LGBT
Em entrevista, a primeira vereadora lésbica e feminista de Florianópolis, fala sobre do que se orgulhar no Mês do Orgulho LGBTQIA+/Foto: Assessoria Carla Ayres.

Estar viva enquanto LGBTI+ no Brasil, em 2021, é um motivo de orgulho

Postado em 24/06/2021, 18:18

No Mês do Orgulho LGBTQIA+, o Portal Catarinas entrevista Carla Ayres, a primeira mulher lésbica e feminista a ocupar uma cadeira na Câmara de Vereadoras/es de Florianópolis.

Carla Ayres, mulher cis branca, 33 anos, formada em Ciências Sociais e doutora em Sociologia Política pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), foi uma das cinco candidatas mulheres que se elegeu nas últimas eleições municipais para o cargo de vereadora do município de Florianópolis, em 2020. 

Sua militância no Partido dos Trabalhadores (PT) e nos movimentos feministas e LGBTQIA+embasa a sua atuação na política partidária, mas é a sua existência e presença, enquanto mulher lésbica e feminista, em um espaço historicamente ocupado por homens cisgênero e brancos que tem demonstrado o maior potencial de transformação dos espaços políticos institucionais para espaços mais plurais. “Eu estar aqui e me posicionar como mulher lésbica e feminista faz com que os demais se movimentem”, afirma.

Neste mês do Orgulho LBGTQIA+, marcado pelo dia 28 de Junho, Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAI+ (em alusão à Revolta de Stonewall, em 1969, em Nova York), o Portal Catarinas entrevista a vereadora, que fecha agora seu quinto mês de mandato. Além de abordar as principais pautas do mês do Orgulho LGBTQIA+, ela apresenta alguns de seus projetos de lei e avalia como sua presença na Câmara, junto com outros quatro mandatos de mulheres, têm provocado mudanças na dinâmica patriarcal e machista da política.

Print de tela da entrevista realizada no dia 23 de junho de 2021.

Quais são as principais pautas do mês do Orgulho LGBTQIA+?
A gente tem colocado aqui no mandato uma reflexão: o que seria as nossas pautas de mandato no mês do orgulho? Porque quando a gente pauta a questão LGBTI+, nessas datas de visibilidade, na maioria das vezes, a gente tende a visibilizar a nossa realidade, que não é uma realidade tão bonita. Então, a gente fala sobre as tragédias, os assassinatos, as agressões, as violências, a nossa falta de empregabilidade digna, o acentuamento da pandemia, que também acelera e intensifica a vulnerabilidade, principalmente da população trans, com desemprego, temos várias mulheres trans em situação de rua em Florianópolis, por exemplo, tivemos uma agressão muito séria na semana retrasada, então a gente acaba dando visibilidade para essas questões, porque são questões ainda muito latentes da nossa militância, da nossa vivência, da resistência dos nossos corpos há muitas décadas.

Mas fizemos a reflexão sobre o que a gente entende por orgulho, porque afinal de contas é o mês do orgulho. E o que nos dá orgulho? A gente só vai falar de tragédia e não vai visibilizar as nossas pautas? Vamos ficar rebatendo aqueles e aquelas que se achincalham com os nossos corpos o tempo todo, como aqui na ALESC, por exemplo, no Congresso Nacional, e nós não vamos falar de nós? Nós não vamos dizer que é um orgulho para nós, após tantas décadas de luta, principalmente no Brasil, que nós temos cenário de Câmaras Municipais que mais elegeu pessoas LGBTI+ na história recente da democracia? Não vamos falar das mulheres e homens LGBTI+ cientistas, que produzem ciência, produzem conhecimento? 

Este é um mês para a gente fazer essa reflexão, ponderar as nossas demandas que são, sim, demandas por cidadania por direitos, por reconhecimento e o direito à existência, mas também visibilizar aquilo que nos orgulha num cenário tão cruel como este. Estar viva enquanto LGBTI+ no Brasil em 2021 é um motivo de orgulho.

