e uma cruz, que representa o feminino, e dentro dela a figura de punho erguido, símbolo das lutas feministas por todo o mundo. Nele, foi colada a seguinte frase: “Exigimos Alerta de Gênero Nacional”. Desta forma, ao exigir o alerta de gênero em âmbito nacional, estas mulheres encontraram a forma de evidenciar a impunidade e a insuficiência dos programas e políticas públicas para proteger a vida das mulheres mexicanas, solicitando assim, ações e estratégias do novo governo articuladas as demais entidades federativas (estados).

Erguido em frente ao Palácio de Bellas Artes, um dos museus mais importantes do país, onde está reunida obras dos principais muralistas mexicanos no século XX. A ação coletiva que não economizou esforços abre um precedente importante na luta por justiça e coibição da violência feminicidia: a violência que tortura, que desaparece e mata as mulheres em todo o México.

De acordo com o Colectivo Ratio esta “ação é histórica. Inaugura mais um antimonumento, símbolo da violência que temos sido vítimas em anos, pelo Estado patriarcal e neoliberal”. Ainda segundo o coletivo “nunca neste país assassinaram tantas mulheres. Nunca neste país assassinaram tantas jovens. Nunca neste país assassinaram tantas meninas”. Vale lembrar que o antimonumento que o coletivo menciona como anterior representa o desaparecimento dos 43 estudantes de Ayotzinapa, no ano de 2014.

Após a colocação do antimonumento, tem circulado nas redes sociais uma petição que se pretende entregar ao presidente Andrés Manuel Lopez Obrador e a governadora da Cidade do México Claudia Sheinbaum – ambos recém empossados em dezembro do ano passado. O comunicado é bastante claro e exige o fim da violência feminicida. Leia o manifesto na íntegra no final da matéria.

Sem dúvida, a violência feminicida tem sido o dispositivo de maior opressão das mulheres hoje no México. No presente ano, no mês passado, em decorrência de denúncias de assédios e das sucessivas tentativas de sequestros de mulheres nas saídas das estações de metros na Cidade do México, milhares de mulheres saíram as solicitando proteção das autoridades competentes.

Foto: Montserrat Mendoza Martínez

Entretanto, a violência feminicida exige diversas ações, nas diferentes instâncias da esfera pública. Estas devem contar com a participação de nós mulheres. Promover propostas de âmbito nacional e estadual que reconheça o sentido dessas violências e violações, sem silenciar nossas vozes, é por isso que estamos na luta, por nós, pela vida de todas.

Pois, existe um certo incomodo de nós mulheres com o trato das denúncias, além da impunidade que já é histórica com respeito a violências que nós vivemos, as denúncias ou protocolos sem a devida sensibilidade de seus agentes, mas com os machismos de seus agentes, o que tem feito é revitimizar e culpabilizar nós mulheres, por sermos violadas, violentadas, torturadas e assassinadas!!

Essa violência polimorfa tem que acabar e este ciclo de medo tem de cessar! ¡Vivas Nos Queremos! – gritam todas as mulheres contra todas as violências”.

“As paredes se limpam as mortas não voltam”

Horas após as marchas começaram a enxurrada de críticas que circula nos meios de comunicação na cidade poblana. Uma das cidades conhecidas internacionalmente  pelo número de igrejas que se impõem nas ruas de um dos mais antigos centros histórico dos México.

Dizeres como: “Puebla feminicida” foram pintados nos muros conservadores. Atualmente, Puebla lidera junto a mais quatro estados os maiores índices de tráfico de pessoas, quais destas 70% a 80% são do sexo feminino, entre elas: crianças, adolescente e jovens. E ocupa a posição de sétimo lugar em feminicidios, onde matam 1 mulher a cada 3 dias. E ainda existe a dificuldade de que toda a mulher assassinada seja tipificada como vítima de feminicídio, de acordo com a Comissão Nacional dos Direitos Humanos, o que poderia elevar ainda mais a cifra das mortes de mulheres no estado.

Uma das frases mais ouvidas foi: “Senhor, senhora, não seja indiferente, matam as mulheres na cara da gente”, um chamado, uma raiva, um grito, uma indignação. Cartazes diziam: “as noites e as ruas são nossas” e “me respeite cabrón”. Alguns eram de fotografias e nomes de desaparecidas.

Na praça central da cidade se estendeu um varal com fotos de marchas e de outras lutas que identificamos também como nossas, como imagens de Marielle Franco, Berta Caceres e Lupe Campanur, militantes em defesa de todas vidas. Todas Presentes!!

