A Praça XV de Novembro, no centro de Florianópolis, recebe nesta sexta-feira (13), às 19h, o sétimo desfile dos blocos afro da capital. Participam desta edição Cores de Aidê, Africatarina, Arrasta Ilha e Baque Mulher Floripa, coletivos que, ao longo das últimas décadas, vêm ampliando e fortalecendo a presença da cultura afro-brasileira no carnaval de rua da cidade.

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Arrasta Ilha | Crédito: reprodução.

A escolha do local carrega significado histórico. Até a década de 1980, a Praça XV sediava os desfiles das escolas de samba da capital, antes da construção da Passarela Nego Quirido, inaugurada em 1989. Em um tempo ainda mais remoto, durante o período escravocrata, o trajeto entre a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, construída por afrodescendentes ligados à Irmandade do Rosário, e a Catedral Metropolitana era percorrido em procissões organizadas pela comunidade negra. Ao voltar a ocupar esse espaço, os blocos afro estabelecem um diálogo direto com essa memória, recolocando no centro da cidade manifestações historicamente protagonizadas pela população negra.

É nesse território que o Cores de Aidê celebra uma década de trajetória com o enredo “10 voltas ao Sol: Irmandade em Movimento”. Nascido no Morro do Quilombo e composto majoritariamente por mulheres e pessoas não-binárias, o bloco construiu, ao longo dos anos, um trabalho que articula performance, formação e engajamento político, ao som do samba-reggae. 

5ª desfile dos Blocos Afros de Florianópolis celebra resistência e ancestralidade
Cores de Aidê | Crédito: Ana Brandalise.

Para a idealizadora e coordenadora geral, Sarah Massignan, a relação com as raízes do ritmo baiano guiou o percurso do grupo. “Sempre tivemos a preocupação de buscar as fontes e honrá-las, desde o encontro com o samba-reggae que nasce no centro popular de Salvador até os tempos contemporâneos do carnaval de Florianópolis. Procuramos honrar nossas raízes e buscar nelas a força para seguir nas comunidades que vieram antes”, afirma.

Sarah destaca que desfilar na Praça XV tem um significado simbólico justamente pela história que o local carrega.

“Quando fazemos a volta na praça, vamos recordando dos antigos carnavais que aconteciam ali. Toda vez que pisamos nas pedras ao redor da Praça XV, lembramos de quem veio antes e das comunidades que desfilavam naquele espaço.”

Neste ano, além do repertório inédito, o bloco também vai revisitar músicas que marcaram essa década de existência.

Essa continuidade ao longo de dez anos, segundo Sarah, também tem caráter político. “Permanecer por dez anos como um bloco de mulheres é resistir. Por isso celebramos a irmandade e trazemos no nosso imaginário culturas que vivenciam a irmandade de forma matrilinear.” A coordenadora ressalta ainda que, pela primeira vez, a gestão está completamente horizontalizada, com comissões responsáveis por áreas como figurino e composição, reunindo integrantes antigas e recém-chegadas.

Já a bailarina Fernanda Jerônimo, também integrante do Cores de Aidê, relaciona a experiência artística ao fortalecimento identitário. “Cultura se mantém viva vivendo. Esse tipo de manifestação reforça nosso senso de identidade e fortalece a autoestima do povo preto”, diz.

Sobre cantar composições próprias que abordam lutas e vivências da população ambém com essa perspectiva de valorização da identidade e resistência, o Africatarina, que completa 25 anos, leva para a praça o tema “Preto é Beleza. Preto é Poder. Preto é Pantera”, em uma referência ao movimento Panteras Negras, surgido nos Estados Unidos na década de 1960, ela completa: “É uma sensação de ser porta-voz de questões muito importantes e que muitas vezes são negligenciadas.”

