Imagens: frames do documentário

Documentário catarinense retrata as violências do Caso Gracinha

Postado em 24/01/2022, 10:00

A obra “Pele Negra, Justiça Branca” teve sua pré-estreia nacional no Festival do Rio.

Logo nos primeiros segundos do documentário, o telespectador é provocado por uma sátira da famosa cantiga “Dorme Neném”. Em coro, manifestantes cantam: 

“Dorme neném que a justiça vem pegar. Mamãe não tem dinheiro? Então proíbe de criar”.

A canção narra a história de luta de Maria Graça de Jesus, moradora da Comunidade Remanescente do Quilombo Toca de Santa Cruz, localizada no município de Paulo Lopes, litoral sul catarinense.

Em 2014, Gracinha teve suas duas filhas retiradas pelo Conselho Tutelar. À época, a juíza do caso afirmou que, por ser descendente de escravos, a mãe não possuía condições de educar suas filhas – visto que sua cultura “não primava pela qualidade de vida, era inerte em relação aos cuidados com higiene, saúde e alimentação”.

A história de Gracinha demonstra como a violência contra mulheres negras é estatal e sistemática, seguindo impune na maioria dos casos. O Tribunal de Justiça de Santa Catarina destituiu Gracinha de seu poder familiar em 2017. Não há mais possibilidades de recurso para a defesa. 

Em 2019, a juíza atual do processo pediu arquivamento do caso. Há seis anos, Gracinha não pode abraçar as filhas, pois não sabe onde estão. Desde 2014, o quilombo Toca de Santa Cruz segue mutilado. 

O caso emblemático de adoção compulsória é o tema do documentário “Pele Negra, Justiça Branca”, dirigido coletivamente por Valeska Bittencourt, Cinthia Creatini da Rocha e Vanessa Rosa Gasparelo.

Diretoras Valeska Bittencourt, Cinthia Creatini da Rocha e Vanessa Rosa Gasparelo.

A obra também contou com a parceria de Vanda de Oliveira Gomes Pinedo, Maria de Lourdes Mina e Luciana Freitas, da coordenação do Movimento Negro Unificado (MNU/SC) – entidade central na luta para trazer justiça à mãe quilombola.

Imagem: frames do documentário

O documentário foi contemplado com recursos do Prêmio de Cinema Catarinense, da Fundação Catarinense de Cultura (FCC), e em dezembro de 2021, teve sua pré-estreia na Mostra “O Estado das Coisas”, no Festival de Cinema do Rio.  

Com uma narrativa poética e a declaração de trechos das obras de Conceição Evaristo, a obra entrega uma narrativa potente e angustiante, que imerge o telespectador na cultura do quilombo, nas relações entre as mulheres quilombolas, fazendo com que o grito abafado de uma mãe violentada se amplifique. 

Emocionada, Vanessa relembra que algumas pessoas precisaram deixar a sala durante a exibição do documentário. “As pessoas passaram mal, é uma história agonizante. É extremamente doloroso por saber que ainda não se resolveu esse caso. E que, talvez, nunca se resolva – o que é triste demais”.

O filme

A motivação para o tema do documentário surgiu em 2017, quando Valeska acessou uma matéria do Portal Catarinas sobre o caso. Indignada com a situação, contou sobre o caso para Vanessa, que era sua colega em outro projeto. 

A partir de então, as duas diretoras catarinenses sentiram o intuito de retratar a história de Gracinha. Viajaram para Garopaba, em Santa Catarina, para uma mobilização pedindo realidade em frente ao Fórum da cidade no mesmo ano – e no ato, conheceram Cinthia, que já possuía uma forte ligação com a comunidade do quilombo. 

“Como antropóloga, na época do acontecimento da retirada das filhas da Gracinha, eu estava realizando o laudo de identificação do território e da comunidade quilombola Toca da Santa Cruz. Fiquei muito chocada, encontrei as outras diretoras – e nos mobilizamos a escrever um projeto audiovisual”, explica Cinthia.  

Antes de iniciar as gravações do documentário, a equipe esteve na comunidade quilombola promovendo uma oficina de capacitação sobre técnicas audiovisuais para jovens moradores locais. Em parceria com o MNU, a oficina aconteceu durante três dias. No primeiro, houve uma mostra de curtas com temática negra e quilombola.

Depois, os participantes produziram vídeos curtos com celular, abordando histórias sobre a vida na comunidade quilombola. Com o acompanhamento dos profissionais de cada área, as pessoas inscritas passaram pelas etapas da produção audiovisual. 

