O filme Manas, de Marianna Brennand, é uma obra impecável: aborda de maneira intensa as diversas histórias de violência contra meninas e mulheres. Não é sobre as meninas do Marajó apenas, é uma realidade pulverizada pelo país, infelizmente. Atualmente, cerca de 34 mil crianças entre 10 e 14 anos vivem em união conjugal no Brasil, prática proibida a menores de 18 anos, exceto adolescentes emancipados, a partir dos 16. País este que conta com o índice alarmante de um estupro a cada seis minutos. Esse texto poderia terminar aqui, pois já teríamos motivos suficientes para a indignação, mas vamos continuar.

A partir da minha experiência profissional como psicóloga, atuando há anos em diferentes territórios e em políticas públicas de atendimento às mulheres e meninas, afirmo que não há nada muito distinto entre a realidade e o que o filme nos apresenta. Resguardadas algumas particularidades da obra, como famílias dormindo em redes ou a exploração ocorrendo em balsas, os abusos, violações, segredos, vulnerabilidades, inexistência ou ineficiência das políticas públicas se assemelham muito. Os contextos podem variar: as “balsas” podem ser, por exemplo, os postos de gasolina.

Um elemento central da obra, que revela o contexto patriarcal, é a posse do corpo de meninas e mulheres por homens de suas relações íntimas. O pai demonstra repúdio ao fato das filhas se tornarem “balseiras”, ou seja, de se relacionarem com outros homens. Mas a mesma moral – que no princípio do filme pode parecer cuidado – nada mais é do que controle, o que fica explícito com o abuso das filhas ao longo da história.

Cenário de vulnerabilidades

Manas traz questões sobre vulnerabilidades, como a precariedade ou falta de acesso aos direitos sexuais e reprodutivos retratados em dois momentos: o ciclo menstrual de Marcielle, personagem principal, e as frequentes gestações da mãe. 

Neste último caso, a personagem é colocada em um “lugar”: no lugar de reprodução do cuidado, de permanência na casa e de dependência econômica do marido. Não há presença de serviços de saúde que abordem essas questões, nem educação sexual na escola (pelo contrário), e essa é uma realidade também vivida em muitos territórios vulnerabilizados.

Outro ponto é a escola como espaço protetivo. Muitas denúncias de abuso, violências intrafamiliares e negligência são percebidas nesses locais.

No filme, a escola é permeada pela religião, apesar de o estado ser laico, e as páginas dos livros que falam sobre questões sobre corpo e sexualidade estão grampeadas, inacessíveis. Como se ensinar esses temas significasse uma ameaça às crianças. Na verdade, ensiná-las é protegê-las. Até pode significar uma ameaça, mas uma ameaça ao patriarcado, à misoginia.

O filme também mostra salas de aula com crianças de diferentes séries juntas, no mesmo espaço, denunciando a precarização da educação e a dificuldade da comunidade escolar cumprir sua função educacional e protetiva. 

Um caso real que ilustra esse papel ocorreu em Minas Gerais, onde uma menina de doze anos, após registrar faltas frequentes às aulas, teve sua situação denunciada ao Conselho Tutelar. A ação desencadeou um processo que revelou um crime de estupro de vulnerável. No entanto, o tribunal absolveu o abusador, mostrando que decisões como essa não são exceção: o mesmo tribunal frequentemente desconsidera a legislação que considera estupro de vulnerável quando envolve crianças menores de quatorze anos.

A obra também evidencia a ausência do sistema de garantia de direitos, incluindo assistência social especializada, Conselhos Tutelares e o Judiciário. Não é uma falha de roteiro do filme, é a retratação de muitas realidades onde a política pública não chega, mesmo em capitais de estado. A rede formal de serviços se mostra insuficiente e, muitas vezes, quando a intervenção ocorre, ela se dá de forma atrapalhada, como retratado. 

Os equívocos mostrados – como acolher a menina em um local ao alcance do pai agressor – também podem ocorrer na realidade. Ali há uma ação equivocada, pois não basta reprimir, é preciso ter estratégia realmente protetiva para situações de risco. São necessários serviços e políticas comprometidas com o combate às violências, o que inclui não apenas uma escuta, mas uma escuta qualificada, com protocolos para romper com a violência, evitando situações em que a vítima seja forçada a retornar ao convívio com o agressor, o que pode intensificar a violência contra quem “ousou” sair do domínio.

Olhar atencioso e alertas importantes

Diante das situações de abuso narradas, merece destaque a linguagem cuidadosa da diretora que não explicita a violência de forma sexualizada ou fetichizada, e não foca no corpo das meninas e mulheres ali representadas. Ela mostra as violências como elas realmente são: violações, que muitas vezes ocorrem no espaço doméstico, privado, e cometidas por pessoas próximas das vítimas. 

