Ao analisar o avanço da machosfera, o sociólogo e professor Sandro Justo relaciona a adesão de jovens a conteúdos misóginos à precarização da vida, à crise da masculinidade e aos vazios deixados pela esquerda. Para enfrentá-la, defende escuta, disputa política e a responsabilização dos homens.

Por trás do crescimento da machosfera e da popularidade dos influenciadores Red Pill entre meninos e jovens há mais do que misoginia, ressentimento masculino ou uma reação à ampliação dos direitos das mulheres. Há problemas concretos, uma disputa pela interpretação desses problemas e, sobretudo, um projeto político.

Foi a partir dessa perspectiva que o sociólogo e professor Sandro analisou a relação entre masculinidades, extrema direita e redes sociais durante a 7ª Jornadas do Legh: Cidadania Digital e Política, realizada entre 26 e 28 de agosto na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis. Promovido pelo Laboratório de Estudos de Gênero e História (Legh), o evento reuniu simpósios temáticos, lançamentos e mesas-redondas no Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFH). 

Professor da rede pública no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, ele tem desenvolvido rodas de conversa sobre masculinidades e violência de gênero com adolescentes e acompanhado conteúdos produzidos por influenciadores da machosfera.

“Não tem como a gente entender o que é essa machosfera e o que são esses movimentos de Red Pill se a gente não entender que eles fazem parte de um tripé, que é um projeto de poder”, afirmou.

Movimento Red Pill e o “trabalho de base” da extrema direita 

Na leitura apresentada pelo sociólogo, esse tripé reúne a extrema direita institucional, as big techs e uma rede de influenciadores que realiza aquilo que ele chama, recorrendo a uma expressão histórica dos movimentos sociais, de “trabalho de base”. “O Movimento Red Pill nada mais faz do que trabalho de base para a extrema direita”, afirmou. “Isso é um trabalho de recrutamento político.”

Para compreender por que esse discurso consegue chegar aos jovens, Sandro propõe olhar primeiro para as condições materiais da vida. Segundo ele, nenhuma ideologia consegue se espalhar de forma tão profunda se não dialogar, em algum nível, com “anseios, ressentimentos e questões objetivas e materiais que são reais”.

É justamente aí que estaria parte da força da machosfera. Meninos continuam sendo socializados a partir de um modelo de masculinidade no qual ser homem significa, entre outras coisas, ser capaz de prover financeiramente. Ao mesmo tempo, encontram uma realidade marcada pela dificuldade de inserção profissional, precarização do trabalho, baixos salários e obstáculos cada vez maiores para alcançar autonomia econômica.

“O homem, que foi convencido bem cedo que a sua masculinidade tem como um dos pilares fundamentais ser o provedor, não consegue prover a si mesmo. Quem dirá prover uma família?”, provocou.

A machosfera reconhece a frustração, mas oferece outra explicação para sua origem. Em vez de relacioná-la às estruturas econômicas e sociais, atribui o sofrimento masculino a um suposto sistema dominado pelo feminismo, no qual os homens teriam perdido direitos, espaço e poder.

É assim que, segundo Sandro, uma narrativa fantasiosa pode partir de uma experiência verdadeira. O “sistema” é uma palavra recorrente entre influenciadores Red Pill, observou. Mas o sistema ao qual se referem não é o capitalismo: seria um “sistema matriarcal” ou uma sociedade na qual mulheres e feministas teriam passado a controlar as regras.

“A porta de entrada muitas vezes para cooptar esses jovens, esses meninos, é um ponto de partida real.”

Quando a extrema direita se torna “antissistema”

Outro elemento dessa disputa está na capacidade da extrema direita de se apresentar como uma força de contestação da ordem. Sandro chama atenção para a apropriação de pautas historicamente associadas às lutas feministas, antirracistas e LGBTQIAPN+ pela indústria cultural e pelo mercado. 

Mulheres protagonizando filmes, pessoas negras em grandes produções, mulheres narrando futebol e pessoas trans ocupando espaços na mídia são conquistas importantes de representação, mas que não necessariamente alteram as estruturas de poder.

A indústria cultural, argumenta, aprendeu a transformar essas reivindicações em produtos enquanto elimina seu potencial antissistêmico. O problema ocorre quando a representatividade passa a ser confundida com transformação estrutural. 

Para parte dos jovens, símbolos das lutas progressistas começam a aparecer associados justamente às grandes empresas, corporações e instituições que constituem a ordem social.

“A esquerda deixou de se apresentar aos jovens como uma força política antissistêmica. Hoje, quem se apresenta aos jovens enquanto uma força política antissistêmica é a extrema direita”, afirmou.

Não significa, para o professor, que as conquistas de representação devam ser desprezadas, mas que são insuficientes quando desvinculadas de um projeto capaz de transformar as condições concretas de vida. 

Quem está conversando com os homens?