No PT também, internamente, no âmbito nacional, temos feito uma reflexão nesse sentido, justamente porque 2020 foi o ano em que nós mais tivemos candidaturas LGBTI+ pelo partido, foram mais de 500 pelo Brasil todo, e nós elegemos 33 mandatos. Então, a gente tem tido um cuidado de fazer reflexões coletivas. Uma reflexão em relação às pautas é que quando mulheres se elegem para espaços de representação, espera-se que aquelas mulheres falem só de mulheres, o que, sim, é importante que a gente fale, porque se a gente não está ali, a história já mostrou, que as nossas pautas não avançam. E isso se reproduz para a população negra, para a população LGBTI+. Então, 33 mandatos são eleitos, ou mais de 100 no país todo, de vários partidos, e nós, enquanto LGBTI+s, que não somos LGBTI+ só quando reivindicamos casamento ou reivindicamos comprar casa com os nossos companheiros e companheiras, somos LGBTI+ o tempo todo na sociedade, a gente quer falar sobre tudo. A gente vai falar sobre educação, sobre saúde, sobre planejamento urbano, e isso é um desafio para o próximo período da política brasileira, de nos colocar no centro do que o Jean Wyllys chamou nesses dias, quando ele se filiou ao PT, da “grande política”. Nós queremos falar de nós, mas nós queremos falar de tudo, porque nós não somos só LGBTI+.

Você mencionou esse caso terrível do estupro coletivo que ocorreu em Florianópolis, que está sob sigilo da polícia, embora já se possa dizer que foi uma violência homofóbica. Como foi a sua atuação nesse caso? O que esse estupro diz sobre os estes tempos?
A primeira coisa que nos chama atenção, nesse caso, é o silêncio sobre ele. E não o silêncio do movimento, porque nós nos manifestamos, houve um ato público na cidade, mas o silêncio institucional, das esferas que deveriam ser responsáveis por nos proteger, por nos dar respostas sobre isso. E aí eu falo especificamente da própria polícia. Porque também nos soa muito estranho esse sigilo no caso. A gente entende não ter sido divulgada a identidade da vítima, porque isso é um direito de proteção à vítima, mas há recorrências de casos de violências às minorias, principalmente contra LGBTI+s, mulheres e pessoas negras, principalmente a juventude negra, em que os culpados são protegidos por essas instituições. E isso nos preocupa mais. Quem de fato está sendo protegido nesse caso? Afinal de contas, a vítima, esse jovem de 22 anos, ele já é uma vítima, ele já está com seu psicológico, além do seu corpo, todo destruído, com impactos que a gente não consegue mensurar. Agora, o silêncio em relação aos agressores chama muita atenção.

Outro fato também sobre isso é que nós vivemos num país punitivista. É muito comum, em outros casos de violência, um perfil muito específico de culpado ser divulgado rapidamente, né? De jovens negros, por exemplo, que já estariam mortos por essa PM, se fossem autores, porque é isso que o nosso sistema positivista acaba capturando. Então, isso nos leva a ficar elucubrando coisas sobre quem foram os agressores nesse caso. Será que são filhos da elite branca da cidade? Algum tempo atrás, há uma década, pelo menos, houve um caso de estupro contra uma jovem em Florianópolis, acobertado pela polícia também, do qual meses depois se revelou o culpado, era filho do dono de uma televisão. Que é um caso famoso aqui. Então, isso chama bastante atenção pra nós.

Naquela semana que soubemos do ocorrido, buscamos contato com o delegado que cuida do caso, ele não quis me receber, nem mesmo eu sendo vereadora. A resposta que ele deu foi que as informações sobre o caso seriam divulgadas em momento oportuno, que por enquanto ele estava cuidando disso e, no máximo, a Comissão da OAB tinha informações ou já estava em diálogo com ele. Então, ele não quis nos receber e estender o diálogo. Nós agendamos uma reunião com o Comando Geral da Polícia Militar de Santa Catarina, o primeiro comando, que cuida da região metropolitana, porque a gente também sabe que é muito recorrente casos de violências LGBTIfóbicas que não têm tanta visibilidade ou, aparentemente, não seja tão violenta ou uma tortura, como foi nesse caso, que as pessoas são agredidas e têm dificuldade de registrar B.O., e mesmo quando se registra o B.O., a gente não tem notícias do que foi feito com esse B.O., como as investigações caminharam. A gente não tem respostas. 

