Linhas da Memória: três anos de Mariana

Postado em 08/02/2019, 9:09

Co-autoria de Alenir Alves, Neuza Lopes e Terezinha Quintão.

 

A reportagem Linhas da Memória destaca as identidades, memórias e afetos de três mulheres tecelãs de Bento Rodrigues, subdistrito de Mariana (MG). A localidade foi destruída pela lama de rejeitos da barragem de Fundão.

 

Três anos se passaram desde o cinco de novembro de 2015, quando funcionários da mineradora Samarco, subordinada das anglo-americanas BHP Billiton Brasil e Vale S.A, sentiram tremores nos prédios da empresa. O abalo foi causado pelo rompimento da barragem de rejeitos de Fundão, onde eram armazenados os resíduos derivados da extração de minério da região. Localizada a cerca de oito quilômetros do subdistrito de Bento Rodrigues (MG) e a 35 da sede de Mariana (MG), os detritos primeiro ultrapassaram a barragem de Santarém, que armazenava água, ganhando ainda mais força.

Transformados em lama, os rejeitos destruíram Bento Rodrigues, seguindo por Camargos, Paracatu de Baixo, Ponte do Gama, Pedras, Águas Claras, Cláudio Manoel, Barra Longa, Gesteira. Impactando mais de 40 cidades, avançaram pelo Rio Doce, até alcançarem Linhares (ES), em 21 de novembro.

De acordo com a Samarco, foram lançados 32,6 milhões de metros cúbicos de rejeitos, correspondentes a 60% da capacidade da barragem de Fundão. Entretanto, para o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o total de rejeitos é ainda maior: corresponde a 45 milhões de metros cúbicos (toneladas), compostos principalmente por óxido de ferro e sílica.

Dentre as incontáveis consequências, a perda. Dezenove pessoas morreram, mais de 600 foram desalojadas e cerca de 37 mil afetadas direta e indiretamente. Mais de dois mil hectares de propriedades rurais foram tomados pela lama, agora impedidas de produzir. Em uma localidade em que a economia era principalmente dominada pela agricultura familiar e de subsistência, além de atividades da Samarco e de suas subsidiárias, a perda também atingiu as subjetividades dos moradores das regiões afetadas.

Está no arrancar do espaço-tempo que os moradores de Bento Rodrigues ocupavam, nas bruscas mudanças no cotidiano, no trauma causado pelo momento da tragédia e pelos dias que se seguiram.

Há três anos, a luta dos moradores é pela reconstrução de memórias, abaladas pela passagem da lama em Bento, e pelas tantas consequências econômicas, sociais, ambientais. Memórias como de Alenir Alves. Nascida em Barra Longa, mudou-se para Bento Rodrigues junto com o marido há 25 anos, quando o primeiro filho ainda era bebê. No local, a família retirava o sustento da terra, dos animais e do trabalho de Alenir com agulha e tecido.

Reminiscências também de Neuza Lopes, que, aos 19 anos, ficou noiva e decidiu que faria o enxoval de casamento. Para isso, aprenderia a bordar. Dividindo a rotina entre o trabalho em casa, no labor em contato com a terra e com o bordado, Neuza produziu todo o enxoval de casamento. Em toalhas de banho e para a mesa do café da tarde, as paisagens de Bento estavam alinhavadas: a igreja de São Bento, o jardim de casa, as montanhas que circundam o local.

Memórias também de uma época em que era comum todas as mulheres da família aprenderem o ofício da agulha e da linha. Terezinha Quintão deu os primeiros pontos de crochê ao aprender com Silmara, irmã mais velha. Muito antes de casar e ter os filhos, Terezinha já dominava a habilidade do correr da agulha por entre os pontos. Casou e viu os filhos crescerem em um Bento que, hoje, não existe mais.

Como as três moiras do tempo da mitologia grega –  três irmãs que determinavam o destino dos deuses e dos humanos –  Alenir, Neuza e Terezinha buscam alinhavar novos fios de histórias e identidades em suas vidas, três anos após terem sido arrancadas de Bento Rodrigues. As linhas são fortalecidas pelas memórias construídas no subdistrito, arrematadas em sonhos e projeções de um futuro com recordações de um tempo em Bento.

As três hoje são habitantes temporárias de Mariana, não têm o mesmo laço de sangue como as deusas do tempo, mas dividem vivências muito próximas, tecendo relações particulares com o bordado, a costura e o crochê.

Frente ao trauma do rompimento, “sempre seremos as que vieram da lama” é um pensamento comum às três. Capaz de interromper o fluxo narrativo da vida, o trauma abalou o afeto que movia, antes com tanto empenho, a agulha no alinhavar no tecido.

 

Terezinha

“Nunca gostei de ficar parada. Essa confusão que aconteceu acabou comigo. Teve uma fase da minha vida que eu achava que se eu deitasse, estava perdendo tempo.”

Quando o marido morreu, há 20 anos, Terezinha se viu com dois filhos pequenos para criar, no interior de Minas Gerais. A responsabilidade pelo sustento da casa e pela criação dos filhos fez com que Terezinha enfrentasse uma rotina apressada, sem muito tempo para respirar. O dia começava antes mesmo de o sol apontar no horizonte. Ela saía para buscar lenha, cuidava das plantações e arrumava o café da manhã dos filhos. Logo depois, colocava roupa de trabalho e saía para o restaurante da irmã Sandra.