Há ainda outro vazio, reconhece Sandro: durante décadas, homens progressistas trataram gênero como um assunto essencialmente das mulheres. Nos sindicatos, universidades, movimentos sociais e organizações políticas, foram elas que protagonizaram o enfrentamento às desigualdades e violências de gênero. Os homens, inclusive os identificados com a esquerda, frequentemente permaneceram em silêncio.

“Como se esse debate não dissesse respeito a nós: ‘não, esse é o debate das mulheres’.”

Enquanto isso, homens conservadores passaram a organizar espaços voltados especificamente à masculinidade, às relações afetivas e às angústias masculinas. 

“Os homens da extrema direita possuem um projeto muito claro sobre masculinidade. E os homens de esquerda? Qual é o projeto que nós temos? Não temos nenhum.”

Na política, alerta Sandro, espaços vazios acabam ocupados. É nesse terreno que a machosfera oferece pertencimento e respostas para homens que desejam falar sobre solidão, sexualidade, dinheiro, trabalho, rejeição e sofrimento — mas insere essas experiências dentro de uma narrativa política que transforma mulheres e feminismo em inimigos.

Sexo, dinheiro e violência

Para explicar como esse processo encontra terreno na própria socialização dos meninos, Sandro recorre ao conceito de “casa dos homens”: o conjunto de símbolos, códigos, valores e regras transmitidos na socialização masculina entre os próprios homens.

Essa casa, afirma, se organiza em torno de três elementos recorrentes: sexo, dinheiro e violência. Desde cedo, meninos são ensinados a provar sua masculinidade diante de outros homens. Precisam demonstrar desempenho sexual, capacidade financeira e força. “Os homens estão a todo momento provando para outros homens o quão homens são.”

Na sexualidade, isso aparece na pressão para iniciar cedo a vida sexual, “pegar” muitas mulheres e demonstrar permanentemente desejo. No dinheiro, no imperativo de ser bem-sucedido e provedor. Na violência, na demonstração de força, coragem e capacidade de controle.

Esse sistema de validação ajuda também a compreender o pacto de silêncio masculino diante de comportamentos machistas e violentos de outros homens. Mas há um impasse: a maior parte dos homens não consegue corresponder integralmente ao ideal que lhe é apresentado.

Nem todos conseguem performar o corpo masculino valorizado pela indústria estética. Para a classe trabalhadora, o ideal do homem rico e provedor está ainda mais distante. “O que sobra? É a violência”, afirmou.

Sandro relaciona essa necessidade de provar masculinidade a violências que são praticadas não apenas contra mulheres, mas também entre os próprios homens. Em determinados casos, a violência funciona como um ritual de reconhecimento masculino: homens demonstrando diante de outros homens sua capacidade de exercer força e controle.

Uma masculinidade que privilegia e também cobra

Isso não significa equiparar as posições de homens e mulheres em uma estrutura patriarcal. A masculinidade hegemônica, ressalta o professor, sustenta privilégios masculinos e produz diferentes formas de violência de gênero contra as mulheres. Mas ela também impõe aos homens exigências difíceis — ou impossíveis — de cumprir.

É o que Sandro aborda a partir do conceito de “paradoxo da virilidade”. Homem não pode demonstrar insegurança. Não pode pedir ajuda. Não deve revelar fragilidade. Precisa resolver os próprios problemas, estar sempre disponível sexualmente e garantir o sustento financeiro.

“Essa masculinidade hegemônica exige do homem uma masculinidade que é impossível de ser performada.”

É justamente esse sofrimento que a machosfera aprendeu a mobilizar politicamente. Para Sandro, porém, reconhecê-lo não significa retirar o foco das desigualdades sofridas pelas mulheres. Ao contrário: pode ser uma porta de entrada para fazer os próprios homens compreenderem como são constituídos por uma estrutura que produz violência.

Como conversar com um menino que já escuta a machosfera?

A experiência como professor levou Sandro a testar essa hipótese na prática. No Colégio Pedro II, ele participa de projetos sobre violência de gênero e masculinidades que incluem rodas de conversa específicas com meninos. Uma das primeiras conclusões foi que tentar iniciar o diálogo pelo patrulhamento moral produz pouco resultado.

“Essa conversa com jovens nunca pode ser dentro de uma perspectiva de patrulhamento moral. De apontar o dedo na cara e falar: ‘para de ser um babaca machista’. Se você começar por esse método, esquece.”

Em uma das rodas, Sandro sabia que havia adolescentes simpáticos a influenciadores Red Pill. Em vez de começar apresentando estatísticas de feminicídio ou conceitos como patriarcado e machismo estrutural, fez uma pergunta:

Qual é o maior desafio de ser homem na sociedade?

Um dos adolescentes respondeu: “o excesso de responsabilidade”. A resposta abriu uma conversa sobre sexualidade, cobranças, rejeição, insegurança e as dificuldades das relações afetivas na adolescência.

