O ano mal começou e já tenho material de sobra para falar sobre um dos meus temas favoritos, as divas pop, na esteira da apresentação de Rihanna no Super Bowl, dos sucessos comerciais das canções de revanche de Shakira e Miley Cyrus, do rosto de Madonna, do recorde de Beyoncé e da presença de Anitta no Grammy.

Bitch Better Have My Money

O assunto mais comentado do Twitter no último domingo (12) não poderia ter sido outro que não Rihanna, cuja mão segue firme no pulso da relevância cultural, como visto no espetáculo flutuante que comandou no intervalo do Super Bowl – a partida final da liga profissional de futebol americano.

Após longo hiato fora dos palcos, e em 13 minutos eternizados em profusão e glória na internet, a cidadã real e honorária de Barbados1 entregou uma coleção de hits (incluindo a versão acelerada com batida funkelícia que o baiano DJ Klean fez da já irresistível Rude Boy), mantendo a clareza comunicativa e economia simbólica com que anunciou sua participação ainda em 2022.  

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Rihanna anuncia participação no Super Bowl no seu Instagram, @badgalriri. Imagem: reprodução/Instagram

Tudo na apresentação que se movia em todas as direções, inclusive para cima e para baixo, a centralizava como dama de vermelho dentre um corpo de baile de branco, todos portando vestimentas de sua marca Savage X Fenty. A silhueta do look escarlate da Loewe que usou na apresentação serviu discreta e inequivocamente como sinalizador de sua segunda gravidez, posteriormente confirmada pela equipe. 

O tapa de luvas (embutidas no look Alaïa) que deu no racismo da NFL (feito explícito pelos corajosos e icônicos protestos de Colin Kaepernick, em 2020) também foi dado no machismo da liga, e é para glorificar de joelhos: brilhando que nem diamante, RiRi finalizou o espetáculo numa jaqueta puffer maxi – em honra do editor-geral da Vogue André Leon Talley, falecido em janeiro de 2022 e de quem era próxima – em literal elevação, como figurado no mais famoso poema de Maya Angelou, Still, I Rise.

Rihanna é a primeira bilionária a se apresentar no Super Bowl, e desde então enriqueceu mais. O vídeo do show no YouTube já tem quase dois milhões de visualizações. Desde domingo ela ganhou três milhões de seguidores no Instagram, e 17 de suas canções foram para o Top 40 do Spotify. Segundo o 10Play, pesquisas no Google por sua marca de cosméticos, Fenty Beauty, aumentaram 883% nas 24h após o Super Bowl – e muito antes de retocar a maquiagem no palco ,em #publi atrevida para seus produtos de beleza, Rihanna havia disponibilizado NFTs de algumas das músicas do medley da noite, oferecendo royalties de streaming como atrativo para compradores. 

A Variety informou que streams de suas músicas aumentaram em 640% depois do show. E sabe-se que todos os ativos de Bitch Better Have My Money foram comercializados já na quinta-feira (9). Foi com esse mega hit que a gênia do marketing abriu sua apresentação, deixando evidente sua posição: Ri Rica!

“As mulheres faturam”

Em 2023 as divas pop já quebraram a internet mais de uma vez. Um mês atrás, quem causou ondas de choque na indústria cultural e dominou as paradas de sucesso e o debate público foram Miley Cyrus e Shakira, com hits de revanche direcionados aos seus ex.

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À esquerda, print de Miley Cyrus no videoclipe de ‘Flowers’; à direita, de Shakira em “BRZP Music Sessions #53”. Imagens: reprodução/YouTube

BRZP Music Sessions #53, de Shakira, é dedicada ao jogador de futebol Gerard Piqué – com quem ela teve um relacionamento de mais de dez anos e dois filhos, que é mais de dez anos mais novo do que ela, e que a estava traindo com Clara Chia, sua funcionária, e moça mais de dez anos mais nova do que ele. 

