I Encontro Nacional das Mulheres Indígenas Guarani Yvyrupa reuniu mais de 300 mulheres, em Santa Catarina/ Foto: Kunhangue Yvyrupa

“Exigimos ser ouvidas”, afirmam as mulheres Guarani Yvyrupa

Postado em 12/03/2020, 10:17

Com o tema Kunhangue Arandu Rupi Nhemboejerovia, a força de sabedoria da mulher Guarani, as mulheres indígenas Guarani de todo o Brasil estiveram reunidas de 5 a 8 de Março de 2020, na Tekoa Jataí Ty em Conquista, município de Balneário Barra do Sul, em Santa Catarina. O Primeiro Encontro Nacional das Mulheres Indígenas Guarani reuniu mais de 300 mulheres dos estados de Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo.

A programação contou com a apresentação de coral com músicas cantadas na Língua Guarani, cerimônia na casa de reza, conversas com as mulheres mais velhas xejaryi sobre os modos de vida kunhangue rekó, direitos e deveres, diálogos sobre violência contra as mulheres com áudio e vídeo, discussão sobre a Lei Maria da Penha, direitos das mulheres e a responsabilidade do Estado. No encontro as mulheres indígenas puderam expor e trocar sementes, ervas medicinais e alimentos tradicionais. 

Mais de 300 mulheres Guarani reunidas entre 5 a 8 de março na Tekoa Jataí Ty em Conquista, Balneário Barra do Sul (SC)/ Foto: Kunhangue Yvyrupa

Ao final do evento foi lançado o  manifesto do 1º Nhemboaty Kunhangue Yvyrupa. “Desde a carta que marca a invasão do nosso território, chamada erroneamente de ‘carta do descobrimento do Brasil’, fomos tratadas como objetos hipersexualizados e tidas como alvo potencial de violências no intuito de desorganizar as nossas vidas. Durante muito tempo, não tivemos espaço para falar contra tais violências, mas agora exigimos ser ouvidas”, diz o documento.

Um das membras da coordenação da Comissão Guarani Yvyrupa, Kerexu yxapyry, integrante da comissão de mulheres que organizou o encontro, disse que a principal questão na atualidade é o acompanhamento do que acontece no território. Segundo explica a Comissão Guarani Yvyrupa foi criada para fortalecer a luta política pela garantia desse território. “Com o passar do tempo, antes mesmo de ser uma instituição, a Comissão Guarani Yvyrupa vinha nessa luta com as lideranças tradicionais, os sábios, os anciãos do Povo Guarani para discutir o fortalecimento do povo. Com a institucionalização é que a gente começa a se organizar em relação à burocracia exigida na questão jurídica. A gente começou a perceber que era muito mais abrangente muito maior do que imaginava”, relata. 

Kerexu yxapyry da Comissão Guarani Yvyrupa/Foto: Kunhangue Yvyrupa

A questão da terra é a prioridade para as indígenas. Muitas áreas ainda são saqueadas e invadidas por empreendimentos particulares, em outras é necessário a indenização pelo Estado. Segundo Kerexu os indígenas precisaram compreender “os problemas jurídicos, de correr atrás de terras que têm portaria de um lado e de outro processos como a reintegração de posse, como os empreendimentos que vão entrar com os licenciamentos. Entender esse mundo jurídico é muito burocrático. Por esse motivo, a gente mergulhou de cabeça, o que leva muito tempo para entender todo o processo e o acompanhamento de tudo isso”, comenta explicando a demanda constante. 

A constante mobilidade Guarani é uma característica da cosmologia desse grupo indígena. Com o estabelecimento da propriedade privada da terra essa mobilidade, com o passar do tempo, foi sendo cerceada. Os Guarani que antes transitavam em liberdade pelo seu território ancestral, agora se vêem caminhando por propriedades privadas. E o processo de demarcação se suas terras sendo adiado pelo Estado. Kerexu faz a relação entre o território e a força simbólica da mulher como forma de transpor as dificuldades encontradas no cotidianos das aldeias.

