As mulheres têm protagonizado as lutas sociais no país e no mundo/Foto: Stella Tó Freitas

Greve Internacional das Mulheres organiza a classe mais explorada da sociedade

Postado em 06/03/2020, 11:14

Atividades do 8 de março acontecem em diversos lugares do mundo. Em Florianópolis mobilizam mulheres durante uma semana e mostram como as mulheres sustentam a sociedade fazendo trabalhos que não são remunerados.

Mulheres, combativas, ativistas e feministas de vários países se preparam para o 8M – Greve Internacional das Mulheres ou Greve Feminista, como tem sido chamada nos países do Sul. Desde de 2017 o 8M ganha destaque no calendário político, retratando a diversidade das lutas das mulheres diante do desejo de despatriarcalização de nossas vidas.

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No último ano, pelo menos 70 países aderiram à Greve Internacional das Mulheres, e no Brasil houve mobilizações em praticamente todos os estados. Na capital de Santa Catarina, estado que ocupa posições de liderança em violências doméstica, sexual e feminicida, serão oito dias de programação, com atividades concentradas no dia 9, quando ocorre a grande marcha no centro de Florianópolis. Além de ser listado como o terceiro em taxa de estupro e tentativa de estupro, no Anuário Brasileiro da Segurança Pública de 2019, SC ocupou o 6º lugar em taxa de feminicídio nos dois últimos anos, conforme levantamento da Folha de São Paulo

Estado que mais aderiu ao Bolsonarismo é líder em violência contra as mulheres

Manifestações que se conectam ao 8M também estão previstas em cidades como Blumenau, Itapema, Criciúma, Chapecó, Joinville, Brusque e Tubarão. Envie informações sobre manifestações na sua cidade para [email protected] 

Confira a programação. 

“Viver com dignidade e liberdade: trabalho, corpo e território” é o tema que mobiliza as ações desta edição do 8M Brasil – SC, em Florianópolis. Composto por diversos coletivos, organizações e mulheres autônomas, o 8M Florianópolis é uma das frentes criadas a partir da Greve Internacional das Mulheres, em 2017, que atuam de forma descentralizada em várias cidades brasileiras e do mundo. 

Este tema nos propõe pensar em estratégias políticas de autonomia, não somente vinculadas às formas de reprodução do trabalho assalariado, mas sobretudo, à reprodução social da vida, relacionada ao trabalho não remunerado de cuidado e manutenção da vida em sociedade. Viver com dignidade e liberdade soma-se aos esforços de despatriarcalização de nossos corpos – territórios e de todas as formas de precarização nas quais estamos imersas nesse sistema econômico baseado na concentração de riquezas.

“Para a gente é essencial falar sobre viver com dignidade justamente a partir da perspectiva do corpo, trabalho e território. A gente acredita que a multiplicidade do ser da mulher faz necessário se discutir a partir dessas vertentes, e dada a conjuntura que vivemos agora falar sobre dignidade é ainda mais essencial, a dignidade de conseguir viver bem e com liberdade, uma liberdade no sentido de perceber as amarras deste sistema e de que maneira enquanto cosmovisão, visão de mundo afrodescendente como a gente se comporta diante disso”, nos explicou Azânia Romão Nogueira, do Núcleo de Estudos Negros, sobre a temática deste ano. 

Para desenvolver a proposta política desta edição, assim como elaborar a programação de forma a contemplar as especificidades das lutas das diversas mulheres, o grupo realizou reuniões semanais desde o início de janeiro. Mulheres das mais diversas identidades, com deficiência, surdas, negras, indígenas, trans, travestis, gordas, lésbicas, bissexuais, camponesas, periféricas, imigrantes, trabalhadoras sem terra, trabalhadoras do sexo, moradoras de rua, mulheres das ocupações, mães, encarceradas, estudantes, participaram das intensas discussões políticas que se seguiram para pensar em cada passo da construção deste 8M. 

Cerca de 50 mulheres se dedicaram voluntariamente à organização, divididas em comissões de comunicação, infraestrutura, segurança, arte e cultura, mobilização, além de grupos de trabalho que atuam para responder a demandas específicas, como o GT de articulação com os grupos de outras cidades e estados, e o GT de Acessibilidade para pensar a segurança e autonomia das mulheres com deficiência.

“Reconhecemos que o processo de construção é também um espaço de formação para todas as mulheres envolvidas. Não à toa foram ao todo onze encontros presenciais para que pudéssemos expressar e defender nossos posicionamentos, aprender umas com as outras, debater assuntos que nos são caros e por vezes complexos, divergir e, mesmo assim, chegar a um consenso, que por vezes parece intangível”, conta a ativista Ana Bezerra.