A internet sedimentou como verdade a versão em que a diva colombiana descobriu o caso ao perceber que a geleia de que gostava andava sendo consumida em casa, e não por ela. Verdadeiro ou não, o causo do doce de morango virou sublime símbolo de agruras da monogamia para mulheres. 

Na ácida letra do hino pop referente ao affair, de refrão chiclete, batida e vocais perfeitos para mixagens e pistas, e rimas hilariantes, as palavras de Shaki não poupam a pivô da traição, e apontam maior desprezo para as atitudes do traidor… Mas concentram sua força, mesmo, em demarcar que lobas como ela não são para novatos, e se são feridas por eles, a experiência as deixa mais duras.

“As mulheres já não choram”, diz uma das rimas, e continua: “as mulheres faturam”. 

Poucos dias após o lançamento no YouTube, o videoclipe bateu a marca de 100 milhões de visualizações, e já está em mais de 300m. A raiva expressa pelo espanhol de fato rendeu uma grana para a she wolf latino-americana. 

Quem também faturou em janeiro com melô de revanche contra o ex famoso foi Miley Cyrus, cuja música Flowers continua quebrando recordes mundo afora. Já no final do mês a faixa era número 1 em 25 países, e essa é sua quarta semana consecutiva no topo da Billboard. Na segunda-feira (13) a artista quebrou o recorde de maior número de ouvintes mensais de uma mulher no Spotify. 

(Ainda não é sabido se Bruno Mars vai cobrar algum tipo de direito autoral pela óbvia referência que a faixa de Cyrus faz à sua canção de 2013, When I Was Your Man. Não seria ótimo se Flowers financiasse um ou mais projetos antirracistas, como o Samba Abstrato, que sistematizam as vezes e formas com que mulheres brancas se apropriam de cultura originalmente produzida por pessoas negras?).

Na versão de Miley da canção de coração partido e busca interior por horas e amores melhores, o boy em exposição é o segundo menos esteticamente privilegiado da família Hemsworth, o ator Liam, com quem aparentemente ela foi casada, quem diria? Essa informação, francamente, me foi mais surpreendente do que a velhíssima história de um homem traindo uma mulher. E as deduções e análises semióticas espraiadas pelas redes sociais e mídias de fofoca (com aporte dos significantes e significados do videoclipe) garantem que o irmão mais feio do Thor traiu Hannah Montana com diversas mulheres. 

A internet também revela que o paletó em que ela dança no videoclipe assim que eclode o refrão foi o que Liam vestiu na festa de casamento deles. Aqui o simbolismo, como o da geleia de morango, transcende a própria veracidade para tornar-se emblemático de algo maior. 

Ao cantar animada e debochadamente vestindo as roupas do ex, Miley mostra um jeito de espantar com graça os maus sentimentos decorrentes de ser mal-amada por gente mentirosa. Talvez seja isso o que a está fazendo embalar o mundo todo. Quando diz “I can love me better than you can” (eu posso me amar melhor do que você pode), ela entra na longa lista de divas que cantam para nos lembrar do valor do amor-próprio, para aquém e além das migalhas ou ilusões de amor reservadas às mulheres no patriarcado. 

Mal-amadas

Não são somente as divas que transformam a expressão artística sobre dores de amores em sucessos longevos de público e crítica, como a obra de Shakespeare e de duplas sertanejas brasileiras podem demonstrar. Tampouco é de hoje que canções sobre finais de relacionamentos em que homens são expostos pelas mentiras que contam viram hit nas paradas de sucesso. 

Mas é uma tradição das divas isso de lançar música animada sobre força e superação para corações partidos. Não digo música de dor de cotovelo. Digo música de quem se recompõe depois de um fim doloroso, de quem teve coragem de mandar boy lixo embora, mesmo amando. Música de quem escolheu se amar ao invés de continuar sendo mal-amada. 

