Era uma tarde tranquila em novembro de 2024 na Escola Municipal Maria Ângela Moreira, de Niterói (RJ). A professora de Artes coordenava uma atividade com estudantes do quarto ano. As crianças, com idades entre nove e dez, recortavam papéis em formas geométricas. Sobravam retalhos triangulares que se acumulavam no chão.

Três meninos decidiram catar um a um e, a partir deles, desenvolver suas próprias, digamos, artes. A educadora viu, mas pouco se importou. Era uma aula descontraída, e outros alunos demandavam atenção. 

Ela se aproximou dos dissidentes, depois de um tempo, e encontrou a obra: uma série de calcinhas desenhadas em papel que tinham escrito, no centro, “Mia Khalifa”.

“Gente, quem é essa?!”, perguntou a professora. Os garotos permaneceram em silêncio. A docente buscou a diretora, Luciana Kuhn, que desconhecia. “Vamos pesquisar”, disse.

Foram ao Google. Os primeiros resultados são páginas da WikiPedia e Instagram. Na sequência, o link do site PornHub: “Vídeos pornôs com Mia Khalifa”. 

Kuhn dirige a unidade de ensino há 11 anos, mas, há mais de vinte, trabalha com educação sexual. Inclusive, presta consultorias a outras instituições, sejam públicas ou particulares. Ela aguarda para defender sua tese de mestrado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), onde pesquisou a eficácia de sua prática pedagógica.

No episódio envolvendo a ex-atriz pornô libanesa, sentiu necessidade de conversar com as crianças. A pedagoga explicou que a pornografia “não é legal” porque é violenta e reforça estereótipos de gênero. Os efeitos disso em uma criança de nove ou dez anos podem ser graves.

Mídia afeta desenvolvimento de adolescentes

Há cinco anos, um evento acadêmico reuniu pesquisadores de mídia dos Estados Unidos. Entre eles, estavam Stacey J.T Hust, Jessica Fitts Willoughby e Rebecca Ortiz. Todos ex-orientandos de Jane Brown, professora emérita da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill. O reencontro permitiu, ao longo dos coffee breaks, lembrar velhas histórias de suas épocas de doutorandos, além de anedotas envolvendo a guru. 

Entre um e outro assunto, passaram a discutir o trabalho de Brown, autora de “Sexual Teens, Sexual Media” (Routledge, 2001). O livro investiga a influência das mídias no comportamento sexual de adolescentes. Mas, quando escrito, há cerca de 24 anos, o complexo midiático era muito diferente. Instagram, TikTok e sites de pornografia como conhecemos hoje não existiam, e a mediação dos pais era maior. “Precisamos atualizar a pesquisa”, concluíram. 

Tudo acontece nos petit-comités, é verdade. Em janeiro deste ano, os acadêmicos publicaram “Teens, Sex, and Media Effects” (Routledge, 2025). A obra compila estudos acadêmicos da mesma perspectiva da orientadora, mas a atualiza para esta década. Eles a convidaram para prefaciar a atualização.

Para isso, ela volta ao passado, nos anos 1960. Jane Brown adolescente se senta diante da televisão, nos conta, e assiste a filmes. Ela encara com atenção cenas de beijo. Captura cada detalhe porque dali quer tirar um aprendizado: o que fazer após beijar. “A mídia estava ajudando-me a explorar quem eu queria ser”, escreveu. O psicanalista Norton da Rosa Júnior diz que a imitação é um processo comum, e costuma ser feita com a pornografia. 

O que muda é que antes a pornografia era restrita, assim como outras mídias. Na introdução do livro dos pesquisadores americanos, conta-se que em um episódio da série “Friends”, a personagem Rachel engravida sem querer. Ao longo do capítulo, discute-se a eficácia da camisinha, e o programa conclui que o método contraceptivo é inútil. 

O estudo citado diz que um quarto dos espectadores adolescentes do seriado viram o episódio. 65% deles insistiram que a falha da camisinha é responsável pela gravidez. 40% deles viram com um adulto, que, em 10% dos casos, disse que não era bem assim. A conclusão é que a orientação de responsáveis é fundamental para o desenvolvimento sexual de crianças e adolescentes.

Mas isso não acontece com a pornografia. Nenhum adolescente abre uma aba de seu navegador e busca por um pornô ao lado de seus pais para que digam “filho, sexo de verdade é diferente”. Na verdade, o acesso à pornografia começa cedo, muitas vezes, por causa da ausência de diálogos entre crianças e adultos. A curiosidade, explica Rosa, é inerente ao desenvolvimento.