Sandro compartilhou então a própria experiência de ter sido pressionado, quando jovem, a perder a virgindade, beijar muitas meninas e demonstrar aos amigos uma sexualidade permanentemente ativa.

A partir dali, conta, conseguiu construir outra relação com o grupo. A estratégia não é encerrar a discussão no sofrimento dos homens. É começar por ele para, posteriormente, perguntar o que essa mesma estrutura produz na vida das mulheres.

“A masculinidade hegemônica produz homens que sofrem com essa masculinidade hegemônica. Mas esse sofrimento que os homens têm vai ser o gatilho para a morte de mulheres, para violência de gênero, para estupros”, afirmou.

“Professor, eu sou mau só pelo fato de ser homem?”

Há uma fronteira que Sandro considera fundamental para essa disputa: não transformar os próprios meninos em inimigos. Em uma das experiências que relatou, um aluno lhe perguntou: “Professor, eu sou mau só pelo fato de ser homem?”. “Não, você não é mau pelo fato de ser homem”, respondeu.

Para o professor, a masculinidade precisa ser apresentada como construção histórica e cultural e, justamente por isso, passível de transformação. Ele rejeita uma divisão rígida entre “homem tóxico” e “homem saudável”, como se fosse possível criar duas listas de comportamentos e pedir que adolescentes simplesmente escolhessem o lado correto.

A realidade é mais contraditória. Isso se torna ainda mais evidente entre jovens das periferias do Rio de Janeiro com quem trabalha. Para alguns deles, explica Sandro, demonstrar força e até performar determinados códigos de violência pode funcionar como estratégia de pertencimento e sobrevivência nos territórios onde vivem.

Uma proposta abstrata de “masculinidade sensível”, portanto, pode simplesmente não conversar com a experiência desses jovens. A questão passa a ser como desmontar a associação automática entre força, liderança, proteção e violência.

Força precisa significar violência?

Durante o debate após a palestra, uma pergunta do público sintetizou o desafio: se existe uma imagem muito clara da masculinidade que se deseja combater, que referências podem ser oferecidas aos meninos em seu lugar? Sandro respondeu que o caminho não está necessariamente em pedir que abandonem tudo aquilo que reconhecem como masculino.

Quando pergunta aos estudantes o que significa ser homem, respostas como “proteger a família” e “ser forte” aparecem frequentemente. O problema, argumenta, não é necessariamente desejar proteger. É a forma que essa proteção assume. Ela pode significar controle e subjugação da mulher, mas também cuidado.

“A força pode se expressar de várias formas positivas. A força para se rebelar contra o sistema. A força de um homem que reconhece suas fragilidades, isso é uma baita força.”

Até mesmo a liderança, frequentemente apropriada por influenciadores conservadores como atributo naturalmente masculino, pode ser ressignificada. 

A pergunta passa a ser: essa força, liderança ou proteção produzirá violência ou solidariedade entre os gêneros?

Escutar também é disputar

Nas rodas realizadas na escola, Sandro percebeu outra dimensão do problema: os meninos querem falar. Muitos relatam relações familiares marcadas pela ausência paterna ou por pais com os quais praticamente não conversam. Em um cotidiano no qual as próprias famílias estão frequentemente conectadas às telas, faltam espaços de troca afetiva.

Quando perguntou quais eram os momentos em que conversavam com seus pais, Sandro encontrou respostas que revelavam a escassez desses espaços.

“Eles precisam ser ouvidos. Esses meninos estão sendo sugados por esse universo da machosfera. Estão perdidos, não têm referência”, contou. 

Para ele, criar ambientes em que os adolescentes possam falar sobre inseguranças, relações afetivas, sexualidade, cobranças e expectativas sobre o que significa ser homem é também uma forma de disputar o terreno hoje ocupado pela machosfera.

A escuta, porém, não significa validar discursos misóginos nem restringir a discussão ao sofrimento masculino. Ela funciona como ponto de partida para compreender de onde vêm determinadas angústias e, então, relacioná-las à estrutura de gênero que também produz violência contra as mulheres.

“Quanto mais a gente sair do debate moral individual, do patrulhamento moral, e entrar mais no debate estrutural, acho que a gente consegue avançar e ganhar mais esses jovens.”

É esse movimento que Sandro procura fazer nas rodas: primeiro estabelecer uma relação de confiança e pertencimento; depois, deslocar a conversa para a responsabilidade dos próprios homens diante das violências de gênero.

Ao final da palestra, ele defendeu que esse trabalho não pode continuar sendo delegado às mulheres. Se elas historicamente protagonizaram a luta contra as desigualdades e violências de gênero, cabe também aos homens assumir a tarefa de conversar com outros homens e participar de sua reeducação.

A disputa com a machosfera, nessa perspectiva, não se faz apenas denunciando aquilo que ela produz. Passa também por ocupar os espaços de escuta, formação e pertencimento que seus influenciadores aprenderam a oferecer aos meninos — mas para construir outras possibilidades de masculinidade e de relação entre os gêneros.

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