Não é incomum que muitos clássicos do cancioneiro das divas pop nos energizem já nos primeiros acordes – ou o pianinho que abre I will survive, sucesso de Gloria Gaynor desde 1978, nunca encorajou a querida leitora a um polimento real e imediato da própria autoestima? 

E mais do que canções para uso terapêutico em fins de relacionamentos, é tradição das divas, desde antes do pop, produzir linguagens que promovem o autoamor, o autorrespeito e a autoconfiança na própria expressão, capacidade de avaliar a realidade, e de bancar decisões.

É fácil verificar a proposição que faço: há nos catálogos de Madonna, Beyoncé, Cher e Rihanna, e não só: TLC, Nina Simone, Ariana Grande, Lady Gaga, Sza, Peaches, Lizzo, RuPaul, Dua Lipa, Doja Cat, Gaby Amarantos e Anitta, por exemplo, uma miríade de canções em que a tônica da mensagem também é “eu posso me amar melhor do que você pode”. 

Segundo a página Vökuró, a entidade e diva das artes Björk notou em entrevistas que músicas em que mulheres falam sobre a vida ou as ciências têm pouco alcance, mas chamam atenção quando são sobre desgosto amoroso. “Os homens podem fazer ficção científica, peças de época, pastelão e humorísticos, serem nerds da música a se perderem esculpindo paisagens sonoras, mas não as mulheres; nós só chamamos atenção se cortamos o peito e sangramos por homens”, ela teria dito em relação à diferença de recepção entre seus álbuns Biophilia, sobre galáxias e átomos, e Vulnicura, sobre desamor. 

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Björk no festival Big Day Out em Melbourne, Austrália. 2008. Imagem: Wikipédia

Existe algo bem específico a ser inferido pelo sucesso de músicas em que mulheres expressam frustrações com o desamor: o quão misógina nossa cultura é. Que tantas mulheres se identifiquem com tantas canções cuja temática é o autocuidado como forma de recuperação de relações encerradas após maus-tratos é indício do alcance dos efeitos exaustivos, exclusionários e violentos da misoginia sobre nós.

A misoginia é o oposto do amor às mulheres. A misoginia é o ódio, desprezo, desvalorização, desrespeito e desamor às mulheres como paradigma. A misoginia é o contexto que explica o quão mal-amadas2 as mulheres, de fato, podem ser. 

As divas da música, como todas as mulheres no mundo, são recipientes de misoginia. Por serem celebridades, a batalha que empreendem contra a misoginia acontece perante os olhos do público. E penso que são estrelas por saberem rebater misoginia com amor-próprio e por outras mulheres.

O rosto de Madonna

Teve presença de Anitta na premiação principal do Grammy de 2023, mais um feito impressionante da garota do Rio. Ela não levou o prêmio de “Artista Revelação”, que foi para o talento, beleza, elegância e simpatia de Samara Joy. Ainda assim, a malandra acumula conquistas, e no ano anterior esteve no topo do Spotify; entrou para o Guinness Book of Records; se apresentou no VMA, Grammy Latino, e no AMA (com a lendária Missy Elliott); levou o Brasil pro Coachella; colaborou com Miley Cyrus; quando esteve no Met Gala, pôs Leo DiCaprio a encorajar o Brasil a fazer o título em tempo para votar nas eleições; virou estátua de cera no Madame Tussauds de NY; levou o funk pro desfile da marca de Rihanna… Como dizem os jovens: Anitta dá o nome, e entrega tudo. É uma das maiores estrelas do Brasil, como Madonna em 2019 já sabia

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Francis Specker/CBS/Getty Images. Imagem: CNN

“As estrelas são importantes porque representam aspectos da vida que são importantes para nós; e os artistas se tornam estrelas quando o que eles representam importa para um número suficiente de pessoas.”3 Trago para cá essa citação de Richard Dyer, de seu livro Heavenly Bodies (1986), pois essa leitura essencial ajuda a organizar os pensamentos sobre as relações entre a realidade do público e a representação de celebridades ficou ainda mais pertinente na era da cultura influencer

