Nossa colunista da Guiné fala sobre o combate à Aids em seu país/Foto: reprodução

Coluna da Maimouna Diallo

Dezembro vermelho: a luta contra a Aids no foco das atenções

Postado em 26/12/2019, 11:08

O Dia Mundial de Luta contra a Aids, 1° de dezembro, foi instituído pela Assembleia Mundial de Saúde em 1987, ganhando no ano seguinte a tutela da Organização das Nações Unidas (ONU), o que ajudou a ampliar mundialmente esta bandeira. Em 1991, um grupo de artista criou o laço vermelho para homenagear alguns amigos que haviam falecido em decorrência da Aids, tornando-se, então, o símbolo desta causa. Muitos países se engajaram, de imediato, ao movimento. Alguns levaram um pouco mais de tempo para organizar ações efetivas nesta data. Foi o caso do meu país, a Guiné.

Até o ano de 2010, o Estado, por meio do CNLS (equivalente ao Conselho Nacional de Luta contra a Aids) e do Ministério da Saúde, as atividades do dia 1° de dezembro eram organizadas quase que para cumprir uma formalidade apenas. As já existentes Associações de Pessoas Vivendo com o HIV/Aids eram meras coadjuvantes no processo. As pessoas tinham medo de vir à pública e fazer campanha, pois acreditavam que o Estado tomaria isto como uma reação de contraposição às suas políticas. Em 2011, entretanto, duas entidades de maior porte decidiram tomar seus destinos pelas mãos e procuraram o governo para apresentar uma proposta que seria decisiva no curso da história. À partir daquele ano, estrelamos o papel de protagonistas.

Nossa primeira decisão foi envolver o maior número possível de associados para que pudéssemos levar mais informações para as comunidades. Organizamos uma série de palestras, seguidas de depoimentos de pessoas que vivem como HIV/Aids, em diferentes bairros da capital. Inicialmente, a programação se estendia por 2 semanas e este modelo se repetiu em anos subsequentes, transformando o “dia” em “quinzena” de luta contra a Aids. Aos poucos, outras Associações foram se juntando e o apoio técnico, logístico e financeiro dos parceiros, tais como o próprio CNLS, o Ministério da Saúde, os órgãos do sistema das Nações Unidas, as organizações não-governamentais e a mídia permitiu prolongar as atividades para o mês de dezembro inteiro.

Entre as atividades planejadas, sempre reservamos um espaço para a formação de líderes comunitários, formadores de opinião e artistas. Partimos do princípio de que esses parceiros são fundamentais para facilitar a abordagem comunitária, pois tem grande poder de influência sobre o público em geral. Sendo a falta de conhecimento um dos maiores problemas da Aids, esses atores sociais contribuem, em muito, para a disseminação de informações relevantes e para o combate à discriminação e ao estigma da Aids. Quando as pessoas desconhecem a doença, suas formas de contágio, seu tratamento e prevenção, elas tendem a negligenciar os riscos.

O preconceito em relação à doença inflaciona o índice de mortalidade em decorrência da Aids. Com receio de se exporem, as pessoas sequer buscam conhecer seu status sorológico e, ainda pior, uma grande parte delas, já  infectadas pelo HIV, acaba chegando aos serviços de saúde em estado muito avançado da doença. Muitas deixam o tratamento de lado por falta de acesso à medicação, mas também por receio de serem descobertas por algum membro da família ou da comunidade.

Por isso, nossas formações priorizam o repasse de conteúdo técnico sobre a doença, mas também nos preocupamos com os aspectos socioculturais, pois acreditamos que mudar o paradigma em relação à doença é uma tarefa de múltiplos fatores, cabendo aos diferentes setores da sociedade e atores sociais o exercício de sensibilizar a população para essa causa. A cada ano, conseguimos envolver cada vez mais parceiros e simpatizantes. Alguns artistas se tornaram padrinhos das nossas campanhas e revertem parte dos seus cachês para apoiar as Associações de Pessoas Vivendo com o HIV/Aids.

