Alerta de conteúdo sensível: esta reportagem contém descrições de ameaças de estupro e morte, misoginia, lesbofobia e violência contra mulheres. Prossiga a leitura com cautela. 

Mais de dois anos depois de começar a receber ameaças de estupro e morte pelas redes sociais, a professora de História Janaine Rambow, criadora da página Arquivos Feministas, soube que o inquérito que investigava o caso foi arquivado sem identificar os responsáveis.

“A Justiça de Santa Catarina falhou comigo”, afirmou a professora ao tornar público o encerramento da investigação.

Os ataques começaram em janeiro de 2024. Inicialmente, as mensagens chegaram à conta do Arquivos Feministas no Instagram, que reúne mais de 219 mil seguidores. Depois, os agressores passaram a enviar ameaças também ao perfil pessoal e ao e-mail de Janaine.

As mensagens incluíam ameaças de estupro e morte, fotos de armas, insultos misóginos e lesbofóbicos, referências à localização da professora e descrições de como ela poderia ser assassinada. Algumas ameaçavam matá-la fazendo referência ao assassinato da vereadora Marielle Franco.

O Catarinas revelou o caso em dezembro de 2025, quando Janaine ainda aguardava respostas sobre a investigação. O pedido de arquivamento foi feito ainda em agosto daquele ano pela Delegacia de Repressão ao Racismo e a Delitos de Intolerância, de São José, e posteriormente determinado pelo Ministério Público.

Agora, Janaine cobra respostas sobre quem a ameaçou, por que a investigação não conseguiu chegar aos responsáveis e quais medidas serão adotadas para impedir novos ataques.

“Um Estado não é seguro quando as mulheres não são ouvidas e quando elas não são protegidas”, afirmou.

Janaine encontrou suspeitos em fóruns anônimos

Durante a sessão ordinária de 11 de agosto na Câmara de Vereadores em Florianópolis (SC), Carolline Sardá (Psol) denunciou o caso de Janaine. Conforme ela narrou, Janaine decidiu buscar por conta própria informações que pudessem levar aos responsáveis pelas ameaças. A partir de nomes e endereços de e-mail, a professora chegou a fóruns anônimos, chans e espaços no Discord onde teria localizado alguns de seus agressores.

Nesses ambientes circulavam imagens de armas, conteúdos neonazistas, ameaças de violência, misoginia, racismo e referências a ataques em escolas, incluindo o massacre de Suzano, ocorrido em uma escola em 2019. Para Carolline, o elemento torna o caso de Janaine ainda mais preocupante diante das ameaças de morte dirigidas à professora.

“Jana é uma professora que nós sabemos que sofre muitos ataques, inclusive com um plano de ameaça à sua vida, e nós basicamente estamos falhando com ela enquanto Estado, enquanto Justiça, porque esses jovens, eles utilizam essas plataformas para planejar ataques”, destacou.

Ataques começaram em 2024

Janaine nunca respondeu às mensagens enviadas pelos agressores. Quando percebeu que os ataques continuariam, começou a reunir provas e procurou ajuda das instituições. Em vídeo publicado nas redes sociais após saber do arquivamento, ela questionou a resposta das instituições depois de ter seguido os procedimentos indicados às vítimas de violência: “O que eu fui procurar foi justiça. Eu segui a cartilha, eu fiz o que mandam a gente fazer.”

Atacada por grupo incel, Janaine Rambow aguarda por resposta da Justiça há quase dois anos
Prints reunidos pela professora Janaine Rambow das mensagens que recebeu de grupo incel.

A primeira tentativa foi na Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso, em São José, na Grande Florianópolis. Segundo relatou ao Catarinas em 2025, os agentes não quiseram analisar os prints que ela havia levado. Um boletim de ocorrência por ameaça foi registrado e ela chegou a ser questionada se realmente queria levar o caso adiante.

Dias depois, orientada por uma amiga, Janaine procurou a Diretoria Estadual de Investigações Criminais (Deic), no mesmo município, onde prestou depoimento. Também buscou a Defensoria Pública e entregou o material que havia reunido. O caso chegou ao Ministério Público e retornou à Deic para investigação.

Ameaças tinham conteúdo incel, misógino, lesbofóbico e neonazista

Os perfis que atacavam Janaine se identificavam como integrantes de um grupo incel e reproduziam discursos associados ao masculinismo e ao neonazismo.

Atacada por grupo incel, Janaine Rambow aguarda por resposta da Justiça há quase dois anos
As mensagens recebidas incluem intimidação, apologia à violência, referência ao assassinato de Marielle Franco, além de menções à localização da vítima e a afirmação de impunidade.

Na entrevista ao Catarinas, a professora contou ter identificado nas mensagens uma linguagem recorrente em grupos masculinistas, que tratavam mulheres feministas como pessoas que deveriam ser eliminadas.

Depois dos ataques, os perfis desapareciam. Na reportagem publicada em 2025, a prática foi descrita como parte de um modo de operação em que contas são criadas para atacar e posteriormente apagadas, dificultando a identificação dos responsáveis.

Polícia chegou a duas pessoas, mas investigação foi arquivada

Ao longo da investigação, a polícia chegou a duas pessoas que teriam alguma ligação com endereços de IP ou perfis relacionados às ameaças recebidas por Janaine.

As duas foram ouvidas, negaram participação nos ataques e disseram não conhecer a professora.

Diante da ausência de provas consideradas suficientes para atribuir a elas a autoria das ameaças, a investigação foi encerrada.

Ao Catarinas, Janaine conta que só descobriu o arquivamento este ano, quando procurou a Defensoria Pública para saber por que não recebia novas informações sobre a investigação. Até então, o próprio órgão ainda não tinha acesso aos autos. A defensora Anne Teive Auras (Nudem – SC) solicitou o acesso e, após a liberação, elas puderam consultar o processo completo. 

Para a professora, o desfecho evidencia uma dupla falha do Estado: além de não identificar quem a ameaçou, também falhou na comunicação com a vítima. 

Caso expõe dificuldades para enfrentar misoginia na internet

Quando o Catarinas publicou a primeira reportagem sobre o caso, em dezembro de 2025, especialistas já alertavam para as limitações dos instrumentos disponíveis para enfrentar a violência de gênero no ambiente digital.

A Lei Federal 13.642/2018 atribuiu à Polícia Federal a investigação de crimes praticados por meio da internet que propaguem conteúdo misógino. Apesar disso, não existe no Brasil uma tipificação penal específica que abarque a misoginia. Condutas podem ser enquadradas em crimes como ameaça, perseguição, racismo, homofobia, difamação e calúnia, dependendo do caso.

Ameaças mudaram rotina de Janaine 

A violência digital produziu consequências concretas na vida da professora. Janaine passou a modificar os lugares por onde circulava e a maneira como observava as pessoas ao redor. 

Também adaptou sua presença nas redes sociais: reduziu publicações, passou a evitar mostrar o rosto e adotou novas precauções de segurança.

O fato de algumas mensagens indicarem conhecimento sobre sua localização aumentou a sensação de risco. Para ela, a ausência de responsabilização também pode transmitir aos agressores a mensagem de que ataques desse tipo podem continuar sem consequências.

A reportagem tentou solicitar, por telefone, um posicionamento da Delegacia de Repressão ao Racismo e a Delitos de Intolerância e do Ministério Público, sem sucesso até a publicação. Caso posicionamentos sejam enviados, serão adicionados à reportagem.

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