Candidata diz que programa é o único que chama atenção para a situação da violência obstétrica

Caroline Bellaguarda: não nos aliamos a burgueses nem com fascistas

Postado em 03/10/2018, 19:36

O Portal Catarinas fez uma chamada às candidaturas feministas de Santa Catarina, voltadas especificamente às candidatas mulheres cis e trans. Ampliado a proposta, enviamos questionários específicos para as três candidatas que concorrem ao cargo de vice-governadoras de Santa Catarina – Caroline Bellaguarda (PCB), Daniela Reinehr (PSL) e Regina Santos (REDE). A primeira a enviar as respostas ao questionário foi Caroline Bellaguarda (PCB), que compõe a chapa com Leonel Camasão (PSOL).

Catarinas: Quais as principais questões a superar hoje em relação à desigualdade entre homens e mulheres? E quais serão as suas contribuições na chapa para que propostas neste sentido se efetivem?
Caroline: A superação das diferenças sociais entre mulheres e homens objetivamente é superar a sociedade capitalista que existe exclusivamente da divisão social e sexual do trabalho subordinada à propriedade privada da terra, das indústrias e dos instrumentos de trabalho e que mantém o poder político e econômico através da educação quando faz a gente pensar e agir igual àquela pessoa que nos oprime e nos explora. Portanto, a questão central é a mudança nas relações de divisão do trabalho aliado à educação política e social para a construção da nova mulher e do novo homem. No cotidiano combatemos o patriarcado e o machismo educando nossas crianças e nossos companheiros e a nós mesmas de forma crítica que contribua para a superação material e moral e de toda a desigualdade e discriminação desta sociedade. O PCB por meio do Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro cumpre tarefa fundamental na transversalidade da questão.

Catarinas: Como você observa a representatividade de mulheres nas candidaturas para vice-presidente nesta disputa eleitoral, que apresenta número recorde?
Caroline: É senso comum o cargo a vice ser uma alegoria, uma coadjuvância à tarefa principal na direção executiva do estado. No entanto, a vice governança tem de estar presente propositivamente protagonizando os conselhos do poder executivo nacional e estadual e executando projetos vinculados aos interesses da classe trabalhadora. Nesse sentido, volto a afirmar que o que diferencia essencialmente não é a nossa constituição biológica, mas o projeto de sociedade que construímos. Esse apontamento é importante para afirmarmos nosso alinhamento com a candidatura da companheira Sônia Guajajara, líder indígena, candidata a Vice na chapa “Sem medo de mudar”, e seu compromisso com a classe trabalhadora combatendo o capitalismo e o imperialismo sem conciliar, nem aliar-se com aqueles que se beneficiam das opressões para superexplorar as mulheres, as diferentes etnias, as crianças, a população LGBT, mesmo que faça um discurso de combate às opressões, como vemos nas outras candidaturas.

Catarinas: Você acredita que o maior número de mulheres neste ano nas candidaturas para vice-governadora em comparação com o cargo de governador ainda se refere às barreiras enfrentadas pelas mulheres no âmbito político?
Caroline: Sem dúvidas precisamos vencer as barreiras do machismo e do capitalismo, as barreiras para a participação política. Nós do PCB já apresentamos chapa composta só por mulheres para as eleições de Santa Catarina em 2014. Neste pleito de 2018 a conjuntura exige a unidade da esquerda revolucionária. Compomos com o PSOL construindo conjuntamente o programa para a majoritária, fundado no poder popular, com objetivo de dar fim ao distanciamentos entre a classe trabalhadora e os poderes executivo e legislativo. Há outras duas candidaturas de mulheres a vice em Santa Catarina e essencialmente o que nos diferencia é que não nos aliamos a burgueses nem com fascistas, nosso compromisso é com a classe trabalhadora para um estado de transição e não de conciliação de classes.

Catarinas: A partir de sua trajetória política, quais as principais dificuldades enfrentadas pelas mulheres para ocupar os cargos de poder?
Caroline: A dificuldade se inicia a partir da educação sexista desde a infância, que busca restringir a mulher aos espaços domésticos e a trabalhos relacionados ao cuidado da família e trabalhos domésticos, enquanto os homens são incentivado aos espaços públicos. Essa educação sexista faz com que as mulheres tenham mais dificuldade de se posicionarem nos debates ou, quando se posicionam, muitas vezes são silenciadas, ignoradas ou menosprezadas, inclusive nos espaços de militância de esquerda, embora no PCB e no PSOL o combate às opressões seja realizado interna e externamente.

Catarinas: Como pretende atuar para que políticas públicas contemplem as diferentes especificidades das mulheres, valorizando em seus projetos as mulheres negras, indígenas, lésbicas e mulheres trans?
Caroline: Nosso programa é o único que chama atenção para a situação da violência obstétrica. Combatemos este tipo de prática, assim como apresentamos um olhar atento às pessoas em situação de rua, às pessoas com deficiência, as pessoas em situação de violência e às pessoas em situação de vulnerabilidade por sua orientação sexual ou identidade de gênero, através de um programa de apoio, profissionalização e inserção no mercado de trabalho. Assim se constrói políticas públicas para a diversidade na medida em que o estado de Santa Catarina garanta para a população os direitos básicos, como saúde, educação, transporte, moradia e segurança públicos, humanizados e com qualidade, promovendo assim a melhora na qualidade de vida e conjuntamente com campanhas de combate à discriminação e doenças decorrentes de uma sociedade que envenena a população, levando em conta as especificidades dessas mulheres. Como é o caso da população trans e travesti, que tem uma expectativa de vida de cerca de 35 anos e onde 90% da população recorre à prostituição para sobreviver. Outra política que defendemos é a descriminalização do aborto, pois entendemos como uma questão de saúde pública, para evitar a morte das mulheres pobres que se submetem a procedimentos perigosos para essa prática. Defendemos ainda a educação sexual na escola como necessária para a diminuição da violência de gênero.

Catarinas: Santa Catarina é o segundo estado do País com maior número de estupro, segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, com o registro de 3.993 casos no ano passado. De acordo com o mesmo relatório, em 2017, foram registrados 48 feminicídios. Como pretende atuar para a redução da violência contra as mulheres em SC?
Caroline: Com políticas educativas desde a escola até os espaços de trabalho e convivência social, utilizando campanhas publicitárias de conscientização. Trabalharemos também pela iluminação pública, pela humanização dos trabalhadores que atendem às mulheres em situação de violência, ampliando canais e espaços de denúncia e atendimento psicológico, assim como de acolhimento, profissionalização e garantia da frequência das crianças na escola. Combateremos também por meio de ações junto à secretaria de assistência social do acolhimento das pessoas em situação de rua com transtornos que as tornam suscetíveis a cometer esse tipo de violência.

Catarinas: Como você percebe esse levante das mulheres contra o candidato à presidência deliberadamente machista?
Caroline: É um movimento importante de ampla unidade contra o fascismo, sobretudo por vir de grupos oprimidos da sociedade, que demonstram que não estão dispostos a entregar o pouco que se avançou na frágil democracia brasileira.

 




Portal de jornalismo especializado em gênero, feminismos e direitos humanos.
Veja a coluna da Portal Catarinas