Muito embora as campanhas tivessem conquistado maior amplitude na capital, as cidades do interior continuavam à margem do movimento. Foi quando, em 2014, resolvemos dar ênfase em algumas vilas, convidando as Associações locais para participarem das nossas formações. Destacamos alguns membros da organização do evento em Conakry (nossa capital) para apoiarem as ações junto às equipes delegadas no interior e colhemos bons frutos, pois, desde então, o movimento vem crescendo por todo o país.

As Associações estão mais fortes e as pessoas que vivem com o HIV/Aids estão mais conscientes do seu papel de ativistas. E um dado interessante é que praticamente 90% dos associados são mulheres, sejam solteiras ou viúvas com seus filhos. A aproximação com o público em geral se estreitou e muitas pessoas, hoje, vieram à público para levar seu depoimento e incentivar a busca pelos serviços de saúde para a triagem inicial.

Passamos, com isso, a conciliar nossas campanhas de prevenção com a realização do teste rápido para a detecção do HIV. Assim, durante o mês de dezembro, saímos às ruas da Guiné para falar da doença e oferecer o teste gratuito para a população. Isto vem permitindo o encaminhamento de muitos casos aos serviços de tratamento, onde os pacientes recebem o acompanhamento psicossocial integrado ao atendimento clínico e medicamentoso. Neste ano de 2019, por exemplo, conseguimos aumentar o número de testes realizados, o que nos mostra que o caminho escolhido de maior aproximação com as comunidades foi acertado. As população, em geral, está mais receptiva às informações.

Se antes o governo se mostrava reticente em relação às campanhas, hoje entende que pode e deve se engajar com o trabalho das Associações para atingirmos a meta 90-90-90, estabelecida pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (UNAIDS). A Declaração de Paris prevê que, até 2030, possamos quebrar a cadeia de transmissão do HIV se trabalharmos para que: 90% das pessoas vivendo com o HIV sejam diagnosticadas e saibam que estão infectadas pelo vírus; 90% delas sejam portanto, submetidas ao tratamento; e 90% das pessoas em tratamento apresentem uma carga viral indetectável. E sabemos que, quando isso acontecer, as pessoas terão melhor qualidade de vida e o índice de mortalidade por Aids será drasticamente reduzido.

Desta forma,  nossas campanhas precisam ser cada vez melhores e mais eficazes, levando informação, facilitando o acesso da população ao diagnóstico e abrindo as portas das estruturas sanitárias para o tratamento adequado e gratuito. Por isso, entendemos que o Dia Mundial de Luta Contra a Aids é apenas uma estratégia para chamar a atenção do mundo sobre este problema crônico e lembrar as pessoas que ainda há muito o que fazer. Mas também é uma data em que podemos celebrar muitas conquistas no âmbito internacional. Aqui na Guiné, nossos desafios continuam nos convocando para ações básicas, mas os resultados da nossa mobilização também podem ser reconhecidos. Afinal, a cada ano, mais parceiros se apresentam para nos ajudar a carregar essa bandeira.

* Versão em português elaborada por Andrea Silveira, autora da biografia da Maimouna Diallo sob o título: “Guinée Fagni: a trajetória de uma mulher africana – a história de todas nós”, que pode ser baixado gratuitamente em PDF ou E-Pub.




Nascida na Guiné, África, vem realizando um intenso trabalho em favor das pessoas vivendo com o HIV/AIDS, como coordenadora da equipe comunitária do projeto do Médicos Sem Fronteiras, em Conakry. Já esteve à frente da Fundação Esperança Guiné (Fondation Espoir Guinée) e da Rede Guineana das Associações de Pessoas Vivendo com o HIV (Réseau Guinéen des Associations des Personnes Vivant avec le VIH) e atualmente é considerada uma das referências em termos de luta para a formulação de políticas públicas da área do controle do HIV em seu país.
Veja a coluna da Maimouna Diallo