“Não tenho mais fotos da infância”. 

“A cabeça não para, mesmo deitada”. 

“A mídia não deu a dimensão do problema”.

“Me sentia absolutamente sozinha”. 

“Quem cuida de quem cuida?”. 

“Apesar da tristeza, nunca perdemos a esperança”. 

As frases integram o Relatório Memórias, perdas e resistências das mulheres nas enchentes do Rio Grande do Sul, publicado pela Associação Portal Catarinas. O documento reúne relatos de lideranças feministas que participaram das Oficinas de Incidência Política para Justiça Reprodutiva e Climática, promovidas pela organização no início de agosto.

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Doze lideranças feministas do estado participaram dos encontros. Elas são de diferentes trajetórias e frentes de luta: mães, lideranças comunitárias, promotoras legais populares, defensoras de direitos humanos, mulheres de axé, trabalhadoras do sexo, comunicadoras, além de integrantes de coletivos, redes e organizações sociais.

O desastre climático no Rio Grande do Sul em 2024 atingiu mais de 2,3 milhões de pessoas, conforme dados da Defesa Civil. As oficinas promovidas pelo Catarinas revelaram que, diante da ausência do Estado, foram as mulheres que garantiram a sobrevivência coletiva e a manutenção da dignidade nas comunidades atingidas.

Entre os principais aspectos relatados pelas participantes e destacados no relatório estão:

  • As perdas materiais e simbólicas, como casas, documentos, roupas, memórias afetivas;
  • A auto-organização comunitária, por meio de cozinhas coletivas, arrecadação solidária, improvisação de absorventes e calcinhas;
  • O racismo ambiental com os povos de axé e comunidades quilombolas negligenciados pelo poder público;
  • A intolerância religiosa em abrigos e práticas de catequização forçada;
  • O adoecimento mental coletivo, com casos de ansiedade, solidão e sobrecarga emocional das mulheres;
  • A vulnerabilidade reprodutiva com gestantes e puérperas, além da falta de acesso a contraceptivos.

As oficinas Incidência Política para Justiça Reprodutiva e Climática aconteceram no Espaço Força e Luz, centro da capital gaúcha, nos dias 1 e 2 de agosto, e tiveram apoio do Instituto E Se Fosse Você?. A iniciativa integra o compromisso do Catarinas com o FP2030, uma iniciativa global que busca garantir acesso universal ao planejamento familiar e aos direitos reprodutivos até 2030, e tem o apoio da FP2030, Share-Net Colômbia, Profamilia e Save the Children.

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Participantes das oficinas | Crédito: Roberta Perin/Portal Catarinas.

Corpografia revela mosaico de dores, memórias e resistências

Por meio da corpografia, metodologia feminista que reconhece o corpo como território de memória e autocuidado, as oficinas valorizaram a memória coletiva e as redes de cuidado formadas pelas próprias mulheres e comunidades durante e após o desastre climático.

Na prática, a atividade consistiu em formar quatro grupos para desenhar um corpo coletivo, sobre o qual foram inscritos símbolos e imagens que expressavam sentimentos e experiências vividas durante a enchente. A corpografia revelou um mosaico de dores, memórias e resistências inscritas nos corpos das participantes. 

O primeiro grupo expressou a sobrecarga cotidiana como um peso contínuo. As participantes denunciaram que comunidades já viviam a enchente, alertavam para o avanço da água e clamavam por atenção, mas tanto a mídia quanto o poder público só reagiram quando a tragédia atingiu a capital Porto Alegre. Nas palavras de uma participante: “Não era barro, era merda”. 

Ainda assim, as participantes destacaram como emergiu a força da auto-organização feminina: “Com pouco, fizemos muito: a cozinha coletiva, o curso de Promotoras Legais Populares. As mulheres da cidade têm a gente como referência”.

O segundo grupo destacou sentimentos de solidão e desamparo, mas também o amor como princípio ético e força coletiva: “Apesar da tristeza, nunca perdemos a esperança.” Essa experiência foi atravessada pela falta de reconhecimento das dores femininas. “Quem cuida de quem cuida?”, foi uma questão que ecoou em várias falas.

O terceiro grupo revelou de forma contundente o racismo ambiental e religioso. As mulheres denunciaram a violência contra povos de terreiro e a exclusão em meio à crise: “Quem era de religião afro não tinha direito a comida: ou rezava, ou comia.” A religiosidade negra, historicamente perseguida, voltou a ser alvo de discriminação mesmo em situação de calamidade.

O corpo coletivo foi representado como corpo adoecido: “Nós cheias de dores, faltou força para andar no meio do barro”. Gastrite, ansiedade e esgotamento físico foram narrados como marcas da experiência traumática. 

O quarto grupo concentrou-se nas violações de direitos nos abrigos e na permanência do trauma. O luto pelas memórias perdidas foi sintetizado na frase: “Não tenho mais fotos da infância, foram todas embora”. O sentimento de incerteza atravessa o futuro coletivo:

“E agora, o que vai ser de nós? Quando vai acontecer de novo?”.

A dor aparece também como gatilho recorrente: “Toda chuva que dura três dias é gatilho, bate o desespero e eu começo a beber mais”.

Ao mesmo tempo, a potência da memória foi descrita como ferramenta política: “A memória é uma dimensão importante na nossa vida: que não se esqueça para que nunca mais aconteça. Como na pandemia, não tem novo normal, é preciso resgatar a memória para seguir no agora e lidar no coletivo”.

Envio de carta política

A partir dos relatos, foi construída uma carta coletiva que cobra respostas sobre a proteção das populações mais vulneráveis e sobre as medidas para mitigar os efeitos da crise climática. O texto apresenta um conjunto de perguntas estratégicas que buscam respostas formais, públicas e imediatas sobre políticas, orçamentos, ações de prevenção, reconstrução e participação social.

As questões estão diretamente relacionadas à perspectiva de gênero, à justiça reprodutiva e climática e à reparação das perdas sofridas, abrangendo temas como saúde, moradia, combate à violência, geração de renda e saúde mental.

O documento foi entregue pessoalmente ao deputado Pepe Vargas (PT), presidente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul (ALRS), e à deputada Bruna Rodrigues (PCdoB), procuradora da mulher na ALRS, e enviada por e-mail a autoridades públicas do estado e a ministérios.

Aprimoramento do Guia da Esperança

Em fevereiro, o Catarinas lançou o Guia da Esperança: práticas para garantir justiça reprodutiva e climática, publicação que, a partir da integração entre conhecimento científico e experiência vivida, apresenta diretrizes para enfrentar as desigualdades de gênero em contextos de crise climática.

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Crédito: Roberta Perin/Portal Catarinas.

Durante as oficinas, o Catarinas apresentou o documento às lideranças, que, em conjunto, discutiram suas propostas e coordenaram a redação da carta. As participantes destacaram que, apesar do guia abordar de forma ampla os direitos das mulheres e meninas, isso dilui o foco no que seria o diferencial do documento. Por isso, defendem que o guia precisa ser mais específico no que se refere à justiça reprodutiva.

As lideranças apontaram a necessidade de o documento reforçar o foco na saúde e dos direitos sexuais e reprodutivos em situações de crise climática, contemplando, por exemplo, o acesso contínuo a contraceptivos e a garantia do aborto legal com uso do misoprostol em unidades básicas e móveis.

As participantes ressaltaram ainda a importância de delimitar as identidades políticas dos grupos sociais atendidos pelo guia, evidenciando sua dimensão interseccional. Também defenderam a definição clara da noção de violência de gênero adotada. O relatório reúne todas as propostas de aprimoramento.

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