O local era famoso em Bento pela venda de coxinhas fritas e também pela “comida da roça”, servida no almoço e no jantar. A maior parte dos clientes do restaurante eram funcionários da Samarco, que trabalhavam em prédios próximos à barragem de Fundão e em obras nas imediações do subdistrito. Terezinha ficava à frente dos cardápios do almoço e do jantar.

Cozinheira de mão cheia e sem medo de trabalho, também ajudava a irmã a produzir as coxinhas e a vendê-las na parte da tarde. Na maioria das vezes, voltava para casa quando o sol já tinha se pôsto. Arrumava o que estivesse fora de ordem, preparava o jantar dos filhos e começava o segundo turno do trabalho, dessa vez com as agulhas e linhas.

“Mesmo quando meu marido estava doente, eu encontrava tempo para fazer os meus crochês e conseguir mais alguma renda. Depois que ele faleceu, virou um jeito de ocupar a cabeça. Às vezes, quando eu descia para trabalhar, o dedo coçava para pegar no crochê. Parecia um vício, um vício gostoso, que fazia bem.”

O hábito de tecer também era forma de Terezinha complementar a renda da família, principalmente após o marido ficar doente. A tecelã recebia encomendas de moradores de Bento Rodrigues, Mariana, Ouro Preto e Belo Horizonte. A fama de ser uma senhora de mãos hábeis e costura delicada foi repassada de cliente em cliente. “Nunca fui de divulgar meu trabalho, de fazer anúncio. Sempre chegavam até mim por indicação de quem já comprou comigo”, se orgulha.

Depois que o marido faleceu, Terezinha enxergou o tecer como uma forma alternativa de terapia, principalmente para lidar com a ausência do companheiro ao chegar em casa, após a rotina no restaurante da irmã. A sobrecarga de trabalho dentro e fora de casa foi aliviada, de certo modo, a partir das encomendas que Terezinha começou a vender, com mais empenho, a uma clientela já fiel.

“A gente nunca teve muito dinheiro, sobrevivíamos de salário mínimo, mas nunca deixei nada faltar para meus filhos. Quando percebi que tinha essa possibilidade de tirar uma renda dos meus crochês, eu pensei ‘vou atrás! vou pegar com fé’’.

 

Ao ser expulsa de Bento, a família morou em três endereços em Mariana. Terezinha não aguentou ficar na cidade sem viver contrariada: da primeira vez, morou ao lado de república de estudantes, depois em uma casa que apresentou diversos problemas estruturais. Por fim, não suportou a barulheira e a quantidade de carros na rua que tinha de enfrentar toda vez que avançava para além do portão de casa.

Desde o início de 2018, o atual endereço de Terezinha é na Vila Samarco, bairro de Antônio Pereira, distrito de Ouro Preto. Da porta da residência, é possível notar os contrastes entre as casas do bairro, construído para abrigar os engenheiros da mineradora, com as casas de Bento Rodrigues. Muro baixinho, portão feito de madeira e as palmas que todos os visitantes batiam para avisar que chegaram à casa de Terezinha, hoje dão lugar a um muro alto feito de cimento, portão de metal eletrônico e um interfone.

De estilo arquitetônico moderno, bem distante das características das construções de Bento Rodrigues, a casa de Antônio Pereira é capaz de despertar em Terezinha a sensação de que ser uma intrusa naquele espaço. “Vivo a vida dos outros. Não decorei a casa com os meus trabalhos, nem coloquei minhas cortinas de crochê nas janelas, porque não vou furar a parede dos outros. Nem tive vontade de colocar minhas capas de almofada, nem os forros do sofá. Não me identifico com nada que tem dentro dessa casa.”

Todas as noites, antes de deitar para dormir, Terezinha tranca as portas e janelas da casa, arruma a cama com roupas de cama diferentes das que utilizava em Bento, segura o terço que a acompanha desde que chegou a Mariana e pensa, em prece:

“Menos um dia nesta casa, menos um dia em Antônio Pereira”.

Inicialmente, o prazo de entrega das casas construídas em Bento Rodrigues, no terreno de Lavoura, havia sido determinado pela Samarco para o segundo semestre de 2019. O prazo foi revisto e está fixado para o primeiro semestre de 2020. De acordo com o site da Renova, a demora deve-se às dificuldades de terraplanagem em períodos de chuva, além da ampliação do número de pedidos de interferências e visitações de moradores que precisam conhecer os lotes nos quais as casas serão construídas.

Entretanto, nenhuma construção começou a ser feita e os projetos arquitetônicos ainda estão sendo examinados com os moradores. Equipes responsáveis pelas consultas aos desejos das casas ainda visitam os moradores de Bento para construção do projeto arquitetônico. A Fundação declarou que prefere não rever o prazo de entrega.

