Proposta tem inspiração no tarô/Foto: Chris Mayer

“Quais os meus poderes de transformação?”, propõe baralho “Mulheres inspiradoras”

Postado em 16/08/2017, 12:00

“A eletricidade não vai nos dar a nossa comida. Precisamos que nossos rios fluam livremente. Nosso futuro depende disso”, disse Tuira Kayapo, guerreira do povo indígena Kayap em protesto à ameaça representada pela Usina de Belo Monte. Tuira e outras mulheres que são referências de luta em tempos atuais ou passados, mesmo que invisibilizadas pela história oficial, têm suas fotos estampadas no jogo de cartas “Mulheres inspiradoras”, criado pela fotógrafa Ana Rita Mayer, 28 anos.

Cada carta vem acompanhada da característica mais forte que simboliza aquela mulher. Elza Soares, por exemplo, traz consigo a palavra autoconfiança. O jogo é composto também pela carta “Eu” que convida à reflexão “quais os meus poderes de transformação?”.

A proposta tem inspiração no tarô – jogo que ajuda no autoconhecimento da jogadora ao revelar o que se passa no seu inconsciente – sem seguir, porém, a metodologia específica.  Enquanto o tradicional é formado por 78 cartas, o jogo “Mulheres Inspiradoras” tem 37. Pode ser jogado em grupo ou sozinha em momento de inspiração.

“A carta pode destacar uma qualidade forte de quem joga e que precisa ser valorizada. É possível fazer várias associações e reflexões. Quem curte e já jogou tarô sabe que a carta sempre traz a mensagem certa na hora certa”, explica Ana Rita.

Encomendas do jogo de cartas podem ser feitas pelo endereço eletrônico "email.pra.ana@gmail.com"/Foto: Martin Mayer

Encomendas do jogo de cartas podem ser feitas pelo endereço eletrônico “email.pra.ana@gmail.com”/Foto: Martin Mayer

Jeito divertido de conhecer
Criado inicialmente para dar à irmã de 13 anos como presente de Natal, o jogo envolveu a família e amigas/os em vivências e passa a ser vendido por encomendas. “Jogamos eu, minha irmã, tia e vó. Foi um momento de descobertas. A ideia surgiu da vontade de conhecer mulheres que me inspirassem e de levar o feminismo de forma lúdica a minha irmã e a mais pessoas. É um jeito divertido de conhecê-las e refletir sobre nossos potenciais”.

Ana Rita conta que após pesquisa na Internet, fez uma associação livre das características de cada mulher de forma intuitiva. São mulheres de quase todos os momentos históricos, incluindo muitas contemporâneas. A maioria, no entanto, deixou sua marca no século 20.

“Quanto mais próximas do tempo atual, mais inspiradoras são, ao mesmo tempo que as mais antigas são muito instigantes por terem enfrentado períodos mais difíceis”, pondera.

Em sua pesquisa, ficou surpresa especialmente com a história de Asmaa Mahfouz, jovem responsável pela mobilização que deu origem à Primavera Árabe. “Ela publicou um vídeo de chamado no youtube que levou uma multidão às ruas. Fiquei impressionada por fazer parte de uma história recente e eu não a conhecer”, conta.

Rafaela Catarina Kinas tirou a carta “eu” que reflete sobre sua qualidade transformadora/Foto: Chris Mayer

Lugares de sucesso e poder
A criação teve ainda uma motivação relacionada à dificuldade da fotógrafa de enxergar-se em lugares de sucesso e poder. “Geralmente esses lugares são ocupados por homens. Há uma invisibilização dessas mulheres, por isso nos faltam referências. Conheço muitas mulheres, incrivelmente fortes e que não sabem que são. Muitas vezes, a mulher é talentosa e extremamente inteligente e não consegue se enxergar. Minha busca é por despertar em nós o quão incrível a gente já é”, afirma.

Ana Rita, que atua na fotografia há cinco anos, já fez coberturas de várias manifestações, com destaque para a Marcha das Vadias, ensaios das ocupações do Contestado e Amarildo, em Florianópolis, e especiais sobre mulheres das culturas afrodescente e indígena em países da América Latina. “Tenho curiosidade em conhecer mulheres do cotidiano e perceber o quanto são inspiradoras.  Pretendo contar suas histórias a mais pessoas, afinal esse é o papel da fotografia”, diz.

