Cena do filme “A flor da pele” que trata da diversidade etnorracional

A diversidade em 16 curtas produzidos por estudantes de uma escola pública

Postado em 21/08/2018, 22:54

Uma menina que engravida de seu ex-namorado se vê apaixonada por uma outra menina. Pode parecer simples de entender, mas a família e nem o futuro pai conseguem aceitar. O curta-metragem “Be (bi) you” propõe uma reflexão a partir do olhar dos produtores: crianças e adolescentes da Escola Municipal de Florianópolis Maria Tomázia Coelho. Em 16 produções audiovisuais, garotas e garotos de 9 a 16 anos abordam questões que, mesmo sendo parte do cotidiano, ainda são alvos de discriminação. A partir do eixo central “Os jovens e a diversidade”, os curtas trazem assuntos selecionados por estudantes a partir de discussões em sala de aula. Entre eles estão a valorização da estética negra, visibilidade lésbica, consumo responsável, produção sustentável do lixo e crítica à discriminação de gênero.

O evento de lançamento ocorre na próxima quinta-feira (23) na escola localizada no bairro Santinho. Às 19h, a atividade é voltada para professores. Às 20h é aberta ao público com a exibição dos curtas, produzidos pelos alunos, e do documentário “Os Jovens e a Diversidade: qual o papel da escola?”, desenvolvido pelos professores.

“Para algumas famílias foi um pouco chocante os estudantes sentirem vontade de tratar de alguns assuntos. A escola tem casos de gravidez na adolescência e de meninas lésbicas. Como podemos dar um olhar para isso? Ou a gente finge que não acontece e as crianças continuam sofrendo preconceito? As reflexões vão servir de base para os adultos lidarem com essas questões de maneira mais sensata, de forma a não agredir as pessoas. Já tivemos casos de cartazes arrancados por mães e as próprias crianças colocaram de volta. É um enfrentamento diário, que não se encerra agora com os vídeos. Uma causa que a gente deve levantar sempre e procurar o jeito mais respeitoso de lidar com as pessoas”, afirma a professora Ednéia Dias.

Ao longo do ano, dezesseis equipes de alunos passaram a planejar e produzir cada filme, desde a concepção dos argumentos até a edição final, resultando em intenso aprendizado. Com pouca intervenção dos professores, os filmes têm a cara dos adolescentes, que além de produzirem também são os protagonistas na tela. Sem nenhuma forma de financiamento, professores e alunos usaram ferramentas próprias e emprestadas.

O Núcleo de Cinema MTC “Maria Tomázia Coelho” com sua proposta de alfabetização audiovisual surgiu há cinco anos. O objetivo é propor aos alunos a aprendizagem de novos conhecimentos por meio da produção de conteúdos audiovisuais. Nos dois primeiros anos os curtas abordaram questões da regionalidade do bairro, formado em grande parte por famílias de pescadores. Consumo responsável e diversidade foram tratados nos anos seguintes.

Transformação na comunidade
A professora conta que os anos de atividade têm sido desafiadores em relação ao conflito que se estabeleceu inicialmente com a comunidade. O adolescentes, no entanto, contribuem para vencer a resistência dos familiares. “Aos poucos, os próprios alunos foram levando pra casa esse novo olhar que respeitar a diversidade não é transformar alguém em A ou B, mas é saber que existe diferença e que você precisa respeitar. A educação só tem função se for transformadora. Tratar desses assuntos mesmo com aceitação da comunidade ou não, é inclusive mostrar ‘olha, existe uma nova forma de fazer, que tal experimentar?’. Esse experimentar que a gente foi levando para a comunidade. Agora a comunidade já está aceitando e enxergando com um novo olhar a partir dos olhos dos alunos”.

Ednéia acredita que os argumentos em defesa da diversidade têm superado os protestos de uma comunidade fundada em valores tradicionais. “Preconceito é não saber direito, ciência do que se trata. Quando você começa a ter ciência, pensa ‘opa, não era bem do jeito que pensava’ e abre possibilidade a um novo pensar”.

Diversidade é matriz
A professora contesta o Escola Sem Partido, movimento que diz defender a pluralidade, mas que na prática se opõe fundamentalmente ao ensino voltado à igualdade de gênero. “Os professores se posicionam, não estão em cima do muro. Nós somos ferramentas de transformação, temos que nos posicionar em defesa do tratamento respeitoso às pessoas independente de suas orientações e escolhas. Em tempos sombrios, realmente são muito sombrios, nós temos que pelo menos fazer a diferença no lugar onde trabalhamos”.