“Essa caminhada do Povo Guarani que é a mobilidade de ir e voltar, com o tempo foi ficando mais restrita, exigindo muito mais dentro do nosso modo de vida esse entendimento da questão jurídica mesmo. Entender o molde de atuação. A gente percebe que durante toda essa trajetória e caminhada as mulheres são as que mantém toda a essência do valor e da cultura do Povo Guarani. A mulher carrega por onde ela vai, onde é fortalecido uma aldeia, uma retomada, uma ocupação, a mulher está ali por inteira com a família, com as sementes, com a língua Guarani, com o espírito, com a reza. Com tudo. Não que isso os homens não tenham. Eles também levam bastante. Em todo o tempo a gente carrega como povo toda essa força da espiritualidade Guarani”, ressalta. 

A lutas das mulheres indígenas por seus territórios passa pela questão legal e jurídica. Buscam entender os limites e as possibilidades de atuação para dar continuidade às suas práticas culturais e pela demarcação de terras. “A questão jurídica está na cabeça das lideranças quase que 24 horas por dia pensando de que forma vão agir e atuar dentro desse enfrentamento. A mulher vem trazendo toda essa força que é a essência, em tudo a gente coloca a essência da vida”, afirma a integrante do Povo Guarani. 

“Então, ela está ali por inteira. A mulher ela vai representar a comunidade, a família, o povo, a mãe, o sustento, a médica, a curandeira, a esposa. Ela é tudo isso. E em nome de tudo isso que as mulheres estão ali fazendo essa luta que é uma luta mais encantada que a gente fala, é uma luta de encanto mesmo porque elas têm toda essa força”, destaca Kerexu.

Para Kerexu a conversa entre as mulheres jovens e as mais velhas e sábias, chamadas pelos Guarani de xejaryi, contribui no entendimento das questões atuais, o que motivou o encontro. “Os nossos guerreiros que às vezes vão para a luta e tombam, não voltam mais, e as mulheres têm que segurar a barra até o final. Por esse motivo, a gente pensou de fazer esse encontro das mulheres pra gente se fortalecer também como Povo Guarani. Fazer essa conversa entre as mais velhas com as jovens de hoje que estão na escola, que estão fazendo faculdade, estão fazendo todo esse outro modo de vida”.

Mostrar a força da mulher a partir de um mundo em transformação pode revelar caminhos possíveis. “A gente chamou para fazer esse diálogo para fortalecer tudo isso e a gente também mostrar essa força da mulher. Hoje a gente entende, e acredito que a maioria das sociedades entenda, o que é a transformação. O mundo só tem salvação se as mulheres se unirem porque a essência de tudo isso está nas nossas mãos. Então é esse o fortalecimento nosso”, reitera.

Lançamento da 5ª Ação Internacional da Marcha Mundial das Mulheres na 1ª Nhemboaty Kunhangue Yvyrupa #8M #8M2020 #8MBrasilSC/Foto: COMIM

Kerexu conta que a proposta da Comissão Kunhangue Yvyrupa é dar voz às mulheres Guarani dando continuidade aos encontros nos outros estados. “A gente pensou em dar visibilidade nessas regiões onde as mulheres não participavam, como o caso da região norte de Santa Catarina. Nas assembleias e reuniões essas mulheres não estavam participando. Quando se tratava das questões indígenas as mulheres estavam menos presentes. A ideia é dar continuidade, seguir em frente em todos os outros estados onde a gente percebe que não existe a participação das mulheres”.

O espírito de quem trabalha com as mulheres Guarani

A antropóloga Lauriene Seraguza, que assessora a Comissão Guarani Yvyrupa diz que a organização das mulheres Guarani não é recente. “Esta organização das mulheres guarani parece novidade, mas não é. As mulheres Guarani sempre estiveram à frente em seus coletivos e agregam muito prestígio perante os seus parentes. Elas têm muita importância no cotidiano, são detentoras de conhecimentos  fundamentais para a vida e a existência do povo guarani”, declara. 