Varal feminista no centro da cidade de Puebla. Foto: Nicole Ballesteros Albornoz

Ao lado acederam as companheiras zapatistas em uma ação simbólica de muita luz, com velas e distribuindo pañuelos verdes. Todas gritaram marchando: “Aplaudam, aplaudam, não deixem de aplaudir, o pinche machismo tem que morrer!!”.

As pautas exigidas pelas mulheres poblanas neste 8M não são somente pautas colocadas pelos feminismos, são pautas de desobediência e rebeldia ao conservadorismo que historicamente forjam as identidades de género na região e tem limitado nosso andar.

“Não paremos só o trabalho. Paremos o mundo” – frase recuperada de uma das mantas levantadas pelas mulheres em Puebla. Sem dúvida, a luta é de todas e o apelo é para todos, homens e mulheres a transformar nossas relações. Definitivamente, o pinche machista tem que morrer.

 

“Tirem seus rosários dos nossos ovários”

É o que dizia na foto exposta em frente à Catedral no centro de Puebla e foram os gritos que explodiram na vozes de todas que marcharam em muitas cidades. Nas cores verde e roxo, colorimos o dia e a noite!!

O Paro Internacionalista Feminista ou a Greve Internacional Feminista no México tem se conectado aos demais blocos e ações de lutas de mulheres de outras partes do mundo em razão da violência. Pauta que constantemente tem sido (re)significada e (re) conceitualizada pelos estudos e redes feministas no México.

Nessa luta por justiça e pela vida pedimos: “Aborto legal já!!” – foram muitos os cartazes e gritos que reconhecem a urgência da legalização em todo o país. Somente na Cidade do México a prática foi legalizada a mais de uma década, restringido assim, o direito nas demais entidades federativas. Por este motivo, a luta pelo aborto teve um lugar de destaque nas marchas.

Los pañuelos verdes que simbolizam a luta a favor da legalização do aborto das mulheres argentinas no ano passado foi símbolo do 8M este ano. No canto: “Aborto sim, aborto não! Isso quem decide sou eu”. Nos cartazes: “Aborto legal e seguro em todo México”, nas mãos de crianças “Menina e não Mães” foi o apelo das mulheres mexicanas em favor do aborto.

Com a aprovação da reforma constitucional do estado de Nuevo Léon em que se enfatiza a proteção da vida desde a sua concepção, mais uma vez se criminaliza a pratica das mulheres que desejam abortar. As ruas de Nuevo Léon no #8M estiveram repletas de pañuelos e cartazes verdes evidenciando que criminalizar a pratica é um feminicidio estatal.

Marcha #8México nas ruas de San Luís Potosí. Foto: Montserrat Mendoza Martínez

O tema do aborto, sem dúvida, tem gerado repercussão. Um dia após o #8M autoridades de alguns estados divulgaram preocupação e pertinência da legalização do aborto. Na capital San Luis Potosí, que também foi palco das marchas feministas no #8M, após três dias dos atos circulou na mídia a solicitação de uma sessão extraordinária, no dia 11 de março para apresentar uma proposta de projeto de lei para a legalização do aborto no estado potosino. A iniciativa retoma as vozes dos coletivos de defensoras dos direitos das mulheres que estão na luta há muitas anos pela legalidade da prática.

No âmbito nacional, em um ato simbólico no Dia Internacional da Mulher, porém bastante duvidoso, o presidente Andrés Manuel Lopes Obrador, fez público o lugar que pretende dar ao tema do aborto no país. Para ele, temas polêmicos como o aborto devem ser levados para a Consulta Pública, entretanto, tal mecanismo não garante a legalização da prática.

Em razão disso, o presidente recebeu muitas críticas. Defensoras dos direitos reprodutivos e sexuais das mulheres argumentaram que o direito a abortar não é tema de consulta pública, pois o acesso ao aborto legal e seguro tem relação com a ampliação de garantias, como de saúde e de autonomia reprodutiva. São direitos que devem ser asseguradas a todas.

O debate sobre aborto tem entrado com tudo na agenda feminista e tensionado a esfera política no México, pois trata-se de uma pauta de luta que é urgente para todas nós mulheres.

Este 8M no México foi a possibilidade real de encontros na luta e de luta. A luta que já foi de muitas, agora é todas. As vozes, gritos, palavras de ordem que geram silêncios nos que assistem e alegria com quem se comparte. As mantas, cartazes, pinturas, ritmos, chamas e imagens são as formas renovadas, repletas de capacidades e potência, que as mulheres hoje alimentam o feminismo em nosso continente.

