Foto: Bárbara Bíscaro

O aborto dos outros

Postado em 29/09/2020, 16:54

O país sob minha pele é o livro de memórias da escritora e ativista política nicaraguense Gioconda Belli. No ano de 1985, Gioconda narra sua sensação logo após ter realizado um aborto legal e seguro nos EUA:

“Lembro-me de como me senti vazia no voo de regresso para a Nicarágua; como as casas demolidas por dentro das quais só resta a fachada aparentemente imperturbável. Muitos anos chorei pelo que podia ter acontecido. Compadeci-me tanto por minhas congêneres, todas as mulheres que se veem destroçadas por esse tipo e decisão de vida e de morte, decisões que tomamos em pleno exercício de nossa liberdade, mas que sempre nos deixam uma zona bombardeada no coração, uma zona de desastres onde um fantasma pequeno passeia sorrindo o sorriso que jamais sorriu, olhando-nos para sempre com a nostalgia da vida que lhe negamos” (BELLI, 1985, p. 235).

Ler esta passagem me fez pensar que, para além dos aspectos amplamente debatidos que pairam sobre o horror da sociedade conservadora ao aborto (conservadorismo religioso, criminalização da liberdade da mulher, controle dos corpos que possuem útero), há um aspecto pouco debatido, que é o rastro de destruição que essa decisão deixa em seu caminho. E não por conta de uma hipotética culpa por ter “matado” uma criança que poderia ter sido e não foi. Isso deixamos para aqueles que desejam fazer um debate não apenas superficial, mas hipócrita sobre as práticas sociais contemporâneas.

Muitas decisões do nosso dia a dia significam a morte e a desolação consciente de milhares de pessoas ou ecossistemas, e nem por isso carregamos tão fortemente essa culpa quando votamos em determinado candidato ou consumimos uma roupa produzida por trabalhadoras em regime de semi-escravidão.

O insuportável, para mim, reside na impossibilidade de responsabilizar-se pelas próprias escolhas, e por conseguinte, a capacidade de respeitar as escolhas da outra, seja ela qual for. Ter ou não filhos, em diversos momentos de nossa história como seres humanos no planeta, nem sempre passou pelo crivo de uma escolha pessoal. As máquinas da guerra, da necessidade de mão de obra (para o campo e para a cidade), a própria continuidade de grupos específicos envolveram, em alguma medida, uma regulamentação sobre a necessidade de nascimentos frente a predominância da morte.

Porém, na atualidade, ao menos em certos contextos, podemos encarar o fato de que gerar uma criança pode vir de uma escolha deliberada de pessoas que desejam se aventurar nessa tarefa tão fundamental para nossa espécie. O fato da gravidez não ser mais uma situação compulsória lança uma luz sobre a natureza de uma escolha que pôde ser feita em poucos momentos da história da humanidade, ao menos para as mulheres.

Porque aos homens sempre foi dada a escolha de responsabilizar-se ou não por um filho gerado. O ato paterno de abandonar uma criança (afetiva e materialmente) é encarado com uma estranha naturalidade no Brasil. Assim como o ato patriarcal do estado de abandonar também é amplamente naturalizado. Pouco se fala sobre esse rastro de destruição que o abandono paternal deixa tanto para a criança, quanto para o homem que abandona. Mas deixemos os homens se preocuparem com essa questão.

O que o depoimento de Gioconda me provoca a perceber é a maturidade de, sabendo-se possível tomar a decisão de abortar, responsabilizar-se por esta ação como uma pessoa adulta. Fazendo as contas entre a dor, o medo e a incerteza, alguém decide. Essa decisão, por mais lógica que seja, sempre acompanhará aquelas pessoas, anunciando-se como uma daquelas incógnitas da vida, aquele “poderia ser e não foi”.

Minha tese aqui, portanto, é que uma sociedade infantilizada e irresponsável precisa que o aborto seja ilegal. Precisa que haja essa regulação de um deus, de um estado, de um mestre ou de um herói para atenuar a responsabilização de si sobre as decisões da própria vida. Precisa de uma lei externa, irrevogável, para que possa dormir à noite frente às terríveis decisões que a liberdade impõe ao indivíduo. Precisa criminalizar a liberdade alheia porque se percebe incapaz de lidar com sua própria liberdade individual.

Esse é o terror escondido sob o véu de um discurso de proteção à vida: é uma busca desenfreada pela proteção de seu próprio mundo, imutável e dogmático, pois lidar com o desconhecido de uma ética própria exige muito.

Manter a impossibilidade de escolha, a necessidade de restringir as liberdades pessoais no Brasil através da violência de estado e social nasce de uma sociedade não somente autoritária (alguém se julga mais capaz de inferir sobre a realidade), mas profundamente apavorada com a possibilidade de perder o controle sobre o mundo que nos rodeia.

Terrificada com a ideia de que responsabilizar-se é ato pessoal e intransferível, é dor dolorida na própria carne, rasgada no próprio tecido da vida. Quando é deus quem inflige o sofrimento é mais fácil suportar. Quando sou eu ou o outro quem precisa de limites, isso é simplesmente o inferno: porque, ao contrário da lei divina que é imutável, à lei dos humanos sempre cabe a dolorosa modificação.

Mãe Coragem e seus filhos, peça de Bertolt Brecht de 1941, lança um olhar sobre uma mãe que perde todos os seus filhos na Guerra dos 30 Anos. Ao contrário do que se possa imaginar, a peça não explora o enredo dramático da mãe enlutada e dolorida, mas sim, de uma mulher complexa que “entrega” os filhos para a mesma sociedade que ela ajuda a manter de pé, em um ciclo interminável de destruição.

Ana Fierling, a mãe, entende, em sua simplicidade rude e quase desconcertante, a necessidade de responsabilizar-se diante do amor, da morte e da fome.

Tríade onipresente nas periferias de um país como o Brasil, na vida de milhares de mulheres que, aceitando a tarefa de responsabilizar-se e ajudar a outra a fazer o mesmo, lutam pela possibilidade do aborto legal, porque confiam que uma sabedoria amorosa pode guiar esta discussão. Porque sabem que não é uma atitude leviana e infantil que acompanha um aborto, mas uma carne rasgada em si, ou como Gioconda tão belamente descreve, uma casa destruída por dentro, mas que mantém a fachada intacta, como se nada tivesse ocorrido.

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Barbara Biscaro é atriz/cantora e pesquisadora nas áreas do teatro e da música. É Doutora em Teatro pela UDESC e coordena, conjuntamente com outras atrizes, o projeto Vértice Brasil, voltado para a discussão e visibilidade do trabalho de mulheres criadoras no teatro.
Veja a coluna da Barbara Bíscaro