Para ela, a questão política atual faz com que essas mulheres tenham a necessidade de se organizarem para dar continuidade às suas vidas. “O acirramento da perseguição aos povos indígenas no atual Governo, faz com que estas mulheres entendam ser importante se encontrar e se fortalecer enquanto movimento de luta, já que vêem no dia-a-dia a perda e o desrespeito aos seus direitos individuais e coletivos e os efeitos disso em seus coletivos, como a falta de terra e a tensão ocasionada na disputa e luta por estas, que muitas vezes termina em violações sistemáticas aos seus corpos e as suas vidas” explica Lauriene.

Lauriene Seraguza, antropóloga que assessora a Comissão Guarani Yvyrupa/ Foto: arquivo pessoal

As motivações que levaram Lauriene a ser antropóloga e a se capacitar para trabalhar com a temática indígena foi o exemplo das mulheres. Segundo ela, este encontro procura ser uma ponte para que as mulheres do Povo Guarani, em suas várias autodenominações – Mbyá-Guarani, Avá-Guarani, Tupi-Guarani, Guarani Nhandeva e Guarani Kaiowá – possam se encontrar e refletir sobre os desafios da existência em tempos sombrios para os povos indígenas no Brasil. Juntas, poderão discutir os caminhos do seu povo frente a tantas ameaças e ataques que colocam em risco o nhandereko, o modo de ser Guarani.

“Foram as mulheres kaiowa e guarani, e o povo kaiowa e guarani no Mato Grosso do Sul, e a histórica luta pela terra que eles carregam há quase um século, e a força e a coragem do povo guarani que foram expulsos de sua terra e que nos deixam o exemplo, a nós não indígenas, de coragem e sabedoria na vida. A Comissão Guarani Yvyrupa é uma organização indígena que agrega tudo isso, coragem, força, persistência, luta do povo guarani”, relata. 

Com relação aos indígenas ela sugere para os não indígenas que estejam atentos, “que conheçam, que os ouçam. É uma oportunidade única de aprendermos que o nosso modo de vida não é único, soberano, ou correto. Somos fagulhas de luz nesse universo que ainda sobrevive graças aos conhecimentos e generosidade dos povos indígenas, que o cuidam e o protegem como nós, não indígenas, também deveríamos fazer. É só a riqueza da diversidade indígena que pode nos salvar em tempos de fins de mundo”, analisa.

A antropóloga lembra que a luta do Povo Guarani é, principalmente, pela demarcação de suas terras. Eles aguardam a regularização desde a promulgação da Constituição Federal de 1988, e sofrem os efeitos nocivos do não cumprimento desta legislação pelo Estado. Para ela, só a demarcação de todas as terras reivindicadas pode garantir ao Povo Guarani uma vida livre de violências.

A organização coletiva das mulheres indígenas

A primeira co-deputada indígena da Bancada Ativista de São Paulo, Chirley Pankará (PSOL), participa de um mandato coletivo onde destaca a pauta das questões indígenas. Ela participou como ativista na campanha “Sangue Indígena: Nenhuma Gota a Mais” que passou por diversos países da Europa para denunciar as violências contra os Povos Indígenas no Brasil. Participou esta semana da defesa das terras indígenas Guarani no Pico do Jaraguá, que estão sendo invadidas por empreendimentos imobiliários privados. Ela esteve no 1º Nhemboaty Kunhangue Yvyrupa e conversou com o Catarinas.

“A questão indígena no país é marcada pelo genocídio, etnocídio e ecocídio.  São muitos os interesses em nossas riquezas naturais por isso temos muitas dificuldades com a demarcação de nossas terras. São quase 520 anos de muitas lutas e resistência para continuarmos existindo e garantir os direitos básicos de sobrevivência. Não é fácil e nunca foi, num país dominado pela elite patriarcal”, relata a deputada.

