O ditado popular “em briga de marido e mulher não se mete a colher” representa uma face cruel da nossa cultura, demonstrando como a violência doméstica é aceita como parte do cotidiano. O recente caso da agressão à dentista Giullia Melo Falcão Vel Kos, de 27 anos, pelo marido, o empresário Ivo Kos, de 48, tem características que vão além da lesão corporal no âmbito da violência doméstica.

Há nele uma intenção de morte marcada pelo ódio de gênero, ou seja, um itinerário de tentativa de feminicídio.

Já é uma característica dos crimes de ódio contra as mulheres, principalmente em contexto de violência doméstica, mas não somente, a aplicação de uma crueldade que descaracteriza o rosto da vítima, de maneira a roubar sua identidade, a deixá-la impossibilitada de ser reconhecida e de ser desejada, como se fosse uma morte em vida. 

É o modus operandi daquele que diz amar, mas que o faz como justificativa para o disciplinamento de corpos para que sejam dóceis, aplicando-lhes a pedagogia da violência para seu mando e bel-prazer. E que, em última instância, pode matar por intenção deliberada ou mesmo por um descuido de medida na potência dos socos.

O caso atualiza, sob câmeras, o ditado que teimamos em acreditar que poderíamos ter deixado no passado, porém segue firme e ativo, não apenas na figura do cúmplice passivo, como também do capataz do agressor. E mesmo quando essas violências ocorrem nas ruas, da porta para fora das casas, seguem sendo tratadas como se pertencessem ao âmbito das relações privadas.

Cultura machista entre pares

Esse caso também é exemplar nesse sentido, uma vez que os seguranças, em vez de acolherem e buscarem ajuda para a vítima que implorava por socorro, tornaram-se agentes ativos da violência, forçando a mulher, a mando e junto do agressor, a entrar novamente onde não haveria paredes de fora para impor limites. 

E foi assim que ocorreu, quando entrou, a mulher foi retirada da rua e colocada dentro de casa para a segurança e privacidade do agressor que assim continuou a surra contra quem se rebelou e tentou fugir.

A atuação dos seguranças passou a ser investigada pela Polícia Civil.

A vítima contou que as agressões eram comuns, assim como o que vinha a seguir: o choro do agressor, os pedidos de desculpas e o ciclo se repetindo e se renovando. Ela conta que também era comum que o agressor exercesse poder largando-a na rua, como se a casa onde viviam não pertencesse a ela. Um ciclo que envolvia violências patrimonial, física e psicológica que reforçavam a ideia de dependência e de impossibilidade de viver se não fosse ao lado do agressor, sob o seu disciplinamento e ordem.

O fato de os seguranças terem sido, ao mesmo tempo, testemunhas e agentes na negação do socorro à vítima e se fazerem agressores, diz muito sobre como a cultura machista é exercida entre pares. Ao atenderem ao chamado da confraria ou, como dizemos nestes tempos, da broderagem, mostram como essa cultura se alimenta e não se constrange diante da crueldade. Pelo contrário, a crueldade é um passe para a continuidade da masculinidade disciplinadora, de acobertamento e de reconhecimento entre eles.

Não é apenas o agressor que sustenta a violência. Existe ao redor dele uma estrutura que permite, silencia, protege, devolve a mulher para dentro de casa, desacredita sua palavra ou entende que seu sofrimento não lhe diz respeito. A confraria não precisa necessariamente bater. Às vezes, basta abrir a porta para o agressor e fechá-la para a vítima.

Plataformização da violência

A plataformização do cotidiano faz com que a vida, mediada pelas câmeras de rua e pelas câmeras em nossas mãos, chegue até nós em imagens, cores e diferentes graus de espetáculo. Foi assim também que o caso de Giullia chegou até nós, na mesma tela que transitamos do entretenimento ao desgosto de saber e, perigosamente, à naturalização de mais uma violência de gênero.

Uma violência que pode engajar e mobilizar, mas também produzir a necessidade de desviar os olhos diante da sucessão diária de imagens que nos convocam a testemunhar o horror. 

No caso de Giullia, a decisão judicial trouxe algum alívio. A juíza converteu em preventiva a prisão em flagrante de Ivo Kos, considerando a gravidade das lesões, o comportamento agressivo, o histórico de violência doméstica relatado nos autos e o temor manifestado pela vítima. 

A magistrada entendeu ainda que a liberdade do empresário representaria risco concreto à mulher e que medidas protetivas de urgência não seriam suficientes para resguardar sua integridade física e psicológica. Ivo tornou-se réu por lesão corporal qualificada e ameaça.

Precisamos de um pacto de sociedade que se sobressaia ao pacto das confrarias, das broderagens e das machosferas. Um pacto capaz de romper com a ideia de que a lealdade entre homens vale mais do que a vida das mulheres. 

Em briga de marido e mulher, mete-se a sociedade inteira

Enquanto a violência for entendida como problema do casal, enquanto o pedido de socorro puder ser ignorado em nome da cumplicidade entre homens, enquanto houver quem devolva uma mulher para perto de quem a agride, o velho ditado continuará operando entre nós. Talvez seja hora de produzir outro pacto: em briga de marido e mulher, não apenas se mete a colher, mete-se a sociedade inteira.

Como cidadã e feminista, é constrangedor ver o rosto de Giullia, tamanhas as marcas da agressão e o desfiguramento que se empreendeu. E isso também é estratégia da pedagogia da violência e do mandato da masculinidade: marcar para que a vítima sinta vergonha de denunciar, de mostrar o rosto, de colocá-lo na rua, na praça pública.

Por isso, na mesma medida em que nos constrange, ou deveria nos constranger enquanto sociedade, e nos causa tamanha tristeza, há uma enorme coragem nessa mulher ao mostrar as marcas da violência em sua vida antes que elas se apaguem, antes que tudo pareça voltar à normalidade.

Porque não há normalidade, não há possibilidade de simplesmente seguir a vida como se nada tivesse acontecido. Há violência também nessa expectativa de que tudo volte ao lugar. Por isso, Giullia veio a público com a marca que a faz vítima, mas também com a marca que a faz agente da própria vida, protagonista de si, afrontando e envergonhando o seu algoz, o seu espoliador, aquele sobre quem de fato deve recair a desonra.

A vergonha deve mudar de lado

Como na violência sexual sofrida por Gisèle Pelicot, que recusou o anonimato e reivindicou publicamente que a vergonha mudasse de lado, a vergonha deve ser do agressor. Nunca, jamais, de quem sofreu a violência.

Que o rosto de Giullia fique marcado para sempre na memória, não como marca da vergonha dela, mas como um carimbo na trajetória de seu agressor. Que, cada vez que ele for visto na rua, as pessoas se lembrem. Que as mulheres o reconheçam, mas também o padeiro, o caixa do supermercado, o vizinho, o cliente. Que todos lembrem-se ao vê-lo da violência que ele foi capaz de produzir, da covardia e da desproporção no exercício de um poder desmedido, brutal e cruel. 

Que o rosto que ele tentou marcar para envergonhá-la seja justamente aquele que não nos deixe esquecer quem deveria sentir vergonha. 

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  • Paula Guimarães

    Jornalista e co-fundadora do Portal Catarinas. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, pós-graduada...

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