A gente soube do caso Jennifer, que já faz uns quatro anos, de lá para cá já tivemos três travestis assassinadas no Norte da Ilha, e a gente não sabe como estão as investigações sobre isso. Então, precisa de um acompanhamento e de uma pressão de instituição para instituição, para buscar esse tipo de informação e de resolução dos casos, até porque nós já temos quase dois anos da decisão do STF que considerou a LGBTIfobia crime. O que tem sido feito disso? Não é mais só uma motivação presumida, é um crime reconhecido já. Também, na mesma semana que aconteceu isso [estupro coletivo], nós nos reunimos com as 10 entidades da sociedade civil eleitas para composição do Conselho Municipal LGBTI+, que terá posse na próxima terça-feira (29), para também tirar algumas ações combinadas entre Conselho – que é uma uma instituição de controle social que a gente entende importante e que precisa ser fortalecida, principalmente porque a gestão Gean [Loureiro, prefeito de Florianópolis] tem, desde o seu primeiro mandato, feito um exercício de esvaziamento desses espaços. Solicitamos aqui pela Câmara a realização de uma Audiência Pública para tratar dos casos de violência LGBTIfóbica e cobrar a implementação do Plano Municipal LGBTI+. A audiência foi aprovada e deve acontecer em Agosto.

Carla em ato contra a LGBTIfobia marcado após o estupro coletivo, no dia 12 de junho de 2021/Foto: Assessoria Carla Ayres.

Então, pensando nesse lugar que é Florianópolis, conhecida como uma cidade “Gay Friendly” ou “LGBTQIA+ Friendly”, as pessoas LGBTQIA+ que vivem aqui vivenciam mesmo essa “amigabilidade” que a cidade vende?
Essa categoria “LGBTI+ Friendly”, a gente precisa contextualizar quando ela começa a ser utilizada aqui. Talvez a gente possa dar uma demarcação do auge das Paradas LGBTI+ aqui na cidade. É preciso registrar que Floripa foi a última capital do país a ter uma Parada, a primeira, se eu não me engano, foi em 2007. Mas em 2010, por aí, na sua quarta edição, houve um crescimento significativo da Parada. Quando a Parada passa a ser na Beira-Mar e o grupo que a organizava na cidade originalmente, nos seus primórdios, era vinculado ao empresariado “friendly”, isto é, às grandes baladas LGBTI+ da cidade, os Beach Clubs, a balada que fica aqui na Avenida Rio Branco, na Praia Mole, no alto da Osmar Cunha, enfim, essas baladas mais conhecidas do público LGBTI+ há um bom tempo. Esse é um setor empresarial com vínculo com outros setores do empresariado, por exemplo, com o setor hoteleiro. Então se construiu, como uma estratégia turística também, o advento da Parada. Tanto é que, quando eu cheguei em Florianópolis, eu tô aqui há 10 anos mais ou menos, eu me lembro muitíssimo de uma reportagem em um Programa de TV da mídia local, que era o seguinte: “Parada LGBTI+ na Beira-mar ocupa 80% das lotações de hotel na cidade”, “o consumo per capita de cada um incrementa tanto na renda do município neste final de semana”, era isso a manchete. Acho que isso deve ter sido em 2012 ou 2013. Então, sempre teve esse mote, nunca foi um mote do direito das pessoas que estavam indo ali ou, minimamente, a visibilidade de denúncia de alguma coisa. Então esse rótulo vem daí. E isso é um rótulo comprado, inclusive, internacionalmente. Tem concurso que disputa isso. 

Então, é uma cidade LGBTI+ Friendly? Pode ser, mas para quem? Para quais corpos? Acho que é isso que a gente tem que colocar. A gente não pode dissociar o debate da reivindicação LGBTI+ de um debate classista e de um debate racializado.

