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Foto: Divulgação.

O empoderamento pela buceta. O desabafo de uma travesti

Postado em 27/01/2021, 12:07

A repercussão da obra “Diva”, da artista Juliana Notari, mostra que não podemos continuar associando o feminismo, a feminilidade, o ser mulher, com buceta. 

Durante muito tempo, ouvimos e são construídas socialmente as percepções do feminino relacionadas às pessoas com vagina, com útero etc. A sociedade é moldada e construída a partir de definições hierárquicas de gênero que traduzem a opressão às mulheres e o preconceito às pessoas trans ao longo da historicidade humana. Há tempos os movimentos feminista e LGBTQI+ tentam reduzir os impactos da transfobia na sociedade, mas esta é uma luta constante na sociedade patriarcal e capitalista. Realizar o trabalho de desconstrução social é uma atividade constante e diária. 

Para quem adentra no debate a partir do campo biológico, os marcadores biológicos não podem ser negados, apenas devemos parar de utiliza-los como marcadores de gênero e, sim, utiliza-los como marcadores de funcionalidades para as pluralidades de corpos existentes. Perpetuar a ideia de que mulher é aquela com vagina, além de ser um pensamento trans excludente, legitima o pensamento da biologia ser o único fator aceitável e, portanto, todas as discussões e debates sobre gênero seriam automaticamente descartadas.  

Lembramos aqui a importância dos estudos de Judith Butler e de Paul B. Preciado na desconstrução dos corpos e a importância da Teoria Queer para legitimar as revoluções sociais realizadas pelas mulheres diariamente. Sexo e gênero são as mesma coisa em termos de construção social!

Ser mulher está além de ter uma vagina. Além disso, ter vagina não é um  marcador exclusivo para mulheres, se não estaríamos automaticamente excluindo a existência de homens trans.

Se mulheres de verdade (sic) são apenas mulheres com vagina, mulheres trans e travestis seriam, então, uma fraude? Nossa existência deve ser ignorada?

Me espanta as discussões de feministas e de mulheres que realizam a construção dos debates de gênero no Brasil em não atrelarem as discussões a partir ou, incluindo mulheres trans.

Durante anos as mulheres trans e travestis dão as orientações de que o futuro do feminismo é aquele que englobe todas as mulheres – e não sou somente eu que digo isto, Angela Davis e Rebecca Solnit há tempos afirmam que devemos incluir os estudos transfeministas no debate do feminismo.

Porém, o ambiente da academia ainda é uma realidade muito distante para as pessoas trans, e feministas cis perpetuam a usurpação dos dizeres trans ao falarem por pessoas trans. Pessoas cis, além de se acharem no direito de dizer o que é ou não transfobia, ainda querem dizer o que é ou não ser trans!

Devemos ter muito cuidado com os conteúdos que lemos sobre os estudos de gênero, pois o feminismo possui várias motivações que não são homogêneas, afinal, o capitalismo está aí, diariamente nos rotulando e nos dizendo quem devemos ser e quais as direções devemos seguir. Por isso, é de extrema importância que tenhamos um feminismo que lute por uma sociedade anticapitalista e não tenha a sua pauta construída somente no empoderamento da buceta. Ressalto, não podemos reduzir uma mulher  somente à sua genitália, ela não é símbolo de feminilidade, de força, de luta. 

Agora atentando à repercussão da obra “Diva”, se a pergunta é se é uma obra de arte transfóbica, para esta simples colunista a resposta é: não. Para mim, não existe nada transfóbico ligado à vulva, à vagina, à escultura em si, no caso. Onde ocorreu transfobia foi na descrição da artista para explicar a sua arte ao correlacionar a vulva como feminilidade.

Ela pode ser artista, pode colocar a arte a partir da sua perspectiva? Pode, mas me questiono, então, o porquê de colocar a feminilidade como uma vulva, por que não conseguiu materializar a feminilidade por qualquer outra parte do corpo? Um dedo, sei lá. Podemos associar a perspectiva feminina, o ser mulher, somente através da vulva?

Eu penso no feminismo como agente transformador na sociedade, na luta antirracista, anticapitalista,  antilgbtfóbica, pois, se construímos a perspectiva feminina através da vulva, não temos argumentos para criticar o sistema opressor de gênero existente na sociedade. Falta debate, entende? Até porque estudos intersexo mostram que existem seis possibilidades de genitais anatômicos só na condição de insensibilidade androgênica, sem mencionar os mais diferentes estados intersexos que alteram a formação dos genitais e os mais de quarenta tipos de estados intersexo biológicos que alteram cromossomos, genes, genitais anatômicos, gônadas e hormônios2. Falta debate, viu só?! 

Existimos e somos plurais na sociedade, mas deixo claro, aqui, que mulheres trans e travestis não possuem ojeriza à vulva, vagina, xoxota, pomba, o nome que quiserem dar. O que queremos é a normalização dos corpos, da existência de mulheres plurais na sociedade, e que todos os corpos sejam aceitos, sem marcadores, sem a  necessidade de categorizar as pessoas pela genitália.

Não existe empoderamento pela buceta. Devemos ter debates acessíveis para todas as pessoas da sociedade para, de fato, conquistarmos a renovação e revolução social que tanto queremos e sonhamos. Não  podemos construir um mundo de igualdade se continuamos a prática de enxergar o mundo só por si mesma.  

Para finalizar e conscientizar, na semana em que a obra foi apresentada, suscitando diversas discussões em defesa da arte, uma criança trans de 13 anos foi espancada até a morte em Camocim, a 457 km de Fortaleza/CE².

É difícil debater feminismos sem perspectivas de gênero, raça, classe. É difícil articular com feminismos que defendem uma xoxota de cimento, mas não prestam atenção no corpo trans ensanguentado e sem vida na calçada. 

¹ https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0004-27302007000600018

² https://poenaroda.com.br/diversidade/lgbtfobia/adolescente-trans-morta/

Mariana Franco é discente de Serviço Social na UFSC, Colunista no Portal Catarinas, Conselheira Nacional no Ministério dos Direitos Humanos e Presidente da União Nacional LGBTI de Santa Catarina

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Mariana Franco é graduanda de Serviço Social na Universidade Federal de Santa (UFSC), colunista Catarinas, presidente da União Nacional LGBT de Santa Catarina, coordenadora da União Brasileira de Mulheres (UBM), conselheira do Conselho Estadual dos Direitos das Mulheres SC (CEDIM) e conselheira do Conselho Estadual dos Direitos da Juventude (Conjuve).
Veja a coluna da Mariana Franco