Vítimas alegam que agressão partiu de um integrante da bateria/Foto: reprodução movimento beijaço

Casal gay é agredido e perseguido por integrantes de escola de samba após se beijar

Postado em 27/02/2017, 19:01

Um casal gay foi agredido e perseguido, na noite de ontem (26), na praça da Lagoa da Conceição, em Florianópolis, após apresentação da escola da União da Ilha da Magia (UIM). As vítimas, que precisaram fugir e se abrigar em um posto de combustível, alegam que a agressão partiu de um integrante da bateria da escola. O presidente da UIM, Valmir Braz Nena, no entanto, afirma que a agressão envolve a comunidade e não componentes da agremiação. O casal registrou boletim de ocorrência como crime de lesão corporal dolosa.

O biólogo Vitor, 25 anos, nunca tinha se divertido tanto no carnaval. “Tava uma festa muita bonita, tinha uma galera muito massa”, conta. Ele e outros amigos foram até a praça Bento Silvério ver um deles tocar na escola. O pesadelo começou após a apresentação, quando Vitor e o professor Leomir de 23 anos se beijaram. “Ele veio se despedir e a gente se beijou. Um cara me empurrou por trás, eu virei e ele disse ‘vocês não podem se beijar aqui’. Olhei para ele e deixei pra lá. Continuei a beijar, porque sou livre e não estava fazendo nada demais”, relata.

Vitor teve o cabelo puxado e foi arrastado pelo chão. Leomir foi derrubado e passou a ser chutado por um grupo de pessoas que se aglutinou ao seu redor. “Fui ajudar meu amigo e as pessoas me empurravam. Cerca de 20 se envolveram, não deu para identificar quem defendia e quem agredia”, conta.

Ele lembra que uma das integrantes da escola tentou defendê-los, mas não foi possível diante da ira dos agressores. Mesmo depois que a confusão se dissipou, precisaram correr porque os agressores os perseguiram pelas ruas. “Puxei meu amigo,  que estava todo rasgado e com a cara inchada, deixei a bolsa para trás e saímos correndo. Gritávamos ‘chama a polícia, é homofobia’. Ninguém entendia o que estava acontecendo e outros tampouco estavam interessados. Nos abrigamos num posto e depois de insistir muito eles ligaram para a polícia”, detalha.

Um casal de lésbicas, que chegou ao local para defender as vítimas, também sofreu violência por agressores que esperavam na rua. “Ficamos ilhados no posto, chegaram alguns grupos para defender a gente e também apanharam. Nos abraçamos e choramos juntos. A gente não tava sozinho”.

Depois de algumas horas de espera pela polícia, o casal foi resgatado de carro por amigos que seguiram até a 10ª Delegacia de Polícia da Capital. Aos policiais, relataram o caso e informaram o nome do agressor que iniciou a violência. Vitor, que mora ao lado da praça, não conseguiu dormir em casa. “Foi uma violência absurda, covarde, fascista que ia somando pessoas e criando força. Como uma  festa de rua tão tradicional não conta com uma viatura? O bairro estava cheio e ninguém fez nada para nos socorrer”, afirma.

Protesto
Ativistas do movimento LGBT e integrantes do Conselho Municipal do Direitos LGBT se mobilizaram nas redes sociais durante a tarde para um ato de protesto, hoje (27), no mesmo local onde a agressão ocorreu. Exigem posição oficial da escola sobre a violência homofóbica. De acordo com Carla Ayres do Grupo Acontece – Arte e Política LGBT, o presidente da escola negou o pedido de espaço de fala durante a apresentação de hoje. “Estive no local até à 1h. Poderia ter sido eu e minha parceira, ou vários dos meus amigos e amigas também LGBT que estavam ali. Solicitamos explicação do presidente da escola e ele se eximiu de qualquer responsabilidade. Caso a escola não tenha nada a ver com o ocorrido que se pronuncie publicamente contra este tipo de ocorrência”, afirma ela.

Carla explica que para caracterizar que a agressão teve caráter de homofobia é preciso que o registro da ocorrência indique “motivação presumida”. O casal pode voltar à delegacia para incluir a informação no B.O. Segundo a ativista, quase dez casos de agressões contra a comunidade LGBT foram relatados nas redes nestes três dias de festa, em Florianópolis. “Logo aqui neste oásis ‘gay-friendly’?”, ironiza.

O presidente da UIM afirmou, inicialmente, que a escola não se pronunciaria sobre o ocorrido. “O espaço na praça é aberto, público, não tem bilheteria. Não temos informação, os agressores são pessoas da comunidade e não da escola. Eu seria o primeiro a não admitir homofobia. Diante disso, a gente não tem o que pronunciar”.

Minutos depois da publicação da matéria, no entanto, a escola lançou nota de posicionamento nas redes sociais. Leia na íntegra:

“Querida Comunidade,

A diretoria da UIM vem a público informar que repudia qualquer atitude homofóbica e esclarece que o incidente ocorrido ontem, 26 de fevereiro, envolvendo um casal homossexual, se deu entre pessoas que não integram a União da Ilha da Magia.

A diretoria esclarece também que sempre defendeu e acolheu toda e qualquer manifestação da personalidade e das liberdades individuais. Prova disso, são os enredos da escola que, a cada ano, despertam reflexão e ação, sempre em busca da liberdade de pensamento e expressão.

Além do próprio Estatuto da Escola que em seu texto esclarece não ser esta agremiação preconceituosa, além de defender a cultura e o convívio social.

Sendo assim, a UIM convida toda a Comunidade da Bacia Lagoa para juntos comemorarmos mais um Carnaval, apesar de todos as dificuldades para manter viva nossa escola, nossa cultura, e as liberdades individuais!!!

#todonossoapoioacomunidadeLGBTI

Atualizada em 27 de fevereiro, às 20h21.

Tags: ,