Florianópolis é construída turisticamente para corpos muito específicos, corpos majoritariamente da gay bombada da Praia Mole. Talvez a cidade seja um pouco mais amigável, até a página dois, né, até aquela gay incomodar alguém. Mas, para população LGBTI+ que vivencia a cidade num outro cotidiano, numa outra experiência, nas esquinas do Centro Velho, a realidade é outra. Aí não existe amizade, “amigabilidade”, para esses corpos. Para as travestis do Norte da Ilha tampouco, para a sapatão que constrói a Batalha das Mina na Hercílio Luz, periféricas e negras, também não tem amizade, não tem nem conversa, tem tiro porrada e bomba. Então é uma seletividade que tem um recorte, sim, racial, de classe, que a gente precisa discutir seriamente.

Uma das questões que têm se colocado com bastante frequência ultimamente quando pensamos na temática LGBTQIA+ é a questão da educação. Como você analisa as práticas de alguns grupos que visam interditar o tema e perseguir professoras e professores que tentam abordar as questões LGBTQIA+ em sala de aula?
Esse debate da educação já se arrasta na política brasileira há alguns anos, com mais ênfase desde a revisão do Plano Nacional de Educação, a partir de 2013, em que o “fantasma” da “ideologia de gênero” foi ressuscitado das catacumbas dos livros católicos dos anos 70. Aí o setor fundamentalista revive esse termo para perseguir os corpos, as práticas, os comportamentos, as vivências, principalmente, LGBTI+. Porque por mais que a gente entenda que quando se fala em gênero não estamos falando só sobre o debate LGBTI+, e que é um campo amplo de discussão que se pode delimitar a diversidade sexual e de gênero, o foco deles com essa discussão, majoritariamente, tem a ver com a pauta LGBTI+, associada ao “kit gay”, essa coisa da linguagem neutra e tudo mais.

Eu enxergo essa interdição e essa perseguição como uma busca justamente de censura e constrangimento a essas pessoas, às/aos profissionais de educação. A educação não é escolhida à toa, porque, por exemplo, não é a/o médica/o que está sendo perseguida/o por atender LGBTI+s, não é o/a assistente social que atende uma travesti em situação de rua que está sendo perseguida/o, é a educação, é um campo que forma indivíduos, que ensina uma geração, se não sobre valores diferentes mas, pelo menos, busca ensinar uma pluralidade de pensamentos, o respeito, o reconhecimento à diversidade cultural, social, étnica e tudo mais. E é ali que a gente tem um caminho para conseguir essa formação de novos valores. É por isso que a educação é tão atacada.

Tem um teórico que a gente estuda na sociologia, o Émile Durkheim, que fala que quando a gente nasce nesse mundo muitas coisas já estão dadas e o indivíduo não tem tanta autonomia para decidir todos os atravessamentos que ele vai receber. Durkheim vai falar que existem três instituições que são as principais responsáveis pela consolidação desses valores e para repassar esses valores aos indivíduos: a família, a educação e a religião. E é justamente esses pilares que estão sendo atacados. A associação dessas três coisas que esse grupo ataca: o reforço do papel da família, inclusive com a defesa da educação familiar, o ataque à educação pública democrática plural, com valores religiosos. É o cenário perfeito.

E esses ataques são uma afronta à Constituição Federal que, pelo menos em teoria, prega a liberdade, o direito de ir e vir, as liberdades civis, o Estado laico, e tudo mais. Entretanto, as instituições que devem prezar, fiscalizar, guardar essa Constituição e as leis estão sendo ocupadas por pessoas que pensam dessa forma, pelos fundamentalistas religiosos, e essas instituições, como o Congresso, o Senado, as Câmaras Municipais, o Judiciário, têm sido ocupadas não por acaso. Existe uma articulação muito grande para ocupar esses espaços.

Então, eu vejo que o nosso campo, que muitas vezes tem muitos dedos para dialogar com essas esferas, precisa sim fazer a crítica ao Estado, porém, tem que caminhar em dois caminhos: o caminho que busca transformar tudo isso e o que busca atrapalhar o avanço das pautas fundamentalistas por dentro dessas esferas. E eu acho que tem que ter um pacto tático entre o campo progressista, digamos assim, de reconhecer que é por dentro dessas esferas que os nossos direitos estão sendo colocados abaixo. E essas leis que deveriam ser resguardadas, na verdade, estão sendo modificadas com o objetivo de atacar esses direitos. Por isso, tem que ter uma aproximação. Onde a gente pode ir junto, vamos, e vamos pensar qual vai ser a estratégia traçada daqui para frente, porque a gente tá sendo rifado. E, por outro lado, obviamente, a esquerda ou o campo progressista precisa entender que precisa sair do muro nessas pautas. Precisa entender que não dá para fazer de conta que esses ataques não estão acontecendo. Não dá pra simplesmente dizer “não existe ‘kit gay'”, tem que “bom, não existe ‘kit gay’, mas é importante sim a gente discutir diversidade sexual e de gênero na escola por isso, por isso e por aquilo”. 