Marcha 8M na capital Puebla Foto: Nicole Ballesteros Albornoz

 

“Alerta! Alerta! Alerta quem caminha a luta feminista por América Latina!

Que tremam, que tremam, que tremam os machistas!

América Latina será toda feminista!!”

 

Comunicado que exige o fim da violência feminicida:

“Desde 1993, as mães de mulheres desaparecidas e assassinadas da Cidade Juárez, Chihuahua, deram nome a uma violência extrema conduzida no México, contra a metade de sua população: o feminicidio, assassinato de mulheres por serem mulheres.

No México se cometem por dia 9 feminicídios (média). Nos últimos 25 anos tivemos um total de 52.210 mortes de mulheres por homicídio no país. Em 2018 foram assassinadas 3.580 mulheres; a cada 160 minutos uma mulher é privada da vida e/o assassinada, demonstrando que alcançamos um nível nunca antes registrado.

Organizações e especialistas no México tem denunciado a falta de punição das violências contra as mulheres e a inexistência de uma política pública para prevenir tais crimes gerando uma espécie de “licença para assinar”. Os assassinatos de mulheres tiveram um aumento de 52% nos últimos três anos. Isto se deve a uma trajetória de impunidade como: Resistência a investigar por razões de gênero; (Re)vitimização das vítimas e famílias; Inadequado manejo do lugar do crime e perda das provas; Inconsistências graves nos documentos periciais; Não se garante os direitos das vítimas; Não existe um mecanismo efetivo de seguimento ao processo para ser avaliada, em caso de que haja a necessidade de sancionar os servidores públicos; e Falta de perspectiva de gênero nas sentenças.

O feminicídio é um instrumento repressivo que preocupa as mulheres e por isso, toda a sociedade. Agredir as mulheres por ser mulheres implica paralisar o funcionamento do país, rompe o tecido social, instala o medo nas relações cotidianas e gera desconfiança do Estado. Onde o temor substituí o diálogo, se impõe o terror e se rompe o Estado de Direito.

Com a instalação deste Antimonumento outra vez falamos: basta. Exigimos o fim da violência feminicida. Hoje 8 de marco de 2019, exigimos caminhar sem medo, participar da justiça, ser reconhecidas como agentes de transformação, sorrir para o mundo e gozar da vida em nossas casas, nas ruas, nos lugares de estudo, trabalho e convivência.

E as que estamos vivas recordamos, lutamos e exigimos justiça e não repetição.

As mulheres não somente desaparecem das ruas, quando vão para escola ou trabalhar. Nós desaparecemos da história, dos livros, das lendas, de suas “verdades oficiais”. Seus monumentos, de valentes homens, de colonizadores e governadores, não nos representam. A história que nos contam e que nos tem retirado de tudo, não é a nossa.

Todas e cada uma das antimonumentas semeada nesta cidade são um símbolo de que existe outras realidades, outras histórias, nossas histórias. A história de que nossas vidas são descartáveis para este sistema, a história de que somos desaparecidas e assassinadas.

As Antimonumentas gritam.

Esta Antimonumenta tem a voz de mulher e grita forte e com raiva. Aqui estamos, estamos vivas e nossas vidas importam, esta é a nossa história e nós a escrevemos!

Esta Antimonumenta fala de todas as mulheres para lembrar que não estamos sozinhas, que estamos organizadas. Que as mulheres são fortes e juntas somos mais. Somos a voz das que já não tem voz.

Que este símbolo seja um espaço de memória e de luta onde possamos nós encontrar, um espaço que cuidaremos todas e nos recordemos da importância de cuidarmos uma das outras. Que saiba que sempre terá uma mulher que te acompanhe até o metrô de noite, que te defenderá e que não te soltará quando necessitar. Que cuidaremos juntas da memória e exigiremos justiça para as que já não estão, que construiremos uma munda melhor para as que virão.

¡Nunca mais um mundo sem a gente!

¡Aqui estamos e estamos vivas!

Nenhuma Mulher Menos, Nenhuma Mulher Mais

¡Nenhuma assassinada mais !

¡Vivas nos queremos!

¡ Nenhuma assassinada mais!

¡Aqui estamos e estamos vivas!

Exigimos (…) que não se retire a Antimonumenta que colocamos frente ao Palácio de Bellas Artes”.

 

 




Nicole é feminista, latino-americana, mulher cis e migrante. Formada em Serviço Social pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), mestre em Serviço Social pela Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). Doutoranda em Sociologia, estuda teorias feministas, luchas de mulheres e feminismos na América Latina e espacilidades.
Veja a coluna da Nicole Ballesteros Albornoz