Rotina em Antônio Pereira

Após o cinco de novembro de 2015, Terezinha acredita que o trabalho com as agulhas e linhas se transformou,  mais uma vez, em terapia, auxiliando a suportar os dias que seguiram ao rompimento: para além do trauma do ser arrancada de Bento Rodrigues, os moradores lidam com consequências físicas, mentais, financeiras, com abalos na memória individual e coletiva. Terezinha tem a sensação que a vida virou do avesso e que ela não é mais aquela pessoa cheia de energia em que a vida encarregou de a transformar. Acostumada com uma rotina agitada, com trabalho dentro e fora de casa até nos fins de semana, Terezinha hoje passa a maior parte do tempo na sala de estar, assistindo à televisão e ocupando as mãos com o movimento das agulhas nas linhas.

Durante os dias da semana, Terezinha vive a mesma rotina. Antes das oito da manhã, Mariane, a filha mais velha, parte para o trabalho na cidade a 20 quilômetros dali. Marlon, o filho caçula, mora em Mariana, no bairro Cabanas, e visita a mãe algumas vezes na semana. O dia é preenchido pelo barulho da televisão, que Terezinha liga assim que a filha sai para trabalhar. “Parece que tem alguém em casa comigo. Deixo a televisão ligada e vou fazendo minhas coisas. Em Bento eu nem tinha tempo de ligar a televisão, hoje só consigo passar os dias com ela me falando alguma coisa.”

Às terças-feiras, costuma entrar no ônibus da linha Antônio Pereira x Mariana, para fazer tratamento fisioterapêutico. Como de costume, sai cedinho de casa e aproveita para visitar a irmã Sandra, que mora nas proximidades da policlínica de Mariana. “Só assim pra eu ficar perto da minha família de novo, uma vez por semana, enquanto aguardo o horário da consulta”. Quando vai à casa de Sandra, Terezinha ajuda a irmã a produzir os famosos salgados que eram vendidos em Bento e que, agora, são vendidos na feira noturna de Mariana, que acontece todas as quintas-feiras na Praça dos Rodoviários. “Chego na casa dela, ajudo a olhar meus sobrinhos, fazer a massa e enrolar as coxinhas. A gente relembra um pouco dos dias em Bento, o peito aperta.”

Na sala de estar, onde Terezinha passa o dia, há dois sofás, um de frente ao outro, uma televisão na lateral, um baú onde está guardada parte dos trabalhos manuais feitos por ela. Muitas roupas, colchas, capas de almofada, caminhos de mesa que foram, e ainda são, produzidos por Terezinha têm destino certo: o baú da sala ou as caixas empilhadas dentro do armário da filha. Não se sentir à vontade dentro da casa que mora há quase um ano impede que ela coloque nas janelas, em cima das mesa e das camas os trabalhos feitos em mais de 20 anos de aptidão.

O jardim na frente da casa está intacto, desde o dia que a família de Terezinha levou as mudanças para o endereço temporário. A falta de conexão com um jardim pensado para ser decoração da entrada de uma casa em bairro de engenheiros, em vez de um espaço para plantar alimentos, faz com Terezinha não sinta prazer com o mexer com a terra.

“Nem tive vontade de plantar minhas verduras. Não tem nem como, o jardim é feito de grama e cheio de cimento em volta. Não tem como furar uma terra, roçar, espalhar semente.”

O armário no quarto de Mariane possui duas portas. Protegida por uma delas, há uma pilha de quatro caixas grandes de papelão, onde está guardada parte das encomendas já prontas, e também os trabalhos produzidos como forma de terapia. No guarda-roupas de Terezinha está encaixotado o enxoval de casamento, também costurado por ela, já amarelando por conta dos dias passados dentro do papelão.

A vontade de guardar tudo o que teceu dentro de armários é fruto do sentimento de viver em uma casa temporária, além do trauma da passagem da lama. “Comecei a fazer uma cortina lá pra casa (em Bento) porque tinha trocado as janelas para umas de madeira. O meu sonho era ter janela de madeira com cortina de crochê. Comecei a tecer, fiquei com uns problemas de labirintite e tive que ficar um tempo parada. Quando terminei, até mandei pintar a casa”.

“Coloquei as cortinas em maio, novembro aconteceu a confusão. Voltei em Bento correndo só para buscar as cortinas. Eles me deram uma hora para buscar tudo de valor.”

Os fins de semana e feriados são religiosamente destinados às idas a Bento Rodrigues, momento em que os filhos têm tempo diante da rotina em Mariana e podem se juntar à mãe. Por sentir que vive a vida dos outros, Terezinha prefere retornar a um Bento que, mesmo inexistente, a faz sentir preenchida e dona da própria vida.

A casa em que a família de Terezinha morava fica na parte mais alta de Bento e não foi destruída pela passagem da lama, mas foi saqueada e sofreu com as intempéries do tempo. Para poder passar os finais de semana na localidade, comprou janelas novas e uma porta com fechadura mais segura. Entretanto, mesmo passados três anos da expulsão de Bento Rodrigues, Terezinha e os outros moradores ainda são proibidos de visitar livremente as próprias casas.

O Decreto Municipal nº 920, de 31 de agosto de 2016, permite que os moradores de Bento Rodrigues realizem visitas às quartas-feiras, sábados e domingos, entre os horários de 8 da manhã e 18 da tarde. Segundo o documento, a permissão é exclusiva aos moradores do subdistrito, anteriormente cadastrados pela Samarco, que devem assinar o Termo de Responsabilidade e Assunção de Riscos, no qual os próprios devem reconhecer “os riscos de sua permanência na área atingida pela lama e adjacências, responsabilizando-se integralmente por sua segurança”.

