Pelo quarto ano consecutivo, a Marcha Trans de Florianópolis ocupou as ruas da capital catarinense nesta quinta-feira, 29 de janeiro, data que marca o Dia Nacional da Visibilidade Trans. Com o tema “PleniTODES: Vida Plena e Sonhos Possíveis”, a marcha destaca a defesa do acesso à saúde, educação, trabalho, moradia e alimentação como pilares para o respeito às existências trans.

A luta pela visibilidade trans no Brasil atravessa séculos e ganhou um de seus marcos mais simbólicos em 2004, com a campanha “Travesti e Respeito: já está na hora dos dois serem vistos juntos”, realizada pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) em parceria com o Ministério da Saúde. Desde então, as estratégias de mobilização se ampliaram e se diversificaram, criando atos públicos como a Marcha Trans em diferentes cidades do país. 

A edição deste ano contou com uma programação distribuída ao longo de seis dias. Vogue jam, feira de arte e empreendedorismo trans, oficinas, rodas de conversa e apresentações artísticas compuseram a agenda. As atividades tiveram como eixo comum o fortalecimento dos laços de acolhimento, da organização coletiva e das lutas por direitos.

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Crédito: Amabel Boni.

O direito à vida plena na perspectiva da população trans

Ao reivindicar uma vida plena, o tema da marcha dialoga com o conceito de Bem Viver, que propõe formas de existência baseadas no cuidado, na coletividade, no equilíbrio e na dignidade. Essa defesa articula a luta por direitos básicos com a construção de futuros possíveis marcados por acolhimento, respeito e pertencimento.

Para Oliê Cárdenas, educadora comunitária e uma das organizadoras da marcha, plenitude significa uma vivência com a possibilidade de sonhar e de concretizar esses sonhos, além de estar livre das violências sistêmicas que buscam aniquilar a cidadania plena de pessoas trans.

“A Marcha Trans de Florianópolis busca mostrar na prática que essa cidadania plena é possível. Através dos eventos da Marcha, ocupamos espaços, acessamos serviços, nos alimentamos, nos deslocamos, nos expressamos artisticamente, e construímos tudo juntes. Esse é o sonho que levamos para a Marcha Trans de 2026, o sonho da possibilidade”, destaca.

A idealização da marcha já apontava para a valorização de uma nova perspectiva sobre as pessoas. Lino Gabriel Santos é doutor em antropologia e um dos idealizadores e conta que a escolha do tema buscou tirar o diálogo sobre pessoas trans apenas do espectro da marginalização.

“Nós somos muitas coisas. Nós trabalhamos, nos divertimos, temos família… temos direitos cidadãos, constitucionais”, afirma.

A realização da marcha em Florianópolis também insere o debate num espaço em que discussões sobre diversidade são frequentemente marginalizadas. Lino argumenta que esses ataques vêm da falta de conhecimento sobre as lutas e direitos da população trans. 

Ele ressalta que existe um ataque muito forte às populações vulnerabilizadas, ao sistema de cotas, ao uso de pronomes neutros e à possibilidade de utilizar banheiros de acordo com o próprio gênero. Para o antropólogo, falar de uma vida plena significa viver sem ser atacado simplesmente por existir.

Cotas trans representa avanço, mas cenário é marcado pela falta de apoio

Neste ano, a mobilização acontece também em um contexto de avanços institucionais em Florianópolis. A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) recebe o primeiro grupo de estudantes ingressantes por meio das cotas para pessoas trans, política fundamentada na Política Institucional de Inclusão de Pessoas Trans, aprovada pelo Conselho Universitário em agosto de 2023. 

Apesar dos avanços, a luta ainda encontra entraves. Oliê conta que todos os serviços e oportunidades oferecidos ao longo da programação da Marcha Trans são viabilizados de forma independente, articulados pela própria comunidade trans de Florianópolis e da região, diante da ausência ou insuficiência do apoio de instituições.

“As vivências trans são muito diversas, assim como as violências que enfrentamos, que variam conforme raça, idade, identidade de gênero, classe social e outros marcadores. Mas não deveria ser assim. As instituições devem servir ao povo brasileiro. Não podem ser ferramentas de ajustamento social, mas de assistência. Construir um mundo sem transfobia é construir um mundo mais humano para todas as pessoas”, diz.

Lino complementa que o apoio em políticas públicas para a população trans é praticamente nulo e isso demonstrou a necessidade de criar uma Frente Trans para lutar pelo acesso a direitos básicos como a saúde, com o ambulatório trans, e a formação de profissionais para atuar nesse ambulatório.

“Falta muito apoio do Estado, tanto a nível municipal como estadual e nacional. Falta a coragem dos governantes em aderir nossa pauta e garantir nossa proteção como cidadãos e cidadãs. Não há cobertura de mídia. A gente está tentando começar a entender que a partir do momento em que os nossos vão se formando teremos que criar nossos próprios canais e fazer uma cobertura própria”.

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Crédito: Amabel Boni.

A cultura ballroom como lugar de acolhimento e autoestima

A programação também contou com momentos festivos inspirados na cultura ballroom, movimento criado por pessoas negras e latinas LGBTQIAPN+ nos Estados Unidos, entre as décadas de 1960 e 1970, como resposta à exclusão racial, de gênero e sexualidade em espaços artísticos e sociais. No ballroom, corpos dissidentes encontraram um território de afirmação de identidade, pertencimento e autonomia.

Durante a epidemia de AIDS nos anos 1980, esses espaços se tornaram ainda mais centrais, pois enquanto a comunidade LGBTQIAPN+ era marginalizada pelo sistema de saúde e afastada de suas famílias, as ballrooms tornaram-se ambientes de cuidado e troca de informações sobre saúde. Esse acolhimento se estruturava nas casas, conhecidas como houses, que até os dias atuais acolhem pessoas da comunidade expulsas de casa ou em situação de vulnerabilidade.

Cada house é guiada por uma “mãe” ou um “pai” e compete entre si com performances, desfiles e coreografias. Re Moraes, multiartista e “mãe” fundadora da Casa das Duras, criada em 2022, ressalta o papel transformador da cultura: ela fortalece laços afetivos, move estruturas, gera renda, garante sustento a pessoas em situação de extrema vulnerabilidade e cria espaços de acolhimento para quem se aproxima.

“É de extrema importância a comunidade continuar fortalecendo e sendo fortalecida para mudanças significativas, políticas e prósperas para a comunidade trans, racializada, dissidente, soropositiva e LGBTQIAPN+ de uma forma geral. Nesse ano, a Ballroom SC e a Marcha Trans Floripa nos mostraram a força e a potência das duas entidades pelo mesmo objetivo: o direito de existir”. 

Retinta Avalanx, que veio de São Paulo e integra a House of Avalanx, também participou da Marcha Trans de Florianópolis. Ela destaca a potência do encontro com pessoas trans de outros estados e a importância da troca de vivências. Para Retinta, compartilhar experiências e ocupar as ruas transforma a marcha na concretização de uma conquista coletiva.

“Somos pessoas constantemente invisibilizadas, então ver todo mundo brilhando foi a realização de um sonho possível. Ver esse fortalecimento de pessoas pretas, trans, periféricas e não binárias cria uma rede de afeto muito forte. Isso me traz felicidade e vontade de fomentar cada vez mais essa cultura”, enfatiza.

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    Natural de Juazeiro, sertão baiano. Estudante de Jornalismo em Multimeios pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), c...

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1 comentário

Thay Couto em 01 de fevereiro de 2026

Muito legal a matéria. 💖

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