Greve das uruguaias levou 300 mil às ruas de Montevidéu no ano passado

Desobediência ao patriarcado: a rebelião das mulheres latinoamericanas

Postado em 04/03/2018, 0:42

Não há como ignorar: a mobilização das mulheres no dia 8 de março será vista por um vasto contingente ao redor do mundo. Nas principais cidades da América Latina, elas organizam a segunda edição da Greve Internacional das Mulheres desde os primeiros dias do ano e pretendem marcar, nas ruas ou mesmo nas conversas informais, o debate sobre a luta por igualdade de direitos.

Desde o ano passado, a ideia da Greve Geral se espalhou pelo globo na mesma medida em que se alastra o movimento #NiUnaMenos. Países como a Espanha, França, Estados Unidos e Itália replicaram ações de massa no 8 de março, respondendo à onda latinoamericana. Física ou simbolicamente, mulheres de todo o mundo devem interromper ou suspender atividades de trabalho, ou atividades domésticas e de cuidados, considerados tipicamente femininos pela sociedade.

Segunda assembleia de preparação à greve do 8 de Março em Buenos Aires, em 9 de fevereiro, ao ar livre, para abrigar todas as participantes | Foto: Ni Una Menos

O levante feminista mobilizou no ano passado 300 mil pessoas em Montevidéu – o equivalente a 20% dos habitantes da capital uruguaia  – no que teria sido a maior manifestação popular da última década. Em 2018, o 8M tem o apoio da Intersocial Feminista, Paro Internacional de Mujeres, Coordenadora de Feminismos e mais de 40 organizações. “Nos rebelamos porque estamos cansadas ​​de ser tratadas como pessoas de segunda classe. Por que queremos transformar relações de poder e ser realmente iguais”, afirma a uruguaia Silvina Font, do coletivo feminista Cotidiano Mujer.

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Em Buenos Aires, as assembleias femininas acontecem na maioria dos bairros da cidade, nos agrupamentos feministas e entidades sindicais. A intenção é repetir, senão ampliar, a estrondosa campanha que, no ano passado, levou milhares aos “ruidazos” na Praça de Maio e em cerca de outras 60 cidades argentinas. Em Córdoba, a segunda maior cidade do país, o número de participantes das assembleias preparatórias teria quintuplicado este ano, segundo a ativista Soledad Pérez, do Centro de Intercambio y Servicios Cono Sur Argentina.

Uruguaias em assembleia no Plenario Intersindical de Trabajadores | Foto: Arquivo pessoal

As argentinas planejam ainda um passo além em 2018: pela primeira vez, o projeto de lei apresentado pela campanha nacional para o direito ao aborto legal, seguro e gratuito será discutido no Congresso Nacional em pleno 8 de março. Cecília Palmeiro, do movimento Ni Uma Menos, aposta em uma greve “maior e mais profunda” em 2018, tanto na Argentina quanto no restante dos países latinoamericanos. Para ela, a mobilização a partir da organização de uma ampla aliança – La internacional feminista – extrapolou os limites dos grupos feministas. “A luta das mulheres nas ruas, nas casas e nas camas tem conseguido instalar na mídia o debate sobre feminismo e a agenda do aborto legal, seguro e gratuito”, acredita.

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A greve

Em diferentes idiomas, multiplicam-se nas redes sociais a chamada para um movimento grevista global. O recurso de mobilização de massas é desacreditado pela cultura capitalista e questionado mesmo pelos movimentos de base social, mas ganha forte eco entre as mulheres. A paralisação feminina não se restringe a interromper o trabalho remunerado, mas também as tarefas domésticas, sexuais, de cuidados e outras funções que a sociedade patriarcal costuma classificar como “femininas”.

“O trabalho das mulheres não é só o emprego formal e assalariado. A maioria de nós, inclusive, nem tem carteira de trabalho. Somos trabalhadoras domésticas e informais. Por isso, falamos que todas as mulheres somos trabalhadoras, considerando as tarefas do lar, reprodutivas e de cuidado como trabalho não remunerado nem reconhecido”, explica Cecília Palmeiro.

O movimento convida as mulheres à rebelião e para que deixem de cumprir tarefas impostas pelo sistema. “Cada mulher tem que pensar como pode participar da greve. Nem todas podemos deixar de trabalhar o dia inteiro, mas precisamos deixar de fazer coisas que reproduzam a nossa opressão e a opressão de outras mulheres. Temos que nos conectar umas com as outras”, conclama.

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As latinoamericanas se insurgem contra o sistema capitalista e patriarcal e contra os governos conservadores. “O patriarcado foi imposto em nossa América através da colonização e do genocídio, intimamente relacionado com o racismo, o capitalismo e o estado-nação”, afirma Cecília. “Na base de todas as violências está a violência econômica e financeira. A subalternidade das mulheres no mundo tem a ver com uma divisão desigual e injusta da renda e do trabalho. O patriarcado é a condição da existência do capitalismo”, completa, citando conceito da teórica feminista italiana Silvia Federici.

No país em que a mobilização popular se impôs contra reforma previdenciária de Maurício Macri, há poucos meses, em dezembro, as mulheres parecem não temer eventual repressão policial. “Nem os milicos nem suas armas podem deter a maré espiritual e corporal que está acontecendo. O que nós sentimos e experimentamos não tem volta. Estamos em um processo de devir: deixamos de ser as vítimas da história para ser protagonistas”, afirma Cecília Palmeiro.

“O feminismo, na minha opinião, tem que ser anticapitalista para ser coerente. Não podemos acabar com as desigualdades de gênero se não terminarmos também com desigualdades de classe e raça. O patriarcado e o capitalismo alimentam-se e se intensificam, gerando uma interseção de opressões que atacam mais violentamente as pessoas que vão além da norma”, concorda a uruguaia Silvina Font.

Prazer e luta

As argentinas do Ni Una Menos decidiram em assembleia por uma programação de 24 horas de desobediência ao patriarcado a partir da meia noite do dia 8. A primeira ação, chamada de #orgasmaton, conclama as mulheres de todo o planeta ao prazer sexual. “Começamos o dia com uma onda orgásmica que percorrerá o mundo mudando a energia da Terra, porque a nossa revolução é sexual, espiritual e sensível. Nos prepararemos para um dia de luta onde colocaremos em prática o mundo em que queremos viver”, afirma Cecilia. Ao longo do dia, se repetem os “ruidazos” e, ao final, acontece a grande marcha que tem como ponto de encontro a Praça de Maio.

A marcha também é o ponto alto da mobilização das mulheres em Montevidéu, onde um acordo com a central sindical deve permitir uma greve parcial a partir das 14 horas.”Estamos convocando todas as mulheres a usarem alguma prenda violeta, a colocarem telas violetas em suas casas e suas ruas. Queremos que todo o país se pinte da cor da luta feminista”, conta Silvina Font.

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Jornalista (UPF/RS), especialista em Políticas Públicas (Udesc/SC), mãe de ninja.
Veja a coluna da Ana Claudia Araujo