As mulheres eram obrigadas a usar burqas no periodo dos talibãs|Foto: KAMAL KISHORE/REUTERS

Elas fingiam ter aulas de costura para poder ler e estudar no regime talibã

Postado em 27/09/2016, 10:28

Naheed é ativista dos direitos das mulheres em Londres e tem pouca esperança no futuro do Afeganistão

Naheed Baqui conta, orgulhosa, que aos 19 anos enganava diariamente os talibãs no Afeganistão. Proibida de estudar, inscreveu-se numa falsa escola de costura onde, longe de olhares indiscretos e envoltas em burcas, as mulheres trocavam as agulhas por livros.

“Mesmo com os talibã no poder eu lia, estudava. Nós, as mulheres, enganávamos os talibã na Golden Needle [Agulha Dourada]”, diz à agência Lusa Naheed Baqui, referindo-se à “escola de costura” em Herat (Oeste do Afeganistão, perto da fronteira com o Irão).

Hoje cumpre-se 20 anos da tomada de Cabul pelos talibãs, uma vitória que deu início a cinco anos de domínio do grupo fundamentalista sobre a capital afegã e grande parte do resto país.

O regime talibã chegou ao fim em 2001, quando – na sequência dos atentados terroristas de 11 de setembro — os Estados Unidos invadiram o Afeganistão, convencidos de que grande parte do aparelho da Al-Qaida operava a partir do país.

Mas nos cinco anos em que estiveram no poder, os “estudantes de teologia” submeteram a população a regras apertadas. Proibiram as mulheres de trabalhar ou frequentar a escola e o mundo ocidental ficou a conhecer um ícone do regime talibã: a burca, uma peça de roupa de uso obrigatório que cobria o corpo da mulher da cabeça aos pés, com uma rede em frente aos olhos.

Em 1999, então com 19 anos, Naheed tinha de vestir a burca para ir às “aulas” de costura na Golden Needle de Herat. Por vezes arriscava e, debaixo da pesada roupa, trazia um bloco de nota, canetas ou mesmo um livro.

“Os professores de literatura da Golden Needle dividiam-nos em dois grupos: um grupo lia versões traduzidas de escritores ocidentais, como Victor Hugo, enquanto o outro analisava e debatia o livro”, conta Naheed, realçando que frequentava aulas três vezes por semana.

Os riscos não a incomodavam muito na altura e mesmo agora, quase vinte anos depois e a viver em Londres, despacha os temores com frases simples.

“Perigo? Sim, se fôssemos apanhadas poderíamos ser… Como se diz em inglês quando levamos com um bastão de borracha? Espancadas! Já os professores poderiam ser presos, ou pior”, refere.

Quando a 27 de setembro de 1996 os talibãs tomaram Cabul a família de Naheed ainda aguentou seis meses na capital, mas acabou por fugir para o Paquistão. Acabariam por voltar dois anos depois, passando por Cabul, mas com Herat como destino final.

“Em Cabul a vida era mais difícil do que em Herat. Esse período [de um mês] foi o mais difícil. (…) Eu e as minhas irmãs estávamos em casa e os talibãs batiam-nos à porta, a perguntar pelo homem da família. Isto porque o meu pai estava em Herat e o meu tio estava num outro distrito”, conta Naheed.

Cinco jovens mulheres a viver sob a guarda da avó chamavam demasiado a atenção dos estudantes de teologia.

“No Afeganistão, quando uma mulher chega aos 60 ou 70 anos, e é o membro mais velho da família, ganha o respeito por todos, mesmo das autoridades. Mas os talibãs tinham outro ponto de vista: a minha avó não era a pessoa certa para cuidar de nós, raparigas. Isso impressionou-a muito”, diz Naheed.

Atualmente Naheed é ativista dos direitos das mulheres em Londres e tem pouca esperança no futuro do Afeganistão. Diz que não é relevante saber se os talibãs voltam ou não a tomar o poder.

“O receio das pessoas da minha geração é que a vida [no Afeganistão] vai ser como no regime dos talibãs, mesmo sem eles estarem lá. Isto por causa das ideias e do género de pessoas que andam metidas com o governo, por causa das políticas que andam a mudar”, realça a afegã, reproduzindo a visão de amigos ainda a viver no país asiático.

“Ficamos com a mesma sensação que tínhamos durante o regime talibã, quando não havia respeito pelo Estado de Direito. Quando no sul há pessoas a ser apedrejadas por um grupo de talibãs e está lá o representante do governo que não faz nada. Ou quando há crimes de honra”, conclui.

Fonte: DN Mundo

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