Primeira reunião do ano em 8 de janeiro/Foto: Paula Guimarães

Habitar a luta-território


Neste ano, contamos com maior participação das mulheres com deficiência, após a introdução política do debate em 2019. Por isso cada escolha dos espaços para as reuniões e eventos, assim como a confecção dos materiais gráficos, deve levar em conta questões de acessibilidade. Nos grupos de conversa virtual, por exemplo, já virou hábito a descrição de imagens para pessoas com deficiência visual, e o envio de áudios não é mais aceito por não comunicar com as mulheres surdas. 

“Nunca havia participado da organização do 8M. Tem sido uma boa experiência. Acho fantástico compartilhar as decisões com mulheres tão diferentes de mim. Tenho tentado levar as demandas das mulheres com deficiência e tenho me sentido acolhida”, revelou Karla Garcia Luiz, do Coletivo Feminista Helen Keller de Mulheres com Deficiência (CFHK). 

Em entrevista em vídeo ao 8M, Débora Wanderley, coordenadora do curso de Letras Libras da UFSC, na língua de sinais fez um chamado público para a discriminação que impede mulheres surdas de ocuparem tais espaços políticos. “Queremos a garantia de espaços sem barreiras linguísticas, espaços em que possamos trazer nossas pautas e discuti-las em línguas de sinais. Por vezes deixamos de estar em diversos espaços de discussão pelo desconhecimento das pessoas sobre nossas línguas”.

Mariana Franco em roda de conversa em debate sobre multiplicidade de corpos em luta por dignidade e liberdade/Foto: 8M

Ainda que em número reduzido de representatividade, destacamos a presença das mulheres trans e travestis que participaram de alguns encontros. Por reivindicação delas parte das reuniões foram realizadas aos sábados para possibilitar, fundamentalmente, a participação das trabalhadoras sexuais. “Conseguir colocar a transfobia e o transfeminicídio como pauta coletiva do 8M é reconhecermos juntas o cis-heteropatriarcado como o difusor da marginalização e exclusão social da população trans do seio da sociedade, assim como o responsável pelas violências às quais todas estamos expostas”, afirma Mariana Franco, da União Nacional LGBT (UNA) de Santa Catarina. 

Organização das mulheres indígenas

Na marcha do 8M em 2019 pela primeira vez houve uma coluna de mulheres indígenas, representadas por estudantes universitárias e integrantes da Terra Indígena Guarani Morro dos Cavalos, Palhoça (SC). “Desde então vem ocorrendo debate nas aldeias sobre a questão de combater a violência nos territórios indígenas, porque tem um histórico muito grande. No Morro dos Cavalos as mulheres tomaram a frente desde o início, quando tivemos a primeira cacica mulher, a Kerexu, começou a abrir esse debate sobre a necessidade de as mulheres estarem à frente das lutas”, avaliou Ingrid Assis, dirigente da ConLutas e representante do movimento indígena. 

Conforme a ativista, as mulheres indígenas têm protagonizado as lutas pelos povos originários. Na última Assembleia Geral do Povo Guarani, um dia específico foi dedicado para tratar da agenda política delas, com participação de representantes da Argentina, Paraguai, Uruguai e de toda região do território Guarani, movimento que se espalhou pelo país. A realização da 1ª Marcha Nacional das Mulheres Indígenas, em Brasília, é um exemplo de ocupação de espaços. “Nossa luta principal é a demarcação das terras indígenas e que a gente também tem a mesma visão que o 8M de que os homens não são nossos inimigos, tentamos combater o machismo junto com eles, e eles como aliados”, afirma.

Suelyn da Luz, integrante do Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST), fala sobre a luta pela distribuição igualitária da terra/Foto: Paula Guimarães

O território: tema central às mulheres

Por que hoje nos preocupa tanto discutir e compreender os territórios a partir das lutas das mulheres no Brasil? Para as mulheres trans, negras, indígenas, espaços de construção política como o 8M nem sempre são acessíveis, muitas vezes pelas barreiras materiais, como a dificuldade de conciliar horários, questões de mobilidade urbana e a sobrecarga de trabalho. Assim como a colonização tem atravessado nossos corpos feminizados e racializados, o território continua sendo um espaço de disputa. 