E com relação à sua atuação dentro da Câmara, como é que você tem conseguido pautar sobre essas questões desde que você assumiu?
Esta legislatura é bem importante para Florianópolis porque é a legislatura que mais elegeu mulheres. Embora a gente seja bastante diversas entre nós do ponto de vista político partidário e ideológico, a gente tem conseguido construir algumas pontes. Quando a gente fala sobre violência contra as mulheres e violência LGBTI+, por exemplo. Sobre isso aconteceu algo interessante. A gente tem, na Câmara, o Horário dos Partidos, que é um tempo que cada vereador/a tem para fazer uma fala aberta, antes de começar a discussão da Ordem do Dia, e a ordem das falas é por sorteio. Na segunda-feira posterior ao fato do estupro do rapaz, que eu iria usar a Tribuna para falar disso, por coincidência, pelo sorteio, eu fui a última falar. Das/os 22 vereadoras/es que falaram antes de mim, pelo menos cinco ou seis abordaram o tema. Por que eu tô falando isso? Eu estar aqui, e me colocar, me posicionar abertamente enquanto uma mulher lésbica e feminista, afirmar este meu corpo e essa minha existência aqui enquanto sujeito político faz com que os demais se movimentem. Só o meu corpo já pauta, porque eles se veem obrigados a se expor, a se posicionar, porque se eles não se posicionarem, a Carla vai subir lá e vai pautá-los, e eles vão ter que dar resposta para isso. Então, muitos deles se adiantam a essa resposta, são subjetivamente provocados a se posicionar e, quando se posicionam, se comprometem. Então, a gente tem tentado agir dessa forma, pautar a Câmara, pautar o conjunto das/os parlamentares, observar como essas movimentações acontecem em torno daquilo que a gente pauta, para entender quais pontes podemos fazer, com quem a gente consegue dialogar.

Carla na Tribuna da Câmara Municipal de Florianópolis/Foto: Edio Helio/CMF.

Como estratégia de mandato, que é um mandato LGBTI+, eleito com a pauta feminista e da diversidade sexual e de gênero, antiproibicionista e em defesa dos direitos humanos, mas que quer abordar outras coisas também, nós definimos seis eixos de atuação: um sobre trabalho e renda; um de direitos humanos; um sobre cultura; um que a gente está chamando de Eco-Cidades, que é esse debate mais ambientalista e de planejamento urbano; um que a gente chama de justiça social, que é onde cabe educação, saúde e assistência; e o eixo mais destacado que é de mulheres, LGBTI+ e tal, que é esse da diversidade sexual e de gênero. No nosso planejamento, esses eixos viram uma mandala que se fecha, porque as coisas não existem sozinhas.

São só cinco meses efetivos de mandato. Nós apresentamos alguns projetos importantes nesse período, por exemplo, da questão LGBTI+ a gente apresentou um projeto sobre empregabilidade trans, buscando que das empresas que firmem contrato com a prefeitura, seja terceirizadas ou por meios licitatórios, essas empresas tenham pelo menos 2% das suas vagas destinadas à empregabilidade de pessoas trans. É um projeto que a gente protocolou neste mês. Ele tem parecer contrário da procuradoria, porque é isso, eles vão tentando achar todos os meandros possíveis para barrar. A gente fez mais dois projeto, além desse, um para criar o Fundo LGBTI+, porque a gente sabe que não existe política sem dinheiro, então a gente precisa que tenha um fundo que garanta a execução dessas políticas, até para tirar o Plano Municipal do papel; e um que diz que as publicidades oficiais do município devem garantir visibilidade às mulheres, ao povo negro, às LGBTI+s, às travestis, às pessoas com deficiência, reafirmando o óbvio, uma publicidade afirmativa. Não sei qual foi o parecer que deram nesse ainda. A gente também apresentou um projeto da pobreza menstrual, que já foi amplamente divulgado. A gente propõe, provoca, vê as reações…