Ainda de acordo com o documento, a assinatura do termo isenta o município de Mariana e a mineradora Samarco de qualquer responsabilidade acerca de acidentes que possam ocorrer entre os trajetos de ida e volta a Bento Rodrigues, ou nos momentos de visita à localidade. Por descumprir o decreto, a Defesa Civil de Mariana registrou um boletim de ocorrência contra a família de Terezinha, após desejarem passar os finais de semana na casa em Bento. De acordo com a Defesa Civil, o documento foi emitido como “salvaguarda, em caso de alguma ocorrência”.

 

 

Para Terezinha, a casa representa uma espécie de fortaleza: por estar localizada em uma parte alta do subdistrito, a residência serviu como centro de apoio. Junto a familiares e amigos, a tecelã enfrentou o dia seguinte ao rompimento da barragem auxiliando no resgate de pessoas e animais. Além de fortaleza, a casa em Bento era uma espécie de extensão de Terezinha. Da porta de entrada, aos quartos, cozinha e banheiro, tudo era enfeitado por cortinas, roupas de cama, capas de almofada, caminhos de mesa, conjuntinho de banheiro, panos de prato. Terezinha aprendeu a técnica ainda muito jovem, pelas mãos da irmã Silmara. A senhora confessa que a irmã mais velha “nunca teve muita paciência” para ensinar outras técnicas de crochê, bordado ou costura e, por isso, teve que “aprender fazendo mesmo”.

Aprender fazendo parece ser, hoje, o método que Terezinha encontra para sobreviver em uma rotina muito distante da vivida por quase 50 anos. “Tenho que aprender muita coisa que não tinha que passar nessa vida. Aprender a precisar de advogado pra defender nossos direitos de ter a nossa terra de volta, a ter que enfrentar as humilhações que Samarco nos faz passar. Viver em um local muito diferente é um aprendizado que eu não consigo ter. Cada dia que passa eu sinto que tô envelhecendo. Só não quero morrer antes de ir pra minha casa em Bento de novo.”

Neuza

“Nasci e fui criada em Bento. Até que morei em BH por um tempo. Fiquei lá por dois anos para trabalhar, mas não adaptei e voltei correndo pra Bento.”

Neuza viveu 37 dos seus 42 anos de vida em Bento Rodrigues. Conhecedora da vida que brota da terra, trabalhava na Associação de Produtores de Geleia de Pimenta Biquinho, organização tradicional em Bento, onde “fazia de um tudo”: plantava e colhia as pimentas, produzia a geleia, estocava e vendia o doce. O trabalho era em conjunto com outros sete moradores, que chegavam a produzir 400 potes de geleia diariamente.

Depois do trabalho na Associação, Neuza organizava a casa, cuidava dos cachorros e gatos de estimação, das orquídeas, aguava as plantas do quintal de casa. O dia já havia se tornado noite quando Neuza sentava no sofá da sala para se dedicar ao crochê e ao bordado. O tecer era feito para presentear familiares, decorar a casa e também como forma de complementar a renda da família.

Em meio à rotina, ela também encontrava disposição para produzir chup-chups e sorvetes, vendidos na própria região. No cinco de novembro de 2015, a tecelã não ouviu o estrondo do arrastar dos rejeitos pelo subdistrito porque estava com as batedeiras ligadas produzindo os sorvetes, logo após a rotina de trabalho com as geleias de pimenta biquinho.

Da casa, conseguiu recuperar pouca coisa: o notebook que estava usando na hora que uma vizinha gritou da janela que a barragem havia rompido, e a bolsa em que guardava alguns cartões e documentos. “O pessoal hoje brinca comigo que eu saí com o notebook na mão. Mas eu estava usando ele, não ia largar e sair correndo. Passei a mão na minha bolsa também porque lembrei dos documentos.”

Neuza conta que, assim como grande parte dos moradores de Bento, acreditava que a barragem que havia rompido comportava água, e que o retorno para a casa estava garantido.

“Eu fechei as janelas de casa, puxei a porta e abri o portão pros cachorros correrem atrás de mim. Na minha cabeça, ia molhar tudo na minha casa, mas ia dar pra voltar, ia ser tranquilo de limpar e nós estaríamos lá até hoje.”

Na correria para pular dentro da carroceria de uma caminhonete, o notebook caiu e quase quebrou. Por sorte, só uma lasquinha na lateral do computador se soltou. As fotos que estão na pasta de imagens do notebook são o tesouro de Neuza.

De tempos em tempos, a tecelã gosta de ver foto por foto, em um exercício de fortalecimento da memória de um tempo que só existia em Bento. Neuza também mostra as fotos para os sobrinhos que, ainda crianças, viveram pouco tempo de suas infâncias no subdistrito.

“Eu tirava foto de tudo e passava pro notebook. Tem foto da minha casa dias antes da barragem romper, com as cortinas de crochê que eu fiz penduradas, os caminhos de mesa, meus quadros de bordado pendurados na parede. Tirei foto das orquídeas pra mostrar pro meu marido porque, como ele estava viajando, não ia ter a chance de pegar as orquídeas bonitas do jeito que elas estavam.”