Nesses espaços de frente feminista temos mais dificuldade de estar inseridas, geralmente as mulheres indígenas que vivem no contexto urbano têm mais facilidade de ir”, pontua Ingrid Assis, dirigente da ConLutas e representante do movimento indígena. 

Compreender os motivos pelos quais muitas mulheres ainda não estão nesses espaços e refletir sobre quais territórios são reservados a elas na sociedade é um exercício defendido por Luciana Freitas, do Movimento Negro Unificado (MNU), para a qual o “projeto político de sociedade diz exatamente que algumas populações não têm direito à terra e ao território”. 

“A ideia de trazer territorialidade para as mulheres, especialmente do 8M que em sua maioria são brancas com possibilidades financeiras e escolaridade melhores que as negras, indígenas e periféricas, é que elas pensem que precisam avaliar de que forma vai se fazer a luta para a libertação dos corpos dessas mulheres que sustentaram e sustentam esse país por longo período”, argumenta Freitas. 

Reunião ampliada no Quilombo Vidal Martins, no Camping Rio Vermelho/Foto: 8M

O território, enquanto corpo e lugar em que ele habita, é um tema que trata do direito à terra, casa, trabalho, cultura e ocupação da cidade, espaços públicos e políticos, confrontando o lugar subalterno, de confinamento social, reservado ao longo da história a certas populações. “Penso em mim enquanto mulher negra, morei em vários lugares durante minha infância, e esses lugares onde estávamos era sempre algum confinamento, onde o corpo do meu pai, mãe e irmão deveríamos estar. Aquele corpo negro não pode estar em determinados espaços, não combina, não cola, não pertence. E é sempre uma luta para estar nesse espaço”, afirmou a militante do MNU.

Luciana é moradora do Maciço do Morro da Cruz e de lá tem uma visão panorâmica da violência econômica. Para as mulheres negras a ocupação dos territórios para além dos morros só é possível às 5h durante a saída ao trabalho e às 18h para voltar à casa. “A cidade é partida ao meio e paulatinamente estamos vendo que em nome de um progresso as bordas do maciço vêm sendo atacadas por pequenos empreendimentos, tudo isso envolve a territorialidade das mulheres da periferia e negras que vemos nossos filhos trabalhando nesses empreendimentos, mas sabemos que nunca vamos poder morar num prédio deste, numa casa super bonita”. 

Por ser garantidor ou inibidor do exercício da liberdade e dignidade, a questão do território  envolve uma disputa constante vinculada aos espaços ocupados por grupos que compõem as diferentes identidades da população negra e indígena em países da América Latina. Uma dívida histórica atravessada  pelo genocídio da população indígena, escravidão das pessoas negras e saqueamento de terras. “Em várias cidades haverá guetos, favelas, comunidades quilombolas, indígenas e caiçaras. De certa forma também é interessante para quem governa confinar esses coletivos, e estamos em confinamentos que também são propositais, porque se a terra fosse de todos estaríamos em todos os lugares, mas estamos nos organizando nos lugares para criar resistência, modos de vida, pra tentar continuar sobrevivendo num lugar que teoricamente não é pra nós”. 

A convocatória “Apelo transfronteiriço à greve feminista em 8 e 9 de março de 2020” pelo Ni Una Menos e 8M Chile, também coloca o território central à pauta das mulheres em luta.  “Apelamos à recuperação de nossos territórios a partir do extrativismo fundador dos processos colonizadores, que se estende e se manifesta em todo o mundo, e que foi fortalecido pelas alianças criminais e indivisíveis entre patriarcado e capital, que constroem uma trincheira de guerra em que o principal objetivo é a liberdade, os direitos e discordâncias das mulheres e as experiências de vida comunitária que surgem em nossos territórios”, afirmam na convocatória.

8M participa de reunião do Chá das Minas, projeto de acolhimento às mulheres que vivem nas ruas/Foto: Paula Guimarães

Se nossas vidas não importam que produzam sem nós

A decisão de concentrar as ações na segunda-feira e não no domingo (8), Dia Internacional das Mulheres, levou em conta o fato do dia ser entendido como “um dia de folga”, o que poderia caracterizar a atividade como comemorativa e não de luta, além da dificuldade de mobilidade na cidade neste dia, como explica Ana Bezerra, integrante do 8M. 