A promoção da diversidade e o combate a toda forma de discriminação estão na matriz do Plano Político Pedagógico e do Plano de Gestão, em consonância com os planos nacional e municipal de educação. O primeiro é feito em parceria entre a escola e a comunidade e traz todo o funcionamento da instituição, assim como os objetivos e metas em longo prazo. Já o Plano de Gestão é elaborado pela atual direção da escola em parceria com os professores e comunidade, e tem como objetivo principal humanizar a escola e promover o respeito à diversidade. “Esses temas estão na matriz do nosso trabalho. Não adianta a gente pensar em formar um cidadão integral sem o respeito às diversidades. Sofremos um pouco, porque no começo tivemos dificuldade de aceitação. Mas, aos poucos foram entendendo”, conta a professora.

Os temas são transversais a qualquer conteúdo abordado em sala de aula. “A gente decidiu pegar pesado no tema da diversidade. Todas as disciplinas passam por ele. Não tem como ser diferente, quando a gente quer uma sociedade melhor, plural, a busca por respeito se expande. Respeito é a palavra chave dentro desse novo olhar, da política de fazer educação”, afirma a professora.

A diversidade, além de ser tratada como uma das metas, é mencionada no capítulo primeiro do Plano Nacional de Educação. “A elaboração de um plano de educação não pode prescindir de incorporar os princípios do respeito aos direitos humanos, à sustentabilidade socioambiental, à valorização da diversidade e da inclusão, e à valorização dos profissionais que atuam na educação de milhares de pessoas todos os dias”, diz o trecho.

Entre as diretrizes do Plano Municipal de Florianópolis está a “promoção dos princípios do respeito aos direitos humanos, à diversidade e à sustentabilidade socioambiental”. Uma das estratégias para isso é a “realização de campanhas educativas nas diferentes linguagens midiáticas, abordando a diversidade etnorracial e o combate a qualquer tipo de discriminação”.

Além de Ednéia, também atuaram no projeto os professores Eloísio Lopes Felipe, Juliana Evangelista da Silveira e Mariana Dorigatti Woritóvicz, com a coordenação do professor Luiz de Vasconcellos Ferreira. Os vídeos serão disponibilizados na internet após o lançamento para que o trabalho seja difundido e replicado. “É um trabalho de formiguinha, quanto mais formiguinhas melhor”, disse a professora.

“Projetos como esse despertam a criatividade, além de fortalecer o gosto pela arte”, disse o secretário de Educação de Florianópolis, Maurício Fernandes Pereira, que acredita no potencial do cinema como promotor do desempenho e da aprendizagem dos estudantes.

Sobre os filmes:

A flor da pele (3’ 25”)
Uma história sobre empoderar. Entre sprays, looks, batons e muito amor, crianças e adolescentes reforçam a beleza negra, elevando a autoestima. O filme mostra os bastidores do dia em que os estudantes participaram de rodas de conversa, relataram suas experiências e desfrutaram de uma atenção especial com profissionais da moda, maquiagem e fotografia.

A ovelha (2’ 29”)
Uma ovelha perdida é encontrada na rua por mulheres e um homem forte e destemido vem salvá-las. Seria só mais uma história comum, mas as mulheres decidem mostrar para o que vieram.

Be (bi) you (2’ 35”)
Uma menina que engravida de seu ex-namorado se vê apaixonada por uma outra menina. Pode parecer simples de entender, mas a família e nem o futuro pai conseguem aceitar.

Gordofobia (2’ 05”)
Um dia no parque Gustavo só queria brincar, mas ele é impedido. O motivo? Seu corpo.

Menina também pode (3’ 15”)
Chega um novo jogo na lan house e todas e todos querem jogar. Mas será que podem?

Minha liberdade é poder ser eu (2’ 49”)
Um casal formado por um homem e uma mulher percebe que não está contente em seu relacionamento e marcam de se encontrar para conversar. Essa conversa termina de uma forma inesperada.

O mar e as interferências humanas (2’ 54”)
É um alerta para a diversidade de ameaças provocadas pelos seres humanos nas zonas costeiras.

O mundo (3’ 39”)
O curta-metragem produzido por estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental utiliza o stop motion para abordar a diversidade cultural do mundo.

Trabalho de Artes (1’ 26”)
O filme “Trabalho de Artes”documenta o processo de produção de uma instalação artística na escola. Usando a linguagem artística os alunos buscam expressar sua indignação com a sociedade consumista que cada vez mais produz lixo sem se preocupar com as consequências ao meio ambiente.

A natureza ajudando a natureza (46”)

Apenas um dia normal… (56”)

A porta mágica (32”)

Confusão na praia (47”)

Pesca consciente (46”)

Um amor de herói (51”)

Um herói meio atrapalhado (50”)

Um dia na praia ou apenas mais um dia de aula? Utilizando elementos e situações de seu cotidiano, os alunos do sétimo ano desenvolveram filmes de animação com massa de modelar e sucata. A partir da necessidade de experimentar novas ferramentas que surgem na linguagem contemporânea, e utilizando o aplicativo Stop Motion para celular, buscam explorar novas formas de criação no espaço tridimensional.

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