Para Chris Rojek4, como para Dyer, o significado corrente de celebridade (que, para ele, tampouco é apenas um; seus discernimentos sobre as características do termo, como entre glamour e notoriedade, por exemplo, são precisos) – não deixa de estar vinculado a projeções divinas, que de feitas em corpos celestiais ou imagéticos, passam a recair sobre corpos reais no nosso tempo-espaço midiático. Rojek também vincula celebridades a públicos e à natureza inconstante e temporária do mercado de sentimentos humanos. 

As divas são artistas importantes o suficiente para serem estrelas, categoria mais difícil de alçar do que a de celebridade, e ao contrário dos deuses (mas a exemplo de muitos de seus representantes na Terra, e das celebridades), lucram com as oferendas que fazemos em seus altares, seja comprando suas músicas ou outros produtos que disponibilizam.

Eu, por exemplo, dediquei meu livro “Patriarcado Gênero Feminismo” (Editora Zouk, 2022) para a Madonna, porque foi ela quem me ensinou a ser mais forte do que a misoginia. Madonna não me conhece, e certamente não me ensinou isso diretamente. Mas venho consumindo sua arte desde que tenho lembranças, e é fato que quanto mais velhas ficamos, mais ela tem me mostrado como consumir o que produz, e como lutar contra o patriarcado. 

Respondeu aos que a julgaram durante sua aparição na premiação dos Grammy com a grandeza costumeira, constrangendo quem tentou a envergonhar, na cola celebrando outras mulheres e pessoas LGBTI+. Em curto texto na sua conta no Instagram, Madonna repreendeu os que, ao invés de ouvirem o que ela tinha para dizer sobre artistas como Sam Smith e Kim Petras, cuja categoria ela escolheu anunciar na premiação (em que se apresentaram, e que venceram!) justamente para celebrar a coragem e historicidade do momento, optaram por falar de forma detrimental sobre sua aparência. Compartilho um trecho abaixo (versão brasileira Herbert Richers – mentira, é minha):

“Mais uma vez, sou pega pelo olhar penetrante do etarismo e da misoginia que permeia o mundo em que vivemos. Um mundo que se recusa a celebrar mulheres com mais de 45 anos e sente a necessidade de puni-las se continuarem obstinadas, trabalhando duro e se aventurando. Nunca me desculpei por nenhuma das escolhas criativas que fiz, nem pela minha aparência ou por como me visto, e não vou começar. Fui degradada pela mídia desde o início da minha carreira, mas entendo que tudo isso é um teste e estou feliz em ser pioneira para que todas as mulheres que vêm depois de mim possam ter uma vida mais fácil nos próximos anos. Nas palavras de Beyoncé: “Você não vai quebrar minha alma”. Estou ansiosa por muitos anos de comportamento subversivo – ultrapassando limites – enfrentando o patriarcado – e, acima de tudo, aproveitando minha vida.” 

Madonna é uma grande narradora do ridículo patriarcal, e constantemente inverte o sinal revelando o script machista com que tentam desvalorizar sua existência. Seu deboche indômito reflete de forma muito positiva para dentro das mentes e corações de mulheres, cuja mera experiência de existência e expressão é alvo de misoginia. 

Há no trabalho das divas uma ampla gramática – e, em sua existência real, uma pedagogia – de autoapreciação para mulheres e pessoas LGBTI+. Existir e prosperar apesar da normatividade cis hetero e supremacista branca do patriarcado não é pouca coisa. “Bow down bitches! 💃🏼🎤💄🎼👠”. Foi assim, citando Beyoncé pela segunda vez, que encerrou a legenda do reels em que existe feliz e forte, ostentando a ferveção, inclusão e diversidade com que leva sua vida, dessa vez nos bastidores da cerimônia dos Grammy em 2023. Lembrando que:

Beyoncé é a maioral no Grammy

Beyoncé é agora a maior detentora de prêmios Grammy, dentre outras coisas em que é a melhor campeã do mundo mundial. E Madonna, que veio antes dela, na nota que fez para expor o olhar do patriarcado, usou suas palavras – duas vezes! – para inverter o sinal da misoginia. 