Sabemos que para as mulheres nas suas diferentes ocupações na sociedade, não é um dia de descanso formal que as impede de trabalhar, a maioria está inserida em múltiplas jornadas de trabalho: entre remunerado e não remunerado. “Para além do trabalho formal, o trabalho da mulher se dá também de forma invisibilizada e não remunerada, de domingo a domingo, e em tripla jornada. Somos nós as incumbidas pelo cuidado com as crianças, pelos idosos e/ou pelas pessoas com deficiência na família, somos nós que tocamos os afazeres domésticos e administramos a rotina, que nos desgastamos física, psicológica, emocional e mentalmente e que, em outras palavras, sustentamos a o sistema girando, através da reprodução social”, explica ativista.  

Os feminismos trazem uma nova compreensão das formas de exploração do trabalho. Sob o lema inicial “se nossas vidas não importam que produzam sem nós”, desde 2017, o 8M resgata e atualiza o sentido político do Dia Internacional das Mulheres, instituído no início do século passado, ao reivindicar a consciência de classe entre as trabalhadoras. As brasileiras, por exemplo, receberem salário 30% inferior aos homens, além de serem responsáveis pelo trabalho não remunerado e invisibilizado nos cuidados da casa, filhos, idosos e doentes. Para as mulheres pardas e negras a desigualdade é ainda maior, pois recebem menos da metade do que os homens brancos (44,4%) no país, segundo pesquisa do IBGE, divulgada no final do ano passado.

Leia também: A luta das trabalhadoras domésticas frente à cultura escravocrata

“Desde então esse movimento não para de crescer. Há que compreender a greve como processo político e não como data em calendário e isso se evidencia que ano a ano essa convocatória está crescendo, se expandindo em países, nos níveis organizativos e acumulando forças, então vemos uma capacidade cada vez maior de convocar os distintos setores e aprofundar as consignas e de fazer cada vez mais urgente, radical e massivo o seu protagonismo nas ruas e também nos espaços da vida cotidiana, social, laboral e política”, explica Verónica Gago, integrante do Ni Una Menos da Argentina e da coordenação internacional da greve.

Neste momento de reorganização do capital com o giro da direita conservadora em muitos países, as mulheres experimentam viver o retrocesso dos seus direitos, com a intensificação da jornada formal de trabalho; cortes de verbas para os programas de transferências de renda; e de cortes das políticas sociais de atenção aos idosas/os e as crianças, destinando os serviços a serem exercidos diretamente pelas mulheres. Além das desigualdades salariais que, historicamente, nos mantêm numa condição econômica inferior aos homens. 

Samara Oliveira, liderança da ocupação Marielle Franco. fala das violências policiais no território/Foto: Paula Guimarães

“Lançamos a iniciativa da greve feminista de uma maneira numerosa para se ampliar o sentido do que se entende por mulheres trabalhadoras, não só as formais, as de fábrica, foi feito um trabalho muito forte sobre o reconhecimento do trabalho doméstico e reprodutivo, trabalho campesino, informal, das economias populares, historicamente desvalorizadas como se fossem gratuitas, obrigatórias e ocupando escalas mais baixas do mercado laboral”, afirma a coordenação internacional da greve.

São impulsionadoras destes novos tempos feministas, a mobilização do Ni Una Menos contra o assassinato de mulheres, na Argentina, e a Greve de Mulheres na Polônia diante de um projeto de lei que visava cercear o direito ao aborto no país.

A ativista lembra que em 2019 a greve teve grande adesão no Chile, encorpada pelas mobilizações sociais contra a precarização da vida, as feministas se posicionaram contrárias ao modelo neoliberal. “É uma iniciativa fundamental para nos opor enquanto feministas ao fascismo que em nossa região é muito forte, mas é fenômeno global de toda maneira, que tem a ver com uma contra ofensiva aos corpos insubmissos e modos de vida que não se ajustam ao modelo neoliberal. É neste sentido que a greve feminista está expressando uma coordenação internacionalista potente”. 

De acordo com uma nota da Liga Internacional Socialista, que integra 14 países entres o Brasil, frente a contextos políticos de retirada de direitos, especialmente na América Latina, Oriente Médio e França, as mulheres têm desempenhado “um papel ativo como parte do movimento trabalhista e popular, e com as jovens na vanguarda, como protagonistas da nova onda mundial da luta das mulheres iniciada em 2015”. 

Não sem motivo. De acordo com o relatório  Tempo de Cuidar – O trabalho de cuidado mal remunerado e não pago e a crise global da desigualdade, divulgado pela Oxfam em 2019, mulheres e meninas ao redor do mundo dedicam 12,5 bilhões de horas, todos os dias, ao trabalho de cuidado não remunerado – uma contribuição de pelo menos US$ 10,8 trilhões por ano à economia global – mais de três vezes o valor da indústria de tecnologia do mundo.

