Esse artigo traz uma carta ficcional sobre a ascensão da direita na Polônia e também no Brasil, pais que a autora admirava pelas conquistas da democracia/Foto: arquivo pessoal

Carta do estrangeiro

Postado em 10/01/2020, 10:15

Querido,

Recebi sua carta faz dias e não sabia o que responder… Mesmo naquelas cartas tristes dos últimos meses achava ainda beleza das tuas palavras. Teu humor sutil e inteligente e, talvez mais do que antigamente, a perfeição de forma. Como se a forma, a harmonia de forma pudesse ser a nossa última fortaleza. No seu último recado senti apenas sal. Sal que queima lábios e pontas dos dedos, sal que corta palavras e pulveriza estruturas.

Cresci num país com uma democracia relativamente nova. Mas cresci e o país foi crescendo, crescendo, crescendo… Cada vez mais aberto, colorido, como nos parecia após décadas de cinzas, e ainda economicamente estável. Nos anos noventa conhecemos sabor de frutas importadas, marcas de roupas estrangeiras, o verdadeiro chocolate; era tão diferente sentir essa textura cremosa no céu da boca… O país cresceu… Quem sabe cresceu rápido demais, ficou com uma coluna frágil e torta, pernas de barro…

Aos 10, venci concurso escolar sobre mitologia grega. Lembro bem que a última pergunta, a decisiva, era sobre as musas. Calíope, Clio, Melpômene… e a minha preferida – Erato. Aos 16, cheguei até a última etapa do concurso sobre a história e cultura dos judeus poloneses. Na faculdade, com jovens de três outros países, cuidava de cemitérios de outras nações que uma vez habitavam estas terras. O meu passaporte, que antigamente permitia apenas estadias em países do chamado Bloco de Varsóvia, abriu-se para o mundo. Abriu-se e voou, e eu voei, viajei, coletei carimbos de diversas formas e cores. Não era tudo tão idílico, mas ainda assim…

Gostava de comparar o primeiro, segundo e terceiro passaporte. No primeiro tem ainda um carimbo da República Democrática da Alemanha de 1989. Um país fantasma que vive apenas nas memórias dos seus filhos. Conheci, como criança, um país que hoje ninguém mais pode visitar. Lembro ainda do controle rigoroso na divisa e das instruções da minha avó, de que precisava ficar quieta, com mãos nas coxas e sem sorrir. Tem um carimbo anulando as restrições de viagens, um carimbo da República Federal da Alemanha, um outro da prefeitura de Kaufbeuren, uma cidade pequena no Sul, dizendo que recebi cem marcas alemãs como gesto de boas-vindas ao Ocidente.

O segundo passaporte não tem coisas muito relevantes. Voltou a coroa da águia – nosso brasão – na capa. Mas, espere, tem um carimbo da Holanda de 1999 que poucas pessoas têm – ao atravessar a divisa entre a Alemanha e a Holanda de carro, pedi para a pessoa que me hospedava na época, para ela parar. Ninguém parava porque não precisava. Desci do carro e procurei por um bom tempo por alguém que pudesse carimbar o meu passaporte. E esta pessoa, por sua vez, tinha que procurar o carimbo. Afinal de contas, ninguém precisava dele. Dali em diante conheci uma realidade sem carimbos, realidade que parecia ser a mais perfeita das possíveis, embora houvesse um grupo gritando pela defesa das divisas. Especialmente entre os mesmos e os outros…

O terceiro passaporte eu adorava – ainda adoro. Tem mais um ano de validade. Em suas páginas mostra-se a história das viagens – viagens a pé, de cavalo, carruagem, de balão e de bicicleta, de carro e de barco, e assim por diante. Bonito, não é? Bonito por mais um ano. A nova edição, comemorativa ao centenário da independência, abre um retrato de um homem do estado, contrário à emancipação das mulheres e antissemita. Na última página, a supostamente personalizada, a sigla do país é impressa várias vezes na foto do portador. Foto emoldurada pelo lema: deus, honra, pátria…

Chegaram as próximas eleições. Não iam mudar nada, não tinha porque se preocupar, não tinha porque ir no domingo colocar um x ao lado do seu candidato e fazer uso do seu “direito”. Um país com cidadãos que sofreram muito pelas ditaduras de ambos os lados não ia cair voluntariamente nos abraços paralisadores dos charlatões baratos e previsíveis, pensei… Só que a história não ensina nada. Não fizemos essa lição. Matamos aulas. Esquecemos a Clio… Adormecemos e a nossa ilha foi levada para direita, cada vez mais para direita. As pernas estremeceram, ouviam-se estalos estranhos da coluna… Enquanto a ilha no continente europeu fugia do meio que lhe concedeu a geografia e a história, a nossa ilha no Atlântico, querido, ilha que um dia virou minha casa, também já estava à deriva, rumo ao abismo que nem das imagens da terra plana.

Amanhecemos num país com espetáculos ridículos, com danse macabre em cima de túmulos de novos heróis, dança dos insanos queimando bonecas de judeus, espantando outros em nome da cruz ao aplauso da igreja, limitando direitos das mulheres, desconstruindo democracia nas sessões noturnas do parlamento. E parecia que nem dava para acreditar, que nem dava para dar ouvidos, olhos, parecia que todos os sentidos estavam delirando. Ainda parece… Às vezes espio pela frincha da internet. Ainda parece. E ainda dói.

Falava para os meus amigos, agora do outro lado do oceano, que pelo menos estou longe. Num país longe do cinza monocromático. Aberto – parecia. Brincava: podem vir! Podem se refugiar, sair desta tempestade de ódio. Mas a tempestade chegou até aqui. Me alcançou, alcançou você, querido. E, não, diferentemente de lá, aqui não foi pela falta de participação. Milhares de pessoas abriram as portas para ela. Ainda estão abrindo. Reduzindo as minhas colocações, pois sou de lá, de fora, fora, fora… Diminuindo qualquer conteúdo das minhas palavras à orientação política supostamente oposta à deles. Como se tratasse de orientação e não de bom senso. Reduzindo você ao corpo, a um pedaço de carne espantada por não querer se enquadrar.

Sinto que um dia o vento nos levará, nos levará de uma vez e não será este o assunto de notícias consumidas junto com jantares nas casas que se chamam de boas. Esta nossa partida, viagem involuntária nem será notada, pois, quanto tempo perdura no ar um grito perdido? Não precisaremos desta vez de nossos passaportes. Mas de repete levarei aquele meu preferido; quem sabe serve para nós dois, mesmo se naquele momento já for sem validade…

Mas por enquanto tento enxergar pessoas nessa ventania. Tento me segurar nas redes tecidas de nomes, quadros, músicas, datas, antes que as redes desapareçam substituídas pelas novas, costuradas às pressas pelos amorais diretores do futuro presente. E, sim, guardo no coração a Calíope, Clio, Melpômene…, e a minha preferida: Erato. A amável.

Izabela Drozdowska-Broering é polonesa e mora há cinco anos no Brasil. Professora do Curso de Letras Alemão e do Programa de Pós-graduação em Literatura da Universidade Federal de Santa Catarina. Pesquisadora e escritora.




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