Capas da Revista TPM, edições de 2010.

Livro aborda a invisibilização das mulheres negras nas capas de revistas femininas

Postado em 12/12/2018, 18:11

Voltadas para o público de mulheres, as chamadas revistas femininas se definiram ao longo de décadas como aquelas cuja proposta era figurar como os principais canais de comunicação das mulheres. Mais recentemente, o modelo das publicações vem se modificando no sentido de prometer abarcar a diversidade das mulheres. Mas elas de fato conseguem ser representativas em termos de gênero e raça? Resultado da sua tese de doutorado em Literatura na UFSC, Gabrielle Bittelbrun aborda essa temática no livro Cores e Contornos, editado pela Editora Insular, se questionando sobre quem são as mulheres que vêm sendo trazidas pelas revistas Cláudia e TPM.

Segundo a pesquisadora, os resultados mais impactantes são os relacionados a representatividade das mulheres negras nas capas das revistas femininas brasileiras impressas Claudia e TPM, analisadas entre 2004 e 2014. O estudo indicou que, em Claudia, as mulheres brancas com traços caucasianos predominantes ocuparam 81% das primeiras páginas.

Em 14% das capas, o destaque foi conferido àquelas personalidades que, embora apresentem traços de outras etnias, podem ser igualmente consideradas brancas, como Luiza Brunet, Dira Paes ou Ivete Sangalo. Apenas 5% das capas contaram com mulheres negras.

Já na revista TPM, em apenas 9% das capas há personalidades negras. As personagens de capa que se autoidentificam ou são identificadas brancas, que ainda são prioritariamente associadas a um perfil de branquidade, embora tenham traços de outras etnias, como Bruna Marquezine e Juliana Paes, representaram cerca de 13% das primeiras páginas. Já aquelas notadamente brancas, como Angélica, Renata Vasconcelos, Grazi Massafera, representaram, no mínimo, 72% das capas.

Gabrielle afirmou em entrevista ao Portal Catarinas que  “embora o cenário de diversidade seja um pouco melhor, também no veículo da Editora Trip (Revista TPM) se mantém a discrepância entre a população brasileira, em sua composição racial, e o que é representado nas capas. As revistas femininas, portanto, contribuíram para relegar um grupo que é maioria no país a um espaço de invisibilidade”. A revista digital AzMina também fez parte do material analisado, mas não da mesma forma pelas diferenciações de plataforma  e o tempo de publicação. Para a doutora em Literatura, os discursos diferenciados desse veículo puderam dar pistas sobre os novos caminhos que têm surgido quando se falam em revistas para as mulheres.

 

Gabrielle começou a pesquisar sobre gênero na faculdade de Jornalismo em 2006, quando analisou a representatividade de mulheres em filmes de várias épocas/Foto: Filipe Scotti

Catarinas – Quais os principais achados de sua pesquisa?
Gabrielle Bittelbrun – Como leitora de revistas há décadas, eu quis investigar quem são as mulheres que vêm sendo trazidas pelas revistas. Consideramos a Claudia por ser a revista feminina mais antiga em circulação no mercado, tendo surgido em 1961 – e a revista que minha mãe sempre tinha em casa e que me assombrou por toda a adolescência, com as sugestões de dietas. A TPM surgiu na pesquisa porque as pessoas comentavam comigo, nos congressos, que a TPM era diferente, que tinha uma proposta diferenciada e seria mais preocupada com questões de representatividade. Mais recentemente, decidimos acrescentar às discussões a revista AzMina, como uma amostra desses novos veículos para mulheres que surgem fora dos meios hegemônicos e com abordagens que nunca foram encontradas até então, com pautas feministas e mulheres comuns entre as protagonistas. O que mais me impactou foram as conclusões relacionadas às questões de raça. Sabia que as mulheres brancas seriam a maioria nas publicações. Mas não tinha ideia da dimensão disso e essa foi a intenção da pesquisa, que deu origem ao livro.

Catarinas – As discussões feministas dentro da academia foram enfáticas ao demonstrar o caráter político da produção de conhecimento. Como foi para você construir uma pesquisa que privilegiou o referencial teórico dos estudos de gênero? Você encontrou alguma resistência ou o campo de estudos já está mais consolidado?
Gabrielle Bittelbrun – Eu comecei a pesquisar sobre gênero quando cursava a faculdade, em 2006. Na época, analisei a representatividade de mulheres em filmes de várias épocas e depois comecei a estudar as revistas. Lembro que não havia tanta bibliografia sobre isso e, principalmente, nos congressos e eventos, sequer havia grupos temáticos prevendo esse tipo de abordagem. Nos últimos anos, tem havido uma avalanche de eventos da área da comunicação que têm questões de gênero entre as temáticas principais e acho isso um avanço enorme porque é sinal de que as pessoas começaram a pensar sobre isso. Mas ainda há preconceito e discriminações, sim, em várias instâncias.

