Uma chuva torrencial atingia a cidade do Rio de Janeiro no dia 29 de agosto de 1996, quando aconteceu a abertura do 1º Seminário Nacional de Lésbicas (Senale). Com o tema “Saúde, visibilidade e organização”, o evento  foi organizado por Elizabeth Calvet e Neusa das Dores, lésbicas negras que atuavam no Coletivo de Lésbicas do Rio de Janeiro (Colerj). 

Durante a abertura, a atriz e poeta Elisa Lucinda fez uma apresentação, seguida pelas Mulheres de Ilú. Mesmo com os alagamentos pelo centro da cidade, lésbicas de todo o Brasil lotaram o auditório. Ao todo, 101 pessoas assinaram a lista de presença e muitas não assinaram por medo de lesbofobia. 

Inicialmente, eram apenas 30 vagas. Posteriormente, aceitaram 60 e mais de 300 compareceram  em uma linda noite de arte negra, que versou entre tambores, cantos e poesia.

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Crédito: arquivo pessoal.

A mesa de abertura contou com a participação da então vereadora Jurema Batista (PT-RJ), e que, anos depois, seria a primeira deputada negra do estado do Rio de Janeiro. Para a organização do Senale, Neusa e Elizabeth contaram com a solidariedade de movimentos sociais e de parlamentares (uma vereadora e três deputados). 

Era época de eleição e todos estavam sem dinheiro. Sem internet, elas usaram selos doados por parlamentares para enviarem cartas e utilizaram a sala das Abayomi para fazer reuniões e ligações. Faltando pouco mais de dez dias para a realização do seminário, ainda não havia chegado o financiamento do Ministério da Saúde. Elas tiveram que emitir um cheque pessoal e sem fundos para garantir a hospedagem.

De acordo com o relatório final do 1º Senale, “Discutir organização, visibilidade e saúde criando mecanismos de conscientização que venham nos auxiliar na luta contra a discriminação, não é só responsabilidade das lésbicas, mas da sociedade como um todo”. E isso se refletiu na mesa de abertura que contou com secretarias de Estado e movimentos sociais. 

Em relação à saúde, o enfrentamento ao HIV/Aids e às DSTs (hoje chamadas de ISTs) foi um dos pontos de destaque, com atenção à saúde e prevenção entre lésbicas. Elas também discutiram a importância de investimentos na produção ou importação de preservativos femininos e de a atenção e sensibilidade às instituições de ensino, principalmente ginecologia, para o atendimento e tratamento de lésbicas. 

Sobre organização, havia a cobrança pelo engajamento do movimento feminista nas causas das lésbicas e o lançamento de uma campanha pela não discriminação em razão da orientação sexual. E o principal ponto foi a oficialização do 29 de agosto como o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica.

Em  entrevista à Revista Brejeiras, Neusa das Dores afirmou que elas queriam uma data feliz; e elas foram muito felizes nos três dias que estiveram reunidas.

A visibilidade lésbica negra se refletiu desde a organização e idealização do 1º Senale até sua execução, com a presença delésbicas negras nas mesas de debate e nas atividades culturais. Dentre as oficinas, havia a oficina do abraço e a de poesias, pensando o afeto como parte indissociável da organização política. 

Mesmo sem dinheiro e sem estrutura, o Senale recebeu lésbicas de todo o país que quiseram participar do encontro numa política de quilombo. A partir dali, muitos movimentos sociais foram inaugurados Brasil afora, além de amizades, namoros e redes. 

De 1996 a 2026, são 30 anos do 1º Senale. São 30 anos de uma visibilidade lésbica que é negra. Quando Neusa fala de visibilidade, ela sempre a afirma nas  políticas públicas e no orçamento, por exemplo. 

Neusa foi idealizadora da Lei Municipal nº 2.475/1996 que pune administrativamente estabelecimentos comerciais, industriais e servidores públicos municipais que discriminarem pessoas por conta de sua orientação sexual e identidade de gênero. De autoria da vereadora Jurema Batista, a lei foi aprovada após elas esperarem o esvaziamento do plenário. Foi a  primeira lei do Brasil com esse teor e inspirou outros municípios e estados. 

Foram duas mulheres negras que incidiram politicamente pela aprovação de uma lei, no mesmo ano do 1º Senale, que beneficia toda uma comunidade, a população LGBTQIAPN+. Neusa e Jurema traçam caminhos de uma ancestralidade negra que pensa e age como comunidade.

Como disse Lélia González, “em cada passo, há um eco de nossas ancestrais”. Como feministas negras, precisamos reivindicar e fazer ecoar que a visibilidade lésbica é negra e anunciar os nomes de Neusa das Dores e Elizabeth Calvet como nossas lideranças que abriram caminhos para que pudéssemos, hoje, celebrar 30 anos de visibilidade lésbica.

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  • Camila-Marins

    Jornalista, editora da Revista Brejeiras, mestre em políticas públicas em direitos humanos pela UFRJ com a dissertação “...

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