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Anitta levou diversos aspectos da cultura brasileira ao palco de um dos maiores festivais da música pop do mundo, o Coachella, na sexta, 15 de abril. Foto: divulgação.

Coluna da Joanna Burigo

Pílulas do discernimento: Vai, malandra, pro Coachella

Postado em 18/04/2022, 15:28

Em Pílulas do Discernimento, Joanna Burigo, mestra em Gênero Mídia e Cultura (LSE), conselheira editorial do Portal Catarinas e coordenadora Emancipa Mulher, traz pequenas notas informativas e analíticas sobre temas do cotidiano social e político que estão em debate nos fóruns das redes sociais.

Vai, malandra!

Tem gente dizendo que a Anitta não levou cultura brasileira para o Coachella. Levou o que, então? Picolé? Material de construção?

A bicha fez um baile funk nos EUA com Snoop Dog e DJ Marlboro no palco, e colocou a Cavalli a vesti-la de shortinho e cropped verde e amarelos para a ocasião, ainda por cima, para poder dizer no Twitter que as cores da bandeira do Brasil são do Brasil e não do sequestro nacionalista fascista que fizeram delas. Anittinha levou a cultura e, também, a política brasileira pro festival hipster, camarada.

“Ah, mas eu não acho que o que a Anitta faz representa a cultura brasileira.”

Tá bem. Faz você aí um sucesso mundial, então, e vai parar num dos maiores festivais dos nossos tempos, e entrega você um show que representa seu enquadramento do que é cultura brasileira, fera.

A Anitta é genial. Grande leitora e autora da contemporaneidade, é uma contumaz mobilizadora de signos, e vem colocando suas raízes no coração do pop global enquanto seduz o planeta com franqueza.

Para algumas pessoas é difícil demais respeitar a inteligência, estratégia e sucesso de mulheres que pavimentam suas próprias estradas. Eu acho fácil. E amo.

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A cantora Anitta durante sua apresentação no Coachella, na sexta, 15. Foto: Sacha Lecca/Rolling Stone.

Sexo e homens cis

Não me interessa debater, discutir ou, sequer, conversar sobre sexualidade com homens cis que têm desejo por mulheres mas não se colocam na linha de frente das lutas pela nossa igualdade de direitos sexuais e reprodutivos.

Para desumanizar e objetificar e regular e zombar dos nossos corpos e desejos eles não hesitam.

Já para reconhecer que nossa consciência em primeira pessoa, complexidade, tesão e integridade são tão importantes para nós quanto as deles são para eles, a boa vontade não é tão notória.

É evidência de subjetividade patriarcal falar sobre mulheres e sexo sem levar em consideração as violências, humilhações e risco de mortalidade a que mulheres estamos expostas quando se trata de sexo.

Sexo é uma delícia, e é óbvio que mulheres gostam de sexo. Mulheres são gente! (Aliás, a discussão “quem gosta mais de sexo, homens ou mulheres?” é inócua, tosca e desnecessária. Algumas pessoas gostam mais, outras menos, e as razões por trás do gosto de cada pessoa por cada coisa variam tanto que pautar discussões em suas amostragens aleatórias é um exercício fútil.)

Já fazer de conta que sexo não é uma seara da existência humana em sociedade, que vem servindo histórica e sistematicamente para controlar as mulheres é, francamente, ou ignorância ou performance estratégica de ignorância para que tudo continue como está.

Deboche requentado

Quem será a diva pop nacional que vai retomar e adaptar para os tempos o ancestral deboche da Carmen Miranda cantando, de preferência na TV aberta instagramável, e olhando para a câmera enquanto dá uma piscadela no trecho:

“…enquanto houver Brasil
Na hora das comidas
Eu sou do camarão ensopadinho com chuchu!”

Quem será? Atenta.

Falando em deboche requentado…

“Vamos acabar com o funk
Madame não gosta que ninguém funk
Fica dizendo que funk é vexame
Pra que discutir com madame?”

E vocês aí achando que eu não cito homem cis branco. Até atualizei o melhor deboche do João Gilberto!

WeCrashed

Eu até gostaria, mas não sei se vou ter tempo ou energia para resenhar integralmente o deboche de série que é WeCrashed (2022), seriado da Apple a respeito das pessoas por trás do empreendimento falido de co-working WeWork. Estes sujeitos ficcionalizados, mas que existem na vida real, manifestam a mais aguda subjetividade neoliberal e/ou narcísica (há semelhanças).

Mesmo assim, me senti compelida a registrar o momento em que Rebekah Paltrow Neumann, interpretada por Anne Hathaway, decide lançar sua escola e fala para o marido, Adam, representado por Jared Leto: “vou ler uns livros sobre educação e já volto”. Roteiro de ouro.

Na cena que assisti enquanto escrevia esta nota, Rebekah veste uma camiseta onde está escrito “good karma”. O roteiro é cheio de pérolas assim, pois parte do entendimento do poder que ter ou estar muito próximo de muito dinheiro confere a pessoas para perverter o sentido das coisas.

O sarro que eles tiram da Goop-ização de um certo mundo, e da auto indulgência de gente que não entende que todos nós precisamos modular nossa percepção da realidade com a própria realidade, me comove.

Sentimentos sociais

Dois sentimentos, ressentimento e recalque, especialmente em pessoas ricas e/ou que se beneficiam de aspectos inevitáveis da própria identidade, são material social que precisam muito ser explorados.

James Baldwin

Fecho a coluna com essa linda reflexão do romancista, ensaísta, dramaturgo, poeta e crítico social estadunidense James Baldwin: “Imagino que uma das razões pelas quais as pessoas se apegam ao ódio com tanta teimosia é porque sentem que, uma vez que o ódio se vá, serão forçadas a lidar com a dor.” 




Joanna Burigo trabalha com comunicação e educação feminista sobre gênero. Atuou no mercado de publicidade e marketing, e também como professora, no Brasil e no Reino Unido. Cofundadora do Guerreiras Project e Gender Hub e fundadora da Casa da Mãe Joanna, é MSc em Gênero Mídia e Cultura pela London School of Economics. É conselheira do Portal Catarinas, coordenadora da Emancipa Mulher e curadora do selo #CDMJ na Editora Zouk. Seus textos podem ser encontrados em Carta Capital, The Intercept Brasil, Geledés e outras publicações.
Veja a coluna da Joanna Burigo