Já ouvi comentários preconceituosos sobre a minha pesquisa nos corredores da universidade e, durante um evento, um professor já interrompeu minha fala, reduzindo a importância da minha pesquisa.

E sei que não sou a única e várias colegas, inclusive respeitas pesquisadoras da área, já passaram por situações similares. Costumo brincar que ser feminista e pesquisar sobre feminismo é arrumar, no mínimo, uma briga por dia. Acredito que essa onda conservadora pode ameaçar financiamentos dessas áreas de pesquisa. Mas os estudos de gênero e os estudos feministas do Brasil são respeitados mundialmente e encontraremos formas de resistir, sempre encontramos.

Catarinas – Qual a importância dessa articulação entre gênero e raça para a análise realizada em sua pesquisa?
Gabrielle Bittelbrun – No Brasil, em que as discriminações são tão marcadas por gênero, raça, classe, acredito que não haja outro caminho possível a não ser o caminho de um feminismo interseccional, que considere as diferentes perspectivas. Há uma frase de Boaventura de Sousa Santos que ouvi durante o doutorado e que me marcou muito: “temos o direito a ser iguais quando a diferença nos inferioriza; temos o direito a ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza”.

A articulação entre gênero e raça é um meio para se pensar as opressões e discriminações como um todo, de uma maneira abrangente até os seus mínimos detalhes, e traz à tona uma série de questões que o feminismo branco não havia contemplado.

É uma forma para se compreender o lugar do outro, o próprio lugar, e para se trabalhar juntos de verdade por caminhos mais igualitários. A pesquisa interseccional me permitiu uma conscientização muito maior dos meus privilégios e sobre o meu papel na opressão de determinados grupos, como das pessoas negras. Sinceramente, na nossa sociedade que discrimina tanto, o feminismo interseccional me parece a única via possível. A Adrianne Rich fala do corpo como nossa “localização mais próxima”. E eu sei que este meu corpo de mulher branca me barra em alguns lugares e me leva a outros. Acredito que com esse tipo de conscientização, podemos unir nossas diferentes localizações – de gênero, classe, raça e etc – para chegar muito mais longe e fazer ecoar os debates feministas nos contextos mais impensados.

Catarinas – Na introdução do seu livro, você descreve os impactos que as revistas femininas tiveram em sua vida, enquanto uma adolescente branca e de classe média. Quais os reflexos na vida das mulheres dos estereótipos e padrões de gênero e raça presentes na mídia?
Gabrielle Bittelbrun – Acho que os reflexos são diferentes para cada mulher. Lembro quando eu tinha uns 19 anos e via a abertura da novela Belíssima (que estão reprisando, inclusive). Eu via aquele corpo excessivamente magro e alto da modelo Michelle Alves que gira na abertura. Um corpo que (assim como um frango de padaria), é esvaziado de existência, como se só existisse para ser desejado e “consumido” de alguma maneira. Durante meses e meses eu vi aquela abertura e quando eu comia menos no jantar, a culpa pela distância entre o meu corpo e aquele corpo que girava, parecia um pouco menor. E isso me levou a uma série de dietas e paranoias. Aquela magreza extrema de certa forma me chocava e me hipnotizava. Depois, entrei para a pesquisa na busca por construir ferramentas acadêmicas que me blindassem de imperativos como esse. Nunca consegui. Por mais que tenhamos uma postura crítica frente ao que é trazido, a frequência com que somos bombardeadas pelas imagens de mulheres, dentro de padrões muito rígidos e por vezes retocadas de alguma maneira – por plástica ou photoshop – é muito alta e isso acontece há muito tempo.  Enfim, pensando ainda em questões de raça: quando cheguei no doutorado, comecei a questionar que, se para mim, a abertura da Belíssima era tão violenta, como não deveria ser para as mulheres negras? No ano anterior à Belíssima, por exemplo, a mulher negra que eu via na televisão era intitulada A cor do pecado (e aí precisamos atentar para o fato da mulher, e especialmente, da mulher negra ser admitida como aquela que “desvirtua”, que “seduz”, o que antecipa a culpabilização dela pelas violências que sofre), isso sem falar das tantas e tantas novelas que as pessoas negras sequer aparecem ou só aparecem como escravos, bandidos e etc. Não sei dizer qual é o impacto, para quem é mulher negra, de tais caracterizações. Mas sei que há um problema em uma sociedade que retrata das mulheres dessa maneira.  Por isso, falar em padrões de beleza e em padrões midiáticos é falar de questões sociais e de pensar também sobre o lugar das mulheres na sociedade.