Em lares religiosos, ou não, a sexualidade costuma ser tabu. E, por isso, os filhos buscam na internet o que não podem perguntar aos pais, argumenta Rodrigo Nemj, especialista em educação digital do Instituto Alana. E, ao mimetizar roteiros pornográficos os meninos adotam comportamentos misóginos e violentos, principalmente em relação ao sexo. 

A diretora Kuhn afirma que, muito embora, os meninos sejam os mais afetados psicologicamente pela pornografia, as meninas são prejudicadas também. “Nos tornamos vítimas do acesso que os homens têm a filmes pornográficos”, ressalta . 

De acordo com o Culture Reframed, organização não-governamental dos Estados Unidos, 1 bilhão de crianças têm acesso a pornografia no mundo. Uma a cada três começa a consumir pornô do gênero hardcore aos 12 anos. O que, para Rosa, pode desencadear sintomas de transtornos mentais.

“Por um lado, a pornografia pode contribuir para a iniciação sexual de adolescentes e a busca de suas identidades sexuais, exploração de suas fantasias e curiosidades. Mas, se ela se torna prática compulsiva, gera uma série de sintomas, como a objetificação do sujeito e visão objetificada da sexualidade mecanicista, porque as pornografias são muito regidas por uma certa lógica de desempenho”, explica. 

A execução desse roteiro, argumenta, leva a comportamentos misóginos. E essa atitude, segundo o psicanalista, pode desencadear ansiedade, agressividade e sentimentos de inadequação ou isolamento social. 

Pelo menos, isso é o que indicam alguns estudos, mas essa conclusão é imprecisa. “Você não pode trancar crianças em quartos e forçá-las a assistir pornografia. Isso seria antiético”, explica Ortiz, co-editora de “Teens, Sex, and Media Effects” e professora associada da Escola de Comunicação Pública da Universidade de Syracuse. 

A especialista conta que o que tem sido feito é a busca por dados correlacionais ou longitudinais ao longo do tempo, e que a partir da identificação de padrões chegam a essas hipóteses. 

Além disso, a ausência de pesquisas que envolvam adolescentes LGBTQIA+ pode fazer com que não se perceba outros efeitos para além dos sentidos por pessoas heterossexuais e cisgêneros.

“Não tem pesquisa sólida que consiga descrever e apontar resultados [sobre a influência da pornografia em adolescentes LGBTQIA+]”, explica Thiago Ranniery, professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Para ele, a análise das consequências da pornografia devem ser feitas a partir das características de desenvolvimento do sujeito.

Bases instáveis da sexualidade

Lucas, como quer ser chamado para preservar sua identidade, tem 16 anos. Começou a assistir pornografia aos 12. “Viciei”, diz.

Ele conta que percebeu sozinho os efeitos negativos em sua vida, que diminuiu a intensidade de consumo, mas que ainda se considera “viciado”. “Alguns dias da semana assisto, outros não. Mas toda semana sim”.

Em 2020, quando descobriu o universo criado pela indústria pornográfica, era pandemia. O adolescente não sabe dizer se é consequência do isolamento social.

“Se pá, que sim, porque fiquei com celular muito mais tempo”, lembra. Lucas sentiu sintomas de “precocidade e coisas do gênero” e entendeu que os vídeos realmente objetificam relações sexuais e corpos – inclusive, o próprio.

“Vamos supor que eu tenha me viciado depois de ter constantes relações sexuais, o resultado é disfunção e precocidade. Mas, no meu caso, acontece a objetificação porque eu era mais novo e nunca vi aquilo do jeito que realmente é. Vi o que é criado para vender, então penso e idealizo aquilo como correto porque não tenho nada como base.”

De Marquês de Sade ao PornHub

Contar a história da pornografia com exatidão é difícil. Pode-se dizer que a indústria pornográfica surgiu nos anos 1960 e se desenvolveu a partir do século 21.

Porém, os primeiros registros de desenhos e pinturas rupestres surgiram no período Paleolítico, há cerca de 70 mil anos. E desde então o ser humano vem representando o sexo de diferentes maneiras. 

A sexualidade é um mistério que a civilização trata de entender há séculos. Faz parte do que nos constitui como ser animal, mas também social. Para Norton da Rosa Júnior, o pornô pode ter começado a ser o que é no século 18. 

“Marquês de Sade é quem introduziu o monstro [da pornografia] no campo da literatura, como diz Eliana Robert de Moraes. Sade nos faz pensar que o pornográfico, de alguma forma, busca uma espécie de instrumentalização do outro, de objetificação do outro. É o gozo a qualquer custo.” 

A pornografia acompanhou a evolução tecnológica das mídias. Até pouco tempo, era consumida através de fotografias em revistas que circulavam clandestinamente nos corredores escolares. Ou, podia-se alugar DVDs em locadoras, mas, para isso, era preciso enfrentar o constrangimento de entrar nas cabines destinadas a esse tipo de filme. 