Blocos afro constroem vínculos com as comunidades 

Em diálogo com essa perspectiva de resistência e valorização da identidade, o  Africatarina, que completa 25 anos, leva para a praça o tema “Preto é Beleza. Preto é Poder. Preto é Pantera”. Fundado por artistas e educadores, entre eles a professora da Udesc Fátima Costa e o músico Mestre Edinho Roldan, o bloco busca evidenciar heranças africanas presentes na cultura catarinense. A referência ao movimento Panteras Negras, surgido nos Estados Unidos na década de 1960, dialoga com experiências locais.

“Mesmo sendo um movimento estadunidense, a trajetória dos Panteras Negras se conecta com a realidade das comunidades periféricas de Florianópolis. Nós convivemos com essas lutas”, afirma Fátima.

A docente destaca que o acompanhamento da titulação do Quilombo Vidal Martins é um exemplo recente de como o Africatarina constrói vínculos com as comunidades com as quais convive e atua. O grupo participou da celebração da conquista e manteve presença ao longo do processo, fortalecendo laços para além do carnaval. Ao mesmo tempo, Fátima observa que a ocupação do centro da cidade revela tensões contemporâneas. 

“Saímos ao menos uma vez por semana para ensaiar e presenciamos o cercamento dos espaços, as tentativas de controle e as abordagens da Guarda Municipal. Isso mostra que, mesmo seis décadas depois do surgimento dos Panteras Negras e, em outro contexto geográfico, as estruturas de vigilância e exclusão continuam. As lutas se conectam”, analisa.

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Africatarina | Crédito: Fernando Willadino.

Também integra a programação o Grupo Arrasta Ilha, em atividade desde 2002 na capital catarinense. O coletivo foi criado com a proposta de difundir o Maracatu de Baque Virado e dialogar com outras expressões da cultura popular brasileira, como o boi de mamão, o afoxé e o coco de roda. Suas apresentações acontecem, em geral, em formato de cortejo pelas ruas especialmente no período carnavalesco, mas o grupo também realiza espetáculos em palco e participa de festivais e eventos culturais ao longo do ano.

O Maracatu de Baque Virado, ou Maracatu Nação, tem origem no Recife, em Pernambuco, e integra o ciclo do carnaval pernambucano. Trata-se de uma manifestação urbana vinculada a tradições afro-brasileiras e a fundamentos religiosos de matriz africana. O cortejo encena simbolicamente a coroação de reis e rainhas do Congo e é acompanhado por um conjunto percussivo formado por instrumentos como alfaias, agbês, ganzás, atabaques, taróis e gonguê, além de canto solo e respostas em coro. 

O desfile conta ainda com a participação do Baque Mulher Floripa, núcleo local do Movimento Nacional de Empoderamento Feminino Baque Mulher – Feministas do Baque Virado. O movimento foi idealizado pela Mestra Joana D’Arc Cavalcante, liderança da cultura popular afro-pernambucana e integrante da Nação Encanto do Pina, no Recife. A proposta surgiu a partir da necessidade de ampliar a presença e o protagonismo de mulheres no maracatu de baque virado, tradição historicamente marcada por hierarquias e, em muitos contextos, por predominância masculina nos instrumentos de percussão.

Estruturado como uma rede, o Baque Mulher se consolidou ao longo dos anos e hoje reúne 38 filiais distribuídas pelo Brasil e também no exterior. Além da difusão do maracatu, o movimento assume posicionamento social e político ao pautar o enfrentamento às violências de gênero, a valorização das tradições de matriz africana e o respeito às mestras e matriarcas que sustentam essas práticas culturais.

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Baque Mulher Floripa | Crédito: reprodução.

Confira a saída dos blocos:

19h15 – Baque Mulher Floripa

20h30 – Cores de Aidê

20h45 – Arrasta Ilha inicia a benção na Escadaria

21h30 – Encontro do Cores de Aidê com o Arrasta Ilha na encruzilhada

23h – Africatarina

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  • ariele-lima

    Natural de Juazeiro, sertão baiano. Estudante de Jornalismo em Multimeios pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), c...

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