O filme traz ainda importantes alertas para situações que levantam suspeita de abuso, como quando a personagem Marcielle passa a apresentar alterações de comportamento: perda de apetite, incontinência urinária diante do agressor, o abandono das brincadeiras após a “caça”, além da perda do sorriso e da concentração. A obra traz elementos que demonstram a complexidade das realidades das Marcielles no Brasil.

Os silêncios também são perturbadores. Eles aparecem no que é dito e, sobretudo, no que não é dito. Surgem quando o pai afirma que não quer filha balseira ou quando a mãe interpreta o relacionamento da filha mais velha como “sorte”. Ambos, por motivos distintos, silenciam sobre a possibilidade de exploração sexual na balsa.

O irmão que, em silêncio, protege a irmã mais nova, envolvendo-a em um abraço quando o pai se lança violentamente para castigar Marcielle.

O silêncio da violência que não é nomeada, que não tem nomenclatura ou registro para as personagens, mas que está ali. 

O silêncio da rede que poderia e deveria proteger: escola, saúde, assistência social. 

Uma questão grita: como organizar a raiva e a tristeza diante da tragédia percebida?

Ainda que de forma sutil, o filme tem momentos de cuidado em forma de estratégias discretas, as quais se assemelham àquelas encontradas em redes de cuidado feministas:

  • Marcielle divide seu cotidiano com a amiga, em uma relação de parceria. Foi na casa dessa amiga que ela foi acolhida, inclusive pela mãe dela, que encara o agressor da adolescente, numa disposição de cuidado e proteção. 
  • A mãe de Marcielle, entendendo a balsa como a possibilidade de fuga do espaço doméstico onde a violência é constante. Ela parece nutrir esperança das filhas terem uma vida diferente da sua. Então, prepara o açaí, os camarões para que a filha possa vendê-los na balsa e, assim, conhecer um companheiro, ter a mesma “sorte” da irmã mais velha. Como se essa fosse a única estratégia possível para a interrupção da violência transgeracional.
  • A dona do mercadinho de ervas que divide o seu conhecimento sobre as plantas da floresta que podem ser usadas como abortivo em caso de gravidez indesejada, uma forma ancestral de acesso aos direitos sexuais e reprodutivos.
  • A trabalhadora do Instituto de Identificação, interpretada por Dira Paes, que na verdade é uma policial, mostra-se atenta às violências no corpo da menina. Ela percebe que o pai pode ser o autor da marca inicialmente atribuída a uma queda. Essa atenção possibilita uma ação posterior, quando reencontra Marcielle na balsa.

O que o filme nos mostra é que as estratégias de cuidado e as redes de apoio partem, sobretudo, das mulheres. É a partir da mobilização das mulheres que alguma mudança se torna possível. 

Organizar a raiva 

O genitor/marido exerce um papel de dominador. A palavra “dominador” tem origem no latim e significa “aquele que governa” o domus. E domus significa casa. Há uma mensagem importante no filme: a casa não pode ser um lugar de exceção – entendendo “exceção” aqui como períodos e lugares em que governos autoritários retiram os direitos dos cidadãos. Existem leis que regem inclusive as famílias, os lares, os domus, espaços que têm se mostrado os mais perigosos às mulheres e meninas. No filme, a história termina de maneira trágica.

Vivemos em um país extremamente violento e mesmo possuindo uma das leis mais modernas de combate às violências de gênero, a Lei Maria da Penha, não tem sido o suficiente, pois ela nunca foi plenamente implementada. Falta investimento em políticas de prevenção e proteção. 

Seguimos sofrendo inúmeras formas de violência em um momento crítico , marcado por altos índices de feminicídio no Brasil, sendo 2025 o mais letal para as mulheres até então.

Que esse filme nos provoque, mas não nos paralise. Que seja movimento e que organize a raiva. Que essa obra continue sendo divulgada, pois o simples ato de lidar com o tema já significa movimento, é uma nomeação, um desacomodar de silêncios e, talvez, um modo de impedir a repetição. 

O silêncio nunca nos protegeu. Precisamos de organização, conhecimento sobre nossos direitos e mobilização para exigir que o Estado cumpra seu papel na prevenção de violações e na construção de uma cultura não misógina. Enquanto isso, vamos repetir até que um dia não seja mais necessário: criança não é mãe, mulheres e meninas têm o direito de viver sem violência. 

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  • Maíra Freitas Barbosa, é Psicóloga, Especialista em Saúde Pública/Sanitarista, Integrante do Projeto de Extensão Clínica...

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1 comentário

SIMONE MAINIERI PAULON em 07 de abril de 2026

Maíra traz um forte e necessário entendimento de uma realidade duríssima, tao bem retratada no filme, mas tao negligenciada pelo Estado. importante demais botar os pingos nos is como o Catarinas faz e este artigo reforça!

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