Com a digitalização da vida, o pornô está na palma das mãos de qualquer um que tenha acesso à internet – 84,7% dos adolescentes brasileiros os têm, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

E a virtualização, acompanhada do neoliberalismo, impôs como tendência a personalização. A experiência. Hoje os adolescentes são autores de suas próprias mídias. Essa é uma das principais conclusões de “Teens, Sex, and Media Effects”. 

Na obra, a intenção era compilar informações sobre como adolescentes entendem a sexualidade através da mídia. “E levamos em consideração que jovens podem criar mídia, não só consumi-la”, explica Ortiz.

Amor virtual

Sexting. Sexo por mensagens de texto, ou WhatsApp, é comportamento da Geração Z. Aliás, é um fenômeno da virtualização. Muitas vezes, é o início de uma relação sexual. Nessas mensagens, são criadas expectativas, cenas eróticas são narradas. Planejadas. Com frequência, o que acontece quando se chega às vias de fato é a decepção. 

“Isso torna muito mais difícil de estudar porque tem muito mais conteúdo e muito mais mídia. Nós não podemos ir no perfil do TikTok ou Instagram de alguém e ver cada conteúdo individual que ele está criando”, aponta a pesquisadora.

Em 2023, 16% das crianças e adolescentes brasileiros entre nove e dezessete anos viram mensagens de cunho sexual postadas na internet, 5% foram pedidas para falar de sexo e 9% receberam pedidos de fotos nuas. Os dados são do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação e podem estar subnotificados. 

“Descobrimos que muitas crianças sofrem abuso porque assistem a filmes pornô. Se elas têm acesso, alguém mostrou os filmes e poderia estar abusando-as”, conta Kuhn, a diretora. 

Por conta da pornografia, meninos desenvolvem ideias equivocadas sobre os corpos de mulheres. Esperam que tenham peitos fartos e bundas grandes, mas que sejam sólidos e não tenham gordura de nenhum tipo. Esperam que a pele seja lisa e que nenhum pelo surja sobre ela. Esperam que o rosto seja simétrico. E idealizam, inclusive, a cor das vaginas e ânus das mulheres, conforme gritou um grupo de turistas brasileiros a uma russa na Copa do Mundo de 2018. 

Mas nem todas as mulheres são assim. Na verdade, a maioria não o é. Porque a realidade, por mais que possa ser produzida, não é pornográfica. Todo mundo tem pereba, marca de bexiga ou vacina, coceira, verruga e frieira. Até a bailarina. O resultado é que muitos homens não conseguem mais sentir atração por mulheres reais.

“Um cara broxou comigo”, contou uma mulher. “E começou a se masturbar assistindo a um pornô enquanto eu estava ali, deitada nua ao seu lado”. 

Por isso, o filme Her (2013) está próximo à realidade. O longa conta a história de um homem (Joaquin Phoenix) que se apaixona por um computador. Rodrigo Nemj, do Instituto Alana, identificou dois serviços de inteligência artificial que permitem a construção de personagens eróticas. Embora esse não seja o propósito explícito deles, meninos e homens têm usado os sites para essa função. 

Educação sexual pode mitigar danos

“Conversando”, me responderam todos quando perguntei como orientar crianças e adolescentes sobre a pornografia. Quando Kuhn, a diretora da escola fluminense, descobriu que Mia Khalifa é a atriz pornográfica mais famosa do mundo, reuniu os estudantes e conversou com eles sobre o consumo de vídeos pornô. 

Uma parte da turma, percebeu, não tinha ideia sobre o que falavam. “Mas metade da sala sabia exatamente o que significava a pornografia, o que era um filme pornô”, lembra.

Para a educadora, conversas como essa devem ser livres de julgamento.

“Porque, caso se adote um tom moralista, as crianças e adolescentes se afastam de você. Eles precisam de informação e de ambientes seguros para conversar. A maioria não tem isso em casa, o que é mais um motivo para ter educação sexual nas escolas”.

Thiago Ranniery, da UFRJ, coordena um laboratório que leva os universitários a escolas para promover a educação sexual. “Essa conversa”, diz ele, “tem que estar centrada na escuta para que possamos entender e acompanhar o que acontece subjetivamente na vida cultural de crianças e jovens”.

Esse diálogo não precisa se dar em espaços tradicionais, com educação curricularizada. Os assuntos devem surgir conforme demanda cotidiana. “À medida que as situações eclodem, e os professores percebem a circulação de materiais em grupos de WhatsApp ou celulares, exige-se um nível de intervenção.”

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