Chirley Pankará na defesa das terras indígenas Guarani no Pico do Jaraguá (SP)/ Foto: arquivo pessoal

Para ela o encontro de mulheres é necessário para que se encaminhe políticas para as mulheres Guarani priorizando o fortalecimento do vínculo entre elas. Comenta que esta ação é indispensável para garantir direitos e ocupar espaços que por anos foram fechados para elas. “Quando eu falo de políticas públicas são demandas voltadas à educação, à saúde, demandas contra as violências, contra a discriminação, por isso nós lutamos”, afirma.

As mulheres indígenas nos dias atuais compartilham com os homens a igualdade de lutar pelo território, por acesso à educação, saúde, para poderem dar continuidade às suas vidas dentro e fora da comunidade. “Este primeiro encontro de mulheres indígenas Guarani aqui nessa região, foi muito produtivo, diálogos riquíssimos com as mais velhas e orientações que servirão para o fortalecimento da mulher indígena. Aqui se discute todas as formas de políticas públicas para as mulheres indígenas e seus territórios. Lutamos por demarcação de terras, pela saúde específica, educação diferenciada ”, esclarece a indígena.

Ela afirma que as mulheres indígenas estão ocupando espaços com ideias compartilhadas também de homens indígenas, idosos e crianças. O apoio mútuo é fundamental para elas como forma de empoderamento. “A gente quer ocupar em pé de igualdade, a gente não quer que ninguém fique para trás. Queremos fortalecer a luta junto. Os homens, as mulheres, os homens apoiando as mulheres. É uma forma de empoderamento das mulheres indígenas. A gente quer estar nas lutas, a gente quer ser lideranças dentro das comunidades. Tem muitas mulheres lideranças aqui na aldeia. A cacique e a vice cacique são mulheres. A organizadora deste evento é uma forte liderança. São esses espaços que a gente começa a ocupar. Antes a gente não ocupava e não tinha essa visão também de ocupar”, lembra.

A indígena Pankará destaca a capacidade das mulheres indígenas para ocuparem cargos de liderança e participarem do processo político. Ela conta sua experiência como deputada. “Nós temos conhecimento e capacidade para fazer tudo isso e estar na política, como é o meu caso. Estou numa política partidária por exemplo. É uma voz dentro de um espaço que é recente para nós. Eu sou a primeira mulher a fazer parte de um mandato coletivo. Veja, eu faço parte de um mandato coletivo. Eu sou co-deputada de um mandato coletivo. Eu sou da bancada ativista em São Paulo. E temos a Joênia Wapichana que é a primeira deputada federal. Estamos entrando nos espaços. Em pleno século 21, e agora nós estamos sendo as primeiras pessoas a ocupar esses espaços. É uma voz lá dentro”, analisa.

Para ela, as pautas indígenas devem ser conduzidas por indígenas. “Quem vai se interessar de pegar as nossas pautas senão nós mesmos. As pessoas podem até pegar e dizer ‘eu vou pegar esse projeto’, mas pode engavetar o projeto. Nós estamos lá dentro para fazer valer esses direitos. Como é o meu caso, eu tenho vários projetos de lei protocolados, vindo das bases, trabalhei com as emendas parlamentares, eu dividi com as bases para a melhoria das bases. Então é uma voz lá dentro”, destaca.

O entendimento sobre a  educação formal e não-formal, assim como as questões jurídicas estão sendo determinantes para os grupos indígenas.

“Quando existe uma ocupação de terra temos uma equipe do jurídico, de comunicação. Talvez outras pessoas não irão fazer, ou irão fazer por cima. Então essa é a nossa ideia. Nós temos capacidade e não precisamos que ninguém fale por nós. Nós falamos por nós mesmas, nós pensamos, nós estudamos, nós estamos aí nas universidades, muitas mulheres que já são doutoras e fazendo sua voz valer nesses espaços. Podemos e somos capazes”.