O “bitch“de “bow down, bitches” (em tradução literal: “curvem-se, cadelas”), com que Madge assinou sua elevada nota em resposta à baixaria machista ao redor da imagem de seu rosto, vem sendo sistematicamente usado por Bey, Nicky Minaj e Rihanna para se referirem a homens cis brancos – como fica evidente no videoclipe Bitch Better Have My Money, da @badgalriri:

Print de tela do minuto 5:22 de Mads Mikkelsen no videoclipe BBHMM, Rihanna, 2015. Misandria e alegria! Imagem: reprodução/YouTube

Beyoncé ganhou quatro prêmios no Grammy 2023, totalizando 32 gramofones, e se tornando a pessoa com mais estatuetas da premiação. Quando venceu o troféu, agradeceu à família, Deus, e também à comunidade queer pela invenção do gênero musical a que Renaissance, álbum de 2022 pelo qual foi indicada em nove categorias, presta patente e esplendoroso tributo. 

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Beyoncé no Grammy 2023. Foto: REUTERS/Mario Anzuoni

Uma dessas categorias era “Álbum do Ano”, para a qual Beyoncé já foi indicada quatro vezes. Em 2023, Renaissance perdeu para o açucarado Harry’s House, do divertido Harry Styles. Em 2010, I Am… Sasha Fierce perdeu para Fearless, de Taylor Swift. Em 2015, Beyoncé perdeu para Morning Phase, aquele álbum do Beck que você jamais escutou. E em 2017, quando previa-se que Lemonade ganharia, foi 25, de Adele, que prevaleceu. “Não posso aceitar este prêmio”, disse a inglesa no palco, e continuou: “A artista da minha vida é Beyoncé, e o álbum Lemonade foi tão monumental e bem pensado e bonito e revelador. Todos nós conseguimos ver um outro lado seu que você nem sempre nos deixa ver. Nós apreciamos isso. Todos nós, artistas aqui, adoramos você. Você é a nossa luz.” 

Adele aceitou o prêmio, mas seu enquadramento – que foi reiterado em 2023 no palco por Lizzo, que também concorreu com Beyoncé, e foi quem levou os louros de “Gravação do Ano” por About Damn Time – é certeiro. E é o oposto da misoginia. 

Há muito amor por Beyoncé, que ocupa um reino próprio, e que fez tantas contribuições para a cultura feminista e antirracista que não vou ousar sequer começar a listar neste já bem longo texto. Há muito amor pelas divas, e muita reverência entre elas; a admiração que demonstram umas pelas outras talvez seja onde vemos, em maior profusão, mulheres se saudando e referenciando com gosto. 

As divas mudam o mundo com linguagem, e o mundo paga bem para as ver e ouvir fazendo isso. Foram vendidos, em 48h, mais de um milhão dos caríssimos ingressos para a próxima turnê global de Beyoncé, que já conta com mais de 16 arenas lotadas – nenhuma ainda no Brasil, infelizmente. Em 21 de janeiro, depois de cinco anos sem fazer apresentações, ela fez um show espetaculoso e exclusivo para convidados da inauguração do Atlantis the Royal, hotel em Dubai, pelo qual estima-se que recebeu US$24 milhões. Bow down, petrodollar bitches. 

São as divas feministas?

Beyoncé é uma diva, gênia da contemporaneidade, multiartista megatalentosa, profissional competente, bem-sucedida nos negócios, iconoclasta, linda e muito, muito rica. Ela é, também, feminista. Ela mesma definiu isso, quando estampou os palcos de sua quarta turnê mundial com a palavra FEMINIST antes da abertura de seus shows em 2013 e 2014. 