Antônio estava viajando a trabalho e quando voltou para Bento, a localidade já estava irreconhecível. Da casa que vivia com Neuza, somente existia a estrutura da construção.

 

 

As fotos registradas por Neuza são, hoje, a grande relíquia da família. Ela nunca conseguiu engravidar. A tecelã fez alguns tratamentos para fertilização mas, segundo ela, a missão era cuidar da sobrinha Sofia. Desde o nascimento, até a menina completar dois anos de idade, Neuza ajudou a irmã que trabalhava o dia todo fora, cuidando de Sofia.

“Graças a Deus não fiquei melancólica, não caí numa depressão por não conseguir engravidar. O tecer me ajudava a tirar a cabeça disso e, depois que Sofia nasceu, eu entendi meu papel”. No computador, há fotos de Sofia recém nascida, das primeiras brincadeiras em Bento, dos aniversários e do convívio com os primos e com os animais. Em Mariana, Sofia mora um andar abaixo de Neuza, junto com a mãe e, quando não está na escola, gosta de ficar em companhia da tia, que faz touquinha de crochê, biquini, saias, blusinhas, tudo a pedido da sobrinha.

De tempos em tempos, a menina pergunta sobre os momentos dos registros das fotos, sobre os familiares que antes moravam em ruas próximas e, hoje, estão em bairros diferentes Mariana e ficam semanas sem se encontrar; e o porquê de existir tanta árvore perto da antiga casa da tia e hoje, não ter nenhuma.

Na cidade de quase 60 mil habitantes, o endereço da família de Neuza fica bem próximo à linha do trem da Vale. Em uma rua repleta de casas, comércios e igrejas, de fato as árvores há muito tempo deram lugar ao concreto. A família que estava acostumada a criar os animais soltos no terreno das casas, hoje se vê obrigada a instalar telas de proteção nas janelas, para impedir que os animais tenham acesso às ruas movimentadas do centro de  Mariana.

A rotina de Neuza, que antes era dividida entre os afazeres na produção de geleia, trabalho na roça, cuidado com as orquídeas e atenção ao tecer, há três anos vivem a mesma frequência. Neuza já não encontra o prazer de ter um cotidiano preenchido de atividades, em sua maioria em contato direto com a terra. Vai, não tão frequentemente, à academia de ginástica, organiza a casa, cuida dos sobrinhos que moram nos andares abaixo do seu, frequenta aos sábados de manhã um curso de costura em máquinas, iniciado em julho deste ano.

O endereço residencial é onde Neuza passa a  maior parte do tempo. Transformado em uma espécie de prédio, a pintura verde limão da construção se destaca na rua próxima à estação de trem. O prédio é composto por quatro andares: nos dois primeiros, moram irmãos, cunhadas, sobrinhos e alguns cachorros. No segundo, Neuza, um gato, dois cachorros e o marido, que vai para Mariana de 15 em 15 dias, por conta do trabalho. No último andar, a mãe de Neuza e a cachorra Ágata.

O afeto com os animais

Em Bento, Neuza tinha gato, cachorro, passarinho e peixe. Não chegou a ter animais maiores no terreno de casa porque gostava mesmo era de cuidar dos bichos domésticos. De Bento, só se salvou Ágata, cachorra vira-lata de porte grande que Neuza sempre tratou como um filhote. Quando se preocupou em abrir o portão para os cachorros e gatos saírem, Neuza tinha esperanças que todos tivessem conseguido se esgueirar para lugares mais altos, como encostas e tantas árvores que haviam no subdistrito.

Nunca mais teve notícias dos bichos que cuidava com tanto carinho, o que fez Neuza se agarrar a uma angústia de imaginar os animais assustados, sem cuidado e alimentação “em qualquer parte deste mundo”. Já realojada em Mariana, nos dias seguintes ao rompimento,

Neuza visitava cotidianamente o Centro de Acolhimento e Assistência aos Animais, estruturado pela Samarco, na esperança de reencontrar algum de seus bichos de estimação. “Eu ia todos os dias, e nada de ver os meus bichinhos. Lá tinha era muito cachorro e gato, e eu não conseguia acreditar como as pessoas, sabendo que os animais foram resgatados, não iam no Centro para tentar encontrar algum dos animais. Tudo que eu queria naquela hora era achar todos os meus.”

Passadas duas semanas do cinco de novembro, Neuza recebeu uma foto no Whatsapp de uma cachorra que havia sido encontrada pelos bombeiros presa em meio à lama. “Ela tava toda coberta de lama e bem magra. Só consegui reconhecer por causa do olhar.”

No dia seguinte, ela buscou Ágata no Centro de Recolhimento dos animais resgatados. Mesmo morando provisoriamente no Avenida Palace Hotel, próximo à rodoviária de Mariana, Neuza levou Ágata para o endereço temporário, e implorou para a gerência autorizar que a cachorra dormisse nos fundos do hotel.

Depois do resgate, Neuza jura que Ágata se transformou em outro animal.

“Ela está muito mais medrosa e carente. Não era assim, não, corria atrás de bicho, latia. Hoje só gosta de ficar atrás de mim, acho que tem medo de que a gente se separe de novo.”

