Conheça Mãe Kátia Luz d’Omulú, a terceira Iyalorixá de sua geração

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Imagem: arquivo pessoal Mãe Kátia d’Omulú.
Postado em 19/09/2022, 14:50

De sorriso doce, cabelos brancos e voz firme, a sacerdotisa da Umbanda de Almas de Angola, Kátia Regina Luz d’Omulú, ou Mãe Kátia, se faz percebida por onde quer que passe. Mãe Kátia é uma mulher de presença! Feita Iyalorixá em 1988, sua ligação com a religião afro-brasileira é ancestral. Mãe Kátia é a terceira Iyalorixá de sua geração. A Casa de Santo que ela dirige veio de sua mãe, Mãe Dilma de Iemanjá, e antes foi coordenada pela sua avó, Mãe Ana do Pai Turi, tendo sido fundada em 1952.  

Não à toa, Mãe Kátia é uma das entrevistadas no podcast Alimentação Ancestral. Ela é militante na defesa dos direitos de liberdade religiosa e cultural dos praticantes de religiões de matriz africana, e foi presidenta da Associação dos Terreiros de Umbanda do ritual de Almas de Angola do Brasil (Atuaa).

Além disso, a Casa de Santo que coordena, a Tenda espírita Casa Luz d’Omulú, é o segundo terreiro mais antigo da Grande Florianópolis, de acordo com levantamento feito pelo Projeto Territórios do Axé. O terreiro também conta com instrumentos para preservação da memória cultural da cultura negra e afrodescendente do Povo de Santo. Em 1988, foi fundada a Associação Beneficente do Terreiro de Umbanda Reino de Iemanjá (ABTURI) para ser a instituição mantenedora não somente do terreiro, como também do Museu Cultural Caboclo Turi (espaço que guarda imagens de santos e pertences dos guias espirituais de Mães de Santo que atuavam desde a década de 1950 na Grande Florianópolis). Além do Museu, atualmente, o terreiro conta com a Biblioteca Professora Dilma Ana. 

Mãe Kátia foi uma das principais incentivadoras do projeto, estando presente desde o início de sua idealização. “Alimentação ancestral: identidade cultural e orixalidade na comida afro-brasileira”, é um projeto selecionado pelo Prêmio Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura – Edição 2021, executado com recursos do estado de Santa Catarina, por meio da Fundação Catarinense de Cultura.

Confira a entrevista com Mãe Kátia D’Omulu!

Quando você foi feita Ialorixá?

Ialorixá estou desde 1988. Em 1983 foi quando eu entrei e assumi essa missão de fazer parte. Eu nasci na tradição, mas a gente tem que ter a escolha, como adulta, de estar fazendo parte da corrente mediúnica, de se tornar médium exatamente. Porque uma coisa é você nascer com o dom de ser médium, ou com a missão de ser médium, outra coisa é você ser. E para ser, no caso, teve que ter tanto o desenvolvimento mediúnico, quanto o desenvolvimento espiritual também.  

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Imagem: arquivo pessoal Mãe Kátia d’Omulú.

Pode nos contar um pouco da história da tua Casa de Santo?

Então, o primeiro centro espírita da nossa família chamava-se, Centro Espírita Irmão Otaviano Ribeiro, a minha avó era kardecista. Isso lá pela década de 1945. Quando chegou antes de 1950, ela recebeu um índio e ela passou, então, a ter esse centro espírita mais a tenda espírita “Cabloco Turi” caminhando juntos. Era uma casa só, mas tinha um lado que era umbanda, um lado que era kardecismo. Quando ela faleceu, a minha mãe que herdou a Casa. A Casa da minha avó era lá no Estreito, na Ponta do Leal. Minha mãe trouxe a Casa e colocou no bairro da Tapera, aqui perto da praia. E a minha mãe era de Iemanjá, aí ficou Terreiro de Umbanda Reino de Iemanjá. Na umbanda é assim, cada casa tem que ter o axé do orixá da Mãe de Santo, né? Da sacerdotisa. E foi a minha mãe que fundou o museu. Quando ela foi registrar, buscou também a Casa ser de utilidade pública no governo do estado, como Associação Beneficente Terreiro de Umbanda Reino de Iemanjá, ABTURI. Então, essa associação tem um museu, mais a Casa de Santo. Hoje, a Associação mantém quatro estruturas: um núcleo de cura, uma casa de santo, um museu e uma biblioteca. A biblioteca é Mãe Dilma de Iemanjá, porque minha mãe é professora e a gente quis honrá-la. E eu ampliei para ter o Núcleo de Cura Luz da Terra. Tudo fica no mesmo espaço. 

 Qual o papel da comida na umbanda?

A gente tem uma concepção que vem de várias tradições muito antigas. E vem da África. A gente oferece ao Orixá tudo aquilo que a gente come.