E você tem sentido algum tipo de preconceito explícito ou mais sutil por ser uma mulher lésbica na Câmara de Vereadoras/es?
Por enquanto, a gente não recebeu ainda abertamente ataques, ameaças, insultos, provocações, tentativas deliberadas de alguma manobra assim para barrar as nossas pautas. As coisas ainda estão na esfera do regimento interno, do que tem na Lei Orgânica, buscando alternativas nesse sentido. O que tem aqui é o seguinte: insultos, não diretos, em Tribuna, ao meu partido, ao PT, ao Lula, esse tipo de coisa e tem, sim, algo que está relacionado ao fato de os corpos de mulheres incomodarem e de as cinco mulheres modificarem o cenário.

A dinâmica da política para os homens é a reprodução do machismo e do patriarcado, que aparece na agressividade da fala, na truculência da fala, no cerceamento de fala, então, no início, a gente percebe que isso acontece aqui com as mulheres. Uma tentativa de, em alguns momentos, se atravessar na fala da companheira, ou negar uma questão de ordem para uma de nós, ou então colocar uma contra outra, tipo “Ah, mas a vereadora A fez uma brilhante fundamentação, a senhora vai ler o projeto”, sabe? Coisas desse tipo. Mas não é diretamente para mim, é para as mulheres, para esse corpo estranho no Parlamento florianopolitano.

Agora nós somos seis mulheres, na verdade, porque tem mais uma suplente que é a Noemi, que assumiu o lugar de Erádio. Somos corpos estranhos para a política, por mais que a gente seja diversa entre nós, não é comum para eles. Isso a gente pautou há umas duas semanas na Comissão das Mulheres, que eu presido, a gente levou para reunião de líderes, que é presidida pelo presidente da casa, um pedido de que se ordene melhor o andamento das sessões para que a violência verbal não aconteça, e foi levado para o plenário também. Na Comissão das Mulheres tem um homem, porque uma das mulheres não quis assumir. No dia que tivemos a reunião da Comissão e tratamos sobre esse tema, na sessão da Câmara, após a reunião da Comissão, pela ordem de sorteio, ele foi o primeiro que levantou o tema, chamando a atenção dos companheiros sobre isso. Não vejo que seja uma questão dirigida a mim, nem explicitamente às minhas pautas.

A gente tem agido e se colocado no diálogo. Nesses dias um vereador improvável bateu na minha porta e falou: “Olha Carla, eu quero conversar com você sobre o que aconteceu da violência, como que a gente pode conversar sobre isso?” E depois ele falou “Tá, agora me explica uma coisa, o que que é o movimento feminista? Qual é a relação disso com a pauta LGBTI+?” Daí eu passei uma hora conversando com o cara, entende? Então, se ele quer saber, eu preciso que ele seja meu aliado, né? É isso, faz parte da política.

Muito potente isso que você fala, de que só a presença de vocês, mulheres, na Câmara, já tem provocado uma mudança nas dinâmicas políticas lá dentro. E pensando num balanço desses 5 meses de mandato, o que a gente pode sentir do efeito dessas mudanças na sociedade?
Eu acho isso potente também, do ponto de vista feminista e democrático, porque as regras institucionais não são feitas para que as mulheres ocupem esses espaços. Em uma das minhas suplências, um dos projetos que apresentei e foi aprovado garante licença maternidade para vereadoras, porque tanto não havia mulheres vereadoras, que não tinha, nas regras da Câmara, este direito garantido caso uma vereadora viesse a engravidar, o que é um direito fundamental. E quando a gente ocupa esse espaço, a gente passa a olhar para essas regras também, que pode parecer pouco, mas é uma responsabilidade que a gente tem que ter, se a gente conseguir olhar para essas regras da política e minimamente transformá-las, a gente abre a possibilidade para que outras mulheres almejem estar nesses espaços.