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Apresentação de Beyoncé no VMA de 2014. Imagem: reprodução/Blogueiras Negras

Foi glorioso, e o jogo mudou para a palavra “feminismo” quando Beyoncé tomou a decisão artística de trazer o termo para o coração da cultura pop. Eu fui, eu tava, eu lembro do espanto e do furor que isso causou. E não foi somente no palco que Bey estampou a palavra; para a canção ***Flawless, de 2013, ela sampleou trecho de uma fala no TED em que a feminista nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie explica o conceito. (Curiosamente, “bow down, bitches” também aparece nessa canção, em que fica evidente, pela última cena do videoclipe, que pela primeira vez confirmou minha suspeita de que o “bitch” delas é mesmo direcionado a homens cis brancos. Assista aqui.)

Para mim, feminista e fã de divas pop, o anúncio de Beyoncé consolidou a certeza de que divas muito ajudam no combate ao patriarcado. E ainda assim soube que não seria desejável criar obrigatoriedade ou expectativas, sobre ela ou outras divas, de que sejam as mais importantes figuras na produção de teoria e práxis feministas. 

Divas pop não existem no vácuo, e historicamente tendem a replicar e/ou subverter os discursos correntes da contemporaneidade em que estão produzindo seu conteúdo — ação que, para elas, nunca não esteve imbricada no giro da fortuna. Todas as divas, até antes do pop, produzem sua arte e entretenimento (e vou deixar esse discernimento pra outra hora) visando lucro. 

É ingênuo e contraproducente engendrar análises críticas que interrompem a possibilidade de observar a contribuição das divas nos discursos sobre ser mulher e outros textos sobre feminilidades, enquadrando sua produção como feminismo liberal5 no capitalismo, invalidando seu trabalho porque o imperativo das vendas é a mola propulsora ao redor da qual se organiza.  

Não deveria surpreender ou ofender ninguém que o afã de produção de Madonna, Beyoncé e Shakira não seja o mesmo que o de Judith Butler, Angela Davis ou Rita Segato. O trabalho das divas pop não é “fazer” feminismo – e não porque não sejam competentes para isso, mas porque o que fazem é arte para vender. 

Elas podem ser, e geralmente são feministas, e isso é ótimo. Mas não é uma grande revelação que sejam profissionais do entretenimento. O alívio e regozijo que letras, melodias e visuais que as divas colocam no mundo melhoram muita coisa, e lubrificam o acesso que temos à diversão, fúria, expurgo, catarse, prazer sonoro e visual, alegria no corpo e esperança por ser e ter mais ou melhor vida. Para estudar, entender e trabalhar com feminismo, não faltam mulheres cuja prioridade não é entreter a audiência. 

A noção de que o capital circula na injustiça para as mãos dos ricos pela exploração dos pobres vai, necessariamente, encontrar as milionárias do pop. Reconhecer isso – e estar preparadas para essa conversa – não deve nos impedir de reconhecer, também, que ainda há muito mais capital e poder concentrados nas mãos de homens cis brancos. Da lista dos bilionários do mundo, Rihanna está na posição 2058. Os dez primeiros? Veja você:

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Print da lista em tempo real dos bilionários do mundo, Forbes, em 17/02/23, 10:22. Imagem: reprodução/Forbes

Você pode até dizer que onde há bilionários, há desigualdade, e não vou poder discordar – mas precisaria averiguar métricas (justas, e em comparação a homens cis brancos) antes de iniciar qualquer crítica feminista à acumulação capital quando mulheres e pessoas não-brancas e LGBTI+ são as beneficiárias. 

As divas são proficientes no jogo do capital, e usam essa habilidade para benefício próprio, mas não só: historicamente, muito do trabalho delas serve também, e muito, para subverter fundamentos e paradigmas patriarcais. 