Quando a família foi realojada no prédio verde limão, Neuza tratou logo de arrumar outros animais para cuidar e preencher o dia de afeto. “Meu marido arrumou pra mim essas duas cachorrinhas pequenas que moram comigo, são irmãs. Ele disse que eu estava muito triste, só ficando dentro de casa, sem uma atividade pra fazer. Pelo menos agora tem a distração de cuidar, dar banho, comprar comida, pegar os bichinhos no colo.” Depois, chegou Nico, gato que foi adotado do Centro de Recolhimento da Samarco.

Com a frente fria que chegou a Mariana entre os meses de maio e julho deste ano, Neuza tratou logo de produzir roupinhas de crochê para Ágata, e também para os outros cachorros que moram com as irmãs e cunhadas nos andares de baixo da casa.

“Esse trabalho eu peguei com gosto. Fiz várias roupinhas de tamanhos diferentes e com linhas de cores diferentes também, porque suja muito. Tem que ter bastante roupinha pra trocar.” Desde o rompimento, Neuza produziu algumas peças de crochê para as sobrinhas. O gosto de produzir cotidianamente, como vivenciava em Bento, “ficou no passado, hoje é bem raro eu pegar uma encomenda de crochê”.

O tecer começou aos 20 anos, quando ficou noiva de Antônio, e decidiu que seria a responsável pelo enxoval de casamento. “Uma prima minha me ensinou os primeiros pontos. Aprendi o ponto cruz, depois fui para o crochê, sozinha mesmo. Quando tinha tempo livre, pegava para costurar um pouquinho e, assim, fui indo.” Roupas de cama, cortinas de crochê, toalha bordada com o desenho dos noivos, quadro de crochê com a imagem da igreja de Bento Rodrigues, conjunto de toalhas e panos de prato.

“Tinha muita coisa guardada em Bento. Tudo que eu fiz em uma vida de trabalho, ia colocando em casa, revezando o que ficava em cima da cama, nas paredes…. Bordava as coisas da minha cabeça mesmo, que eu via e queria reproduzir no tecido.” Uma das reproduções é o quadro da Santa Ceia, feito de bordado em tecido, que ficava pendurado na parede da sala, protegido por um quadro de vidro. “O pano está sujo assim porque eu recuperei da lama. Tinha o vidro do quadro mas caiu, quebrou, e eu consegui recuperar o pano. Tudo que eu tinha em casa, eu perdi. A estrutura da minha casa está lá, mas consegui achar só algumas coisas.”

Outra reprodução feita por Neuza é da Igreja Nossa Senhora das Mercês, que resistiu à passagem da lama em Bento e foi tombada como patrimônio pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha). O tecido com a igreja bordada, que antes ficava pendurada na sala de Neuza, hoje fica guardado dentro de uma caixa no armário do quarto do casal. No cinco de novembro, Neuza também perdeu as lembranças do casamento com Antônio: álbum de fotografias, enxoval, objetos pessoais que representavam quase 20 anos de relacionamento.

Hoje, a única memória é o quadro bordado que Neuza resgatou embaixo da lama já em processo de secagem. No tecido, estão bordados Neuza e Antônio com trajes de casamento, junto a algumas flores e à data de casamento. Na lateral do tecido, há um retângulo em branco. No local, havia uma fotografia do dia da celebração da união do casal, destruída pela lama. Em Bento, o quadro ficava pendurado na parede do quarto, e hoje está cuidadosamente embalado em papel de seda, dentro do guarda roupas da tecelã.

Enquanto Neuza não se muda definitivamente para o Bento, que será reconstruído em Lavoura, as memórias do tempo no subdistrito devem permanecer guardadas envoltas em papel de seda, dentro de caixas, armanezadas no guarda roupa. O trauma de perder tudo novamente ainda é latente para muitos moradores de Bento, e não é diferente para a tecelã.

”Quando eu for para a minha casa, lá no Bento, eu devo colocar os quadros de volta na parede, pendurar algumas cortinas, enfeitar direitinho a minha casa. Agora eu não ligo de deixar a casa de qualquer jeito, sem decoração. As poucas coisas que eu consegui salvar são meu tesouro, não penduro em qualquer parede, não. Agora, quando a gente vai de mudança é que eu não sei. Espero estar viva até lá”.

 

Alenir

“Começo bem cedo. O dia que eu não faço crochê nem bordado me sinto até mal, parece que o dedo já acostumou a mexer com as agulhas.”

A vida toda, Alenir acordou antes do sol raiar. Às 4h30 já está de pé, prepara o café da manhã do marido, que sai para trabalhar às 5h em ponto. Se estivesse em Bento, sairia junto com Alair para trabalhar também. Alenir e o marido trabalhavam com enxada na mão, capinando terrenos em Bento e em distritos próximos. Por muitos anos, foram caseiros da fazenda da família Müller – proprietária de um hotel no centro da Mariana e de terras no subdistrito. Hoje, o marido trabalha em uma fábrica de carvão e Alenir vive uma rotina bem distante da experienciada em Bento Rodrigues.

Depois que o marido sai da casa no bairro Rosário, Alenir vai para os fundos da residência que também tem um quintal, bem menor e mais inclinado do que tinha em Bento. Alimenta os cachorros Max e Rex, pica uma fruta para o passarinho que vive em uma gaiola pendurada na janela da cozinha. Serve um copo de café, acende um cigarro e se posta na janela que dá para o quintal em declive. Depois, volta para a sala de três sofás – um deles é só dos cachorros, como me avisou no primeiro dia de entrevistas, cheio de cobertas reservado para os cães.