Conforme a Liga, são exemplos dessa insurgência as chilenas que enfrentam a repressão policial desde os protestos sociais dos últimos meses e contagiam o mundo com sua performance contra a violência sexista e institucional. As argentinas que continuam lutando pelo aborto legal. As francesas que participam da greve geral contra a reforma da previdência. As libanesas que se ativam na rebelião popular contra o regime corrupto. As iranianas que rejeitam tanto a interferência americana quanto o regime opressivo dos mullah. As turcas que resistem ao projeto oficial de legalizar o casamento entre o estuprador e a menor violada. As palestinas que repudiam o novo e hipócrita “plano de paz” imperialista-sionista. 

No Brasil não é diferente, as lutas das mulheres têm demonstrado maior capacidade de mobilização do que as frentes tradicionais. As mulheres formaram a principal resistência ao reacionarismo durante as últimas eleições à frente do movimento #EleNão, quando protagonizaram a maior manifestação de mulheres da história do país. 

O grito #EleNão ecoa na maior manifestação de mulheres da história do país

A condição das mulheres no Brasil de hoje

A violência econômica se acirra no Brasil com o desmonte atual das políticas públicas e sociais, fundamentalmente da previdência, num dos países mais desiguais do mundo. Desde 2016, segundo o relatório da Oxfam “País estagnado”, divulgado em 2018, a distribuição de riqueza estagnou. E pela primeira vez em 23 anos houve recuo na equiparação de renda entre mulheres e homens. Uma mulher trabalhadora que ganha um salário mínimo mensal levará 19 anos para receber o equivalente ao que um super-rico recebe em um único mês. 

Desde o contexto de início da  crise econômica e das políticas anti-direitos, os estudos indicam que os maiores prejuízos estão direcionados às mulheres. O destino aos cuidados pela mulher brasileira ocupa a maior parte de sua vida (Tirar). Ainda conforme o Tempo de Cuidar – O trabalho de cuidado mal remunerado e não pago e a crise global da desigualdade, 90% do trabalho de cuidado no Brasil é feito informalmente pelas famílias – e desses 90%, quase 85% é feito por mulheres. 

Conectada à violência econômica está a violência feminicida que impõe um regime de medo às brasileiras. Quinto país no ranking de assassinatos de mulheres, o Brasil se destaca por sua conjunta política de institucionalização da misoginia pelo próprio presidente da república, o que o torna ainda mais hostil às mulheres. O resultado pode ser visto nas estatísticas de feminicídio no país que, na contramão dos demais crimes violentos, cresceu 7,2% em 2019, com expansão expressiva em alguns estados. 

 “A ascensão do Bolsonaro faz a gente pensar na condição real das mulheres brasileiras. Com todas as políticas em relação à vida laboral, as mulheres serão atingidas mais fortemente, porque a maioria é arrimo da família, e as condições de vida e trabalho são muito mais cruéis para nós, especialmente no campo onde há um nível de desigualdade salarial, e também na força de trabalho”, analisou Elaine Sallas, integrante do 8M.

Divulgado recentemente, um relatório da Anistia Internacional que mapeou 24 países das Américas apontou que 2019 foi um ano de retrocessos para os direitos humanos no Brasil. Segundo a organização, o presidente Jair Bolsonaro e outras autoridades de seu governo mantiveram um discurso abertamente contrário aos direitos humanos o que impactou políticas e leis. 

“O 8M precisa discutir como é ser mulher no Brasil, onde as taxas de feminicídio são altíssimas, as mulheres trans são assassinadas, onde o machismo impera. Ser mulher no Brasil tem um agravante porque há uma política de estado que é destruir as nossas vidas enquanto trabalhadoras, seres pensantes e militantes”, argumenta a ativista. 

Leia também: O feminicídio de Elenir Fontão e a importância do debate sobre gênero nas escolas

No início do ano passado a organização internacional Human Rights Watch divulgou relatório apontando que o Brasil enfrenta uma epidemia de violência doméstica. A organização ainda detectou que a taxa de homicídios de mulheres no Brasil é maior do que em qualquer outro país que compõe Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD), na qual figuram 36 nações.

* Essa matéria contou com revisão e edição de Nicole Andrea Ballesteros Albornoz e Vandreza Amante. Sugestões de revisão podem ser enviadas para con[email protected]




Jornalista, cofundadora e diretora executiva do Portal Catarinas.
Veja a coluna da Paula Guimarães