Poucas violências são tão naturalizadas no Brasil quanto o abuso sexual cometido por homens da própria família. Pais, tios, avôs que, amparados pelo machismo, enxergam nas meninas a mais valia da sua performance patriarcal. Para eles, esses corpos são propriedades por direito natural. O filme Manas, da diretora Marianna Brennand, expõe essa realidade no coração do Marajó (PA): uma região de águas e natureza exuberantes, mas também de precariedade, silêncio e violências comuns a tantas de nós.

A protagonista de 13 anos vive sob a coação do pai, cuja violência cresce disfarçada de afeto, num mundo em que carinho e atenção são luxo. Enfrenta também o silêncio cúmplice da mãe, ela própria vítima na infância, que encontrou no novo abusador uma forma de sobrevivência: o teto, o chão, a comida. Ao passo que essa mãe produz novas vítimas para ele, num ciclo que parece não ter fim. 

Manas mostra como a vulnerabilidade imposta a corpos racializados e atravessados pelo empobrecimento amplia o campo de poder do violador e torna ainda mais difícil a proteção das vítimas.

Cada instituição reforça esse pacto de silêncio: a igreja concede salvo-conduto à violência ao tratá-la como parte da natureza masculina; a vizinhança prefere não se envolver; escola, serviços de saúde e assistência social esbarram nos limites da institucionalidade; a polícia, já desacreditada, mesmo quando age com boa vontade, como retratada no filme, pode expor a vítima a riscos ainda maiores.

Todos sabem, até a menor das crianças da casa, que em tom de brincadeira revela o que ninguém tem coragem de dizer: Marcielle está se tornando a mulher do pai. No vazio deixado pelo Estado e pela sociedade, as personagens manas encontram proteção apenas entre si. É no laço que constroem juntas – mesmo diante da escassez – que surge a força para resistir. O pouco que têm, elas transformam em muito, porque não basta apenas sobreviver, é preciso viver sem violência.

Que o corpo pode ser moeda de troca e sobrevivência, a personagem principal aprendeu com a mãe, não nas palavras, mas nos olhares carregados de dor. Não bastasse a própria trajetória, vê também a irmã mais velha e, agora, a irmã mais nova submetidas ao bel-prazer do homem da casa, a quem todas passam a dever pelo pão que comem.

Um homem como muitos outros que tem fixação pelo prazer que só se realiza no exercício de poder, na subjugação de alguém colocado em posição de inferioridade.

A amiga da protagonista, com uma visão pragmática moldada pelo falso amadurecimento que a violência impõe, ou pelo instinto de sobrevivência, ensina: se é para ser abusada em casa, que seja na balsa, essa metáfora da rua apresentada pelo filme, onde existe a promessa de alguma autonomia. Um aprendizado cruel, que se sobrepõe sobre a ausência de escolhas livres do abuso. 

O pai ocupa o lugar de provedor que se revela como predador sexual. Naquela casa, a mãe e as crianças trabalham duro, talvez muito mais do que ele jamais trabalhou. É no lugar de quem tem autoridade da violência, que o patriarca encontra o álibi para tomar como deleite os corpos que crescem diante dele. 

Os corpos estão em risco, e com eles também as partes que deveriam ser intocáveis. Ao compreender isso, as manas encontram a coragem para enfrentar o medo. É nesse instante que devolvem ao caçador a sua própria arma, e com ela encerram o domínio que as aprisionava.

Ainda que as limitações impostas pela vida na Ilha do Marajó transformem a exploração sexual em condição de sobrevivência, o problema não se restringe a esse território. Em menor escala, o pacto de silêncio ultrapassa fronteiras e se espalha por todo o país, das regiões mais remotas às mais populosas, das periferias às zonas ricas, das famílias empobrecidas às abastadas. O abuso está lá, democraticamente lá, sem distinguir endereço ou conta bancária.

Basta abrir o tema entre crianças e adolescentes nas escolas, ou simplesmente conversar com amigas em uma roda de confiança, para que os relatos surjam. Histórias que revelam o que se repete dentro das famílias: algo histórico, reincidente, que muitos tentam abafar, esconder, deixar para trás, mas que insiste em permanecer.

É justamente por isso que setores da extrema direita tentam silenciar o debate: porque falar revela o quanto somos manas em nossas dores. O tema é manipulado para alimentar o pânico moral contra iniciativas que, na verdade, fortalecem as vítimas e as encorajam a denunciar. Na sala de aula, são justamente as conversas sobre violência e sexualidade que permitem identificar abusos e buscar caminhos de proteção.

Esse mesmo grupo, que de um lado concede lugar de sacralidade à família, sob o mandato do silêncio, do outro aciona a palavra pedofilia como mobilizador da política psicossocial do medo, tratando-a como algo extraordinário, como se não estivesse entranhada no cotidiano de nossas vidas. Ao deslocar o pedófilo para fora da família, desvia-se a atenção do que está profundamente enraizado, uma estratégia de autoproteção que perpetua o ciclo de segredos e cumplicidade. 

O longa escancara que sustentar um discurso de “pacificação” em nome do bem das famílias, para que nada se desestruture, mesmo à custa do silenciamento das vítimas, só serve para proteger os abusadores. 

Esses mesmos setores políticos, que instrumentalizam o abuso infantil, mostram-se permissivos, e até ferozes defensores, do resultado mais cruel do estupro de crianças: a gravidez infantil. São parte da mesma lógica do abuso infantil: subjugar, prolongar, transformar a violência em destino.

Manas não deixa essa questão à margem. Expõe como todo o ônus da violência sexual recai sobre as meninas, que acabam recorrendo ao aborto clandestino e arriscando a própria vida com chás ou outros métodos nocivos, quando deveriam ter garantido o direito a um procedimento seguro, conforme prevê a lei. 

Ao estuprador, o bônus de não enfrentar nenhuma consequência: pode renovar o status de pai sobre o corpo da filha, ou reformulá-lo como “avô-pai”, transcendendo o rol dessa violência, sempre com novos corpos à disposição.

Você que lê este texto sabe, nós sabemos, o quanto, em doses menores ou maiores, carregamos as marcas da violência sexual na infância ou adolescência. Sempre sob o manto do segredo, com cúmplices que enterram crimes no medo, na necessidade de sobrevivência ou em tradições religiosas. 

Afinal, o abuso infantil segue sendo sustentado como se fosse herança familiar ou mandamento de fé.

É preciso romper, como fez a personagem em um desfecho extremo, num gesto de simbologia revigorante. 

Manas reivindica que nenhum corpo deve estar à mercê do capricho de homem algum. Ainda mais quando esse corpo está em desenvolvimento, sem discernimento para consentir, ainda mais quando esse homem é o próprio pai.

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  • Paula Guimarães

    Jornalista e co-fundadora do Portal Catarinas. Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, pós-graduada...

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