Na atualidade, o processo de ocupação dos espaços para desenvolver ações afirmativas, projetos e políticas públicas para os grupos indígenas é parte da dinâmica de continuidade das culturas. “Não é porque estamos nesses espaços que a gente perde a cultura. Dizer que a gente vai perder cultura já é nos colocar em atraso, já é preconceituoso. Nós temos uma força muito grande, a mulher tem uma força muito grande dentro das bases. A mulher é conhecedora dos cosmos, das ervas medicinais, em todo o trabalho de base ela é forte. A mulher em si ela é forte. E é isso que nós estamos buscando unidas aqui, uma ensina a outra, uma aprendendo com a outra. É assim que segue esse encontro e essa luta nossa”.

A deputada comenta que irão surgir muitas mulheres indígenas se candidatando para ocupar esses espaços públicos na política. “Mulheres sábias, mulheres de luta, de força, de conhecimento, de sabedoria, que vão ser por voz dentro nesses espaços. Acredito nas mulheres indígenas, acredito na força delas, mulheres que educam, mulheres que mantém o equilíbrio da natureza dentro de suas bases. Esse é o momento de dar as mãos para essas mulheres indígenas para ocuparem todos os espaços. Nós temos capacidade e se nos pertence nós vamos ocupar”, reitera.

 

8M 1º Encontro das Mulheres Guarani Yvyrupa e Dia Internacional de Luta pelos Direitos das Mulheres/ Imagem: Kunhangue Yvyrupa

 

Leia o Manifesto das Mulheres Guarani Yvyrupa 

Nós, Mulheres do Povo Guarani – Guarani Mbya, Tupi Guarani, Ava Guarani, Guarani Nhandeva, Kaiowa Guarani, estivemos reunidas, juntas em mais de 300 mulheres que representam nosso Povo, entre os dias 05 e 08 de março de 2020, no Tekoa Jatai´ty, em Conquista, estado de Santa Catarina, para o I Encontro Nacional de Mulheres Guarani, realizado pela Comissão Guarani Yvyrupa, organização indígena que reúne coletivos do povo Guarani das regiões sul e sudeste do Brasil.

Neste encontro, discutimos intensamente temas que afetam as nossas vidas e a vida de nosso povo, já que somos nós as responsáveis pela vida junto ao povo guarani. Somos nós que guardamos as sementes, que trazemos as crianças ao mundo e que levantamos nosso povo na luta pela terra.

Preocupadas com o nosso futuro e com a garantia dos nossos direitos, para que possamos viver de acordo com o nosso nhandereko, fizemos uma forte reflexão com as nossas Xejaryi – as mulheres mais velhas de nosso povo – sobre o nosso modo de ser mulher, o kunhangue reko. Sabemos que o nosso modo de vida tradicional foi violado com a chegada do não indígena, e ouvir as nossas anciãs, nos fortalece na luta por uma vida digna e sem violência, e principalmente, de acordo com o que nós, povo guarani, entendemos ser importante.

Isso nos levou a refletir sobre os nossos direitos e deveres: o que nós, mulheres, mães, filhas, lideranças, professoras, agentes de saúde, guerreiras da terra, parteiras, guardiãs das sementes devemos fazer para garantir um bom futuro ao nosso povo? Entendemos que precisamos cada vez mais cuidar dos nossos parentes, pois vivemos num mundo compartilhado com os jurua, o não indígena, que nos violentou desde sua chegada, condenando nosso modo de vida e nos impregnando com suas práticas de violências, que atingem a nós mulheres diretamente. O povo guarani sempre foi considerado um povo pacífico, e, se hoje vivenciamos situações de violências extremas, sabemos que elas são resultado do processo histórico de destruição de nossas condições de existência, perpetuado contra nós pelo povo não indígena e seus governantes.

Os jurua invadiram nosso território e nos expulsaram de nossas próprias terras, nos colocando em posição de reféns do estado brasileiro, dependentes de seus alimentos, de suas tecnologias e principalmente, de suas relações de gênero. Hoje, no vemos em uma situação de vulnerabilidade, marcada pela privação de nossas terras, o que produz muita tensão no interior de nossas comunidades. Por isso, as discussões referentes às desigualdades de gênero, quando acontecem dentro de uma organização indígena, não podem contar com os mesmos pressupostos de sociedades não indígenas, o que não significa que este não seja um problema a ser enfrentado também por nós, mulheres guarani.