As regras já formam um bloqueio para que as mulheres pensem, inclusive, em se candidatar. Então, alterar essas regras é tão importante quanto garantir os direitos com reflexos mais gerais na população, porque é um processo, quanto mais mulheres aqui, mais possibilidade de garantia de direitos e defesa de direitos lá fora. Então, essa também é uma forma de atuação deste mandato.

Quanto ao que se pode sentir de efeito desses mandatos na sociedade, estamos em uma conjuntura em que a pandemia, infelizmente, tem dificultado muito a atuação de uma forma de fazer política muito típica da esquerda, que é de onde eu venho, que é de estar nos espaços, estar na rua, estar junto da população, fazer visitas, construir uma relação mais afetuosa na construção da pauta, fazer uma plenária, chamar a companheirada para conversar, é assim que a esquerda, os movimentos, que é de onde eu venho, que eu não venho só do PT, eu me formo nos movimentos feministas e LGBTI+s também e na própria academia, a gente tá impossibilitado um pouco de fazer isso, então, eu espero muitíssimo que essa vacina chegue logo para as pessoas para que no segundo ano a gente consiga colocar esses mandatos mais próximos da população, porque às vezes essa proximidade também faz com que as pessoas sintam mais a nossa ação. Porque esse espaço aqui é um espaço que afasta, não é todo mundo que se sente pertencente aqui, não é todo mundo que acessa YouTube da Câmara para acompanhar a sessão plenária da Carla, para saber o que que eu defendi e o que que eu deixei de defender. Por mais que sejam importantíssimas as redes sociais, elas são limitadas.

Agora, do ponto de vista concreto, por exemplo, de leis, de políticas, é muito difícil a gente conseguir efetivar de fato muitas coisas estando na oposição de um governo truculento como é o de Gean Loureiro, que não tem um compromisso efetivo com bem-estar social, com pautas de direitos humanos, que tem uma mensagem explícita aqui dentro da Câmara de que tudo que vier da oposição será barrado, então é difícil. Por isso, é importante essa relação constante com as pessoas.

Vítima estupro coletivo em Florianópolis
Projeção no centro de Florianópolis para visibilizar a causa LGBTQIA+. A ação é feita diariamente em conjunto com o mandato da vereadora Carla Ayres e a Coletiva Bem Viver Floripa/Foto: Equipe Carla Ayres.

Para fechar, o que foi feito ou será feito ainda em alusão ao Mês do Orgulho LGBTQIA+?
A gente fez uma linha de ação no mandato desde 17 de Maio, Dia Internacional de Combate à Homofobia, até o dia 28 de Junho, do Orgulho. São 41 dias, período em que as nossas pautas estariam em visibilidade no mandato. Fizemos uma campanha de intervenção urbana ao longo desse período com projeções diárias no centro; um Seminário que se chamou “LGBTI+ no alvo até quando?”, que contou com a presença da presidenta Nacional da ABGLT, e também com o Coletivo LGBT do MST, fizemos uma formação sobre isso. Criamos a campanha nas nossas redes “Orgulhos de Floripa”, dando visibilidade para pessoas LGBTI+ da cidade; protocolamos esse conjunto de projetos, especificamente da pauta LGBTI+; fizemos reunião com o Conselho LGBTI+ que, na próxima terça-feira (29), terá a posse e estaremos presentes.

Nesta sexta-feira (25), às 15h, teremos uma reunião ampliada da Comissão dos Direitos das Mulheres para tratar de duas leis específicas: uma é minha, do Dossiê da Mulher Florianopolitana, que é mais ou menos o Observatório de Gênero do município. A outra lei semelhante é do [ex-vereador] Tiago Silva, que fala da Transparência dos dados de violência LGBTI+. A reunião será transmitida pelas redes da TV Câmara. No dia 28, ocorre o lançamento do Comitê Nacional LGBTI+ em defesa do projeto de lei Paulo Gustavo, que visa destinar recursos para o incentivo cultural, para artistas, com recorte LGBTI+, indígena, negritude, e tudo mais. Eu vou participar da mesa de abertura desse Comitê, e logo depois vai ter uma live sobre o tema, que eu vou participar, com a vereadora de Curitiba Carol Dártora.

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