E cada grão faz parte de um orixá, cada fruta, cada legume, por exemplo, Oxalá é a canjica branca, então, a gente oferece a canjica branca. Para a gente tudo depende dessa troca que se faz com o orixá. Então, no caso, uma pessoa está precisando de uma misericórdia de Deus, daí a gente faz uma canjica para Oxalá pra receber essa misericórdia. A gente quer agradecer porque adquiriu saúde, a gente entrega uma pipoca pra Obaluaê. Então, é um ponto de conexão com o divino. 

E a comida de Santo é feita pela Iabassé?

A Iabassé é a cozinheira de Santo, mas tem casas que não tem esse cargo. É feita por todos que estão ali. Quem está na cozinha, né? Quem cozinha direito. Daí, é passado para as orações. Porque tudo que se faz na cozinha de Santo tem as suas orações. Então, desde que a gente acende a vela na cozinha, faz a primeira oração, canalizando a potencialidade dos orixás para abençoar toda aquela comida, todo aquele preparo que vai acontecer. Tanto daquilo que vai ser oferecido à orixá, quanto o que a gente vai comer, para que aquilo seja abençoado para toda a coletividade.

Então, ali vai ter as rezas, tá ali na panela, está cozinhando, está mexendo, tá rezando, tá fazendo toda essa energia, essa troca do axé. Porque pra gente, tudo que é falado, é dito, é rezado, consagrado, tudo tem um axé de Deus que é através da fala, do sopro divino que vem, através do nosso hálito, através da nossa fala, através daquilo que a gente emana do nosso verbo.

Podemos dizer então que a alimentação ancestral é uma forma de resistência, né?

Ah, completamente. O acarajé é um deles, né? Tem uma briga, inclusive, sobre a apropriação cultural do acarajé. Porque na Bahia tem gente lá dizendo, “ah, acarajé de Jesus”. Ei, hello, Jesus não comia acarajé, vamos lá. Ele por si só não pode nem comer dendê porque uma pessoa que é de Óxala não pode comer dendê. Cai fora que não pode ser de Jesus nunca isso. 

Saiba mais sobre a questão no episódio 4 do Alimentação Ancestral.

Sobre o racismo religioso, você acredita que se as pessoas tivessem mais informação sobre a origem do que estão comendo, isso poderia colaborar pra melhorar essa questão?

Eu não saberia dizer se as pessoas tivessem essa consciência, o que mudaria, mas teve um tempo, uns anos atrás, que uma diretora pediu pra gente levar até a escola. A gente estava com um trabalho aqui de um varal cultural e mandamos uma comunicação para os colégios para que pudessem trazer alunos para conhecer. Apenas um colégio falou que não podia trazer por causa da logística e perguntou se a gente podia levar. E a gente levou pra lá e depois eles nos chamaram em outra oportunidade também, porque estava tendo intolerância com crianças menores de dez anos de idade. Pensa só, crianças, intolerância religiosa com menos de dez anos de idade. Criança só aprende com adulto, não tem jeito. E daí a gente chegou lá eles estavam em aula, preparamos tudo e eu falei pra diretora: “eu vou fazer pipoca porque não tem quem não resista um cheiro de uma pipoca estourada na hora ali”. Aquele cheirinho foi adentrando nas salas e daí eles entraram no recreio, já começaram ver aquilo que estava exposto, mas todo mundo vinha e pegava o saquinho de pipoca e comia a pipoca. A gente deixou muito livre e depois começamos a conversar que a pipoca é um símbolo de cura. Eu fui mostrando que o milho duro, quando ele vai pro fogo, como que se transforma em outro tipo de alimento e o quanto é bom de comer e que a gente trabalha para trazer a cura na pessoa, pra fazer limpezas energéticas. E eles foram observando, escutando e eles perguntavam. Então, a gente trabalha para desmistificar.

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Imagem: arquivo pessoal Mãe Kátia d’Omulú.

Você já sofreu racismo religioso?

Olha, desde menina. Minha mãe me colocou num colégio de freira, o Imaculado da Conceição. Lá, meu Jesus, “filha de bruxa” é o mínimo que eu escutei. Então, eu virei a guerreira. Coisas que eu sou. Sou filha de Iansã mesmo, acho que é por isso. Ali era sempre uma briga e eu pedia para a mãe me tirar. Até que chegou num limite que as irmãs já não aguentavam mais e ela me botou de novo num colégio público. Porque é um inferno, né? Tu não tens essa noção. E só para ter noção do preconceito, eu nem era a médium ainda lá dentro de um terreiro, né? Eu era só filha de uma macumbeira. Eu não fui convidada para nenhum aniversário de quinze anos. Às minhas amigas que foram no meu aniversário de quinze anos, elas já tinham dezoito anos. As pessoas acham que a gente vai pra dentro de um terreiro, numa sessão, para estar movendo energias de mal para alguém, sabe? Isso é uma coisa que dói na alma da gente. 

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Jornalista, pesquisadora e educadora. Doutora (2019) e mestra (2012) em Estudos de Cultura, pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Graduada em Comunicação Social (2009) pela mesma universidade. Tem experiência nas áreas de estudos de gênero e feministas, comunicação, gestão de projetos e educação.
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