O jogo é acompanhado de um encarte que traz uma breve descrição de cada mulher. Conheça algumas delas:

Angela Davis foi filósofa marxista e militante dos Panteras Negras, nos EUA. Depois de deixar o movimento, ela atuou no Partido Comunista dos Estados Unidos, em 1968. Angela sofreu intensa perseguição e foi posta na lista dos 10 mais procurados pelo FBI.

Constance Markievicz se uniu ao movimento sufragista pelo voto das mulheres na Inglaterra, em 1897, participou da União Nacional das Sociedades de Mulheres Sufragistas e passou a atuar na Irlanda. Ela foi ativa na política nacionalista irlandesa, se juntou ao grupo de mulheres “Filhas da Irlanda” (Inghinidhe na hÉireann) e ao partido Sinn Féin pela independência da nação irlandesa.

Emma Goldman trabalhou como operária têxtil e se uniu ao movimento libertário, defendeu e foi instigadora de numerosas greves operárias. Emma foi a primeira revolucionária de seu tempo que assumiu a defesa dos homossexuais. Ela foi presa em 1893 na penitenciária das ilhas Blackwell.

Lakshmi Sehgal estudou medicina e tornou-se capitã de um regimento do Exército Nacional Indiano, como médica. Acolhia os refugiados e os setores mais marginalizados da sociedade, tornou-se membro da All India Democrática Associação de Mulheres (AIDWA). Atuava em campanhas por justiça política, econômica e social.

Luz del Fuego escandalizou o Brasil nos anos 40 e 50. Era dançarina, naturalista e pioneira do movimento pela liberdade do corpo. Fundou a colônia naturalista “Ilha do Sol” e era constantemente assediada por homens que buscavam orgias sexuais na Ilha. Ela denunciava os assédios à Polícia e, por isso, dois homens assassinaram Luz por vingança.

Maria Bonita é chamada de Rainha do Cangaço, que não por acaso, nasceu em 1911 em um 8 de marco, foi uma mulher corajosa, de arma na mão, decidida, que rompeu parâmetros de uma época para seguir um grupo que vivia à margem da lei. Foi a primeira mulher a ingressar no Cangaço e se decidiu se lançar pelo Sertão justamente depois de uma das brigas de um casamento abusivo.

Meena Keshwar Kamal foi uma feminista afegã e ativista que trabalhou pelos direitos das mulheres. Fundou a Associação Revolucionária das Mulheres do Afeganistão (RAWA) em 1977, um grupo organizado para promover igualdade e educação para as mulheres. Fundou também escolas para ajudar crianças refugiadas e suas mães, oferecendo hospital e aprendizado em atividades manuais.

Sophie Scholl foi integrante do movimento “A Rosa Branca” de resistência contra o nazismo na Alemanha. Ela espalhava panfletos que denunciavam os crimes do regime nazista nas caixas de correio, colavam em cabines telefônicas e em carros estacionados. Quando capturada, ela foi decapitada pela SS, a polícia do Estado.

Tereza de Benguela ou“Rainha Tereza”, liderou o Quilombo de Quariterê, em Guaporé, no Mato Grosso. O quilombo resistiu com aproximadamente 100 pessoas até Tereza ser capturada e morta por soldados em 1770.

Winnie Mandela lutou contra o apartheid na África do Sul, foi duramente perseguida por sua militância e mesmo assim e foi grande responsável pelas manifestações a favor da soltura de Nelson Mandela. No fim da segregação racial ela se tornou presidente da Liga das Mulheres no Congresso Nacional Africano (CNA).

Fonte principal de pesquisa utilizada por Ana Rita: Projeto 45 Mulheres Cabulosas da História, do Levante Popular da Juventude

Serviço
O baralho pode ser encomendado com Chris Mayer, pelo e-mail chrismayer.a@gmail.com, ou fone/whats (48) 99999-5816. Acesse a página aqui.

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