Partindo desta urgência, tivemos nosso primeiro dia de Nhemboaty todo dedicado a uma intensa discussão sobre as diferentes formas de violência que nos atingem, começando pela falta de nossas terras tradicionais e a consequente ausência de políticas públicas essenciais, como os serviços básicos de saúde e educação. Estas faltas nos vitimizam duplamente: como indígenas e como mulheres do povo guarani. Sabemos por nossas ancestrais que a chegada do jurua em nossas terras nunca foi em paz, que chegaram cobiçando nossas terras e nós mesmas, mulheres indígenas. Desde a carta que marca a invasão do nosso território, chamada erroneamente de “carta do descobrimento do Brasil”, fomos tratadas como objetos hipersexualizados e tidas como alvo potencial de violências no intuito de desorganizar as nossas vidas. Durante muito tempo, não tivemos espaço para falar contra tais violências, mas agora exigimos ser ouvidas: não aceitamos ter nossas vidas e nossos corpos objetificados pela cultura do jurua, muito menos exotizados, como se nosso modo de vida, de cuidados, de fazer e de ser fossem equivocados ou ruins. O jeito como vive o jurua, com a ganância capitalista, colocando o dinheiro na frente do próprio ser humano, tratando nossa terra e suas mulheres como mercadoria, não nos interessa. Inclusive, sabemos que a raiz de muitas das formas de violência que nós, mulheres indígenas, enfrentamos está em coisas, palavras, espaços e instituições que os jurua impuseram às nossas vidas – o consumo abusivo de bebida alcóolica é uma das piores delas.

Entendemos que as leis que os jurua criaram para dar proteção às mulheres são muito importantes e as respeitamos muito. Sabemos que a lei Maria da Penha é o dispositivo que o estado brasileiro utiliza para combater a violência doméstica, e honramos Maria da Penha pela luta pelo direito das mulheres, assim como honramos as mulheres que lutam contra o machismo. Queremos, cada vez mais, entender sobre nossos direitos e decidir sobre a melhor maneira de praticá-los. Ao mesmo tempo, queremos fortalecer nossos próprios modos e dispositivos de resolução de nossos conflitos. Esse nosso conhecimento, sobre como cuidar das pessoas e das nossas relações, dificilmente é respeitado e levado em consideração, e é também por essa valorização que lutamos. Sabemos de nosso direito de acesso à justiça e exigimos que ele seja cumprido, mas não acreditamos que o sistema de justiça dos jurua possa, sozinho, ser a solução para os nossos problemas. Precisamos de mais instrumentos nessa luta, precisamos fortalecer nossas falas, abrir espaço para que elas gerem atitudes de respeito às mulheres, aos nossos corpos e aos nossos conhecimentos. Também não acreditamos que o encarceramento em massa seja a melhor forma de lidar com as situações de violência doméstica, pois, quando um parente nosso é encarcerado, seu processo de ressocialização na vida comunitária é impossibilitado pelas marcas do tempo passado no sistema carcerário brasileiro, que não é bom para os não indígenas, muito menos para os Guarani.

Apesar de reconhecermos a importância da lei Maria da Penha, sabemos também que, em nossas aldeias, ela costuma ser ineficaz. Isso é percebido quando temos nossas vidas ameaçadas pelos homens e tentamos recorrer a essa legislação: mesmo com medidas protetivas sendo aplicadas, a ausência de uma segurança pública dialogada com nosso povo impossibilita que fiquemos verdadeiramente seguras diante dos homens violadores. Assim, os órgãos que recebem nossas denúncias mostram ser inefetivos na resolução destes conflitos e uma história já conhecida se repete, pois nossos direitos indígenas são, como um todo, constantemente violados. Nós não fomos ouvidas para pensar a lei Maria da Penha, para que ela se adequasse a nós assim como tenta se adequar às mulheres não indígenas, para que pudéssemos nos ver contempladas na lei, e isto nos coloca, mais uma vez, na posição de vítimas do sistema de justiça dos jurua. Nosso nhandereko, nosso modo de nos organizar, nosso modo de ser mulher e de buscar o bem-viver não foram levados em conta na produção da lei. Nossas dificuldades não foram consideradas. Como esperam que nós mulheres vivamos bem sem que o direito à nossa terra seja garantido? Sob tantas ameaças, como poderemos nos sentir seguras? A cada vez que é invisibilizado este lado da violência contra as mulheres guarani, o racismo presente na política jurua nos agride.