Não só de sofrimento amoroso é feita sua arte, e as mensagens que desenvolvem existem para muito aquém e além das capturadas neste texto. As produções das divas nos fornecem ampla gramática com que superar os muitos desamores reservados para as mulheres pela misoginia do patriarcado. O deboche da feminilidade de Josephine Baker, Mercedes Sosa ter sido porta-voz dos silenciados, o Lalá exigido por Karol Conká, o elogio de Lady Gaga à feiúra e esquisitice, e a audácia política de Gal Costa são algumas das muitas facetas de coragem que as divas tornam possíveis, incorporando canções de redenção e resistência perante o olhar penetrante da misogina e dos bitch.

Poderia continuar escrevendo sobre divas pela vida – e talvez faça mesmo isso. Mas inspirada por trocas com minha amiga Izabel Belloc (especialmente a respeito da adesão do Brasil ao Compromisso de Santiago, sobre a qual ela publicou texto aqui no Catarinas), na próxima vez voltarei para escrever sobre feministas bem menos visibilizadas do que as divas. E farei isso para demonstrar que não é preciso escolher entre admirar mais ou menos um ou outro grupo de mulheres.  

A insistência patriarcal nas histórias de rivalidade feminina alimentam a misoginia nas próprias mulheres. Podemos acomodar contradições, e devemos, pois sem isso fica difícil estabelecer qualquer possibilidade de consenso, importante até na crítica feminista. Mas como Madonna reforçou na nota pós-Grammy, e Rihanna no show do Super Bowl, muito contribuem para a antimisoginia e o antirracismo a capacidade de admirarmos os feitos de mulheres, pessoas LGBTI+ e não-brancas, sobretudo no patriarcado cisheteronormativo supremacista branco onde nos encontramos todes.

Gostou da série Divas e Feminismo de Joanna Burigo para o Catarinas? Conta pra gente no nosso Instagram: @portalcatarinas.

***

1 –  Rihanna foi homenageada em novembro de 2021 em sua terra natal, Barbados, durante a posse presidencial. O País removeu a rainha Elizabeth II (1926-2022) como chefe de estado e elegeu a primeira presidente na sequência. Na ocasião, a primeira-ministra Mia Mottley disse: “Em nome de uma nação agradecida, mas de um povo ainda mais orgulhoso, apresentamos a vocês a designada para herói nacional de Barbados, embaixadora Robyn Rihanna Fenty”. Com informações da CNN

2 –  É importante lembrar que não é culpa de uma pessoa ser mal-amada. Os xingamentos “mal-amada” e “mal-comida”, direcionados a mulheres no afã de nos desestabilizar, não são para nós; o puro emprego da lógica dita que estes termos se referem a quem “ama mal” ou “come mal”. O texto do link, da Luíse Hotzel (que então assinava como Luíse Bello) e publicado no Geledés, faz bem esse discernimento. 

3 –  DYER, Richard. Heavenly Bodies. Routledge, 2004, pp 17, citação traduzida por mim.

4 –  ROJEK, Chris. Celebrity. Reaktion Books, 2001.

5 –  Um debate de que quero desviar com transparência e cautela nesta série é sobre “feminismo liberal”. Por ora, é suficiente dizer que tendo a achar o conceito de “libfem” difícil de compreender, pois o entendimento de “liberalismo” não é claro em muitos debates online. Meu enquadramento e operação preferenciais para criticar mulheres (sobretudo sujeitas universais), é quando trabalham pela manutenção dos próprios privilégios pela via de garantir os do “sujeito universal”.

Joanna Burigo

Joanna Burigo é natural de Criciúma, SC e autora de "Patriarcado Gênero Feminismo" (Editora Zouk, 2022). Formada pela PUC-RS em Comunicação Social, obteve seu MSc em Gênero Mídia e Cultura pela London School of Economics. É professora no MBA em Diversidade da Universidade La Salle, e colunista e membra do Conselho Editorial do Portal Catarinas.

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