Ao final, as produções foram exibidas em um telão para os familiares e demais membros da comunidade. Através da oficina, as diretoras puderam fortalecer os vínculos sociais entre os quilombolas e o empoderamento identitário do grupo, além de proporcionar uma maior interação e troca cultural com a equipe que esteve gravando no quilombo. 

“O projeto aproximou muito nossa equipe da comunidade, gerando vínculos de afeto e confiança. Tivemos oportunidade de acompanhar o movimento de empoderamento da comunidade e a conquista, sob muita luta, de algumas políticas públicas básicas, como a construção de casas dignas para as famílias e o acesso à educação quilombola.”, comenta Cinthia. 

As três diretoras concordam que a presença e orientação das integrantes do MNU, que acompanham a luta de Gracinha desde o início, foi fundamental para que a obra atingisse seu objetivo – expor as entranhas do racismo no funcionamento do judiciário catarinense, que colocou Gracinha como culpada das violências que sofre. 

Como mostra os casos de Gracinha e Andrielli, mulheres-mães são julgadas por serem vítimas de direitos que lhes foram negados. Crianças são tiradas da sua origem, suas comunidades e famílias, para viverem nos ambientes encarcerados de abrigos, ou em famílias brancas – tendo seus costumes, cultura, história e ancestralidade apagados. 

Imagem: frames do documentário

“Pele Negra, Justiça Branca”

O título “Pele Negra, Justiça Branca” faz referência a um artigo acadêmico produzido em 2016 pelos pesquisadores Raquel Mombelli e Marcos Farias de Almeida – que também participam do documentário. 

O artigo trata sobre o caso da destituição das filhas caçulas de Gracinha, e seu título faz referência ao livro “Pele Negra, Máscaras Brancas”, do teórico Frantz Fanon. Publicado em 1952 é uma das obras mais antigas e importantes da luta antirracista, que traz a questão do olhar do colonizador sobre esse outro exótico e inferior, onde “a questão não é apenas ser negro, mas ser negro perante o branco”. 

E no caso de Gracinha, o olhar para o negro como sendo “o outro” serve de base para uma postura racista e excludente, onde uma mãe negra, pobre e quilombola é considerada incapaz de cuidar de suas filhas, perante uma justiça branca, misógina e elitista.

Imagem: frames do documentário

A afirmação da juíza atinge todas as pessoas negras, ao afirmar que nenhum descendente de escravos tem condições de criar os seus filhos – como ressalta Patrícia Soares Martins de Oliveira, advogada do caso, que participa do documentário. 

“Ela não está falando de uma mãe que não tem condições de ficar com as suas filhas. Ela está falando de todo o povo negro. Todos os descendentes de escravos. Todos nós. Essa indignação, essa luta, não é de uma. É de todos”, afirma a advogada. 

O curta-metragem foi produzido ao longo de quatro anos, devido aos desafios técnicos enfrentados com a pandemia de Covid-19.  Apesar dos desafios e do longo caminho, a obra recebeu diversos elogios e retornos positivos após a exibição no festival carioca. O documentário foi selecionado em uma mostra competitiva do Festival Internacional de Buenos Aires, que deve acontecer nos próximos meses. 

A pandemia também tem sido empecilho para o lançamento do documentário ao público. O objetivo das diretoras é realizar a estreia dentro da comunidade, levando uma tela de cinema para o quilombo. 

“Nossa prioridade é realizar a estreia do curta documentário dentro da comunidade quilombola. Porém, ainda estamos em suspensão por conta da pandemia do Covid que exige muito cuidado e discernimento para não colocar os moradores do quilombo em risco”, explica Cinthia. 

Imagem: frames do documentário

As diretoras esperam que a obra consiga ecoar o grito de uma mãe que sofre a mais de meia década por um erro da justiça, e que a sociedade se torne ciente de um sistema racista e cruel que faz com que mães percam suas filhas. Valeska, Cinthia e Vanessa desejam que a indignação quilombola e o apelo dessa mãe para saber o paradeiro de suas filhas chegue o mais longe possível.

“Que as pessoas fiquem mais atentas. Que fortaleça o debate. Que essa história, contada de forma poética, reforçando esses laços maternais da comunidade, que ela possa sensibilizar esse debate sobre o judiciário. É importante que todos saibam”, afirma Valeska. 

Ao final do documentário, a pergunta na tela segue sem resposta: “Onde estão as filhas de Gracinha?”. 

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Estudante de Jornalismo (UFSC) dedicada à escrita de reportagens, com foco na cobertura de direitos humanos. Estagiária no Portal Catarinas, sob supervisão de Paula Guimarães.
Veja a coluna da Gabriele Oliveira