‘Ilha da Magia contra o feminicídio e a misoginia’, esse foi um dos muitos gritos que ecoaram na manifestação do Levante Mulheres Vivas, em Florianópolis, neste domingo (7). O ato integrou a mobilização nacional pelo fim da violência contra as mulheres, motivada pelos casos alarmantes registrados nas últimas semanas. 

Na capital catarinense, a mobilização começou por volta das 13h e representou a memória de vítimas como a professora e estudante de pós-graduação Catarina Karsten, 31 anos, morta em novembro durante o trajeto até a aula de natação – um dia após o início da Campanha dos 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres. Somente no mês passado,  dez casos de feminicídios foram registrados no estado.

Crédito: Laura Machado/Portal Catarinas.

Nem a tarde de sol intenso, com termômetros marcando 30° graus, afastou famílias, ativistas e moradores que caminharam pelas ruas do Centro. Com placas, tambores e apitos, os manifestantes gritaram pedindo por justiça e proteção às mulheres. Durante a concentração, no Parque da Luz, representantes de movimentos sociais discursaram sobre a importância da participação popular em mobilizações como essa e leram uma lista com os nomes das vítimas de violência de gênero neste ano.

Segundo o último levantamento do Laboratório de Estudos de Feminicídios (Lesfem), somente em outubro, foram registrados 177 feminicídios no Brasil e 375 tentativas de feminicídio, somando 552 casos naquele mês. O estudo aponta que os 32,1% de registros de feminicídios representam uma média de 5,7 casos por dia. Já considerando as tentativas (67,9%), a média de casos por dia salta para 12.

‘Vivas e livres’

Anne Resplandes, 42 anos, participou da mobilização ao lado da filha Gaia, de 4, que carregava na testa o adesivo ‘Um Brasil de mulheres vivas e livres’. A mãe conta que quase desistiu de ir ao ato por conta do calor, mas que a vontade de dar um exemplo de luta à filha foi maior.  

“Essas duas últimas semanas foram muito pesadas e a minha ficha caiu para muitas coisas. A misoginia não é só um tapa, um xingamento. Sou mãe solo e lembro que, quando descobri que estava grávida de uma menina, tive muito medo porque a minha história é cercada pela misoginia desde quando nasci. Eu vim e fiz questão de trazer a minha filha porque preciso mostrar para ela que isso [violência] não é normal e não podemos naturalizar”, explica Anne.

Crédito: Laura Machado/Portal Catarinas.

Além de Anne e Gaia, outras famílias e grupos de amigos se juntaram à manifestação que lembrou também da violência contra as mulheres trans e o transfeminicídio. Durante o ato também foi apresentado o movimento artístico mundial dos Sapatos Vermelhos, que representa as vítimas da violência doméstica e de gênero, carregados nas mãos de mais de 20 mulheres durante o trajeto da marcha.

A coordenadora do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT-SC) e representante da organização do ato Mulheres Vivas em Florianópolis, Vanessa Brasil, conta que a movimentação nasceu em São Paulo e no Rio de Janeiro, e ganhou força em outros estados por meio das redes sociais.

“Hoje nos mobilizamos em mais de 70 cidades brasileiras para não deixar que esqueçam dos casos constantes de feminicídio. Um dos maiores problemas que enfrentamos é a falta de efetividade nas políticas públicas, faltam leis mais rígidas para feminicidas, suporte para as vítimas de violência”, expõe.

Responsabilidade compartilhada

A educação de meninos foi um tema recorrente durante os depoimentos e discursos dos ativistas.

A importância de compartilhar a responsabilidade de educar meninos sobre limites, respeito e também sobre a necessidade da participação deles no combate à violência contra as mulheres. Homens e meninos de diferentes idades também marcharam em apoio ao movimento.

A manutenção de estereótipos de gênero, como a ideia de que homens não devem chorar ou demonstrar os próprios sentimentos, reforça a narrativa da masculinidade tóxica e afeta diretamente a educação dos meninos. Paralelamente, a misoginia presente na machosfera digital ganhou espaço e se consolidou em discursos que colocam meninas e mulheres em posições de subalternidade.

Um relatório de 2024 do secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), sobre violência contra meninas e mulheres, mostrou que esses grupos violentos, em geral, se opõem ao feminismo pela falsa crença de que os homens são vítimas do cenário socioeconômico atual. Um trecho do relatório destaca o uso da inteligência artificial também como um mecanismo que impulsiona os discursos de ódio online nas redes sociais de crianças e adolescentes.

“Embora o discurso de ódio online às vezes seja detectado e censurado por bots de IA como parte dos recursos de segurança das plataformas, essas salvaguardas muitas vezes não estão à altura dos padrões. A adoção de linguagem codificada para se referir a indivíduos específicos pode ajudar os perpetradores a escapar da detecção, resultando em impunidade generalizada e amplificação contínua”, diz o relatório.

Crédito: Laura Machado/Portal Catarinas.

A masculinidade tóxica em meninos não se manifesta apenas na agressividade escancarada, mas também na linguagem virtual que codifica expressões em emojis, como mostra a série ‘Adolescência’, da Netflix. As novas formas de comunicação entre crianças e adolescentes na internet passam despercebidas entre os adultos, especialmente entre aqueles com pouco acesso ao ambiente digital, o que acende um alerta para especialistas que apontam os riscos do uso de equipamentos eletrônicos na infância.

A luta pelo direito de existir em liberdade

Além da violência doméstica, os manifestantes pautaram outros temas que afetam as mulheres, em diferentes esferas. 

Placas pediam pelo acesso ao aborto legal, redução da jornada de trabalho, combate ao racismo e o direito à acessibilidade de pessoas com deficiência; e lembraram casos emblemáticos como o de Sônia Maria de Jesus, mantida em regime análogo à escravidão há quase 40 anos pelo casal Ana Cristina Gayotto Borba e Jorge Luiz Borba, desembargador do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC).

A mobilização também considerou o recorte de gênero e raça, já que as mulheres negras são a maioria das vítimas da violência de gênero no país. A pesquisa ‘Quem são as mulheres que o Brasil não protege’, que integra a campanha 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência Contra as Mulheres, mostrou que, em 10 anos, o Brasil saltou de 527 casos de feminicídio, em 2015, para 1.455, em 2024 – 68% das vítimas eram negras. 

Os dados evidenciam como o racismo estrutura as desigualdades. Em novembro, a Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, em Brasília (DF), reivindicou a reparação das consequências do período escravocrata e denunciou as violências vividas pela população negra, a falta de acesso a direitos e serviços básicos e a concentração de renda. O manifesto completo foi divulgado no dia 25 de novembro, data que marca o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra a Mulher.

“Voltaremos às ruas e seguiremos nos mobilizando quantas vezes for preciso até a violência acabar”, garantiu Vanessa Brasil, líder do movimento Mulheres Vivas em Florianópolis.



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  • Laura-Machado

    Jornalista pela Universidade Federal do Amapá (Unifap), pós-graduada em jornalismo investigativo pela Universidade Anhem...

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