Catarinas – Como podemos refletir sobre a relação entre produtos midiáticos e as configurações culturais de nossa sociedade em dado momento histórico?
Gabrielle Bittelbrun – Acho sempre importante olharmos com um certo distanciamento, olhar crítico e mesmo um estranhamento em relação ao que nos é proposto na mídia. É importante também considerar várias fontes de informação e procurar problematizar os discursos. Não somos passivos diante do que nos é proposto e sempre há a possibilidade de virar a página ou desligar a televisão, sempre há espaços de liberdade. Mas é importante desenvolvermos uma postura crítica para conseguirmos exercer nossos direitos de cidadania e mesmo para pensamos em maneiras de melhorar o nosso meio de alguma forma.

Catarinas – A forte atuação do movimento feminista tem impactado na mudança de abordagem das revistas femininas, principalmente ao que se refere ao padrão do corpo branco, sem qualquer marca de velhice ou gordura?
Gabrielle Bittelbrun – Acredito que há um conjunto de proposições que tem contribuído nesse sentido. O movimento feminista, mas os movimentos sociais como um todo e a facilidade de comunicação e articulação promovida pela internet vêm favorecendo a emergência dessas “outras mulheres”, ou seja, dessas mulheres que fogem do conhecido padrão, de branca, magra, jovem e etc. As revistas femininas mais tradicionais não podem passar imunes a esses novos discursos que estão emergindo. Então, sim, tem havido uma mudança nas abordagens. Talvez até parte dessa crise da plataforma impressa se deva também à emergência dessas reinvindicações por mais representatividade. Como cheguei a comentar na tese, mesmo os programas de televisão conhecidos por trazer dicas de beleza, com celebridades trazendo recomendações para manter a forma, afirmam-se, agora, como inovadores ao atestar a fuga aos padrões estéticos, destacando personagens de grupos até então excludentes desses espaços, seja por seu peso, idade, raça, etc. Isso ocorre de maneira ainda mais contundente nas revistas femininas, que se fundamentaram justamente como “porta-vozes” das mulheres.

Essas ações podem até auxiliar para que as marcas e programas angariem mais lucros, ou seja, nesse caso, elas usam parte dos discursos feministas para manter sua lógica capitalista. Mas, mesmo assim, há sinais de uma ampliação do leque de mulheres contempladas sob os holofotes e há uma maior difusão dos ideais feministas no momento. Espero que seja um processo sem volta.

Catarinas – Como você observa a potência do jornalismo alternativo com enfoque feminista na crítica ao modelo único da mulher branca, magra e heterossexual e sua contribuição para a transformação dos valores sociais?
Gabrielle Bittelbrun – Sinceramente, acho mais necessário do que nunca. Acho imprescindível para a proposição de outros modelos de mulheres, para a representatividade do grupo mulheres em toda a sua heterogeneidade, o que tem um impacto gigantesco na visão que temos sobre nós mesmas e na força que teremos para angariar posições sociais. Nesse sentido, é imprescindível também na garantia e na reivindicação de direitos. A escritora Ana Luisa Amaral uma vez comentou comigo que os progressos não são definitivos e os retrocessos sempre nos ameaçam. De fato. Essa onda conservadora tem dado permissão para o retorno de uma série de discursos racistas, misóginos, machistas, homofóbicos.

Chegou o momento de pensarmos em como podemos articular espaços de subversão diante das discriminações, das violências, e trabalhar para promover a igualdade e acho que o jornalismo alternativo e, especialmente, o jornalismo alternativo feminista, é uma ferramenta para isso, como um espaço de resistência.

Diferentemente de outros contextos desfavoráveis, agora, temos a internet como aliada, e isso facilita a nossa capacidade de articulação e mesmo a difusão dessas outras formas de jornalismo. E precisamos usar isso a nosso favor. Eu acrescentaria ainda que pensemos também nas pequenas resistências do cotidiano. Acredito que a articulação em pequenos grupos pode nos ajudar a resistir e batalhar pelos espaços de direito. Nesse sentido, acredito que a cumplicidade e a empatia têm se despontado como ainda mais urgentes, precisamos fazer esse deslocamento para se colocar no lugar do outro, lembrando sempre da humanidade que nos conecta.