Alenir se senta em frente à televisão. Deixa o volume baixo o suficiente para não acordar as filhas e o neto, que dormem nos quartos que fazem divisa com a parede com a sala. Puxa uma lixeira de 20 litros com tampa, onde guarda parte dos trabalhos manuais recém feitos, junto com alguns novelos de lã e agulhas. Se concentra no tecer. São 5h e pouca da manhã.

“Mesmo sem ter encomenda, eu gosto de fazer um pouco de crochê de todo jeito, porque me distrai, principalmente depois do acontecido.”

Entre nove e dez horas, prepara o café da manhã das filhas Aline, 22, e Ana Clara, 12, e para o neto, Pedro Lucas, de 1 ano. Às 11h30, o ônibus escolar contratado pela Fundação Renova buzina na porta da casa para levar a filha caçula até a Escola Municipal Bento Rodrigues, localizada na Avenida Nossa Senhora do Carmo, região central de Mariana. Antes, a menina rumava de bicicleta pelas ruas de Bento Rodrigues até chegar à única escola do subdistrito.

Na rotina da cidade, ela organiza a casa, ajuda nos cuidados com o neto, tenta fazer uma limpeza no terreno dos fundos. Com uma inclinação difícil para uma pessoa se manter em pé com enxada na mão, Alenir arranca alguns matos para plantar mudas de árvores frutíferas e, quem sabe, fazer uma pequena horta. Como passarinho preso em gaiola, Alenir sai da casa no alto do bairro Rosário raramente, “só quando tem reunião com a Renova, que eles falam que a gente tem que ir, quando preciso comprar alguma coisa pras meninas, ou pra casa”.

Acostumada com a vida em contato com a terra, Alenir estranha a correria da cidade, a quantidade de carros nas ruas que impedem Ana Clara de andar de bicicleta na porta de casa, como fazia em Bento.

“Sempre vivi no mato, mexia com terra, capina, com lenha. A gente não está acostumado a viver dentro de cidade, a ficar só dentro de casa.”

Conta que ia à Mariana vez ou outra, pra consultar, comprar alguma linha ou lã. Alenir também estranha o aumento dos gastos financeiros da família, em comparação com uma vida em que tudo que se plantava no terreno de casa, virava alimento. “Aqui é tudo comprar: fruta, verdura, gás. Eu usava fogão de lenha, a lenha eu mesma buscava no mato. A verdura da minha horta não era só minha, era da vizinhança toda. A gente tinha criação, tinha leite de vaca de verdade, ovo de verdade.”

 

Nascida em Barra Longa, Alenir percorreu outros cantos antes de firmar raiz em Bento Rodrigues, construir casa própria com quintal “pra lá de metro”, criar os filhos, fortalecer laços com vizinhos. Junto com o marido, morou primeiro em Pimenta, distrito de Barra Longa, onde trabalhavam como caseiros. Além de cuidar de terrenos, Alenir também era diarista.

Em 1993, engravidou do primeiro filho: “Enfiei na cabeça que precisava aprender a fazer crochê”. Seria ela quem faria as primeiras roupinhas de Anderson e, para isso, caminhava por duas horas até chegar a Água Fria, distrito de Barra Longa, onde morava uma prima de Alair, que a ensinaria a dar os primeiros pontos.

“Aprendi em meia de calçar, porque naquela época a gente não tinha condições para comprar o pano de bordar. Peguei uma meia preta que tinha em casa e dei os primeiros pontos. Desfazia e fazia de novo, até pegar o jeito.” Depois que Anderson nasceu, Alenir aprendeu outros jeitos de tecer: primeiro o crochê, depois a renda turca, técnicas de costura e arremate.​

Quando Anderson tinha dois anos, a família saiu de Pimenta para morar em Bento. Alenir e o marido começaram a trabalhar como caseiros na fazenda de Wanderley Muller. A rotina, por ser do roçado, sempre foi marcada pela força braçal sem distinção entre marido e mulher: a capina era feita em lotes, fazendas e até cemitérios, de Bento e em localidades próximas. Trabalho em contraposição à dedicação ao tecer, atividade que também garantia o sustento da família.

“Sempre consegui uma renda com meu artesanato, principalmente com encomendas em Mariana. Vendia de porta em porta em Mariana e, em Ouro Preto, chegava às 7h e ia embora às 20h. Ficava sentada no pé daquela estátua e vendia tudo, principalmente para os turistas. Levava agenda para anotar encomenda, garrafa de café, mexido, lanche.”

“Hoje, eu fico mais em casa do que saio para vender meu trabalho, como já fiz por muitos anos.” Alenir recebe encomendas por um perfil do Facebook, administrado pela filha do meio, e também de clientes antigos e por indicações de quem já comprou os trabalhos manuais feitos por ela. O tecer faz parte do cotidiano dela, sendo atividade essencial em costurar a tecelã em quem ela foi em Bento a quem é hoje em Mariana.