Se falamos sobre a falta de presença da mulher indígena na legislação jurua, não podemos deixar de manifestar aqui o nosso repúdio à legislação anti-indígena que tem sido criada pelo governo ruralista de Jair Bolsonaro e pelo poder legislativo extremamente violento e racista que o apoia, militarizando os órgãos indigenistas como a FUNAI e precarizando o serviço que é oferecido a nós, povos indígenas. Violando a Constituição e nossos direitos originários, o estado brasileiro tem agido para exterminar nosso povo e nossa terra, anunciando o seu apoio explícito ao agronegócio que envenena nossas terras e nossos corpos. Contra esse tipo de violência, resistimos há séculos e continuaremos resistindo. Nós que sempre cuidamos da Yvyrupa, não compactuamos com este governo de destruição e contrário a diversidade de nossas vidas.

Toda a violência que sofremos se organiza em torno da não demarcação de nossas terras, e é por isto que nos levantamos aqui, junto com as mulheres guarani de todo o Brasil, para gritar ao mundo que nos ouçam, que nos apoiem e nos fortaleçam, e principalmente, que venham junto conosco na luta pela demarcação de nossas terras. Também enfrentamos o desafio de ter que conviver com a escola, dentro de nossas comunidades, que não está respeitando a legislação referente a educação escolar indígena que nos garante uma educação verdadeiramente diferenciada, bilíngue, intercultural e comunitária. São muitas as imposições de gestores não indígenas, que estão ferindo e desequilibrando a transmissão tradicional dos saberes e fazeres de nossa cultura. Também a gestão da Sesai, que às vezes incentiva as mulheres a fazer parto no hospital e a fazer uso de medicamentos químicos, que ao invés de curar, está criando mais doenças. Nós, mulheres indígenas, sabemos qual o melhor caminho para nossas crianças, e nossa voz precisa ser escutada. Também repudiamos a entrada de evangélicos em alguns tekoa, pois até hoje eles querem impor a Bíblia como uma única verdade. Para nós, Opy’i, é a verdadeira Escola, e todos os conhecimentos dos xamõi e xejaryi são muito preciosos, pois eles são os verdadeiros detentores de nossa “filosofia”. Nós valorizamos e lutamos para que o Teko Porã seja a base estrutural do nosso caminhar. Sem nós mulheres e nossa luta, nosso tekoa não se levanta, e todo o povo do mundo sofre as consequências quando somos maltratadas e desrespeitadas juntos com a nossa mãe terra.

Por isso, precisamos de mais espaços como o que foi criado neste encontro, no qual as xejaryi puderam fazer ecoar sua sabedoria, as jovens puderam escutá-las, e mulheres de todas as idades falaram, aconselharam, ouviram, partilharam experiências de luta e resistência e se apoiaram. Sabemos que nenhuma de nós está sozinha e queremos que esta nossa voz, que não é de apenas uma, mas de muitas mulheres guarani, alcance os espaços de fazer política, de luta, de cotidiano e de afeto. Saímos deste Nhemboaty mais fortes e conscientes de que ele marca o começo de uma longa caminhada que fazemos e continuaremos a fazer juntas: a luta é urgente e para agora, é pelas mulheres que vivem hoje, mas é também pelas que estão por vir.

Viva o Povo Guarani! Demarcação Já!

 

 

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