Tão parte da rotina, Alenir sempre sentiu falta de fazer crochê se ficava um dia sem encostar nas agulhas e nas linhas. “Antigamente, a gente não tinha verba pra comprar linha e barbante. Eu pedia pro meu filho Anderson, quando ele era criança ainda, pra desmanchar um crochê que eu tinha feito, algum tapete, colcha, pra poder fazer qualquer outra coisa, porque todos os dias eu tinha que pegar na agulha”.

Agora, a artesão encomenda a maioria das linhas, lãs e barbantes pela internet, em uma loja de Pará de Minas. O sonho da tecelã é se tornar costureira profissional, com direito a loja para venda de roupas que costurou e ateliê, tudo em um mesmo local. “Minha filha do meio desenha muito bem, mas teve que parar quando engravidou. Sonho com o dia que ela vai desenhar e eu, costurar. É cada roupa bonita que a gente pode fazer juntas… Quero ter uma loja e um ateliê, tudo no mesmo espaço, mas bem divididinho. Na loja, quero vender as peças que eu produzir e também tudo que eu trouxer do Bráz.”

Em uma das visitas da equipe responsável pelo projeto urbanístico, Alenir falou que deseja, na casa que será construída em Bento, um quarto destinado para ser ateliê de costura. “Pedi pra menina que veio aqui falar do projeto da casa, que já que a lama deles levou tudo que eu tinha, que eu quero um quarto para ser meu local de trabalho e poder receber meus clientes.” O quarto está planejado para ter banheiro, sofás e poltronas, mesas para as máquinas de costura, e armários cheios de gavetas para armazenar os materiais de tecer.

“Eles têm mais que fazer a casa do jeito que a gente quiser, ninguém pediu pra sair de lá. Eles expulsaram a gente quinem bicho.”

A casa em Bento

Fazer a casa do jeito que os moradores querem, implica em, literalmente, fazer da forma que os moradores desejam. Com terreno grande, era a partir da terra que a família retirava grande parte da alimentação: verduras, legumes, frutas, ovos. “Meu terreno tinha pra lá de metro. Agora eles querem aumentar 20 metros pra todo mundo. Eu falei que não quero que cimente o meu terreno, porque o que eu plantava vou voltar a plantar. Tinha bananeira, pé de limão, de laranja, uma horta enorme, minhas criações. Do jeito que a gente falar, tem que ser.”

Antes do rompimento, a casa estava sendo toda reformada, aumentando alguns cômodos, melhorando outros detalhes da residência. Com família grande, os quartos precisavam ser confortáveis para receber os parentes que iam a Bento. “Minha casa tinha plantação, tinha cascalho, tinha cimento, tinha tudo. Eles mandaram tudo embora com a lama.”

A cada pagamento que Alenir recebia, seja da capina ou dos crochês, ia a Mariana para comprar, de pouco em pouco, os novos objetos da casa: porta, pia, vaso sanitário, armários, utensílios domésticos. Um dia antes do rompimento, Alenir tinha guardado um caminhão de cascalho em seu terreno, que seria utilizado nos dias seguintes para aumento dos cômodos da casa.

No dia do rompimento, ela estava voltando de Mariana, onde tinha ido comprar mais lã e barbante para o tecer. “Saí do ônibus perto da ponte e fui descendo, conversando com as amizades, fumando. Quando um menino gritou que a barragem tinha rompido, nós saímos correndo”.

“Cheguei em casa, gritei minhas filhas e corremos para o ponto mais alto de Bento. Inclusive, estamos correndo até hoje, porque aqui na cidade a vida não é brinquedo, ficamos muito presas. Não tem lugar pra plantar, para os animais… as amizades, quando vejo, é só em reunião.”

Na época das primeiras entrevistas, em junho de 2018, Alenir estava de mudança do bairro Rosário para a Vila Maquiné, que seria a terceira casa que moraria em Mariana. “Se não der certo na próxima casa, eu vou pedir pra mudar de novo, porque eu estava quietinha no meu canto, e eles me tiraram de lá.” Bento Rodrigues será reconstruído no terreno de Lavoura, reserva de eucaliptos e que antes pertencia à empresa Arcelormittal. Distante oito quilômetros de Mariana e a nove quilômetros da localidade dizimada pela lama, a área escolhida para a reconstrução do subdistrito é de 98 hectares.

Já em outubro, a família de Alenir estava instalada no endereço próximo ao Cria, casa de poucas janelas e quintal inclinado ao fundo. No novo endereço, a tecelã já não tinha um quartinho próprio para guardar as produções manuais, que agora ficam divididas em dois baús na sala próxima à cozinha, e dentro de uma cama box, que possui um compartimento próprio para guardar objetos.

O desejo de voltar para Bento é latente em todas as conversas da tecelã, mas a preocupação com as características da casa preocupa Alenir. “A vida que nós tínhamos em Bento nunca vamos ter de volta. Bento agora vai ser igual cidade grande, as casas de dois andares, com portão eletrônico e câmera de segurança. Onde já se viu isso? Nosso negócio era porteira, chão de cimento queimado bom pra passar cera de puxar menino em cima do tapete, era entrar dentro de casa com a botina suja de terra.”

*A reportagem Linhas da Memória foi desenvolvida como Trabalho de Conclusão de Curso em Jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), e defendida em dezembro de 2018.